Trecho de livro

Uma Hora de Conexão

Autor de “Quando Nietzsche Chorou”, psicoterapeuta conta em livro como reinventou sua prática clínica, em sessões breves, intensas e profundas

Leonardo Neiva 23 de Janeiro de 2026

Você provavelmente conhece o psicoterapeuta e escritor norte-americano Irvin D. Yalom por conta de seu primeiro romance e até hoje sua obra mais famosa: “Quando Nietzsche Chorou” (HarperCollins Brasil, 2019). O best-seller global, publicado originalmente em 1992, vendeu centenas de milhares de exemplares só aqui no Brasil no início do milênio. Narrando as sessões ficcionais do médico e fisiologista austríaco Josef Breuer (1842-1925) com o pai da psicanálise Sigmund Freud (1856-1939), a obra fez sucesso ao explorar os laços entre a filosofia e o início da psicanálise.

Desde então, além de publicar livros como “A Cura de Schopenhauer” (HarperCollins Brasil, 2019), “Os Desafios da Terapia” (Paidós, 2024) e “Uma Questão de Vida e Morte” (Paidós, 2021), Yalom manteve seu atendimento em consultório. Porém, aos 94 anos, hoje Yalom já carrega consigo marcas da idade: lapsos de memória, o luto pela perda da esposa e os impactos duradouros da pandemia. Foi nessa realidade que, com o apoio do filho Benjamin, ele decidiu transformar sua prática clínica.

“Uma Hora de Conexão” (HarperCollins Brasil, 2026) traz um relato detalhado dessa experiência. Como o título indica, em vez do tradicional período de tratamento psicológico, Yalom propõe uma sessão única com 60 minutos de duração. A ideia é trabalhar o aqui e agora, desenvolvendo um vínculo genuíno com o paciente. Na obra, com tradução de Roberta Clapp, Irvin e Benjamin compartilham as histórias de algumas dessas sessões breves mas intensas, capazes de gerar conexões profundas e transformadoras. São reflexões sobre temas como amor e medo, arrependimento e propósito, guiadas por um psicoterapeuta que preferiu se reinventar a ceder às limitações da idade e do isolamento.


Nós nos cumprimentamos rapidamente, e expliquei que só poderia vê-la uma vez, conforme explicado na postagem do Facebook, e que esperava ser o mais útil possível. Parecia muito estranho dizer tudo isso, e acho que estava preparando o terreno tanto para mim quanto para ela. Susan assentiu e começou a contar sua trágica história. Dois anos antes, por volta das dez da noite de uma quinta-feira, ela abriu a geladeira e notou que a grande torta de cereja que havia preparado estava quase no fim. Planejava
servi-la na noite seguinte para amigos próximos que iriam jantar em sua casa, mas naquele momento estava reduzida a um pedaço de massa vazando recheio.

O que havia acontecido com a torta? Não era nenhum mistério: sem dúvida Peter, o marido, devia tê-la comido. Não teria sido a primeira vez.

— Aquele bocão! — exclamou ela, desatando a chorar.

O episódio da torta de cereja foi demais. A gota d’água. Só sairia do trabalho às 17h30 no dia seguinte, uma hora antes da chegada dos convidados para o jantar. Mal teria tempo para se arrumar e colocar a mesa, quanto mais para fazer outra torta. Que desrespeito!

Espumando de raiva, subiu a escada e confrontou o marido, que já estava na cama. Passaram dez minutos discutindo. Os ânimos e as vozes se exaltaram. Ele disse que sempre foi a principal fonte de sustento da família (mentira!, protestou ela) e que comeria a torta que bem entendesse. Susan respondeu que o marido era um porco obeso que se empanturraria até a morte.

Ele a mandou dormir no sofá e a empurrou para fora do quarto, batendo e trancando a porta.

— Tudo bem! — gritou ela. — A última coisa que quero é dividir a cama com um guloso egoísta.

Na manhã seguinte, as batidas fortes na porta do quarto e os gritos chamando o nome do marido foram respondidos com silêncio. Por fim, ela e as duas filhas entraram no quarto e o encontraram sem vida na cama. Ligaram para os serviços de emergência e, quando os médicos chegaram, declararam que o homem estava morto havia várias horas. Quando os policiais chegaram, fecharam a casa e revistaram todos os cômodos. Susan e as filhas foram interrogadas por horas; claramente a polícia estava cogitando a hipótese de crime, a ponto de inferir que a torta poderia ter sido usada como arma.

— E quanto você se recuperou da morte do seu marido?

— Eu diria que zero

— Que horror — disse. — E quanto você se recuperou da morte do seu marido?

