Cinema brasileiro: nova paixão nacional?
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Repertório

Turismo cinematográfico no Brasil

Do edifício Oceania, no Recife, ao cerrado goiano e aos Lençóis Maranhenses, filmes nacionais transformam cenários reais em ícones regionais e ajudam a reforçar a memória do país

Ana Elisa Faria 01 de Março de 2026

Turismo cinematográfico no Brasil

Ana Elisa Faria 01 de Março de 2026

Do edifício Oceania, no Recife, ao cerrado goiano e aos Lençóis Maranhenses, filmes nacionais transformam cenários reais em ícones regionais e ajudam a reforçar a memória do país

O Brasil, diverso e imenso, cabe em muitos enquadramentos. E o cinema nacional sempre mostrou isso com filmes que funcionam como um passeio por paisagens e arquiteturas que ajudam a entender a diversidade sociocultural do país. São obras que focam interiores históricos e cheios de memórias, como salões de baile e casas de família, e cenários ao ar livre que colocam no quadro a nossa rica natureza, com rios amazônicos, dunas nordestinas, o cerrado e a serra gaúcha.

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Alguns desses lugares já eram famosos antes de virar set, como a Estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro, ou os edifícios da orla de Boa Viagem, no Recife, mas, após surgirem como personagens de obras que rodaram o mundo, receberam um novo status, o de ponto turístico cinematográfico.

Outros locais ganharam nova vida depois de aparecerem na tela e passaram a ser procurados por fãs e viajantes curiosos, como a igrejinha de Cabaceiras, na Paraíba — que aparece em “O Auto da Compadecida” —, ou a rua Congonhas, em Belo Horizonte, que virou endereço cinéfilo para quem cresceu com o Menino Maluquinho.

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Já outros tantos, à primeira vista, não seriam destinos de viagem óbvios, porque mostram realidades duras e pouco turísticas. Ainda assim, são essenciais para colocar municípios, estados e construções em um mapa ampliado.

Abaixo, Gama fez uma seleção de longas-metragens gravados em todas as regiões brasileiras e que revelam como a locação nem sempre serve só como pano de fundo. Ela molda o clima do filme, amplia conflitos e transforma histórias individuais em retratos regionais.


Centro-Oeste

“Eduardo e Mônica” (2022), de René Sampaio – Parque da Cidade, Brasília
A história de amor dos protagonistas da canção homônima da banda brasiliense Legião Urbana se passa nos anos 1980 em um cenário um pouco diferente da capital federal sisuda que aparece diariamente nos telejornais — a Brasília da obra é mais vívida. Após flertarem numa festa estranha, com gente esquisita, os personagens de Gabriel Leone e Alice Braga trocam telefone e marcam um date no Parque da Cidade. A Mônica foi de moto e o Eduardo, de camelo, como na música.

“Fogaréu” (2022), de Flávia Neves – Procissão do Fogaréu, na Cidade de Goiás

A jovem Fernanda (Bárbara Colen) volta à Cidade de Goiás (um patrimônio da Unesco, conhecida também como Goiás Velho, antiga capital goiana) para um funeral e lá percebe estar cercada por segredos familiares e violências que a comunidade local prefere fingir que não vê — a Procissão do Fogaréu, famoso evento católico local, também ganha destaque no filme. A tradicional caminhada existe há mais de 300 anos e reúne devotos na Semana Santa para a procissão que ocorre na madrugada da quarta para a quinta-feira.

“Oeste Outra Vez” (2024), de Erico Rassi – Chapada dos Veadeiros, em Goiás
O elogiado filme tem a Chapada dos Veadeiros, em Goiás, como principal cenário para a trama estrelada por Ângelo Antônio e Babu Santana, que vivem homens ressentidos que não sabem lidar com as próprias vulnerabilidades. Um faroeste à brasileira que retrata a solidão, o orgulho e a masculinidade autodestrutiva.

