Trecho de livro

Eu Mereço!

Em novo livro, a ensaísta argentina Paula Sibilia, que estará na Flip, analisa como a cultura do merecimento hoje empurra a sociedade ao colapso

Leonardo Neiva 16 de Julho de 2026

O que significa o merecimento no mundo atual? Seja em discursos problemáticos sobre meritocracia, que sobrevivem e prosperam num mercado de trabalho cada vez mais desigual, seja na ideia dos pequenos luxos cotidianos que nos permitimos diariamente ou mesmo na promessa publicitária de que todos merecemos o mundo, parece que o termo vem ganhando contornos cada vez mais abrangentes — e, por isso mesmo, irreais. A antropóloga e pesquisadora argentina Paula Sibilia, radicada no Rio de Janeiro, investiga justamente essa tendência contemporânea em seu livro mais recente, intitulado “Eu Mereço!: Da velha hipocrisia aos novos cinismos” (Ubu, 2026). Na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), Sibilia estará no sábado (25) no Ciclo Gama de Debates, na Casa Sete Selos, falando sobre imagem, consumo e desejo nas redes sociais com o comunicólogo Pedro Tourinho, mediados pela editora-chefe da Gama, Luara Calvi Anic.

Antes, para merecer algo, era preciso também ter feito algo, enfatiza Sibilia na introdução da obra. Mas hoje, parece que essa noção mudou de maneira radical. “O que significa agora quando um anúncio sussurra ‘você merece’ isso ou aquilo, enquanto nos convida a provar — isto é, a comprar — um sabonete, um chocolate ou um pacote turístico?”, Sibilia questiona. O problema é que, junto a esse discurso do merecimento universal, proliferam-se a frustração, discursos de ódio e transtornos ligados à ansiedade e à exaustão. Será que, no fim das contas, uma coisa não tem conexão direta com a outra?

Enquanto se expande a ideia de prazer e liberdade irrestritos, também observamos passivos mais e mais abusos protagonizados por influenciadores, chefes de Estado e multibilionários, para quem a tal quebra de restrições parece muito mais real. E, numa aparente contradição com esse futuro de merecimento generalizado, o que boa parte da população tem colhido é o sofrimento psíquico e uma grave desagregação social. Unindo análise psicanalítica, cultural e social, o livro avalia como o colapso do “solo moral” da modernidade, baseado na culpa, na repressão e no contrato social, está nos empurrando a uma era não menos opressiva, marcada pelo cinismo, a exposição e o radicalismo constante.

Confira a seguir um trecho do livro “Eu Mereço!”, de Paula Sibilia.


A frustração de tudo querer

Afinal, se tudo é possível, se podemos obter tudo o que queremos e, além disso, merecemos, é lógico nos perguntarmos: por que não querer tudo e exigi-lo como um direito? Com essa aspiração na mira, expande-se o culto ao rendimento ou à performance, que recomenda efetuar investimentos por livre iniciativa para competir e vencer em todos os âmbitos: cirurgias plásticas e academias de ginástica, cursos de capacitação e treinamentos, contatos sociais e as mais diversas atividades enriquecedoras dos currículos que se oferecem no mercado.

Entretanto, provavelmente a frustração é inevitável nesses empreendimentos. Ao não conseguir sequer aproximar-se dos altos parâmetros que se anseiam, com a consequente estigmatização de quem fica desclassificado quando seus tropeços se tornam públicos, também se incubam ressentimentos, isolamentos e violências que envenenam a coesão social. A mágoa pode permanecer abafada e latente, mas o novo solo moral é mais proclive às implosões e explosões destrutivas com foco no eu do que aos freios e às contenções visando a paz universal.

Os mal-estares que proliferam na atualidade, portanto, são sintomáticos desses desajustes intrínsecos às dinâmicas contemporâneas: não de seus desvios ou erros, mas de seus acertos. No sentido de que é assim como opera este regime: disso se nutre e isso gera. Nesse percurso, suscita formas peculiares de angústia, que se intensificam paradoxalmente numa sociedade voltada para o bem-estar, entendido como a busca de prazer individual sem os enfadonhos banimentos de antanho. E de uma felicidade advinda da autorrealização, sempre merecida, embora inatingível por definição.

É por isso que a neurose básica do cidadão normal hoje parece obsoleta, diante do imenso catálogo de transtornos de saúde mental para os quais todos os dias também se inventam novos remédios. Não se trata apenas de distúrbios mais genéricos como depressão, pânico ou ansiedade, mas também de dolências muito específicas como o TOD (transtorno opositor desafiante), uma desordem comportamental “que leva as crianças a confrontar as figuras de autoridade de forma persistente”. Os especialistas avisam que esse quadro clínico “mina a capacidade da criança de se dar bem com a família, seus colegas e outros adultos”, pois os afetados se tornam inusitadamente temperamentais, desobedientes, rancorosos ou vingativos.

