COLUNA

Fernando Luna

Nunca seremos mais jovens do que agora

Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre o significado do guarda-chuva, um ranking do Oscar 2026, o desafio do café expresso em hoteis e um consultor de estilo de vida atrás das grades

09 de Fevereiro de 2026

Nunca seremos mais jovens do que agora
Ana Maria Vasconcelos, 2024
Antologia Profética

Há vários marcadores informais e conhecidos de que a idade chegou:

Você encontra um antigo colega de escola e o acha velho – bem, o tempo não passou só pra ele. Um desejo irrefreável de fazer uma tatuagem, que se mostrará um erro. Suas frases incorporam o bordão “Na minha época…”.

Mais alguns anos, chega a confirmação oficial:

O cartão de estacionamento reservado a motoristas 60+. O transporte público gratuito. O atendimento prioritário. A isenção de IPTU. A meia-entrada volta a ser um direito. A fila preferencial no embarque da companhia aérea.

(Se bem que isso precisa ser revisto: com a mudança na pirâmide etária brasileira, a tal fila preferencial nos aeroportos é a maior de todas. O benefício virou aporrinhação. Melhor viajar no grupo C e esperar sua vez sentado.)

Existe, porém, uma maneira mais precisa do que essas pra identificar que se dobrou o Cabo da Boa Esperança etário: o guarda-chuva.

Você sabe que tá velho quando carrega um guarda-chuva sem que esteja chovendo. Só por precaução mesmo. Afinal é verão, época de chuvas torrenciais e inesperadas. O céu azul muda de cor em minutos, encharcando os desavisados a caminho do trabalho ou na volta do almoço.

Mas não você, em pleno esplendor da madureza.

Ressabiado, sai de casa com o trambolho mesmo sem qualquer toró à vista – um planejamento impossível aos moços. Ficaram pra trás os dias em que olhava com desdém senhores com seus guarda-chuvas debaixo do braço, uma gente avessa aos acasos da existência, com medo da aventura de viver.

Ser velho é um estado de espírito e o guarda-chuva pode provar.

O acessório vetusto demonstra que existem anciões de todas as idades. Tem adolescente idoso, jovem Matusalém e Terceira Idade de primeira. Todos eles confirmam os versos da poeta alagoana Ana Maria Vasconcelos, no livro “Longarinas”: “Nunca seremos mais jovens do que agora”.

Enquanto aprende a mágica, aprenda também a acreditar nela
Diane di Prima, 1971

Um ranking pessoal, intransferível e altamente contestável dos concorrentes ao Oscar de melhor filme – do pior pro melhor. Nem todos têm a magia do cinema, mas há truques ótimos.

“F1” – Com orçamento de 200 milhões de dólares, a “Sessão da tarde” mais cara já produzida.

“Frankenstein” – Trauma atravessa gerações. Doutor Victor sofria com o pai e, por sua vez, faz sofrer o filho – a Criatura. Juntos, maltratam o espectador.

“Marty Supreme” – Ninguém sobreviveria a 2h30 de pingue-pongue, não fosse por Timothée Chalamet. As participações especiais do cineasta Abel Ferrara e do escritor Pico Iyer também ajudam.

“Sonhos de trem” – Sem ser pop como “Avatar” ou furioso como “Mad Max”, entra com dignidade no rol de filmes inesperados sobre a crise ambiental.

“Hamnet” – Jessie Buckley dá à sua Agnes a complexidade duma personagem shakespeariana. Já o Shakespeare de Paul Mescal não tem a mesma sorte.

“Bugonia” – Yorgos Lanthimos acerta (“Pobres criaturas”, “O lagosta”) e erra (“Tipos de gentileza”, “O sacrifício do cervo dourado”) com a mesma intensidade. Aproveita, ele acertou de novo.

“Pecadores” – Filme de vampiro nunca é sobre vampiros. Pode ser sobre doença (“Nosferatu”), ditadura (“O conde”) ou qualquer drama humano. Este é sobre racismo.

“Uma batalha após a outra” – Na Era Trump, a distopia vira quase um documentário. Qualquer semelhança entre o coronel de Sean Penn e Gregory Bovino, ex-chefão do ICE em Minneapolis, não é mera coincidência.

“O agente secreto” – Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura criam tensão desde a primeira cena. Quando a tragédia chega, a câmera não mostra — porque viver em estado permanente de pirraça já é uma catástrofe.