— Eu diria que zero — respondeu Susan. — Não houve recuperação. Nenhuma. Talvez eu esteja piorando. Sinto muita falta dele e morro de culpa pelo que disse na noite antes de sua morte. E também estou furiosa com ele por ter me deixado. Choro o tempo todo e agora sou eu que não consigo parar de comer e fui eu que engordei quase trinta quilos. Consultei um psiquiatra recentemente e ele disse que eu estava, de alguma maneira, me identificando com meu marido. Que tipo de ajuda é essa? Desenvolvi problemas de pele terríveis e não consigo parar de me coçar. Mal consigo dormir e, quando consigo, sonho com Peter. Quando minhas filhas forem para a faculdade, daqui a um mês, irei sozinha a restaurantes e as pessoas ficarão me olhando e, tenho certeza, sentirão pena da gorda desleixada que come sozinha. — Ela respirou fundo, ruidosamente, talvez contendo as lágrimas. — É isso, dr. Yalom, despejei tudo no senhor. É isso. Não sei mais o que dizer. — Ela se recostou na cadeira.

— Sabe, Susan, trabalhei muito com mulheres que perderam o marido e seu relato não me é estranho. Mas me conta uma coisa. Você disse que seu marido morreu há mais de dois anos. Você nota diferença entre como está agora e como estava um ano atrás? É diferente? A dor é menor?

— Não. Justamente o contrário. É isso o que me atormenta; penso nele cada vez mais e, quando estou sozinha em casa, tenho medo passar o resto da vida triste e solitária. Que droga. Não é justo.

— O luto sempre se ameniza, mas leva tempo. Normalmente, o luto tem um ciclo previsível. É mais intenso no primeiro ano, quando a pessoa vivencia o primeiro aniversário, o primeiro Natal ou Ano-Novo sem o cônjuge. Mas depois, com o passar do tempo, a dor diminui. E, mais tarde, quando você atravessa esses dias especiais pela segunda vez, a dor é nitidamente menor. Mas isso não está acontecendo com você. Algo a está bloqueando e tenho um palpite de que está relacionado à sua raiva.

Susan assentiu com vigor, então perguntei:

— Você consegue colocar seu gesto em palavras?

— Não tenho palavras para me expressar, mas sinto que você tem razão. É confuso. Estou me afogando em tristeza e, de repente, sinto apenas uma raiva intensa.

— Vamos focar isso, a raiva — disse. — Deixe sua mente ir nessa direção e, por alguns minutos, compartilhe seus pensamentos comigo. Em outras palavras, pense em voz alta.

Ela pareceu intrigada e balançou a cabeça.

— Não sei por onde começar.

— Talvez seja mais fácil começar pelo início. Pense em voz alta sobre seu primeiro encontro com a raiva

— Raiva… raiva. A primeira vez que senti raiva foi quando respirei pela primeira vez… no momento em que nasci.

— Prossiga, Susan.

O luto sempre se ameniza, mas leva tempo

— Havia raiva quando eu nasci. A raiva da minha mãe. Eu me lembro dela dizendo várias vezes que queria um menino e que, se eu fosse menino, teria parado por ali. Queria ter só um filho, e não era eu. Ela me disse isso várias vezes.

— Então você passou parte da sua infância ouvindo de sua mãe que o seu nascimento, a sua própria existência, a incomodava?

— Ah, sim, ela me fazia sentir isso o tempo todo. Maldita!

— E o seu pai?

— Pior. Às vezes, ainda pior. Sua piada favorita, que nunca se cansava de contar, era que a enfermeira cometeu um erro quando eu nasci e trouxe para a família a placenta em vez de o bebê.

— Ai, Susan, que horror seu pai insinuar que você não é uma pessoa, e sim uma placenta.

— Ele achava que era uma piada muito engraçada. E minha mãe concordava. Vou ser sincera com você. Sei que não é natural, mas eu odiava eles. Os dois. Meu pai, principalmente. Ele não quis pagar minha faculdade, queria que eu trabalhasse de secretária na loja dele. Por isso, saí de casa cedo e tive de trabalhar durante toda a faculdade.

Ela fez uma pausa, deixando-se tomar pelas emoções profundas. Depois de um tempo, enquanto Susan ainda estava aberta e receptiva, eu a incentivei a ir mais fundo.

— E a raiva do seu marido? Fale mais sobre isso.

