COLUNA

Fabiana Moraes

“Eu pensei, tu pensou, vós pensamos”: a influenciadora, o apito de cachorro e o racismo recreativo

A violência que pipocou nos comentários da publicação na qual a influencer Virgínia Fonseca beija um macaco, dias após o fim da relação com o jogador Vini Jr., não nasceu do nada: ela foi convocada

27 de Maio de 2026

O vídeo no qual a influenciadora Virgínia Fonseca aparece sendo beijada por um macaco é um horror.

O vídeo no qual a influenciadora Virgínia Fonseca aparece sendo beijada por um macaco é um acinte.

O vídeo no qual a influenciadora Virgínia Fonseca aparece sendo beijada por um macaco é um monumento à desumanização.

É um horror.

Resumo: poucos dias depois do rompimento do namoro com o jogador de futebol Vini Jr., uma das influenciadoras com mais seguidoras e seguidores da América Latina (só no Instagram, são atualmente 52.9 milhões de pessoas) postou nos Stories um vídeo curto no qual beija um macaco na boca. “Que pegada foi essa?”, disse.

Automaticamente, o conteúdo começou a ser reproduzido em escala exponencial, primeiro em páginas de fofoca nas redes sociais (milhões e milhões e milhões de leitoras/es) e, depois, “polêmica” instaurada, também nas redes e sites da imprensa nacional. Na seara das primeiras, o que se viu nos comentários e repostagens foi um show da triste atração que não sai dos palcos brasileiros: extrato puro de racismo. Abaixo, reproduzo um pequeno exemplo vindo do perfil do site Choquei.

 Reprodução/Instagram

O racismo que apareceu nos comentários não é novidade, e essa é exatamente a questão. Ele não precisou ser anunciado, explicado ou convocado. Ele já estava ali, aguardando apenas o estímulo certo para emergir com naturalidade, envolvido em risadas e emojis.

É o que pesquisadores chamam de racismo recreativo: aquele que se apresenta como brincadeira, que ri de si mesmo quando confrontado, que diz “foi só uma piada” e conta com a cumplicidade de quem assiste sem se pronunciar. O apito de cachorro no título dessa coluna não é metáfora gratuita, é a descrição precisa de um mecanismo: uma frequência que nem todos dizem ouvir, mas que mobiliza, de maneira bastante eficiente, quem está sintonizado nela.

Verdadeira globetrotter que viaja por cidades diversas ao redor do Brasil e do mundo e dona de uma fortuna exuberante (a influenciadora informou que sua empresa, a WePink, lucrou R$ 750 milhões em 2024), Fonseca é certamente uma pessoa que está a par do tráfego noticioso das redes sociais, principalmente aqueles que envolvem celebridades como ela e o seu agora ex-namorado. Assim, é difícil, bem difícil, que ela não tenha acompanhado ou sabido de pelo menos um dos tantos casos de racismo que o jogador vivenciou: como mostra esta matéria da BBC Brasil, em oito anos no Real Madrid, ele já denunciou mais de 20 casos de racismo. Namorando durante meses com ele então, podemos concluir que a empresária estava muito bem informada das violências dirigidas ao atleta por conta da cor da sua pele.

É o racismo recreativo: aquele que se apresenta como brincadeira e conta com a cumplicidade de quem assiste sem se pronunciar

É bom dizer também que, apesar de branca, Fonseca mora há quase 30 anos nesse grande Brasil onde, dia sim e outro também, pipocam notícias sobre discriminação racial. Ainda que esse conteúdo não seja muito “top”, borbulhante e interessante para o sintético mundo rosa e dourado das influencers milionárias afeitas à bets e tigrinhos, certamente devem chegar hora ou outra aos célebres ouvidos.

Depois que os comentários violentos sobre o jogador explodiram, depois que as críticas à postagem do vídeo se multiplicaram, a moça, é claro, fez um vídeo falando que as pessoas estavam interpretando erroneamente sua publicação. Teve o clássico “peço desculpas a quem se sentiu ofendido”. Bem, eu me senti. E eu não desculpo, embora isso não vá fazer a menor diferença para a moça (para mim, sim).

A questão é que aqui não tem “ops, foi mal”. A influenciadora é uma pessoa perspicaz e sabe o que é correlação, imagem e reverberação. E racismo.

