COLUNA

Fabiana Moraes

Coexistência radical e separação brutal: a suíte master e o quarto de empregada

Lançado na semana em que o senador Marcos Rogério (PL-RO) mandou a ministra do Meio Ambiente Marina Silva “se pôr no seu lugar”, livro de fotografias resume a materialização da nossa desigualdade

29 de Maio de 2025

Eu o conheci logo depois que saí da casa do meu pai, localizada nos morros da zona norte recifense: seu nome mais comum era o “quarto da bagunça”. Era o lugar de uma certa liberdade e algum caos, de jogar as coisas por lá e só arrumar depois. Espaço onde o olho da visita não chegava.

Um canto para também se esconder, fingir que não estava em casa quando um parente meio chato chegava, talvez fumar um cigarro em paz.

Tinha gente que chamava de só de “quartinho”, um espaço onde, além da visita, a luz também não entrava.

Fui apresentada ao quarto da bagunça quando fui morar nos apartamentos fora dos quase 68% da área de morros de Recife e me instalei nos quase 23% de área plana da cidade. Opa, engano meu: teve antes o apartamento em Dom Helder Câmara, um conjunto habitacional em Jaboatão dos Guararapes, cidade vizinha a Recife. Eram unidades de dois ou três quartos voltadas para a classe média baixa. Um habitacional mais “rico” do que os conjuntos de Muribeca e Marcos Freire, onde também vivi. Muribeca foi destruída. Marcos Freire e Dom Hélder se degradaram intensamente. A pobreza e o descaso público os reurbanizou.

No último bairro, ali pelo começo dos anos 1990, percebi que ter aquele “quartinho” a mais significava, para quem estava finalmente realizando o sonho da casa própria ou alugando um apartamento maior, como a minha mãe, alguma ascensão social. Não importava se aqueles edifícios de três andares fossem conhecidos pelo tenebroso nome de prédio-caixão. Afinal, estávamos “melhores de vida”, como se costumava dizer.

Havia uma cama de solteiro na qual adormecia ela, a “moça”, a “secretária”, a “menina do interior”, a tantas vezes sem nome

A partir de meados daquela década, morei em diversos apartamentos com “quartos da bagunça”. Cordeiro, Torre, Graças. Bairros da zona oeste e de parte mais abastada da extensa zona norte. Com o tempo, fui percebendo as distâncias entre minha ocupação, uma inquilina à procura de taxas de condomínios baratas, e os usos e significados que aqueles quartos tinham quando os imóveis foram projetados. Eles não eram inicialmente voltados para a bagunça: ali, antes da minha chegada, havia uma cama de solteiro na qual adormecia ela, a “moça”, a “secretária”, a “menina do interior”, a tantas vezes sem nome. A empregada doméstica.

Ela ficava ali, onde nem o olho da visita, nem a luz, às vezes chegavam.

© José Afonso Jr.

Eu, a inquilina, nunca ocupei um quarto daquele enquanto empregada doméstica. Mas a minha avó, Rosa, sim. Minha madrasta, Cícera, também. Minha mãe, Neusa, foi outra que limpou muitos quartos e banheiros na condição de camareira de um hotel cinco estrelas.

Entrei naqueles imóveis e ocupei os ambientes apertados em um contexto bem diferente do delas. Era uma inquilina que trazia, além de um sofá de dois lugares, um colchão e um fogão, um diploma obtido na universidade pública. Não quero marcar aí nada heroico, mas antes acenar para o que acontecia lá fora: eu representava, assim como outras milhões de pessoas, figuras de um Brasil em transição. No fim dos anos 1990 e início dos 2000, o país começava, do ponto de vista institucional e graças à pressão de movimentos sociais negros, a jogar mais luz naqueles quartinhos.

No “quarto da bagunça”.

No quarto da “secretária”.

Da “menina-que-veio-do-interior-e-só-volta-pra-casa-a-cada-15-dias”.

A discussão e posterior aplicação de leis de cotas e a regulamentação do trabalho das empregadas domésticas foram alguns dos movimentos tensionados nesse período, questões que abririam sendas profundas. Nunca mais, para o bem ou para o mal, fomos as mesmas. Toda uma classe média I wanna be rich (I love Miami) — e muitos dos realmente rich (I love NY) ficaram especialmente irritados por não poder mais contar com uma pessoa dia e noite lá no quartinho, sempre disponível às ordens.