— Não era como a raiva em relação ao meu pai. Pelo menos, não no começo. Conheci o Peter depois que saí de casa, quando estava na faculdade. Éramos namorados e ele era bom para mim. Seus pais eram bem de vida e ele sempre tinha dinheiro. Sempre que eu estava sem dinheiro, Peter me ajudava a pagar o aluguel ou a comprar comida. E eu nunca tinha tido esse tipo de ajuda ou afeto antes. O pai dele era político e queria que o filho seguisse seus passos. Peter tinha carisma, podia ser incrivelmente encantador e divertido. Mas era preguiçoso, um aluno fraco que apostava sempre que podia e acabou saindo da faculdade. Virou segurança em um banco local, um emprego que o pai arrumou para ele. Nunca ganhava o suficiente para nos sustentar ou, se ganhava, apostava escondido. De todo modo, deixou claro que eu sempre teria de trabalhar. Nunca tirei férias, exceto as licenças-maternidade de três meses quando tive nossas filhas. Nunca pude ser eu mesma, nunca pude ser o tipo de mãe que queria ser. Eu só trabalhava, trabalhava muito. E quer saber? Poucos dias antes de morrer, ele me contou que tinha ficado gordo demais para ser segurança de banco e que o haviam transferido para o escritório, o que representava uma redução de salário. Disse que não era nada de mais, e fiquei muito brava porque ele não se importava com a própria saúde. E era provável que eu tivesse que arranjar um segundo emprego para poder pagar as contas.

— Ouço muita raiva reverberando, Susan — disse. — Um marido que nunca reconheceu todo o trabalho que você fez, que nunca reconheceu as suas necessidades e os seus desejos. Um pai cruel que a enxergava como um problema ou como uma piada. E uma mãe insensível que nunca a quis, nunca lhe ofereceu amor. Agora todos eles se foram. Sua mãe, seu pai, seu marido: todos se foram. E uma boa parte da sua vida também se foi. Ah, Susan, não é de se admirar que você esteja com raiva. Quem, na sua situação, não estaria furioso? Sei que eu estaria.

Ela assentiu enquanto eu falava.

Sua mãe, seu pai, seu marido: todos se foram. E uma boa parte da sua vida também se foi. Ah, Susan, não é de se admirar que você esteja com raiva

— Como você se sente ao me ouvir dizer isso, Susan?

— É difícil. É verdade, mas é difícil.

— Quero reservar um momento para destacar tudo o que você conquistou apesar deles: duas filhas amorosas, uma carreira valiosa como professora e muito mais. Você se saiu muito bem, Susan.

Ela engoliu em seco, assimilando aquilo.

— Não consigo falar com ninguém sobre isso — disse. — Todo mundo quer se lembrar do Peter como uma boa pessoa, lembrar de nós dois como um ótimo casal. Ninguém quer falar sobre o lado sombrio.

— Obrigado por compartilhar comigo. Sua raiva é humana, só isso. Mas suspeito que ela simbolize um problema maior. Achamos que não devemos falar mal dos mortos nunca, que é errado ou, de alguma forma, desrespeitoso. Faz sentido para você?

Ela assentiu, com lágrimas nos olhos.

— Bem, eu discordo. Qualquer pessoa na sua situação, com as experiências que viveu, teria os sentimentos de raiva que está tendo. Você está sendo muito dura consigo mesma.

Susan já estava soluçando, e esperei que ela se acalmasse e respirasse.

— Não sei o que fazer, como fazer isso parar — disse ela, por fim. — Gostaria de me lembrar de tantas outras coisas da nossa vida juntos. Eu o amava muito. Mas nesse momento só sinto raiva.

— Suspeito que, à medida que você aceitar essa raiva, aceitar que ela é pertinente e que você tem um bom motivo para senti-la, essas outras lembranças voltarão. Mas isso levará tempo.

— Talvez. — Susan assentiu. — Espero que sim.

Então, com minha voz mais solene, prossegui.

— Susan, ouvi atentamente tudo o que você me disse, assimilei tudo e ponderei com cuidado. Quero que saiba que eu a declaro inocente. Por favor, me ouça: Eu a declaro inocente! Você merece ser feliz. Trabalhou muito, foi uma boa mãe, uma boa esposa e agora merece ser feliz.

Ela sorriu em meio às lágrimas, e concluí a sessão com a sensação de ter sido útil. Dei a Susan o nome de um terapeuta com quem poderia continuar o tratamento. Claramente esse velho ainda tem algo a oferecer, pensei ao relembrar nosso encontro!

Algumas semanas depois, recebi dela um e-mail que confirmou isso, em que me agradeceu por tê-la ajudado.

Não me esquecerei do momento em que você disse algo como: “Aparentemente sua mãe e seu pai não foram bons pais, mas mesmo assim você se deu muito bem na vida… Eu a admiro por isso.” Você me proporcionou o afago que é ser vista, respeitada e apoiada ao mesmo tempo. E também quando me declarou inocente. Jamais esquecerei esse momento e o sorriso em seu rosto ao me dizer isso. Guardarei o som de sua voz em minha mente e em meu coração.

Achamos que não devemos falar mal dos mortos nunca, que é errado ou, de alguma forma, desrespeitoso

Produto

  • Uma Hora de Conexão
  • Irvin D. Yalom e Benjamin Yalom (trad. Roberta Clapp)
  • HarperCollins Brasil
  • 284 páginas

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