Como a IA muda o seu trabalho?
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Ilustração de Isabela Durão

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Repertório

Quando vale investir em IA no trabalho

Ferramentas prometem eficiência e menos tarefas mecânicas, mas nem todo uso melhora a rotina profissional; às vezes, só amplia cobrança, ansiedade e frustração

Ana Elisa Faria 26 de Abril de 2026

Quando vale investir em IA no trabalho

Ana Elisa Faria 26 de Abril de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Ferramentas prometem eficiência e menos tarefas mecânicas, mas nem todo uso melhora a rotina profissional; às vezes, só amplia cobrança, ansiedade e frustração

A inteligência artificial já faz parte do expediente de muitos trabalhadores. Ela é usada para rascunhar e-mails, na busca por ideias para uma apresentação, para anotar os pontos-chave de uma reunião, na revisão de um texto, na organização de tarefas repetitivas. Da mesma forma, a IA se espalhou também como uma exigência curricular vaga, um aprendizado que muita gente sente que precisa dominar sem saber exatamente por quê, para quê.

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Os profissionais, além de vivenciarem uma sucessão acelerada de lançamentos de ferramentas e demonstrações de uso cada vez mais impressionantes, presenciam a tecnologia alterando critérios de desempenho, expectativas de produtividade e perspectivas de carreira, sobretudo para quem passa o dia diante de uma tela.

Daí nasce a ansiedade em torno do tema. Em muitos ambientes, cresce a sensação de urgência de que é preciso aprender a lidar com prompts, agentes e automações o quanto antes para não perder espaço na equipe ou até mesmo na empresa.

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No cerne dessa questão, as perguntas mais importantes a fazer são menos tecnológicas e mais práticas. Saber usar plataformas como ChatGPT, Claude, Gemini, Midjourney ou Perplexity, testar comandos ou assinar o programa do momento fazem parte da equação. O ponto principal, no entanto, é entender em que ações a IA de fato reduz um trabalho mecânico, amplia a capacidade de análise ou poupa tempo — e em quais casos ela é vendida como solução genérica pouco capaz de melhorar problemas laborais concretos do dia a dia.

A fim de discutir o assunto, Gama ouviu três especialistas: Izabela Anholett, fundadora da consultoria Nura AI e professora de inteligência artificial; Michelle Schneider, autora de “O Profissional do Futuro: Como se Preparar para o Mercado de Trabalho na Era da IA” (Buzz Editora, 2025) e professora convidada da Singularity University; e Roseli Figaro, professora titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho.

Quando a IA compensa

Para Izabela Anholett, faz sentido olhar seriamente para serviços que automatizam tarefas humanas complexas e repetitivas sempre que o trabalho envolve uma tela — seja um smartphone, um notebook ou um desktop — e obrigações recorrentes. “Quem trabalha na frente do computador deveria estar estudando inteligência artificial”, afirma.

Na visão da especialista, o primeiro passo é mapear o próprio cotidiano, e não sair gastando dinheiro com assinaturas de vários software ou tentando produzir algo mirabolante com eles. A recomendação de Anholett para entender como fazer isso é listar as cinco principais atividades do dia, medir quanto tempo elas consomem e, só então, buscar recursos que reduzam o peso do que é manual.

Quem trabalha na frente do computador deveria estar estudando inteligência artificial

É na leitura e no rascunho de mensagens, no apoio para apresentações, na organização de informações e no brainstorming diante de uma página em branco que ela vê ganhos concretos. O investimento vale, conforme conta, quando devolve horas à semana, simplifica etapas e melhora a rotina sem exigir uma reinvenção artificial do trabalho.

Michelle Schneider enxerga esse movimento de forma ainda mais abrangente. “Quando falamos de trabalhos intelectuais, não há ninguém que não precise se preocupar, se capacitar e olhar com atenção e seriedade para o que está por vir”, observa. Por outro lado, em ocupações muito manuais, o impacto imediato da IA é menor, já que os avanços atuais dizem respeito sobretudo à geração de textos, imagens e códigos. Para ofícios como o de pedreiros, costureiras, artesãos, encanadores e eletricistas, a onda mais decisiva tende a ser a da robótica, que ainda engatinha.

Ela também chama a atenção para uma mudança de patamar: muita gente usa os chatbots como se estivesse perguntando para o Google, porém essa utilização, pontua a autora e professora, já não basta para produzir transformações relevantes.

O que tem começado a alterar profundamente o trabalho é a chamada IA agêntica, capaz de executar tarefas de forma mais autônoma. Além de responder perguntas, ela navega, preenche, integra e realiza etapas inteiras de um processo. Trata-se de uma nova geração, localizada num degrau acima da IA generativa.

De acordo com Schneider, o profissional que quiser investir nisso de forma inteligente deve sair da lógica passiva da consulta e experimentar pequenas criações e integrações ligadas à sua própria área. Em vez de buscar um curso genérico para “aprender IA”, a sugestão é usar a própria tecnologia para desenhar um plano de desenvolvimento compatível com a profissão, o tempo disponível e o tipo de tarefa em jogo.