Sobre isso, o humorista Yuri Marçal foi sintético: “Você namora sete meses com um homem negro que toda semana tem a imagem associada a macacos por racistas europeus, e quatro dias depois do término você posta exatamente isso. A palavra mínima é irresponsabilidade.” A influenciadora Ana Elisa também fez um comentário importante sobre a questão.

A palavra que Yuri Marçal escolheu — irresponsabilidade — é precisa, e vale a pena detê-la mais um pouco. Quem tem 52,9 milhões de seguidores não é apenas uma pessoa com uma conta no Instagram. É uma infraestrutura, é um veículo. O capital da visibilidade — essa capacidade instável e poderosa de se distinguir dos meros mortais e fazer chegar uma mensagem a dezenas de milhões de pessoas com um único clique — não é neutro, não é inocente e não acontece sem consequências.

Ele implica uma responsabilidade proporcional ao seu alcance. Não existe, nesse caso, o argumento do descuido ingênuo: quando você tem essa audiência, cada escolha editorial (e postar um vídeo nos Stories é uma escolha editorial) produz efeitos reais no mundo real. Virgínia Fonseca, que não chegou ontem na internet, sabe disso.

O racismo que pipocou nos comentários não nasceu do nada. Ele foi convocado. E quem tem o capital da visibilidade tem também, necessariamente, o capital da responsabilidade, goste ou não dessa conta.

Conversei com a pesquisadora Letícia Moraes, coordenadora do Laboratório de Semiótica da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que fez uma análise precisa do vídeo. “O pulo do gato semiótico nisso tudo está no duplo sentido de macaco: ele pode ser, à primeira vista, lido apenas como um animal, mas remete a uma figura que constrói a temática do racismo — associação que circula na cultura ocidental há pelo menos dois séculos, desde a leitura enviesada da teoria da evolução que aproxima pessoas negras à categoria dos primatas. Virginia cresceu nessa cultura. O vídeo mobiliza elementos que reforçam essa leitura: o macaco vestido com uniforme esportivo, humanizado, atletizado, o beijo na boca como gesto de relação afetiva, e a frase ‘que pegada foi essa?’, termo de duplo sentido que remete tanto ao contato físico quanto ao esporte. Cria-se o sentido de ‘a fila andou’, e, numa leitura sobre o racismo, andou para o próximo macaco. Virginia não precisa ter tido intenção racista para que o efeito seja racista. O racismo implícito opera exatamente assim: pela ambiguidade calculada que oferece saída para quem quer sair e munição para quem quer atirar.”

Quem tem o capital da visibilidade tem também, necessariamente, o capital da responsabilidade, goste ou não dessa conta

Para a pesquisadora, o pedido de desculpas publicado logo após a chuva de críticas segue a mesma lógica do vídeo original: semioticamente construído para parecer espontâneo (cabelos molhados, maquiagem natural, a própria influenciadora filmando, sem intermediações), mas igualmente planejado. Linguisticamente, reconhece o racismo enfrentado pelo ex-namorado, culpa os jornalistas e críticos por terem “levado para o outro lado” e chama de “comparação ridícula” a associação semiótica que o próprio vídeo construiu. Não à toa, observa Letícia, no sábado seguinte, Virginia comemorou estar entre os dez perfis mais engajados da semana, ficando apenas atrás do Neymar — engajamento conquistado também com o vídeo do macaco. A foto escolhida para celebrar? Ela com uma girafa. Quem tem o capital da visibilidade sabe exatamente o que está fazendo. E faz de novo.

(As respostas completas da pesquisadora podem ser lidas abaixo.)

***

O episódio me fez lembrar de algo recente: há alguns dias, durante uma palestra que eu ministrava, percebi que boa parte do grupo formado por pessoas bastante jovens estava especialmente dispersa. Olhavam o celular. Resolvi parar a apresentação e disse: “posso fazer uma pergunta para vocês?”. Felizmente, conquistei a atenção de alguns.

“Quem aqui tem vontade de mudar o mundo?”. Quase todo grupo levantou a mão (o que, preciso dizer, me deixou mais feliz).Fiz outra pergunta, materializando o lugar da minha inquietude:

“Vocês acham que vão mudar o mundo estando o tempo todo distraídos?”

(…)

Silêncio.