“Xingu” (2012), de Cao HamburgerParque Indígena do Xingu, no nordeste do Mato Grosso

Com cenas no Parque Indígena do Xingu, no nordeste do Mato Grosso, o longa-metragem dramatiza a trajetória dos irmãos indigenistas Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas — vividos respectivamente por Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat — e a criação do parque, que, hoje, recebe visitantes que chegam ali por agências especializadas em turismo ambiental, imersivo e com propósito.

Nordeste

“Aquarius” (2016), de Kleber Mendonça Filho – o edifício Oceania na avenida Boa Viagem, no Recife

Clara (Sonia Braga) é a última moradora de um charmoso predinho azul à beira-mar na avenida Boa Viagem, no Recife. Ela resiste à pressão de uma construtora que quer demolir o imóvel para construir um novo empreendimento no lugar, tornando-se assim símbolo de permanência e resistência. O filme transforma a disputa por um apartamento em discussão sobre cidade, envelhecimento e especulação imobiliária. O edifício Oceania, nome real do prédio construído em 1952, virou um cartão-postal da capital pernambucana.

“O Auto da Compadecida” (2000), de Guel Arraes – Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Cabaceiras, na Paraíba

Uma igrejinha do sertão paraibano virou palco para uma das mais bem-sucedidas comédias nacionais de todos os tempos. É na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Cabaceiras, na Paraíba, que muitas cenas marcantes do filme que acompanha o humor e as trapaças dos amigos João Grilo (Matheus Natchergaele) e Chicó (Selton Mello) se passam. A cidade já serviu de cenário para outros longas, séries e novelas, ficando conhecida como a “Roliúde Nordestina” (deu até no jornal The New York Times) e recebe visitantes que desejam conhecer mais a fundo a região.

“Casa de Areia” (2005), de Andrucha Waddington – Santo Amaro do Maranhão, nos Lençóis Maranhenses

Uma mãe (Fernanda Montenegro) e uma filha (Fernanda Torres) ficam isoladas em um casebre de madeira construído no meio de um mar de dunas. Ali, elas lidam com a solidão e a instabilidade da natureza do lugar — Santo Amaro do Maranhão, nos Lençóis Maranhenses — e lutam para sobreviver naquele deserto nordestino com a ajuda de um morador local (Seu Jorge).

“O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo DuarteIgreja do Santíssimo Sacramento do Passo, no Pelourinho, em Salvador

A Igreja do Santíssimo Sacramento do Passo, no Pelourinho, em Salvador, ficou mundialmente famosa com o longa, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes e indicado ao Oscar de melhor filme internacional. Na produção, Zé do Burro (Leonardo Villar) tenta cumprir uma promessa à Santa Bárbara carregando nas costas uma imensa cruz de madeira, mas se choca com o padre, que tenta impedi-lo de entrar no local porque o juramento foi realizado em um terreiro de candomblé.

Norte

“Deus É Brasileiro” (2003), de Cacá Diegues – Jalapão e Porto Nacional, no Tocantins

Na comédia dramática inspirada no conto “O Santo que Não Acreditava em Deus”, de João Ubaldo Ribeiro, o todo-poderoso (Antônio Fagundes), cansado de tantos erros cometidos pela humanidade, desce à Terra e percorre o país à procura de um substituto. Filmado em grande parte no Jalapão e em Porto Nacional, no Tocantins, o cerrado aparece na obra como um território de travessia e encontro, ampliando o tom de fábula e colocando o país, literalmente, na estrada.

“O Último Azul” (2025), de Gabriel Mascaro – rios da região amazônica

Rodado inteiramente no estado do Amazonas, o filme, vencedor do grande prêmio do júri no Festival de Berlim, imagina um Brasil distópico que empurra idosos para uma espécie de exílio institucional forçado, acompanhando sobretudo a saga de Tereza (Denise Weinberg), uma mulher de 77 anos que se recusa a aceitar esse destino. A protagonista, então, embarca em uma transformadora aventura pelos rios da região, vivendo experiências fantásticas e libertadoras em meio à natureza.

“Tainá – Uma Aventura na Amazônia” (2000), de Tânia Lamarca e Sérgio Bloch – Rio Negro, Manaus

Ambientado no rio Negro e filmado na região de Manaus, no Amazonas,
o clássico infantojuvenil — que virou franquia cinematográfica — acompanha uma menina indígena (Eunice Baía) de oito anos que vira guardiã da floresta e precisa enfrentar o tráfico de animais.

Sudeste

“Central do Brasil” (1998), de Walter Salles, Estação Central do Brasil, no centro do Rio de Janeiro

Dora (Fernanda Montenegro), uma ex-professora amargurada, escreve cartas para pessoas analfabetas em uma das estações mais importantes do país. Após a morte de uma cliente, ela embarca com Josué (Vinícius de Oliveira) em uma viagem para o nordeste à procura do pai do garotinho. O longa-metragem, ganhador do Urso de Ouro no Festival de Berlim e indicado ao Oscar de melhor filme internacional e de melhor atriz, transforma a Estação Central do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, em uma síntese da pressa urbana, do afeto, do abandono, da pobreza e da esperança.

“Chega de Saudade” (2008), de Laís Bodanzky – clube União Fraterna, no bairro da Lapa, em São Paulo

Em uma única noite de baile no clube União Fraterna, localizado no bairro da Lapa, em São Paulo, personagens de diferentes idades revelam desejos, mágoas e recomeços entre um passo de dança e outro. O belo salão, construído em 1925, vira um pequeno mundo povoado por pessoas que, solitárias, buscam afeto.

“Menino Maluquinho – O Filme” (1995), de Helvécio Ratton – rua Congonhas, no bairro Santo Antônio, em Belo Horizonte

Em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, a rua Congonhas, no bairro Santo Antônio,
virou endereço cinéfilo, com as casas históricas que aparecem como coração da infância do protagonista criado na literatura por Ziraldo. O filme, que segue a história de um garotinho (Samuel Costa) amoroso e travesso que tem de lidar com a separação dos pais, também teve gravações na cidade histórica mineira de Tiradentes.

Sul

“Estômago” (2007), de Marcos Jorge – Mercado Municipal, Rodoferroviária e Bar Palácio, em Curitiba

A cidade de Curitiba, no Paraná,
aparece no filme em endereços famosos como o Mercado Municipal, a Rodoferroviária e o Bar Palácio, enquanto o protagonista Raimundo Nonato (João Miguel) descobre na comida uma forma de ascensão e poder, inclusive dentro da prisão.

“O Filme da Minha Vida” (2017), de Selton Mello – Estação Ferroviária de Garibaldi, no Rio Grande do Sul

A Estação Ferroviária de Garibaldi, no Rio Grande do Sul,
abriga cenas marcantes do filme baseado no livro “Um Pai de Cinema” (Record, 2011), do chileno Antonio Skármeta. O local ajuda a construir a atmosfera de passagem e despedida de Tony (Johnny Massaro), jovem que decide retornar a Remanso, sua cidade natal, onde tem de lidar com o desaparecimento do pai (Vincent Cassel), ao mesmo tempo em que precisa amadurecer.

O Quatrilho” (1995), de Fábio Barretocentro histórico de Antônio Prado e o complexo turístico Caminhos de Pedra, em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul

Rodado em locações icônicas da serra gaúcha, como o centro histórico de Antônio Prado e o complexo turístico Caminhos de Pedra, em Bento Gonçalves, ambos no Rio Grande do Sul, o longa acompanha a história de dois casais de imigrantes italianos que rompem o pacto conjugal — a esposa de um fica com o marido da outra e vice-versa — e enfrentam a moral da comunidade da época, 1910. Uma das obras fundamentais da Retomada do cinema brasileiro nos anos 1990, o drama foi indicado ao Oscar de melhor filme internacional, recolocando o Brasil na disputa da Academia após décadas.

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