Trecho de livro

Elogio à Saudade

Em livro sobre luto, educador Fernando José de Almeida reavalia como a morte da filha demoliu e reestruturou suas visões sobre a vida

Leonardo Neiva 12 de Junho de 2026

“O que me salvou foram meus amigos. Um casal nos telefonava toda noite e cantava para a gente dormir”, relembrou o educador e filósofo Fernando José de Almeida durante debate n’A Feira do Livro. A mesa, no domingo (7) que encerrou a edição mais recente do evento, foi marcada pela emoção da plateia e do próprio entrevistado ao falar de seu livro “Elogio à Saudade” (Seja Breve, 2026). Nele, Almeida escreve sobre a morte da filha, o processo pessoal e familiar de luto, e seu realinhamento com a vida.

Neste livro curto — ou ensaio longo —, o autor, que chegou a ser por sete anos secretário municipal de Educação em São Paulo, narra como a morte de Lorena, pesquisadora e documentarista que se suicidou em 2023, aos 43, “rebobinou as entranhas da sua história”. Próximo dos 80 anos de idade, o professor se viu subitamente abalado em suas mais profundas convicções sobre a vida, a morte, a fé e a religiosidade. “O sentimento de luto toma conta sem pedir licença. Não se sabe o que ele traz, como se instala, como se serve de seu poder devastador, como é silencioso ou contagioso”, descreve em certo ponto do livro.

Aos relatos sobre os dias, semanas e meses que se seguiram à morte da filha, Almeida intercala reflexões sensíveis a respeito dos efeitos de uma tragédia e das ausências que chegam na sequência. Relembra também os detalhes da vida familiar, o nascimento de Lorena e como ter convivido com a filha, cuja vida tocou milhares de outras pessoas pelo mundo, marcou sua existência. Assim como no trecho que abre este texto, o autor faz questão de pontuar a cada curva a importância da presença constante dos familiares e conhecidos, que, além da cantoria ao telefone, também ofereceram não só um ombro amigo, mas todo o corpo na tentativa de ajudá-los a seguir em frente.

“As amigas da Lorena, logo na semana da grande perda, me instaram a não me entregar: eu precisava andar, fazer exercício”, conta em um trecho da obra com fortes ares de agradecimento. “Hoje, um ano e meio depois, ainda ando com elas e outros amigos no parque perto de casa, ao menos três dias por semana.”


O demônio está nos detalhes. A perda de um filho redesenha, reinstala nosso hard disk, rebobina as entranhas da nossa história. Imiscui-se nos detalhes. A perda da Lorena ressignificou cada lembrança, as de sua mãe, de seus filhos e de sua irmã. Só para ficar no novelo doméstico. Tudo que se passou em 43 anos acontecia de novo num filme acelerado, projetado numa sala onde estavam presentes até meus pais e minha irmã, que viveram momentos intensíssimos com ela. Imaginava uma plateia lotada, as pessoas se lembrando, se emocionando, rindo e sobretudo implorando para que o filme não tivesse o desfecho que teve. Acorrentados à teia da tragédia, tínhamos que assistir o filme até o fim.

O que vai acontecer numa tragédia pode estar anunciado antes de ela se instaurar. Esta é a sua violência. Jocasta e Laio sabiam de tudo, foram avisados. Levaram a sério, tão a sério, que enviaram Édipo à morte. Mas não conseguiram poupar o filho (nem a si mesmos) da tragédia. E por isso nossas lágrimas não apaziguam nossas dores nem se saciam em prantos. As tragédias não secam as lágrimas no nascedouro nem as enxugam quando vertidas.

A perda de um filho redesenha, reinstala nosso hard disk, rebobina as entranhas da nossa história

A dor fica lá, instaurada para sempre. Lateja. No meu caso, ela não se deteve em considerações sobre a finitude, mas me propiciou um novo estado de vida, uma intensa abertura para novas vivências, absolutamente finitas, novas intencionalidades. Um ser-para-além de si, mas sem transcender. Não foi a ideia de transcendência que me acometeu no mais trágico acontecimento da minha vida. Foi a simplicidade da vida, foi a imanência dela: o fato de existir mesmo sem ser necessário. Nossa cor é
imanente, nosso suspiro recém-dado é imanente, comer no horário do almoço é imanente. Acontece, mas poderia não acontecer. O transcendente é o que é absolutamente necessário: na tragédia, eu perdi o senso e a valorização da transcendência. Foi então que a percepção de cada respiração, de cada gole de água, de cada passo ou de uma árvore se fizeram para mim transcendentais. E, portanto, necessários e únicos e eternos e completamente luminosos.

Não foi a ideia de transcendência que me acometeu no mais trágico acontecimento da minha vida. Foi a simplicidade da vida

A dor-sofrimento tem como manifestação concreta a diminuição da capacidade de agir. O domínio da dor, longa, pontuda, contínua, nos imobiliza gradualmente como uma esclerose. Os horizontes se fecham às intencionalidades de busca de objetivos. Não brilha em nós nenhuma dimensão de utopia. Não quero nada que me transcenda. Nada que vi além do quarto em que durmo ou do próximo copo d’água.

A dor narrada em diferentes dimensões para diversas instâncias em múltiplas camadas e limiares leva a uma nova ação de alargamento de dimensões da vida. Eu penso que Lorena sabia disso. Nada de mobilização pela vida eterna, mas pela pujança relativa dos lampejos da vida, miúda, sutil como a tal gota de sereno que tomba de uma pétala de flor da canção. É isso, a gota.

A narrativa da vida parte de um novo patamar de vivências que se deixam, sim, atravessar — pelo sofrimento, pela ida ao fundo do abismo e pelo olhar para pequenos prazeres e pelas grandes virtudes das pessoas e das artes.

A narrativa da vida parte de um novo patamar de vivências que se deixam, sim, atravessar — pelo sofrimento, pela ida ao fundo do abismo e pelo olhar para pequenos prazeres

Produto

  • Elogio à Saudade
  • Fernando José de Almeida
  • Seja Breve
  • 88 páginas

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