(…)

A distração, percebam, também não é um estado de neutralidade. Ela é, em si, uma forma de posicionamento político involuntário e, por isso, mais perigoso. Quando estamos ocupados boa parte do tempo olhando Virgínia e congêneres, pulando de um vídeo para outro, de um impulso para outro, estamos também capitalizando aquela ou aquele que é visto. O que dá poder — a fama — a uma pessoa é nada mais do que aquilo o que a elas concedemos: nosso tempo e atenção. A questão é que não nos perguntamos o que recebemos de volta. Ficamos ali, “entretidos”, distraídos, enquanto o mundo pega fogo.

Se distrair é bom e parte fundamental da nossa vida, e sou uma defensora ferrenha da festa, do lazer, do riso, do gozo. Se distrair é um respiro.

Mas há um óbvio desequilíbrio entre a energia que estamos concedendo à personagens vendendo vidas tão reais quanto grama sintética e a esse grande mato que é a nossa própria existência. Mais: estamos distraídos olhando a vida de um “outro” mediado pelas telas enquanto o “outro” bem ali do nosso lado, encarnado em gente, virou espectro.

Fico pensando na gente, deslizando o dedo na tela nesse eterno scrolling, enquanto uma vida inteira fica ali do lado nos esperando, às vezes besta, às vezes terrível, às vezes maravilhosa.

Nós, deslizando distraidamente o dedo na tela enquanto alguém pede socorro.

Se é verdade que o espaço “dentro” e “fora” do ambiente digital há muito foi borrado e estamos mais do que nunca submersos em uma cultura da performance, é interessante pensar que podemos usar também nossa atenção para discutir por que, em 2026, um jogador negro ainda seja animalizado tanto lá na Europa quanto aqui no Brasil.

Usar esse tempo para alimentar — com cliques, comentários, compartilhamentos — o ecossistema que tanto pode fazer de Virgínia Fonseca uma milionária quanto popularizar, por meio de crítica e denuncia, atos que promovem a discriminação, a violência e a destruição do outro.

A nossa atenção é o grande produto. E se nós a entregamos de graça, em tempo real, com entusiasmo, podemos equilibrá-la entre a distração e a ação (aliás, vocês já conhecem o projeto Control Z?).

É preciso entender quem nós somos nesse jogo: se estamos alimentando o algoritmo que recompensa exatamente o tipo de conteúdo disponibilizado sem responsabilidade, ampliando o alcance de quem lucra com a ambiguidade, e nos afastando, um scroll de cada vez, das perguntas que realmente importam. O racismo recreativo sobrevive precisamente porque é entretenimento. E o entretenimento, diferente da política, não cansa.

Não é tarde para nos perguntar: quem e o que deve mesmo merecer a maravilha que é a nossa atenção?

*

Leia aqui a entrevista com a pesquisadora Letícia Moraes, coordenadora do Laboratório de Semiótica da Universidade Federal da Paraíba (UFPB):

  • G |Queria seu olhar sobre o vídeo no contexto no qual foi lançado (fim do namoro e fato de Vini ter sido publicamente alvo de diversos ataques racistas).

    Letícia Moraes |

    Nas imagens do vídeo, vemos uma mulher branca levar um macaco vestido com um uniforme esportivo para que Virginia, outra mulher branca, o beije na boca, enquanto uma terceira pessoa filma em close-up. Em seguida, escutamos algumas vozes de fundo de pessoas dizendo “oh meu Deus”, “eita”, enquanto vírginia fala ao mesmo tempo “Que pegada foi essa?”, olhando, com sorriso, para lente da câmera.
    O pulo do gato semiótico nisso tudo está no duplo sentido de macaco: ele pode ser, à primeira vista, lido nesse vídeo, semanticamente, apenas como um animal, mas ele pode remeter a uma figura que constrói a temática do racismo. Virginia ao produzir o vídeo com todas essas características mencionadas, faz uso do “implícito” e deixa para seus seguidores, o público em geral, os jornalistas e os analistas do discurso, o trabalho de decidir o significado do que realmente estão vendo: apenas uma influenciadora passeando no zoológico e tendo uma interação com um animal ou a ex-namorada branca de um atleta negro, diversas vezes vítima de racismo pela comparação com um macaco, comemorando o fim do namoro beijando esse mesmo animal para ofendê-lo de maneira racista? É esse jogo de duplo sentido que leva defensores, críticos, jornalistas e analistas do discurso a se sentirem compelidos a comentar o caso. Com isso, Virgínia ganha mais visibilidade, amplia sua presença na mídia tradicional e nas plataformas digitais e aumenta, portanto, seu valor semiótico e financeiro. É quase uma armadilha para todos nós.

