COLUNA

Fernando Luna

Cada primavera será uma espada a ser afiada

Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre as ruas ocupadas por alegria, ao invés de ódio, a cooptação dos idosos pela extrema-direita e como negociar o calendário para o fim da existência

22 de Setembro de 2025

Cada primavera será uma espada a ser afiada

Anne Sexton, 1975

Foi um domingo com as ruas cheias de alegria, alegria — ao invés de ódio.

Tive em Copacabana com Caetano, Gil, Chico, Paulinho e não havia ninguém fazendo arminha com a mão. No Posto 5, lugar de tantas manifestações de raiva da extrema-direita nos últimos anos, a multidão cantou junto pra ficar Odara.

Funcionou como um banho de descarrego urbano, um trabalho de limpeza pública e, ainda por cima, antietarista.

Adorei ver senhoras idosas vestindo camisa da seleção brasileira, porém gritando “Sem-A-Nis-Tia”. Um dos efeitos colaterais mais violentos do bolsonarismo foi transformar vovozinhas em massa de manobra do obscurantismo.

Abduzidas por grupos de Zap ultraconservadores, elas intoxicam seus últimos anos de vida com uma raiva que mal conseguem explicar — balbuciam algo sobre o espectro do comunismo rondando o Brasil.

(Alô, Jonathan Haidt, geral preocupado com a sanidade das crianças enfurnadas no celular, mas o efeito dos smartphones na terceira idade é igualmente devastador.)

No final do poema “Coragem”, Anne Sexton imagina um fim combativo e feliz. “Mais adiante, ao encarar a velhice e seu desfecho natural/sua coragem ainda estará nas pequenas atitudes”, escreve. “Cada primavera será uma espada a ser afiada/as pessoas que ama viverão na calidez do amor.”

Juntando as senhorinhas progressistas com os músicos octogenários que organizaram o movimento e orientaram o carnaval democrático, bateu uma esperança no futuro — se um dia chegar lá, quero chegar desse jeito.

Sexton termina assim os versos sobre o sprint final da existência: “E você vai negociar com o calendário e no último momento/quando a morte abrir a porta dos fundos/você vai calçar as pantufas e andar a passos largos.”

Pois chegou mais uma primavera, afiadíssima. Pelo sim, pelo não, vou providenciar umas pantufas e começar a negociação com o calendário.

Não lhe desejamos
a morte.
Que você viva
tanto quanto
ninguém nunca viveu

Primo Levi, 1960

Ao contrário do condenado Jair Bolsonaro, que defendeu matar uns 30 mil e fuzilar os opositores, não lhe desejamos a morte.

“Que você viva tanto quanto ninguém nunca viveu”, como escreveu o judeu italiano Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz.

Ele continua assim seu poema “Para Adolf Eichmann”: “Que viva insone cinco milhões de noites,/ e que toda noite lhe visite a dor de cada um que viu/ encerrar-se a porta que barrou o caminho de volta,/ o breu crescer em torno de si, o ar carregar-se de morte”.

Eichmann era, digamos, o diretor de logística da Shoah, responsável pela escala industrial do extermínio nazista. Em 1960, foi capturado na Argentina, julgado em Israel e condenado à morte por enforcamento.

Uma pena rápida e indolor, ao contrário do sofrimento em torno dos mais de 6 milhões de judeus, ciganos, deficientes físicos e mentais, gays e opositores assassinados por sua arquitetura da destruição.

Não caio em comparação com o nazismo.

Já em 1990, antes de as redes sociais banalizarem as analogias entre autoritarismos, o advogado estadunidense Michael Godwin formulou a Lei de Godwin: “À medida em que avança uma discussão online, a probabilidade de surgir uma comparação com Adolf Hitler ou o nazismo aproxima-se de 100%”.

O próprio Primo Levi não gostava desses paralelos, apontando com razão a “triste originalidade” do nazismo.

Se todas as democracias se parecem, cada candidato a tirano é infeliz à sua maneira. A condenação do nosso infeliz por tentativa de golpe de estado é justa e representa muita coisa.

Mas, ao escapar do julgamento pela atuação assassina durante a pandemia, que provocou dezenas de milhares de mortes evitáveis, faz lembrar a prisão de Al Capone apenas por sonegação fiscal.

Assim, desejo a Jair Bolsonaro 27 anos e três meses de insônia – e que toda noite lhe visite a dor de cada um que viu o ar faltar e carregar-se de morte.

Viaja sem
qualquer bagagem:
entre o que te salva
e o que te mata
nada substitui
a aventura

Ana Hatherly, 2005

No sábado viajei sem qualquer bagagem, por assim dizer, entre o teatro no centro da cidade e o megafestival no autódromo.

Nada substitui a aventura da bipolaridade estética – meio apocalíptica, meio integrada, como definiu Umberto Eco quando já não fazia sentido separar alta e baixa cultura.

Nem foi um plano deliberado pra rasgar a cartilha da Escola de Frankfurt, tão zelosa em distinguir arte e mercadoria. Foi distração mesmo.

Há muitas semanas, comprei ingresso pra ver Denise Stoklos remontar sua clássica “Mary Stuart”, no Teatro Estúdio, nos Campos Elísios – que de Champs-Élysées só restou o nome, entre fluxos e refluxos urbanos.

Coincidiu de cair no dia em que Lauryn Hill se apresentaria no The Town, a 18 quilômetros dali. Não precisei escolher entre uma ou outra, os horários ajudaram: teatro às 17h, show às 21h55.

Quando estreou, quase 40 anos atrás, “Mary Stuart” definiu um novo tipo de encenação, o Teatro Essencial. Essencial porque tá tudo no palco, mesmo sem quase nada no palco.

Bastam uma cadeira preta e variações de voz e gestos pra atriz interpretar a rainha da Escócia e também sua prima Elizabeth, rainha da Inglaterra. A disputa pelo poder no século 16 continua atual.

Hipnotizado pela atuação extraordinária, ignorei Horkheimer soprando no meu ouvido pra ficar em casa e encarei o busão até Interlagos.

Saltei da platéia de 140 lugares pro festival com 100 mil pessoas. Do cubo preto onde se escutava a respiração da atriz até na última fileira, pro palco gigantesco, com luzes de uma hidrelétrica inteira e fogos de artifício.

Em meio a tudo isso, mais vendedores ambulantes de cerveja e pipoca, mais todos os celulares do mundo filmando “Killing me Softly”, mais a nepoparticipação de dois filhos, a música de Lauryn Hill triunfou.

E o Travis Scott? Além e aquém de um músico, uma atração imensa, como a roda-gigante ou a montanha-russa.

Nossa vingança é o amor

Cristina Peri Rossi, 1973-1975

Cito aqui a poeta uruguaia Cristina Peri Rossi porque ela entende de golpe de estado.

Teve que fugir de um em 1972, trocando Montevidéu por Barcelona. Logo nos primeiros anos da fuga pela sobrevivência, escreveu o livro “Estado de Exílio”.

(Atenção, nepogolpistas Dudu e Figueiredo, exílio pra defender seu país da ditadura, não pra defender a ditadura em seu país. A ordem dos fatores altera o produto e as penas, que uma hora chegam pra vocês também.)

Nos versos de “Nossa vingança é o amor”, ela vaticina que a quartelada teria troco: “Sem dúvida nossa vingança será o amor/ poder amar, ainda/ poder amar, apesar de tudo”.

Amor como contragolpe militar.

“Mas antes”, continua o poema, “eu queria/ queria muito/ mandar à merda uns quantos filhos da puta,/ de maneira indolor, é claro,/ porque sou civilizada.”

Pois nesta terça o Brasil começa a mandar à merda uns quantos filhos da puta, de maneira indolor, é claro, porque somos civilizados. O primeiro núcleo da escumalha que tentou a abolição violenta do estado vai encarar aquilo que queria atropelar: a justiça.

Jair Bolsonaro, Augusto Heleno, Braga Netto, Almir Garnier, Ramagem, Anderson Torres, Paulo Sérgio Nogueira e Mauro Cid esquentam o banco dos réus pelos crimes que cometeram.

Tudo transmitido em rede nacional – como eles próprios transmitiam em rede nacional, no excesso de confiança macho-milico-hétero-branco, boa parte de seus golpismos pra melar a eleição.

Deu ruim e vem aí mais um campeão de audiência. Dois campeões, aliás.

Com o julgamento na grade de programação, a TV Justiça faz as vezes de Globo e o canal de You Tube do STF veste a skin de Cazé TV – do traço no Ibope à terra em transe diante da tevê.

Vai ser um final de novela golpista, um pouso da Apolo 11 em Brasília, uma decisão de Copa do Mundo – só falta o Galvão Bueno narrando ao vivo esse teste democrático pra cardíaco.

Oh, sejamos pornográficos (docemente pornográficos)

Carlos Drummond de Andrade, 1934

Quantas vezes um show foi interrompido pelo desopilante coro de “Ei, Bolsonaro, VTNC”?

(A abreviação não costuma ser usada nesses casos. Ao contrário, cada fonema é escandido como numa sessão de fonaudiologia combinada com terapia do grito primal.)

Dessa vez não foi esse pessoalzinho cirandeiro, progressistas dados à cultura e avessos a autocratas, que sugeriu ao ex-presidente a tal atividade lúdica com, no jeito, algum potencial terapêutico.

Agora foi seu próprio filho Eduardo Bolsonaro quem deu a ideia, numa mensagem de Zap deveras direta: “VTNC SEU INGRATO DO CARALHO!”, tudo maiúsculo e exclamativo, um alfabeto em plena ereção.

(O filho 02, a propósito, é conhecido como Dudu Bananinha, alcunha que me abstenho de comentar pra não ser acusado de capacitismo: não se troçam defeitos físicos, nem mesmo os menores.)

A fixação anal se aprofunda na frase seguinte, incluindo a colocação pronominal invertida e o ouroboro linguístico devorando o próprio rabo: “Me fudendo aqui! Vc ainda te ajuda a se fuder aí”.

Curiosa obsessão num clã afeito a declarações homofóbicas. Significa? Significa. Chega a ser comovente testemunhar tamanha abertura, oh, docemente pornográfica, entre filho e pai.

A incapacidade de expressar emoções é regra entre homens. Meninos são ensinados a associar sentimentos com fraqueza, o que em geral os impede de falar claramente sobre o que sentem.

Parabéns, Eduardo, pela clareza. Entendo e me solidarizo com suas palavras e seu esforço pra proteger a família tradicional.

Tradicional, vale lembrar, desde a Grécia Antiga, quando o desavisado Édipo cruzou com seu pai, Laio, na encruzilhada de Delfos e Tebas. E passa pelo infernal Ugolino, conta Dante Alighieri, encarcerado numa torre sem comida ou bebida, fazendo da prole seu repasto. Até chegar na intimidade desbocada em “Álbum de Família”, de Nelson Rodrigues.

Tudo bastante familiar.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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