Pressão real, modismo também

A cobrança para aprender a lidar com a IA já aparece no cotidiano de muitas empresas. Izabela Anholett diz ouvir de empresários o receio de “ficar para trás” e nota que algumas companhias começaram a incluir o tema em avaliações de desempenho e em critérios para promoções e bônus.

Ainda assim, ela percebe que muita gente se aproxima dessas ferramentas atraída pelo que circula nas redes sociais e se frustra ao descobrir que seu uso consistente exige teste, erro, estudo e alguma persistência.

O cenário se embaralha mais porque, segundo Michelle Schneider, o avanço da tecnologia é veloz, a cobertura da mídia oscila entre o fascínio e o alarmismo, os discursos das big techs se contradizem e os próprios estudos sobre o futuro do trabalho ainda não convergem. “A pergunta certa não é essa”, analisa, ao comentar a insistência que muitos têm em especular quais ofícios vão existir ou não daqui a cinco anos. Mais útil, para ela, é entender como cada ocupação tende a mudar.

O risco de investir mal

Se existe um erro recorrente nesse processo, ele está na pressa. Izabela Anholett compartilha que vê profissionais tentando começar pelo mais complexo, assinando inúmeras ferramentas ao mesmo tempo ou buscando reproduzir algum uso chamativo só porque viralizou. O resultado costuma ser perda de tempo, gasto desnecessário e frustração. “A pessoa vai se frustrar se tentar ir direto ao nível avançado sem ter testado o básico.”

Anholett também adverte sobre a diferença entre gastar e investir. O tempo empregado para automatizar uma tarefa vale a pena se gerar um retorno recorrente depois. Quando a experiência não elimina nenhuma etapa da rotina, vira só mais uma camada de trabalho. Nesse ponto, o critério é simples: a tecnologia precisa resolver alguma coisa real.

A professora Roseli Figaro leva a crítica para outro plano e amplia a questão. Para ela, não basta medir se a tecnologia acelera uma tarefa individualmente. É preciso perguntar a serviço de que lógica essa aceleração opera. A pesquisadora da ECA-USP comenta que o próprio nome “IA” ajuda a obscurecer o que está em jogo: “Uma técnica treinada com grandes volumes de dados organizados por gerenciamento algoritimizado com a finalidade de simular a inteligência e o trabalho humanos”.

A IA não tem vontade, não pensa, não é autora, não tem ética. Essa tecnologia vem sendo usada inclusive para demitir e substituir os trabalhadores

E esse método, continua Figaro, está submetido aos interesses dos proprietários dessas infraestruturas. “É uma técnica que tem dono”, enfatiza. “A IA não tem vontade, não pensa, não é autora, não tem ética. Quem explora o trabalho e não dá condições para os trabalhadores não pode ter ética. Essa tecnologia vem sendo usada inclusive para demitir e substituir os trabalhadores dessas próprias empresas.”

Na leitura da docente, o uso recorrente da IA pode significar desespecialização, desvalorização do trabalho humano, aumento de ritmo e ampliação de controle, sem contrapartida visível na qualidade do produto final. Usar esses sistemas, afirma, não seria neutro nem separado dos interesses econômicos que os sustentam. Figaro também insiste em um ponto pouco difundido nos discursos sobre produtividade: “Os trabalhadores não estão, em geral, ganhando mais descanso, mais lazer ou melhores condições com isso”.

O que continua sendo humano

Mesmo entre as entrevistadas mais entusiasmadas com a adoção da tecnologia no dia a dia profissional, a ideia de delegação total de tarefas para uma inteligência artificial aparece como uma questão. Izabela Anholett cita que pensamento crítico, capacidade de formular um problema e relacionamento interpessoal seguem centrais.

Para ela, usar uma ferramenta tecnológica como colega para dividir raciocínios é diferente de entregar a ela o ato de pensar. “É por isso que vemos pessoas que não sabem mais pensar sozinhas, não sabem mais criar um raciocínio sozinhas. Acabam virando refém da IA em vez de usá-la para ajudar”, frisa.

A escritora do livro “O Profissional do Futuro: Como se Preparar para o Mercado de Trabalho na Era da IA”, Michelle Schneider, organiza essa preparação em quatro pilares: mente inovadora, letramento tecnológico, inteligência emocional e saúde mental. Curiosidade, aprendizado contínuo, criatividade, empatia, escuta ativa, autoconhecimento, resiliência e flexibilidade entram, na visão dela, como base para atravessar um cenário de aceleração das tecnologias e competição mais intensas.

Figaro, por sua vez, alerta para o “deslumbramento técnico” como primeiro passo para perder a capacidade de entender o que está acontecendo hoje. A advertência é, em especial para as áreas de comunicação, em que, segundo ela, a datificação + transforma o trabalhador não só em usuário dessas plataformas, mas também em alimentador permanente dos sistemas que, mais tarde, são vendidos como produtos e ainda passam a reorganizar sua atividade. “De jornalistas nós estamos passando a ser treinadores de máquina”, diz.

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