    E o que é que sustenta essa leitura do racismo no vídeo? Em primeiro lugar, é preciso lembrar que Virgínia estava na mídia poucos dias antes por conta do término com um jogador mundialmente famoso e que se tornou uma figura emblemática sobre racismo no futebol pela mídia nacional e internacional ao ser sistematicamente vítima de racismo, sendo, muitas vezes, chamado de “macaco”.
    Bem… assim como a suástica está para o nazismo, o uso do substantivo “macaco” para se referir a humanos com pele escura está para o racismo. A relação entre a figura do macaco e o tema do racismo é bastante conhecida na cultura ocidental, na qual Virginia cresceu e continua a fazer parte. Essa associação decorre de uma leitura da teoria da evolução, em que pessoas negras são aproximadas à categoria dos primatas, como se fossem uma “espécie em transição”. Tal leitura enviesada circula na nossa cultura há pelo menos dois séculos.

     

    E o vídeo que tivemos acesso permite a leitura da temática do racismo, ao usar diferentes elementos e linguagens que humanizam o macaco, como o beijo na boca, uma prática social usada principalmente entre pessoas que mantêm uma relação afetiva e/ou sexual na nossa cultura. E ela é também reforçada pelo uso do uniforme esportivo no animal: como sabemos, macacos não usam roupas, muito menos uniformes, porque eles não são atletas. Ao escolher essa vestimenta para o animal que apareceria no vídeo, há uma humanização do macaco e uma construção temática muito específica, a do atleta. Além disso, quando a própria Vírginia diz “que pegada é essa?”, ela está relacionando a interação gestual e corporal entre um ser humano e um animal como uma “pegada”, termo que remete à intensidade do beijo, do toque, sendo de natureza semântica humana e sexual. E, aqui, vale ressaltar que o termo pegada também é usado no esporte, inclusive no futebol, o goleiro, por exemplo, precisa treinar a “pegada correta”. Temos portanto uma associação semiótica no vídeo com os temas do racismo e do atletismo.

    O vídeo do beijo após terminar um relacionamento remete também às relações amorosas- sexuais da própria influenciadora: não trata-se apenas de uma interação inocente entre um humano e um animal qualquer do zoológico, pois a Vírginia diz que é uma “pegada”. Cria-se o sentido de “a fila andou”. Ou seja, em uma leitura sobre o racismo, a fila andou para o próximo macaco.

    Para entender porque uma pessoa que tem muito a perder escolhe fazer isso em tempos em que as questões raciais estão em pauta, é preciso olhar todo o ecossistema tecnossemiótico em que vivemos na atualidade: a visibilidade e o engajamento em plataformas de mídias sociais geram dinheiro e existência semiótica na sociedade, independente do teor das ações, se são consideradas positivas ou negativas. E quanto mais hiperbólicas, isto é, lidas como exageradas, mais engajamento geram.
    Percebemos nas ações de Virgínia e também de outras celebridades e até mesmo de políticos atuantes nessas plataformas, ações muito bem planejadas pra gerar engajamento, rentabilidade financeira ou votos. Um exemplo é o caso quando Virgínia foi prestar depoimento na CPI das bets para se defender das acusações de diferentes crimes e fez uso do espaço e do aparato governamental e midiático para divulgar sua marca e ainda reforçar uma imagem positiva (milimetricamente construída por meio de sua gestualidade, ações, falas, das roupas usadas, da interação com parlamentares, etc). De um ponto de vista semiótico, ela foi muito bem sucedida. Virgínia aparece, não muito tempo depois, como rainha da bateria de uma escola de samba, aproveitando a visibilidade negativa que o caso trazia para seu nome (que é a sua maior marca) para gerar em torno dela novos sentidos, que fossem considerados positivos pelo seu público.
    Ambos os casos (da atuação na CPI e do vídeo beijando no macaco) partem de um mesmo princípio: “falem bem ou falem mal, falem de mim.” E ela é uma figura midiática que sabe muito bem usar isso, está sempre fazendo uso de duplos sentidos. Se ela é associada ao crime organizado, ela também é associada à ingenuidade. Se é ao racismo, também é ao amor pelos animais e à espontâneidade. Isso lhe garante uma presença midiática intensa, além da renovação do contrato de fidelidade dos seguidores e dos críticos.

