Trecho de livro

Os poemas de Orides Fontela

Homenageada da Flip neste ano, autora pioneira da poesia brasileira contemporânea que se autointitulava “proleta” ganha novas edições de sua obra

Leonardo Neiva 13 de Fevereiro de 2026

Homenageada da próxima edição da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, a poeta Orides Fontela (1940-1998), nascida em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, inaugura uma nova chave entre os autores selecionados como destaque no evento. De acordo com a curadora Rita Palmeira, em vez de uma vitrine de escritores brasileiros para o mundo, o evento, que acontece em julho, passa a apresentá-los para o próprio Brasil. Isso porque Fontela, considerada uma referência da poesia contemporânea por críticos como Antonio Candido (1918-2017), Davi Arrigucci Jr. e a filósofa Marilena Chaui, morreu praticamente anônima.

Esse esforço de resgate será acompanhado por novas edições de sua obra que saem ao longo dos meses de março e abril pela editora Hedra, organizadas pela crítica literária e pesquisadora Ieda Lebenzstayn. Com a adição de textos clássicos e outros inéditos sobre Fontela, serão reeditados todos os cinco livros publicados em vida pela poeta: “Transposição” (1969), “Helianto” (1973), “Alba” (1983), “Rosácea” (1986) e “Teia” (1996). Ainda está prevista para maio uma nova edição da biografia “O Enigma Orides”, de Gustavo de Castro. Na sequência, também um livro infantil com organização de Augusto Massi, um compilado de entrevistas e, para 2027, um volume com a obra completa da autora, incluindo textos inéditos.

Autointitulada “proleta”, uma união entre proletária e poeta, Fontela teve uma trajetória marcada por dificuldades financeiras e uma morte solitária, que acabaram encobrindo para muitos leitores seus méritos literários. Como fica claro nos poemas publicados aqui, cada um retirado de uma obra diferente, seus versos estão em constante tensão entre a economia de palavras e a intensidade dos sentidos presentes, o que levou Antonio Candido a definir sua obra como de uma “parcimoniosa opulência”. Outro adjetivo que virou marca de Fontela foi “aristocrata selvagem”. Este descreve uma postura poética de refinada inteligência e a recusa de fazer concessões ao que ela chamava de “mesquinharia do cotidiano”.


Mãos (do livro “Transposição”)

Com as mãos nuas
lavrar o campo:

as mãos se ferindo
nos seres, arestas
da subjacente unidade

as mãos desenterrando
luzesfragmentos
do anterior espelho

Com as mãos nuas
lavrar o campo:

desnudar a estrela essencial
sem ter piedade do sangue.

Com as mãos nuas/
lavrar o campo

Para CDA (do livro “Teia”)

I
O boi é só. O boi é
só. O
boi.

II
Que século, meu Deus! disseram
os ratos.

III
Perdi o bonde
(e a esperança), porém
garanto
que uma flor nasceu.

IV
Ôpa, carlos: desconfio
que escrevi um poema!

Repouso (do livro “Helianto”)

Basta o profundo ser
em que a rosa descansa.

Inúteis o perfume
e a cor: apenas signos
de uma presença oculta
inútil mesmo a forma
claro espelho da essência

inútil mesmo a rosa.

Basta o ser. O escuro
mistério vivo, poço
em que a lâmpada é pura
e humilde o esplendor
das mais cálidas flores.

Na rosa basta o ser:
nele tudo descansa.

Perdi o bonde/
(e a esperança), porém/
garanto/
que uma flor nasceu

Herança (do livro “Rosácea”)

Da avó materna:
uma toalha (de batismo).

Do pai:
um martelo
um alicate
uma torquês
duas flautas.

Da mãe:
um pilão
um caldeirão
um lenço.

Mapa (do livro “Alba”)

Eis a carta dos céus:
as distâncias vivas
indicam apenas
roteiros
os astros não se interligam
e a distância maior
é olhar apenas.

A estrela
voo e luz somente
sempre nasce agora:
desconhece as irmãs
e é sem espelho.

Eis a carta dos céus: tudo
indeterminado e imprevisto
cria um amor fluente
e sempre vivo.

Eis a carta dos céus: tudo
se move.

Eis a carta dos céus: tudo/
indeterminado e imprevisto

Produto

  • Transposição
  • Orides Fontela (org. Ieda Lebensztayn)
  • Hedra
  • 136 páginas

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  • Teia
  • Orides Fontela (org. Ieda Lebensztayn)
  • Hedra
  • 144 páginas

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  • Helianto
  • Orides Fontela (org. Ieda Lebensztayn)
  • Hedra
  • 112 páginas

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  • Rosácea
  • Orides Fontela (org. Ieda Lebensztayn)
  • Hedra
  • 128 páginas

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  • Alba
  • Orides Fontela (org. Ieda Lebensztayn)
  • Hedra
  • 96 páginas

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