COLUNA

Fernando Luna

É quando o tempo sacode a cabeleira

Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre o sertão do Cariri, a Venezuela de Trump, as muletas de patins, o sprint eterno e os fichamentos de Bolsonaro

12 de Janeiro de 2026

É quando o tempo
sacode a cabeleira
A trança toda vermelha
Um olho cego vagueia
procurando por um

Zé Ramalho, 1978
Antologia Profética

O sertão está em toda a parte, eu sei, mas tá muito no Cariri paraibano.

*

Na primeira noite, uma cobra na porta do quarto. Uma funcionária da pousada apareceu:

– Oxe, donde cês são?

– Rio e São Paulo.

– Lá não tem cobra-preta? É venenosa não. Ela come as venenosas, cascavel, jararaca…

– Tem cascavel e jararaca aqui?

– Oxe!

Informação tranquilizadora e perturbadora: a cobra não venenosa cresceu graças à fartura de venenosas.

*

No dia seguinte, descobrimos que o Lajedo do Pai Mateus no pôr do sol é o lugar mais bonito do mundo.

*

A caatinga parece um quadro do De Chirico pintado pelo J. Borges: paisagem metafísica gravada no imaginário nacional.

Na seca, vegetação desfolhada coberta pelo pó da terra desbotada: cor de seriema, mocó e calango. Planta, pedra e bicho, uma coisa só.

Rios sem água, sem começo e sem fim. Sem vida? Ao contrário. Vida no estado mais concentrado, esperando a primeira chuva pra se exibir de novo.

*

Vimos um carro de boi em 2026. Um fóssil vivo, um mastodonte na estradinha de chão.

*

Depois do jantar teve forró em Cabaceiras, cidadezinha de 5 mil habitantes conhecida como Roliúde Nordestina – fotogênica, foi locação do “Auto da Compadecida” a “Cangaço novo”.

A lua tava quase cheia quando tocaram “Frevo mulher”, que Zé Ramalho escreveu pra Amelinha. Rodopiamos. O luar do sertão é pros fortes, sou apenas um neurastênico do litoral.

*

Na Pedra do Altar, perto de Barra de Santana, o rio Paraíba escavou um vale lunar, cheio de crateras arredondadas.

Quando o sol seca as cachoeiras, ainda dá pra mergulhar nos poços. Peixinhos sobreviventes mordiscam as pintas do eventual banhista, mas quem não faria o mesmo?

*

Ainda tentei visitar duas vezes o Memorial Augusto dos Anjos. Dei com a cara na porta duplamente.

A igreja em frente, porém, tava sempre aberta – o que explica por que cresce o número de evangélicos, não o de leitores de poesia.

Florescemos num abismo
Rafael Cadenas, 1977

E essa gente que não respeita nem o recesso da virada do ano, como Donald Trump?

Em vez de aproveitar a pausa mundial pra jogar golfe em Mar-a-Lago sem aporrinhar ninguém, ele resolveu perguntar no grupo de Zap da Casa Branca como tava aquela história da Venezuela.

Quando ouviu a notificação do chefe, Marco Rubio saiu da piscina com taquicardia pra ler a mensagem. Malandro, marcou logo o secretário de Defesa: “@PeteHegseth, não era você quem tava tocando isso?”.

Era. Pra mostrar serviço, mandou a Delta Force suspender a folga no Caribe e soltar o dedo em Caracas. A principal consequência, fora o sequestro do ditador Nicolás Maduro, foi arruinar o descanso do mundo todo.

Quem tava ao alcance do noticiário viu sumir a ilusão de paz e tranquilidade que só esse período proporciona. A ocitocina do sol, mar ou montanha deu lugar ao cortisol do tiro, porrada e bomba.

Existe uma regra não escrita de que nada acontece entre o Natal e a primeira semana de trabalho. O planeta aproveita pra se regenerar coletivamente, cada um sossegado no seu canto, sem sobressaltos. Até mesmo um incontornável plantão costuma ser um plantão menos atribulado.

(“Florescemos num abismo”, escreveu o poeta venezuelano Rafael Cadenas em seu livro “Memorial”. Penso no abismo entre o ano que acaba e o que começa, onde flutuamos deliciosamente por uns dias que parecem não ter começo nem fim.)

As únicas exceções autorizadas a interromper a modorra deveriam ser a morte de alguém tipo Brigitte Bardot, um deslizamento após pancada de chuva em área de risco ou um acidente rodoviário envolvendo um ônibus de turistas.

Aliás, não fossem as algemas discretas, Maduro parecia um turista na Disney: óculos escuros, fones de ouvido, garrafinha de água na mão e moletom da Nike. Ele dorme de pijama imperialista ou foi obrigado a se vestir assim numa estratégia de propaganda neocolonial?

Não são os sonhos que são loucos, louca é a realidade

Wislawa Szymborska, 1993

Caminhando pelo centro de São Paulo, cruzei com um homem andando de patins e muletas. Pois é.

Talvez, num primeiro momento, ele tenha se arriscado nos patins, desastradamente. Resgatado do tombo doído, ganhou o par de muletas no pronto-socorro. Por distração do médico e imprudência do paciente, saiu do hospital utilizando os novos e os velhos acessórios.

Será?

Numa nota menos insólita, poderia se tratar de um mero entregador de muletas. Não um entregador que usava muletas, algo igualmente esdrúxulo, mas um entregador cuja mercadoria a ser levada até alguém impossibilitado de caminhar à loja de artigos ortopédicos era justamente um par de muletas.

Uma explicação razoável, a não ser pelo fato de que era domingo, dia de descanso até pra vendedores de lojas de artigos ortopédicos.