Havia, entre “patroas” e “patrões”, um desejo real de superação do servilismo?

Anos mais tarde, essa irritação provocaria barulho e estragos grandes.

Na arquitetura, o tamanho dos ambientes dos novos edifícios estava há décadas em transformação, fazendo com que os quartos das empregadas fossem esmaecendo (eu escrevi primeiro “desaparecendo”, mas não foi bem isso, você vai ver). Era tempo dos modernos apartamentos para pequenas e urbanas famílias, sem “dependência de empregada” e com seus “quartos reversíveis”, um termo que sempre me fascinou. Que tipo de transição seria essa? O que mesmo poderia ser revertido nesses espaços? Eles nos diziam, por exemplo, que era o fim daquele tipo de dependência? Havia, entre “patroas” e “patrões”, um desejo real de superação do servilismo?

A pesquisa de Jéssica Caroline de Lima e Alexandre Toledo, ambos da Universidade Federal de Alagoas, mostra, pela arquitetura, que a reprodução da casa burguesa aquela, espaçosa, com uma Tia Anastácia cozinhando delícias para todos aconteceu no processo de moradias horizontalizadas de Maceió.

Na pesquisa, a dupla observou que, nas décadas de 1960 e 1970, quase todos os apartamentos possuíam dependência de empregada, até mesmo os com apenas dois dormitórios (como aqueles de Dom Hélder, onde morei). Na década de 1980, a flexibilização nas plantas passou a acontecer, e a classe média vai se entendendo cada vez mais com os espaços reversíveis a sala e os banheiros também entram nessa conta. Na década de 1990, mostra a pesquisa, somente os apartamentos com três e quatro dormitórios terão o cômodo especial para domésticas, o que leva o pesquisador e pesquisadora a uma importante constatação: para as famílias alagoanas de renda mais alta, a legislação trabalhista garantida pela Constituição de 1988 não causou impacto significativo nos hábitos de morar, de viver (e de mandar) dos mais ricos.

Não foi diferente no resto do país.

Significa dizer que a democracia garantida naquela Carta Magna não alcançou, como a luz, o quarto da empregada.

Nesse caso e lá vamos nós as ebulições começam mais evidentemente a partir de 2013, com a alteração do artigo 7º da Constituição. A mudança estabeleceu a igualdade de direitos trabalhistas entre as trabalhadoras domésticas: limite de carga horária semanal, adicional noturno, remuneração por hora extra, recolhimento do FGTS, proteção contra demissão sem justa causa, reconhecimento de acordos coletivos de trabalho. A PEC das Domésticas, assim, acabava com a farra de contratar a “menina-que-veio-do-interior-e-só-volta-pra-casa-a-cada-15-dias”. A PEC jogava uma luz naquele quarto com mofo que vemos em uma das fotografias feitas pelo fotógrafo Afonso Jr, que durante dois anos (2018-2020) registrou o interior de apartamentos na cidade do Recife.

© José Afonso Jr.

Visitar tanto as suítes-master quanto os quartos de empregadas trazidos neste livro me deram a impressão de sobrevoar boa parte da história recente do Brasil, mas não só: visitamos também o país no qual o abolicionismo aconteceu a fórceps, quando manter a escravidão já não fazia sentido para os negócios. Visitamos o passado presente.

Virar uma página do livro, abrir mais uma porta, espiar de longe e de perto, nos permite ver nesses ambientes rearranjos políticos e sociais que, durante tanto tempo, foram entendidos como algo menor. Assim foi com tudo aquilo entendido como “doméstico”, “feminino”, em oposição ao espaço público determinado e ocupado pelos homens. Mas, na verdade, dentro dessas casas e nas relações aí invisibilizadas, está o próprio coração do Brasil, a política que estrutura quem manda, quem paga e quem responde “sim, senhor”.

Iniciada em 2017, pouco mais de um ano após o impeachment de Dilma Rousseff, a pesquisa fotográfica-documental de Afonso vai mostrando, a cada novo cômodo, um contraste tão presente quanto normalizado da divisão social do trabalho no país. Essa dualidade ora se dá pela enorme diferença de amplitude dos quartos, pelo tipo de organização percebida, por distintivos objetos como televisores, relógios, ventiladores, ar-condicionados e perfumes.

© José Afonso Jr.

A embalagem de uma colônia em cujo vidro lemos Free, vista em uma suíte, mexe em algo lá dentro de nós.

Nos relatos recolhidos por Afonso, patrões falam de como passaram as panelas velhas para a empregada, como a equiparação de direitos os levou a preferir diaristas, mas também falam de afeto, de que “ela é praticamente da família”.

Afonso também fotografa os prédios e bairros populares: Morro da Conceição, Alto José Bonifácio, onde minha madrasta mora, e onde eu, minha mãe e minha avó também moramos. O que vemos dentro dos apartamentos é reflexo do que há fora: coexistência radical e separação brutal.

Ele captura ainda placas de edifícios chamados “Casa Grande”, “Engenho”, vizinhos de motéis “Senzala” — nomes que mostram nossa insensibilidade, ou pior, saudade, de um passado escravocrata.

De volta aos apartamentos, observo detalhes que indicam vida e desejo: joias, perfumes, sapatos, pentes. Quem usa essas coisas? Em que ônibus andam? O que falam no carro com adesivo monarquista? A empregada doméstica atravessa todas as posições ideológicas do país, ajuda outras mulheres a não enfrentarem suas múltiplas jornadas e, até recentemente, era aquela que, “naturalmente”, introduzia o menino branco ao sexo — o sobrado visitando o mocambo.

© José Afonso Jr.

As imagens de Afonso nos mostram a metamorfose dessa realidade: da doméstica fixa à diarista, da terceirizada à trabalhadora de aplicativo, que limpa agora apartamentos de 38 metros quadrados — do tamanho das antigas dependências. O “quartinho” virou “quarto da bagunça”, depois home office, sala de aula, espaço de lazer na pandemia.

Na pandemia, muitas não puderam ficar em casa. Enquanto escrevo, vejo as torres brancas do centro do Recife, onde conheci Mirtes e dona Marta. Foi da forma mais perversa que o país viu, sob luz forte, o corpo delas. Elas ainda ecoam Miguel.

A suíte master segue livre. Free.

* Uma produção cultural importante abordou o tema quarto de empregada nos últimos anos, como o livro de Preta Rara, Eu, empregada doméstica; o perfil Faxina Boa (da escritora Verônica Oliveira); a cineasta Karoline Maia com Aqui não entra luz; e dezenas pesquisas acadêmicas que revelam a permanência e transformação desses espaços e o que eles dizem sobre o Brasil.

*A íntegra deste texto está publicada no livro “Suíte Master e Quarto de Empregada”. A estudante de direito e assessora parlamentar Mirtes Renata, que trabalhava como empregada doméstica quando seu filho, Miguel, caiu de um prédio em Recife, é outra autora da obra. Toda renda do livro será revertida para uma formação dirigida às empregadas domésticas. Mais informações neste site.

*Em junho de 2020, poucos dias após a morte do menino Miguel, escrevi o texto Miguel, Sari e Gilberto Freyre se encontram no elevador, aqui.

*Dedico esse texto à Ministra, mulher, professora, senadora, empregada doméstica, seringueira, deputada Marina Silva. Que você permaneça ocupando o lugar que quiser, Marina. Os ataques de parlamentares cuja biografia e comportamento envergonham o eleitorado brasileiro só sublinham sua importância na política nacional.

Fabiana Moraes é jornalista com doutorado em sociologia e professora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pesquisa poder, representação, hierarquização social e a relação jornalismo e subjetividade. Três vezes finalista do prêmio Jabuti, é vencedora de três prêmios Esso e um Petrobras de Jornalismo. É autora de seis livros, entre eles O Nascimento de Joicy e A pauta é uma arma de combate (Arquipélago Editorial). Foi repórter especial do Jornal do Commercio. É também colunista no The Intercept Brasil. Antes, UOL e piauí. Quando tem tempo, paga de DJ nos inferninhos de Recife.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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