Trecho de livro

Aos Pés da Letra

Em livro, Gregório Duvivier dá continuidade à reflexão da peça “O Céu da Língua”, sobre como as palavras que usamos moldam nossa identidade

Leonardo Neiva 01 de Maio de 2026

Desde que estreou, em 2024, o ator, humorista e escritor Gregório Duvivier já se apresentou para mais de 250 mil pessoas com o monólogo “O Céu da Língua”. Dirigida por Luciana Paes, a peça rodou mais de 50 cidades brasileiras, além de outros nove países — incluindo, claro, as terras lusitanas — com um texto que mistura humor e poesia, literatura e stand-up, escrito numa colaboração de Duvivier com Paes. Baseada na paixão pela origem e os caminhos tortuosos da língua portuguesa, a obra explora a importância das palavras na criação da nossa identidade. E agora ganha mais um desdobramento: o livro “Aos Pés da Letra” (Companhia das Letras, 2026), de Duvivier.

Para quem se apaixonou pelo tema nos palcos, a leitura serve como uma continuação dessa reflexão a respeito da nossa língua materna. De forma bem-humorada, brincando sempre com as palavras e as muitas peculiaridades do português, ele mostra como os termos que usamos de forma muitas vezes displicente ganham significados e conotações surpreendentes se colocados sob uma outra ótica. E essa verdadeira epopeia da língua portuguesa se inicia no mais simples dos lugares: na relação entre as palavras e as coisas que elas representam.

Disposto a desmentir o próprio pai da linguística, o suíço Ferdinand de Saussure, ele demonstra uma relação muito mais próxima do que imaginamos entre o som e o seu significado. Afinal, por que ligamos determinadas palavras a uma série de aromas característicos? Ou então, por que, quando nos apaixonamos, parece que o nome do ser amado ganha tanta ou até mais importância do que o tal ser em carne e osso? Lançando mão de argumentos que fazem rir, mas também se mostram espantosamente convincentes, é que Duvivier nos pega pela mão e nos aponta os caminhos pelos quais as palavras moldam quem somos.


Rosa. “O que há num nome?”, Julieta pergunta a Romeu. “Se outro nome tivesse a Rosa, em vez de rosa, seria por isso menos perfumosa?” Desculpa, Romeu, mas se a rosa se chamasse Regina seria perfumosa de outro jeito: teria cheiro de tia perfumada mas fumante, cheiro de elevador de Copacabana. Se a rosa se chamasse Valentina, teria cheiro de body splash de baunilha. Se a rosa se chamasse Alzira, teria cheiro de bolo de fubá saindo do forno. Se a rosa se chamasse Heitor, teria cheiro de loção pós-barba, cheiro de pai dos outros. Se a rosa se chamasse Rose, teria cheiro de professora, de pré-primário. Então você me pergunta: o que há num nome, Romeu? Tudo.

NOME. Por mais que os linguistas digam o contrário, os poetas sabem muito bem: as palavras e as coisas têm uma relação simbiótica. Mais do que isso: siamesa. Os apaixonados estão cansados de saber que amar alguém é amar um nome. Quem nunca escreveu um nome com o dedo indicador no boxe embaçado do banheiro nunca amou ninguém. “Se eu tivesse um bar ele teria o seu nome/ Se eu tivesse um barco ele teria o seu nome”, diz o Fabrício Corsaletti no grande poema de amor da minha geração — um poema de amor não pela pessoa, mas por seu nome, o que dá no mesmo. Afinal: Rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa.

Os apaixonados estão cansados de saber que amar alguém é amar um nome. Quem nunca escreveu um nome com o dedo indicador no boxe embaçado do banheiro nunca amou ninguém

CLÁSSICO. “Rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa”, disse Gertrude Stein. Não há como um verso ficar mais simples que isso. Rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa — não tem metáfora, nada além de uma declaração circular, tautológica. A frase poderia ter sido dita por um comentarista de futebol, como aquele que certa vez cravou: “Clássico é clássico e vice-versa”.

Aqui não se trata de redundância, dizia Stein, mas de insistência. Publicado em 1913, o verso está pra literatura como o urinol do Duchamp pras artes plásticas: negando a poesia, inventou um começo novo pra ela. Afinal, a mesma frase-urinol que não quer dizer nada fora do espaço poético, dentro do poema… tcharam! Vira poesia. Aqui vale lembrar: aquele “Clássico é clássico e vice-versa”, que virou chacota por ser o suprassumo da redundância, poderia ter se tornado uma fórmula “clássica” se tivesse sido dito por Jorge Luis Borges — não há nada intrinsecamente canônico numa obra literária, teria dito Borges, afinal clássico é tudo aquilo que é lido como um clássico, e vice-versa.

Mas o poema da Gertrude também pode dizer outra coisa, menos óbvia e que nos interessa mais aqui: Rosa (nome próprio) é uma rosa (coisa) é uma rosa (nome da coisa) é uma rosa (coisa): as coisas também são seu nome, e os nomes também são a coisa. Existe uma ligação uterina entre a coisa e a palavra que a designa.

As coisas também são seu nome, e os nomes também são a coisa. Existe uma ligação uterina entre a coisa e a palavra que a designa

Kiki. Buba. Fale em voz alta. Kiki. Buba. Agora troque a ordem: Buba. Kiki. Imagine essas palavras. Buba. Buba. Kiki. Kiki. Agora olhe para estas duas formas.

Uma delas é buba. A outra é kiki. Duas palavras inventadas. Pra duas formas inventadas. Não tem resposta certa. Mas entrevistaram centenas de falantes mundo afora e a maioria respondeu a mesma coisa: a pontuda tem cara de kiki e a redonda tem cara de buba.

Pra mim, parece óbvio. Talvez pra você também. Afinal, como alguém pode olhar pra uma forma redondinha e chamar de kiki? Kiki! Um som tão pontiagudo, tão espinhoso, tão… kiki! Pior: como é que alguém pode chamar essa magrela de boba, uma palavra tão bobona, gorducha, bolhuda: tão… buba. Precisava mesmo de um teste internacional com centenas de falantes? Precisava. Por um motivo: o resultado vai contra uma vaca sagrada da linguística: a ideia de que não existe qualquer relação entre som e significado, como apostou o suíço Saussure, pai da linguística, há mais de cem anos.

Pro suíço, não existem palavras pontudas nem gorduchas — afinal, o significante é arbitrário. Será, Saussure? Está certo disso? Como disse o antropólogo Marshall Sahlins: Saussure, don’t be Saussure. Saussure: um nome nada arbitrário. Só não é pior que… Crátilo.

Como alguém pode olhar pra uma forma redondinha e chamar de kiki? Kiki! Um som tão pontiagudo, tão espinhoso, tão… kiki!

Produto

  • Aos Pés da Letra
  • Gregório Duvivier
  • Companhia das Letras
  • 192 páginas

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