Queria tirar a dúvida diretamente com ele, fonte primária que jornalistas tanto apreciamos, mas não deu tempo: o sujeito passou zunindo por mim.

No reflexo, pensei em tirar uma foto, registro daquele gesto circense capaz de encantar uma rua de pedestres deveras ordinária. Mas quem seria doido de sacar o celular no centro de São Paulo – ou na periferia de São Paulo ou, sejamos francos, em qualquer lugar de São Paulo?

De modo que só fiquei com a visão da figura sobre rodinhas atravessando o calçamento, enquanto equilibrava uma muleta em cada braço, ambas apontadas pro pavimento, prontas pra serem acionadas em caso de desequilíbrio.

Voltei pra casa encasquetado: por que alguém se arrisca nos patins mesmo usando muletas? “Não são os sonhos que são loucos, louca é a realidade”, nas palavras de Wislawa Szymborska.

Não sei se foi essa lua, esse conhaque ou esse final de ano, que botam a gente comovido como o diabo, mas achei a imagem bonita: patinar sobre o infortúnio ou, como dizia o outro, fazer da queda um passo de dança. Um bom presságio pra 2026. Até lá.

O tempo é muito comprido

Paulo Mendes Campos, 1951

Lembra quando dezembro era uma afobação pra resolver tudo o que ficou sem solução nos outros onze meses do ano?

Tempos tranquilos, aqueles.

Agora o ano inteiro é uma afobação pra resolver tudo o que ficou sem solução desde a última vez que você checou o zap.

Caímos num longo e permanente sprint.

Mesmo janeiro, último bastião da modorra, viu sua relativa calmaria ser atormentada por projetos de verão e voluntarismos de escritório. Até quem escapou de fazer plantão na virada sofre com o rebote da folga entre o Natal e o réveillon: já se começa o ano novo correndo atrás do tempo supostamente perdido no recesso.

Mas, admito, ainda há uma ansiedade peculiar neste último mês.

Dezembro é um grande experimento social, quando todos ajustamos nossos relógios com um ponteiro na alegria pré-datada e o outro na certeza de que o fim tá próximo.

Nessa combinação de afeto e loucura, somos tragados por dezenas de compromissos supostamente urgentes e inadiáveis – alguns deles a gente mesmo inventa, só pra se arrepender 10 minutos depois.

(Vamos tomar uma antes de terminar o ano? Claro, que tal terça que vem? Puxa, não consigo. E quarta? Olha, ainda tenho um horário dia 22, entre as 12h30 e 13h15. Pode ser por vídeo, me passa seu e-mail que mando o invite.)

Bem, fui checar na folhinha e o mês de janeiro aparentemente vem aí. Juro. Confirmei no meu celular: abri o calendário, deslizei a tela e, incrível, a sucessão de dias, semanas, meses, anos e séculos segue firme, forte e feroz após 31 de dezembro.

“O tempo é muito comprido”, escreveu Paulo Mendes Campos em “Três coisas”, um dos poemas de “A palavra escrita” – aliás, o poeta PMC é tão bom quando o cronista PMC, embora esse seja muito mais lido do que aquele. De 1951, quando o livro foi lançado, até hoje, aposto que o tempo não encolheu nadinha. Ou, vá lá, quase nada. Não se afobe.

Nosso Brasí tão invejado/ dismantelado/ vai por aí e nós aqui

Patativa do Assaré, 1994 

Jair Bolsonaro fez um curso de leitura dinâmica por correspondência e deixou o caça-palavras de lado.

Leu muito durante a primeira das 1.422 semanas a que foi condenado – cada livro comprovadamente lido são 4 dias a menos trancafiado. A coluna teve acesso exclusivo a seus fichamentos.

*

“Crime e Castigo”, Fiódor Dostoiévski – Chato, talquei? O sujeito fica rodando na própria cabeça, em vez de cancelar logo o CPF da velha. Dosimetria correta: só 8 aninhos de trabalho forçado na Sibéria. Mas prefiro 27 anos e 3 meses de vida mansa a 8 anos no batente.

“Memórias do Cárcere”, Graciliano Ramos – Um falso patriota reclama do governo de pulso forte. Se cadeia é ruim, basta não fazer besteira que não vai parar lá. Saudade de quando era comunista que acabava em cana.

“1984”, George Orwell – Se fosse o Grande Irmão em vez do Ramagem lá na ABIN e do Heleno na Segurança Institucional, eu não tava aqui preso.

“A Divina Comédia”, Dante Alighieri – Tem que ver esse título aí. Livro mais sem graça. Ou será que não entendi a piada? Vou pedir pro Carluxo me explicar.

“Macunaíma”, Mário de Andrade – Já falei, o pessoal dos direitos humanos é que finge que não escuta: os índios tão cada vez mais se tornando seres humanos iguais a nós. Mas não demarco um centímetro de terra pra esse elemento Macunaíma.

“O Alienista”, Machado de Assis – Li meio zonzo ainda, depois daquele meu surto da solda. Quando vi o tal Bacamarte trancado no hospício com um monte de cidadão de bem, lembrei do pessoal do 8 de Janeiro. Meu exército.

“Aqui Tem Coisa”, Patativa do Assaré – Pô, pessoal, poesia? Veja bem, minha paciência tem limite. Ninguém aguenta mais isso aí de verso.

*

Bolsonaro ainda procurou por Olavo de Carvalho na “Relação de obras literárias” do sistema penitenciário. Não tem, pois, em vez de reduzir a pena, cada livro dele pode adicionar até 27 anos e 3 meses de cadeia.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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