“Valor sentimental” – Se existisse um Oscar de “Melhor Atriz Inanimada”, a casa da família Borg levaria. Aos humanos, resta atravessar três gerações pra articular o que até as paredes já sabem.

Medi a vida em colherinhas de café
T.S. Eliot, 1915

Café da manhã incluído na diária do hotel? Há controvérsias. Experimente pedir um expresso.

Não importa quantos tipos de pães, frios, frutas, bolos, queijos, iogurtes, cereais, sucos, tapiocas, biscoitos e ovos façam parte do bufê matinal: um expresso, por mais curto que seja, é considerado um abuso.

O hóspede pode empilhar dezenas de pratinhos após se refestelar com tudo que for capaz de engolir antes das 10 da manhã. Parece justo, diante do preço da estadia.

Só não inventa de solicitar uma alternativa decente ao café morno, quase frio, da garrafa térmica. Aquele mesmo, preparado horas antes e que passou a madrugada refletindo sobre a própria morte.

O garçom vai retrucar, apelando pro que acredita ser o bom senso universal, embora não passe de mau juízo particular. “Tem café ali, senhor”, sentencia, enquanto indica com a ponta do queixo o líquido funéreo.

Quem insiste é encarado como perdulário: “O expresso é pago à parte”. Exige seu nome, sobrenome e número do quarto. Não satisfeito, apresenta uma nota fiscal, pra ser assinada com o capricho do documento de identificação.

Isso é como cobrar um valor a mais pela luz porque você leu até mais tarde. Ou acrescentar uma taxa extra na sua conta – “Notamos que o cavalheiro tomou dois banhos num único dia, estourando sua cota de água”.

O expresso é o Banco Master dos hotéis, capaz de impingir prejuízos fatais aos estabelecimentos? Francamente.

(Mas, reconheço, até um expresso tem suas questões: o primeiro gole é quente demais; o último, inevitavelmente frio. Entre um e outro, porém, você encontra a melhor maneira de atravessar do sono à vigília. E assim vamos medindo a vida em colherinhas de café, até o último gole.)

O setor de hospitalidade demorou uns vinte anos pra tomar vergonha e deixar de cobrar separadamente pelo Wi-Fi. Já passou da hora de acabar com a cobrança abusiva por um expresso.

O melhor lugar para se estar é aquele que se cria
Ricardo Marques, 2014

Esquece o Centrão: Jair Bolsonaro precisa de uma aliança política com Sérgio Cabral.

O ex-governador do Rio é a pessoa mais gabaritada pra fazer da prisão um resort de luxo. Ele transformou o sistema carcerário num circuito Elizabeth Arden atrás das grades.

Durante a hospedagem em 6 unidades prisionais, conseguiu realizar diversas benfeitorias em causa própria – todas ilegais, mas o que é uma irregularidade diante de mais de 400 anos de pena pela Lava Jato?

Manteve uma linha de abastecimento gourmet, que garantia cestas nada básicas com presunto de Parma, queijos franceses, iogurtes, castanhas, bolinhos de bacalhau e camarões.

Deu seus pulos e contrabandeou pra cela uma TV de 65 polegadas. Pra experiência ficar completa, arrumou também um Home Theater, ou Jail Theater, com filmoteca de 160 títulos.

E os advogados de Bolsonaro não conseguem nem uma Smart TV.

Melhor dispensar a banca e contratar o Cabral como Consultor de Hospitalidade. Ele vai tirar de letra o desafio – pra começar, a Papudinha é muito mais aprazível que sua conhecida Bangu 8.

Com 65 metros quadrados, o xilindró do ex-presidente é bem maior que o quarto da pousada que você, cidadão de bem, alugou pro Carnaval – e ainda dividiu em 12 vezes no cartão. Tem master suite com cama box, depósito, lavanderia, Private Garden e segurança 24 horas.

Com dois ou três toques do ex-governador, vira Papudinha Prime Residence “O melhor lugar para se estar é aquele que se cria”, como escreveu o português Ricardo Marques, em “Didascálias”. Nenhum aliado vai ter do que reclamar.

(Tortura é obrigar o ex-Ministro da Justiça, Anderson Torres, e o ex-Diretor da Polícia Rodoviária Federal, Silvinei Vasques, a dividirem a cela. Nenhum ser humano, nem mesmo eles, merecem isso.)

Nesse ritmo, em três meses Bolsonaro será transferido pro Rosewood – onde vai ligar 9 pra reclamar do barulho do ar condicionado.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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