    Não me assustará nem um pouco ver Virgínia fazendo alguma ação de marketing mais organizada nessas próximas semanas ao evento do vídeo no zoológico para aproveitar o engajamento e faturar.

     

  • G |E o vídeo de “desculpas” de Virgínia, dizendo que jamais foi intenção dela? Como pensar isso quando se tem 53 milhões de seguidores somente no Instagram?

    LM |

    O pedido de desculpas de Vírginia segue a mesma lógica de sua defesa na CPI das bets. Se no primeiro vídeo beijando o macaco, ela está com óculos de sol,cabelo escovado e toda maquiada, com uma terceira pessoa filmando e falando de maneira mais efusiva, na hora de se defender ela aparece com cabelos molhados, maquiagem natural, sem óculos, olhando diretamente para seu público, com ela mesma filmando, sem intermediações e com a voz mais baixa e calma. Há toda uma construção semiótica do pedido de desculpas que perpassa pelos temas da “espontaneidade” e da “ingenuidade”.

    Linguisticamente, no seu pedido de desculpas, reconhece o racismo enfrentado pelo ex- namorado e reforça os valores do seu caráter, sem explicitá-los para o público. Não sabemos bem o que é que faz parte do seu caráter, pois ela não define. E, em seguida, ela diz “é algo que sempre fiz […]” para se referir ao ato de beijar animais e, então, afirma que o animal beijou outras pessoas que estavam lá, embora o vídeo publicado mostre somente ela. Virginia então diz “entendo que o momento [..] não foi propício”. A partir daí, coloca a culpa nos jornalistas e críticos no instagram ao dizer que “as pessoas levaram para o outro lado” e nega a associação semiótica de seu vídeo com o racismo e com o ex- namorado, ao chamá-la de “comparação rídicula”.

    Apesar de dizer que essa não foi a intenção dela, é preciso reforçar que essa influenciadora mantém sua fortuna e visibilidade no ecossistema tecnossemiótico se colocando no centro de polêmicas, que são alimentadas pelos algoritmos e pela própria maneira de organização dessas plataformas, e é nesse espaço que ela criou a marca milionária Vírginia Fonseca, que inclui todo seu patrimônio, seus perfis e outras marcas atreladas ao seu nome. Coincidentemente, no sábado, dia 23 de maio, Virginia publicou um stories comemorando estar no ranking dos 10 perfis mais engajados da semana, ficando apenas atrás do Neymar. Engajamento que foi conseguido graças ao vídeo com o macaco. E para dar continuidade à polêmica, a foto escolhida foi uma em que ela aparece com um outro animal, a girafa.

    Todas as ações são muito bem planejadas para criarem o efeito de sentido de “espontâneo” e de “ingenuidade”, mas quase não há espaço para espontâneidade e ingenuidade quando se vive uma forma de vida de “influenciadora”, com 56 milhões de seguidores e consumidores de sua marca apenas no Instagram, e contando com uma equipe enorme e altamente especializada para analisar o engajamento de tudo que faz e grava. Como aproveitar a visibilidade do término amplamente noticiado na mídia tradicional e dentro das plataformas sociais e trazer a pauta para a própria Virginia? Criando uma polêmica maior em cima dessa primeira. E o stories publicado por ela mesma demonstra que, mais uma vez, de um ponto de vista semiótico, Virginia foi muito bem sucedida.

Fabiana Moraes é jornalista com doutorado em sociologia e professora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pesquisa poder, representação, hierarquização social e a relação jornalismo e subjetividade. Três vezes finalista do prêmio Jabuti, é vencedora de três prêmios Esso e um Petrobras de Jornalismo. É autora de seis livros, entre eles O Nascimento de Joicy e A pauta é uma arma de combate (Arquipélago Editorial). Foi repórter especial do Jornal do Commercio. É também colunista no The Intercept Brasil. Antes, UOL e piauí. Quando tem tempo, paga de DJ nos inferninhos de Recife.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação