COLUNA

Pedro Abramovay

Primeiros governos Lula responderam ao Brasil dos Racionais MC’s. Saberemos responder ao Brasil de Emicida?

A arte tem esse poder de dar sentido ao nosso tempo. A polítíca pode usar esse sentido para gerar uma mobilização coletiva com vistas a uma transformação social

28 de Maio de 2026

“Dormir mais de oito horas por dia. Tomar café da manhã com calma. Chegar no trabalho em menos de uma hora. Sair com um amigo de vez em quando, sem pressa pra ir embora. Ficar até mais tarde em um lugar, sem precisar acordar cedo no outro dia. Tirar os domingos e feriados de folga. Ir no parque fazer um piquenique. Tomar um sorvete na praça no meio do dia. Fazer todas as consultas e exames necessários. Visitar a família toda semana ou receber a família em casa toda semana. Fazer terapia presencial. Cuidar de todas as plantas da casa. Responder os áudios dos amigos no Whatsapp. Ir em todos os aniversários e casamentos dos amigos. Passear com a mãe no dia das mães. Recusar outros trabalhos pra não ocupar o tempo de descanso. Não adiantar o que não precisa. Descansar. Respirar. Enxergar. Sorrir. Cantar. Comemorar. Plantar. Regar. Colher. Pausar. Escolher. Pertencer. Se essa fosse a realidade, onde estaríamos agora? A quem pertence o nosso corpo? Quando iremos desobedecer a ordem?”

Há muito eu não ouvia com tanta clareza um quadro da utopia do nosso tempo. Nosso tempo tem nos inundado de futuros distópicos. Como se a realidade não fosse dura o suficiente, precisamos também poluir nosso imaginário de distopias.

O trecho acima é da peça “Tá pra Vencer” do dramaturgo Jhonny Salaber que entremeia o novo show de Emicida: “Mesmas Cores, Mesmos Valores”. Um show monumental. Ou até um show-monumento. Não apenas na sua grandiosidade (mais de três horas, vários convidados, cinema, teatro, poesia, arte visual). Mas naquilo a que se propõem os monumentos: fincar um símbolo grandioso para se emocionar com o passado e olhar para o futuro.

Simone Veil, a escritora francesa, nos ensina que a diferença da história para a memória é o afeto. A valorização da memória, da experiência do passado transmitida por quem o viveu, é o que permite olhar para trás com o sentido de um enraizamento, uma relação real de aprendizado e inspiração entre o passado e o futuro.

Emicida fez um disco sobre memória e, a partir disso, ele quebra o bloqueio que o nosso tempo tem para olhar para o futuro, tão poluído de medos.

Emicida fez um disco sobre memória e, a partir disso, ele quebra o bloqueio que o nosso tempo tem para olhar para o futuro, tão poluído de medos

O disco que dá nome e corpo ao show é uma homenagem aos Racionais MC’s. Um diálogo. Vai quase faixa a faixa remontando “Cores & Valores”, lançado em 2014 pelo grupo paulista. Com referências constantes a quase toda a obra dos Racionais.

Tanto no disco quanto no show, Emicida vai construindo esse diálogo entre a memória, o passado, e um futuro possível, desejado. Os processos não são nada fluidos, são sempre contraditórios, conflituosos. Mas nesse conflito está contida a chave para a sua resolução.

Se, no início do show, Emicida traz “Ismália encontra a Paz” e rejeita a paz anódina das pombas brancas ao questionar “Que tipo de pessoa cabe na sua ideia de paz?”, o sentimento se transforma no decorrer da apresentação. Ao longo do espetáculo, essa paz ganha um sentido mais político, justo e construído coletivamente, desembocando em “A Paz”, de Gilberto Gil, uma obra que abraça a contradição e afirma que “Só a guerra faz nosso amor em paz”.

Essas contradições vão se montando muito a partir da relação de afeto e tensão com os Racionais. Se o show os coloca no panteão, “Quem descobriu nosso Brasil? Pedro Paulo [Nome do rapper Mano Brown]”, Emicida também vai constantemente deslocando os medos e desejos cantados pelos Racionais, no Brasil dos Racionais, e os cantados por ele, no Brasil de hoje.

“Nas universidades brasileiras apenas 2% dos estudantes são negros”, cantaram Racionais. Hoje são mais de 40%. Mas quais são as perspectivas de futuro que se apresentam?

Emicida carrega uma sofisticação em suas rimas e aliterações, na profundidade das referências literárias e musicais, que representam todas as capacidades da geração que ascendeu no Brasil de Lula, tantos primeiros a fazer universidade em suas famílias, que fazem doutorado e reescrevem a historiografia, as ciências, a literatura, a partir de suas conexões afetivas com o passado recente. Essa geração está ali representada quando Emicida pega a letra considerada a grande obra prima do cancioneiro popular, “Construção”, e ergue, tijolo por tijolo, num desenho mágico, uma nova letra:

Retorno intrépido
Amando como o último
Rimando sempre único
O mesmo zóio tímido
Sem fluxo de máquina
Quatro paredes sólidas
Quem une verso mágico?
Tendeu cimento e lágrima?
Meu coração é sábado
Vai livre como um príncipe
Flutuo como um náufrago
Encarnação da música
Gingando como bêbado
Voando como pássaro
Jamais pacote flácido
Energizando o público
Atravessando o tráfego
Todo momento é último
Por isso a vida é única
Respeito filho pródigo
No caminhar do bêbado
Nesse momento sólido
Minhas palavras mágicas
Num patamar ilógico
Puro cimento e tráfico
Sabe eu não nasci príncipe
Jamais num verso flácido
Puro terror do sábado
É tudo menos prático
O ótimo do ótimo
Ideias para empréstimo
Nessa forma de súplica

Essa geração quer emprego de qualidade, quer saber que pode construir um país no qual a inclusão seja em outra escala.

A falta de comida na mesa, que aparece tanto nos Racionais, dá lugar ao corre, à dificuldade de respirar. As necessidades mudaram. As demandas mudaram. Os desejos mudaram

A falta de comida na mesa, que aparece tanto nos Racionais, dá lugar ao corre, à dificuldade de respirar. As necessidades mudaram. As demandas mudaram. Os desejos mudaram.

Outro trecho da peça que aparece no show:

“Eu não paro. Eu não paro. Eu não paro. Eu não consigo parar. Dentro do carro, as minhas mãos seguram um volante infinito, girando na roda dos ratos. Dizem que eu preciso continuar pra vencer. Tá Pra Vencer! Tô pra vencer! Me prometeram que eu vou vencer. Mas quando o corpo arrega, quando me lembra por dentro que eu ocupo uma humanidade, o refúgio é um café bem forte pro olho não fechar de vez e continuar rodando. Eu não paro. Eu não paro. Eu não paro. Eu não consigo parar. Aplicativo 1… Aplicativo 2… decidem quando volto pra casa. É que a vida tá custando muito caro e eu tô sempre inteirando pra pagar. Mas quando a humanidade grita novamente e me obriga a ir pra casa, eu fumo um cigarro no quintal de casa e gasto a insônia diária vendo a cidade nascer novamente: a cor do céu mudar atrás da caixa d’água, a neblina cobrir a ponta do poste, o som dos poucos pássaros, a torneira da pia do vizinho, o pastor da televisão e a música de piano enquanto ele fala, os primeiros ônibus de lotação e os latidos dos cachorros. Eu vou sentindo frio, o sangue volta a correr pelos meus braços e eu durmo pesado, parado, estático, sem mudar de posição, como um peixe quando perdendo o oxigênio. E só depois é que o sol nasce.”

É como se Racionais cantassem o Brasil que foi transformado pelos governos Lula 1 e 2. E Emicida canta o Brasil que precisa ser transformado hoje. O show de Emicida consegue traduzir as necessidades e desejos do Brasil de hoje como ninguém. E o show se firma como uma chave para as mudanças políticas do Brasil de hoje. Mesmo na música “Uns mesmo preto zica”, em que Emicida faz uma colagem de versos dos Racionais, alguns trechos soam hoje, em sua boca, com sentidos diferentes dos que tinham antes. O que significava dizer “Precisamos de líder de crédito popular”, em 1993? O que significa em 2026?

Laura Carvalho e Guilherme Klein escreveram recentemente artigo na Folha de São Paulo que tem por tese central a ideia de que “o Governo Lula 3 entrega uma macroeconomia de resultados respeitáveis, mas não a experiência de mobilidade social que transformou o Brasil dos anos 2000”. No artigo, eles apontam essa frustração de uma geração que foi pra universidade esperando mais do que conseguiram, principalmente em um mundo no qual as redes sociais vendem expectivas irreais de consumo.

Os governos Lula 1 e 2 conseguiram projetar um Brasil que crescia, incluía quem nunca foi incluído, acabava com a fome, ampliava o acesso à universidade. Não se tratava apenas da mudança palpável, mas havia, no imaginário público, clareza sobre para onde o Brasil estava indo.

O Brasil de hoje carece de futuro. A gestão do presente não mobiliza os desejos. Os desejos do Brasil de Emicida não são os mesmos do Brasil dos Racionais

O Brasil de hoje carece de futuro. A gestão do presente não mobiliza os desejos. Os desejos do Brasil de Emicida não são os mesmos do Brasil dos Racionais.

Mas como a política será capaz de articular esses desejos, desses novos sujeitos políticos, em um projeto de país?

Quem parece ter a capacidade de fazer isso atualmente é o prefeito de Nova Iorque, Zohran Mamdani. Mamdani desmonta o neoliberalismo e propõe respostas concretas para as necessidades de hoje.

Mamdani lembra a frase do ex-presidente Ronald Reagan: “As nove palavras mais terríveis que alguém pode ouvir são: “Eu sou do governo e estou aqui para ajudar”. E responde: “Não, as nove palavras mais terríveis são “trabalhei sem parar e não consigo alimentar minha família”. A partir disso, reconstrói uma
política na qual o Estado pode responder às ansiedades concretas das famílias: creche, transporte, comida mais barata.

Escrevo esse artigo tendo acabado de visitar um projeto da prefeitura da Cidade do México chamado Utopías. É um complexo de 25.000m² destinado a políticas de cuidados. Creche, lavanderia, academias, manicure, piscinas, quadras esportivas, aulas de música e dança, laboratórios de robótica. A prefeita Clara Brugada já construiu 18 e promete chegar a 100 até o fim de seu governo. Ali se concretiza a ideia de que cuidados são serviços públicos. Que cabe ao Estado garantir que a vida não seja só o corre.

Emicida olha para suas referências e para as referências de suas referências, além de Gil, o show tem Tim Maia, Sandra de Sá, Cassiano. E, a partir disso, explica que as necessidades mudaram, os desejos mudaram e também mudaram as utopias.

A arte tem esse poder de dar sentido ao nosso tempo. A polítíca pode usar esse sentido para gerar uma mobilização coletiva com vistas a uma transformação social. Emicida deixa claro que seu projeto é coletivo, trazendo tantos convidados, de distintas gerações, para seu show. A pergunta que fica é: será que a polítca conseguirá responder a esses desejos enraizados nas necessidades de hoje?

Pedro Abramovay é advogado, doutor em Ciência Política pelo Iespe/Uerj, ex-secretário Nacional de Justiça e atualmente vice-presidente de Programas da Open Society Foundations

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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