Se podemos obter tudo o que queremos e, além disso, merecemos, é lógico nos perguntarmos: por que não querer tudo e exigi-lo como um direito?

As descrições de categorias diagnósticas nomeadas por siglas como essa — ou como o mais conhecido TDAH, que alude ao transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, entre outras — são sistematizadas e publicadas regularmente nas sucessivas edições do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, ou DSM. A elaboração desse compêndio está a cargo da entidade que reúne os profissionais dessa especialidade médica nos Estados Unidos, a psiquiatria, e constitui uma espécie de “bíblia” com forte influência em todo o mundo.

Sem entrar na colossal complexidade do assunto, que obviamente não se pretende esgotar aqui, cabe mencionar um dos efeitos dessa reformulação nas maneiras de entender o sofrimento psíquico: a pulverização dos diagnósticos, para além do engessamento que em tempos modernos os restringia ao binômio saúde-doença. Esses perfis costumam associar-se não só a tratamentos farmacológicos personalizados, mas também a estratégias identitárias e ativismos sociopolíticos antes impensáveis.

Contudo, o que vale salientar é que, muitas vezes, para enfrentar esses padecimentos tipicamente contemporâneos, apresentam-se soluções sedativas que terminam dilatando o problema e criando mais demandas. Porque assim opera a dinâmica do estímulo que veio substituir a repressão: os mesmos recursos que servem para propagar os mal-estares, ou outros similares, oferecem-se como remédio para saná-los e obter mais prazeres, numa lucrativa retroalimentação que auspicia condutas viciantes e ainda mais desapontamentos.

Há uma diversidade crescente de drogas lícitas ou ilícitas, medicamentos e outros produtos que são potencialmente tão tóxicos quanto o detox que prometem: pílulas para acalmar-se ou para concentrar-se, aplicativos para distrair-se ou para medir cada passo, substâncias para relaxar-se ou para animar-se, etc. Essas mercadorias, ao provocar uma imediata sensação de placidez ou euforia, podem dar início a uma viagem sem volta, cravejada de novas dependências e desilusões. Em resumo: alimenta-se o “vício” de querer muitas coisas, junto ao desalento de não poder quase nada, mesmo que se mereça tudo — e justamente por isso.

Os mesmos recursos que servem para propagar os mal-estares, ou outros similares, oferecem-se como remédio para saná-los e obter mais prazeres

No variado estoque desses dispositivos que são tão mágicos e atraentes quanto insalubres e nocivos, destacam-se os smartphones. Esses aparelhos estão aí para nos ajudar a saciar os desejos de espetacularização, entre outros anseios antes exclusivos e hoje ao alcance de qualquer um: o sonho de obter visibilidade e repercussão mobilizando a companhia aduladora de uma multidão de “amigos” ou seguidores. Mas o hábito da conexão tornou-se extenuante, apesar de se apresentar como agradável e já estar completamente assimilado às rotinas de quase todo mundo.

Ao contrário do que ocorria com as “instituições de confinamento” da era moderna, a internet desconhece todo limite de tempo e espaço. Se as paredes disciplinares instauravam fronteiras, enquadravam projeções e reprimiam excentricidades, as redes propalam uma estimulação ilimitada em todas as direções. Por isso não surpreende que muitos mal-estares atuais advenham da incapacidade de lidar com essa falta de barreiras. Se desejamos tudo é porque supostamente podemos e merecemos tudo; e, portanto, deveríamos não só querer como também poder efetivar esses impulsos. Algo que nem sempre, ou quase nunca, acontece.

Por isso, nada mais ilustrativo desse aparente paradoxo que a nossa atual compulsão pela conexão. Já no longínquo 1930, porém, Freud pensou nos avanços tecnológicos como um dos principais motivos de decepção para o homem civilizado. Esse poder inédito da humanidade para subjugar a natureza, mesmo sendo impressionante, não conseguia fazer com que os sujeitos modernos fossem mais felizes. Apenas lhes proporcionava “prazeres baratos”, conforme as suas palavras. E, além disso, criava novos problemas, até mais complexos do que os precedentes. “Não havendo estradas de ferro para vencer distâncias, o filho jamais deixaria a cidade natal, não seria necessário o telefone para ouvir-lhe a voz.” Quando a solução técnica encarna numa infinidade de apetrechos que prometem resolver tudo, essa mola se tensiona e a pressão ascende a outro nível.

Se as paredes disciplinares instauravam fronteiras, enquadravam projeções e reprimiam excentricidades, as redes propalam uma estimulação ilimitada em todas as direções

Produto

  • Eu Mereço!
  • Paula Sibilia: Da velha hipocrisia aos novos cinismos
  • Ubu
  • 150 páginas

Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos da Gama, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação