COLUNA

Fabiana Moraes

Cinco mulheres foram à praia passear

Os assassinatos de Alexsandra, Maria Helena, Mariana e Florencia nos avisam: para nós não há direito ao ócio e à distração — e um dia, no mar, descobri (“sua puta!”) como nossa autonomia é sempre provisória

27 de Agosto de 2025

Eu tinha uns 18, 19 anos quando resolvi ir à praia sozinha pela primeira vez na minha vida.

Levei uma toalha, água, um livro. Dinheiro, só de passagem de ônibus, ida e volta.

Morava perto, em um bairro popular, esses de blocos de apartamentos mais baratos que tentam, em vão, organizar a doidice caótica exuberante suada que é a pobreza brasileira: Conjunto Dom Hélder Câmara, em Piedade, Pernambuco.

Tinha chegado na areia há no máximo 30 minutos. Estava lendo, deitada, quando um rapaz magrinho se aproximou com um coco verde, gelado. “Mandaram entregar para você”. Eu olhei para ele, que apontava para um grupo de homens jovens sentados em um bar à frente. Olhavam para mim e sorriam.

Eu recusei o presente — porque, obviamente, não era um presente. O rapaz ficou sem jeito. “Certeza que não vai querer?”. Eu confirmei e ele foi embora com o coco geladinho.

Não demorou e ele voltou. Estava ainda mais constrangido. “Eles fizeram questão que você aceitasse.” Só então entendi que minha afronta ao Grande Reino Universal dos Homens — ir à praia sozinha — estava cobrando seu pedágio.

O corpo feminino não pertence inteiramente a si. Ele pode ser agredido, eliminado, sem que a violência encontre justificativas racionais

Parei de ler, sentei na toalha e disse ao pobre moço que eu não queria nada. Nunca esqueci sua cara desolada: “Não precisa tomar a água não, só aceite por favor para não ter problema”.

O coração deu um pequeno rodopio. “Para não ter problema.” Eu estava sozinha, em um lugar público, sem mexer com ninguém — mas descobri que era exatamente por isso que eu podia estar causando um problema. Levantei e comecei a arrumar minhas coisas para ir embora. O rapaz voltou relutante para o bar. Assim que eu comecei a caminhar de volta para casa, comecei a ouvir: “puta!”; “vai embora, sua puta!”; “tá pensando que é o quê?”. Algumas pessoas olhavam pra mim. Senti as costas queimando: no meu medo difuso, achava que logo receberia um tiro.

O grupo de homens cobrava caro pelo coco gelado que eu não aceitei.

*

Eu vi o vídeo registrado por uma câmera de segurança na semana passada: nele, Alexsandra Oliveira Suzart, 45 anos, Maria Helena do Nascimento Bastos, 41, e Mariana Bastos da Silva, 20, filha de Maria Helena, caminham à beira mar, um fim de tarde. Conversavam e levavam um cachorro para passear com elas.

Poucas horas depois, ele estava amarrado a uma árvore, vivo, enquanto as três mulheres estavam ali perto, mortas.

Alexsandra, Maria Helena e Mariana, assassinadas à facadas e cacos de vidro, não sofreram violência sexual, nem foram roubadas. A polícia baiana afirmou que um homem, Thierry Lima da Silva, confessou o crime — uma declaração repleta, até agora, de inconsistências.

Do latrocínio, ele teria obtido R$ 30.

Olhei algumas vezes o vídeo muito rápido da mãe e filha, da amiga e do cão, passando longe da câmera, os pés na areia, lambidos pelo mar. Caminhar à beira da praia, ao lado de pessoas que amamos, é uma espécie de clichê querido e desejado que sintetiza a felicidade.

Mas poucas coisas são tão atacáveis quanto o descanso e o prazer de uma mulher.

O terrível crime me fez, na hora, rememorar meu breve descanso na areia da praia na década de 1990, assim como o retorno para casa, atônita, carregando na bolsa a toalha, a água, o livro e uma humilhação absurda e inexplicável. Não por ter sido chamada de puta — talvez, se eu fosse puta, teria agido de maneira valente, enfrentado o medo e defendido meu sossego. Minha humilhação e perplexidade estavam no fato de eu não poder ficar, me sentindo segura, em um espaço público amplamente popular.

Tarefas mínimas, triviais, que para o corpo masculino soam neutras, mas no corpo feminino são lidas como afronta ou convite

O que houve comigo não se compara em nenhum grau à violência sofrida pelo trio de mulheres. Mas aqui, viva e ainda segurando minha bolsa carregada de assombro, não consigo parar de imaginar as três, relaxadas, conversando e felizes, até que uma pessoa ou grupo se aproxima. Consigo, longe como a câmera de segurança que registrou os últimos momentos de vida daquelas mulheres, imaginar um pouco do terror que toma conta do corpo distraído e leve cuja alegria é bruscamente interrompida.

O terror que tomou conta, por exemplo, do corpo relaxado de Florencia Aranguren, 31 anos, quando ela também passeava pela manhã, perto da praia, com seu cachorro. Era 2023 e fazia apenas três dias que a moça havia ido morar em Armação dos Búzios. Como no triplo assassinato, o animal também foi encontrado vivo ao lado de sua tutora morta.

Dois cães testemunhas do desprezo que o corpo feliz de uma mulher provoca.

*

Sabemos: a distração de uma mulher é uma abstração. Seu corpo é observado, avaliado, interrompido, interpelado. É um corpo que precisa negociar o tempo todo a própria presença, seja recusando um coco gelado (“sua puta!”), seja disfarçando o medo ao atravessar uma rua deserta, seja fingindo não ouvir os insultos que se tornam trilha sonora de tantas caminhadas. Seja imaginando, enfim, que uma caminhada ao nascer do sol, em trio, perto de casa, será um programa seguro.

Não existe nenhum espaço seguro para uma mulher.

O que esses episódios — da humilhação cotidiana aos assassinatos brutais — escancaram é a mesma lógica de controle: a de que o corpo feminino não pertence inteiramente a si. Ele pode ser interrompido, agredido, eliminado, sem que a violência encontre justificativas racionais, porque a justificativa é, perversamente, o próprio fato de ser um corpo de mulher.

Essa fragilidade socialmente construída — e não natural — transforma os gestos mais simples em potenciais riscos. Deitar na areia para ler, caminhar com amigas e um cachorro, morar sozinha em uma nova cidade. Tarefas mínimas, triviais, que para o corpo masculino soam neutras, mas no corpo feminino são lidas como afronta ou convite. O perigo se insinua justamente na liberdade mais banal.

Foi à praia sozinha? Tá querendo homem.

Foram andar na praia deserta? Ah, mas aquela área tem pouca gente, né? (achei bem ruim o texto dessa matéria de TV aqui, como se mãe, filha e amiga tivessem alguma culpa por suas mortes).

Foi caminhar com o cachorro em uma trilha? Mas ela não sabia que o balneário é perigoso?

(…)

Como se vê, a praia, espaço de lazer e descanso, aparece aqui como cenário recorrente. O lugar que deveria ser território da entrega ao prazer do sol e do mar, converte-se em palco da pedagogia da violência. É ali, à beira d’água, que as mulheres são lembradas de que a sua autonomia é constantemente vigiada, de que a sua liberdade é sempre provisória, de que a sua paz pode ser quebrada a qualquer instante.

E se a morte de Alexsandra, Maria Helena, Mariana e Florencia se impõe como tragédia, é porque prolonga e radicaliza um aviso já dado a todas nós em escala menor: não há direito ao ócio, ao descanso, à distração, sem que estejamos dispostas a pagar o preço de sermos lembradas do nosso lugar. O assassinato é o extremo da mesma pedagogia que chama de puta a mulher que ousa ler sozinha na praia.

“Tá pensando que é o quê?”

***

Um dia, fazia sol, cinco mulheres saíram para passear na praia.

Eu, lá no passado, em um ônibus da linha Borborema, consegui voltar com minha bolsa, o coração rodopiando e o medo de levar um tiro, para casa.

Alexsandra, Maria Helena, Mariana e Florencia, não.

Fabiana Moraes é jornalista com doutorado em sociologia e professora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pesquisa poder, representação, hierarquização social e a relação jornalismo e subjetividade. Três vezes finalista do prêmio Jabuti, é vencedora de três prêmios Esso e um Petrobras de Jornalismo. É autora de seis livros, entre eles O Nascimento de Joicy e A pauta é uma arma de combate (Arquipélago Editorial). Foi repórter especial do Jornal do Commercio. É também colunista no The Intercept Brasil. Antes, UOL e piauí. Quando tem tempo, paga de DJ nos inferninhos de Recife.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação