COLUNA

Fabiana Moraes

Xenofobia não é só medo do estrangeiro

Ataques a nordestinos e nortistas, brasileiros o suficiente para ter RG e CPF, mas não para serem parte legítima de um projeto de nação, bombam nas redes e se institucionalizam

26 de Novembro de 2025

Cena 1, junho de 2025: ao lado dos governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), e do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), Jorginho Melo, governador de Santa Catarina, diz em tom de “brincadeira” que separassem seus Estados do restante do Brasil. Antes, ele também reclamou do sistema de cotas nas escolas do estado, que buscam incluir estudantes mais vulneráveis e de fora de SC.

Cena 2, agosto de 2025: o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, diz novamente que os estados mais desiguais do país recebem dinheiro para continuarem a votar eternamente no Governo Federal. Dois anos antes, ele sugeriu que Sul e Sudeste sustentam as “vacas magras” do Nordeste e Norte.

Cena 3, ainda agosto de 2025: O vereador Mateus Batista (União Brasil), de Joinville, em Santa Catarina, gerou forte reação nas redes sociais ao propor um projeto de lei que visa restringir a migração de pessoas vindas do Norte e do Nordeste para o município. Nas redes sociais, o parlamentar ligado ao MBL (Movimento Brasil Livre) tenta justificar a proposta dizendo que, se o fluxo migratório não for contido, “Santa Catarina vai virar um grande favelão”. Ele prossegue: Belém tem 57% da sua população favelizada. Estou falando da forma como o Estado é governado. Esse fluxo migratório está sendo pressionado novamente por causa de Estados mal geridos no Norte e Nordeste. O Estado do Pará é um lixo.” Em sintonia com esse discurso, o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto (PSD), instalou um posto da Assistência Social na rodoviária para, segundo ele, conter a chegada de pessoas sem emprego e moradia à capital. Afirma que cerca de 500 pessoas já foram “devolvidas” às cidades de origem.

Cena 4, mesmo mês e ano: um rapaz usando um chapéu de vaqueiro, muito comum no Nordeste, é visto correndo de dois homens que finalmente o alcançam e começam a agredi-lo usando pedaços de madeira. Um homem vestido com uma camisa social interpela os agressores, abraça o rapaz e diz que ali ele será protegido. É o prefeito (afastado) de Sorocaba, Rodrigo Manga (Republicanos). Toda cena é ficcional: Manga quer mostrar ao Brasil que Sorocaba está aberta aos nordestinos.

Cena 5, novembro de 2025: “Olha tua cor. Olha, pobre aqui não fica”. São frases da torcedora identificada como Ana Costa, que foi gravada  em Florianópolis proferindo uma série de insultos racistas/xenófobos durante uma partida entre Avaí e Remo pela série B do Campeonato Brasileiro. Ela ainda diz: “Gastou o salário para vir… agora vai embora a pé. O prefeito não quer, aqui em Floripa”,  em referência à citada medida do prefeito da capital catarinense, Topázio Neto. 

***

Eu poderia chegar na cena 100, 180, 230, mas sei que já ultrapassei a conta do que seria jornalisticamente interessante somente nos cinco exemplos que coloquei acima. São todos somente deste ano, e de junho pra cá. Eu não preciso dizer que o caldo de xenofobia antes mais servido principalmente durante os períodos de eleições presidenciais está sendo cada vez mais decantado no país. Cada vez mais sem vergonha, mais violento. Pior: mais institucionalizado.

Por outro lado, esse tipo de discriminação continua sendo lido quase exclusivamente como uma distinção negativa em relação ao estrangeiro, a quem vem de outro país: na própria Lei nº 7.716/89, que define os crimes de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, a xenofobia se enquadra na discriminação por “procedência nacional”. Em uma busca nos repositórios acadêmicos, o assunto é tratado também nesta chave.

Mas xenofobia não é só medo do estrangeiro. É medo daquilo que o país insiste em olhar como “gente de fora” quando, na verdade, está falando de si mesmo. E nesse caso, os “de fora” são, no Brasil, nordestinos e nortistas lidos negativamente não só por conta de suas origens geográficas, mas frequentemente pela raça (“olha tua cor”) e pela classe social (“gastou o salário para vir”). Podemos falar em xeno-racismo, termo usado por Deivison Mendes Faustino e Leila Maria de Oliveira neste artigo.

Muita gente, empresas de comunicação aí incluídas, ajudou a sustentar a mesma ideia que governadores, vereadores, prefeitos e torcedora vocalizam sem pudor: a de que existe um Brasil que pensa, decide, organiza; e outro Brasil — em geral mais escuro, mais pobre, mais seco, mais distante — que apenas reage, vota “errado” e continua não entendendo o próprio bem.

Xenofobia é isso: não apenas horror ao estrangeiro, mas horror a brasileiros tratados como outros dentro do próprio país. Pensemos na palavra: xeno = estranho, outro. Fobia = medo, repulsa. A questão não é sobre um passaporte. É sobre quem é colocado, reiteradamente, no lugar da diferença perigosa. Quem é lido como corpo que ameaça, atrapalha, atrasa.

Gente que precisa ser barrada logo quando chega na rodoviária (a escolha do meio transporte diz muito também sobre lugares de classe, concordam?).

É assim que nordestinos, nortistas, migrantes internos, pretos, pobres, indígenas, começam a habitar uma zona curiosa: são brasileiros o suficiente para carregar o RG e o CPF, mas não para serem reconhecidos como parte legítima de um certo projeto de nação.

É essa lógica que permite que manchetes associem o Nordeste a analfabetismo como se fosse simples “explicação técnica” do voto; que colunistas falem de “grotões” como territórios atrasados, espaços que ainda precisam ser alcançados pela luz da racionalidade vinda do Sul e do Sudeste. Muitas vezes, é preciso apontar, essa hierarquização também vai se dar pela chave do humor ou do “carinho” .

A cena 4, descrita no começo deste texto, mostra bem isso. Em Sorocaba (SP), a prefeitura resolveu fazer campanha dizendo que nordestinos eram bem-vindos na cidade justamente para criticar o vereador de Florianópolis. À primeira vista, parece um gesto acolhedor. Mas pense um pouco no subtexto: vemos ali, representado pelo rapaz moreno de chapéu de vaqueiro, um povo lido de maneira homogênea (são “rurais”) e que, levando porrada, precisa da ajuda de um salvador (branco) de fora, representado pelo próprio prefeito.

Esse é um ponto interessante: o que parece afago ou deferência na verdade esconde um bocado de preconceito. São especialmente difíceis de lidar.

Lembro que uma vez, em São Paulo, depois de terminar uma apresentação realizada ao lado de um pesquisador e professor bastante conhecido nacionalmente, uma das organizadoras do evento chegou perto de mim e disse: “Nossa, estou muito impressionada”. Ela havia gostado muito da minha fala — e, por isso, estava surpresa.

Ou seja, não esperava muito de mim.

Esta semana, a newsletter do incrível jornalista potiguar Rener Oliveira também traz um pouco desse espanto — e outros assombros que um corpo pensante preto e nordestino provoca nos espaços de poder. Copio um trecho:

Ouvi de um amigo, esses dias, que uma pessoa muito próxima a ele disse que não conseguia me entender. É alguém também da comunicação (paulista, claro) que, como muitos — muitos mesmo — se pergunta como alguém como eu, vindo do lugar de onde vim, conseguiu uma voz na moda sem qualquer tipo de trapaça: sejam elas as heranças, os idiomas falados, as viagens ao redor do mundo, o auxílio de todos os clássicos da literatura ou do cinema, e muito menos o conhecimento profundo das artes. Não me entendam mal ou achem que é falta de interesse minha, mas é que foram e ainda são muitas faltas de acesso. O engraçado aqui é que essa não é a primeira vez que isso me acontece nem será a última. Em outra dessas, uma mulher me questionou ao vivo, em um evento. Olhou na minha cara e disse que pessoas de SP, como ela, claro, estão tentando há anos e nunca conseguiram. Sempre a mesma pergunta, sempre o mesmo incômodo. Eu também me pergunto como cheguei até aqui. Mas dizem que Deus manda os loucos para confundir os sábios, não é? O subtexto é claro: quem não nasceu dentro da narrativa dominante não deveria “chegar”. E, quando chega, precisa ser dissecado para ver se não trapaceou.

***

Parto para falar sobre classe: está implícito, por isso é preciso sublinhar. A pobreza é um elemento importante nesse baile. Em Santa Catarina, o vereador teme que os “estrangeiros” façam nascer “um grande favelão”, por isso está certo mesmo ir para a rodoviária impedir que esse pessoal chegue. Não é preciso muita hermenêutica para compreender o recado: quem vem de “cima do mapa”, de uma região que o imaginário do “sul maravilha” trata como exótica, atrasada, de outro país, vai macular a vida perfeita do local. Chamar de “pobre” nesse contexto é acionar um pacote completo: gente menos civilizada, menos educada, menos “cidade grande”, gente que só serve para ser mão de obra barata, cozinhas, favelas.

Xenofobia, aqui, é um modo de ordenar o território e os corpos

É o mesmo mecanismo que, nos anos 1950, levava jornais paulistas a descreverem migrantes nordestinos como ameaça à “modernidade” da capital. O sotaque, a pele “cor de cuia”, o “cabeça chata” eram lidos como sinais de inadequação. Hoje, o xingamento na arquibancada é apenas uma versão mais crua, mais explícita, dessa mesma hierarquia.

Quando falo em xenofobia como chave interseccional (é um dos capítulos do livro “Jornalismo: Reflexão e inflexão”, disponível aqui), estou dizendo que não dá para ignorar como a origem geográfica do Nordeste — e, como vemos aqui, do Norte — tem um papel fundamental na classificação de brasileiras e brasileiros.

Xenofobia, aqui, é um modo de ordenar o território e os corpos: quem pertence ao centro, ao lugar da razão e da fala; e quem fica empurrado para os cantos, para os “grotões”, para as margens — reais e simbólicas.

E é por isso que ela precisa entrar com força no debate sobre imprensa, democracia e jornalismo. Porque boa parte dessa arquitetura de exclusão foi e é construída também a partir das manchetes, das fotos, dos enquadramentos.

Durante décadas, a imprensa ajudou a fixar o Nordeste como lugar da falta: falta de chuva, de comida, de estudo, de “civilidade”. As fotos de retirantes esqueléticos, as reportagens sobre “flagelados da seca”, as descrições de um povo preguiçoso e atrasado criaram uma espécie de álbum oficial do Brasil que dá certo olhando o Brasil que dá errado.

Era (e continua sendo) uma operação lucrativa: mostrar o “outro sofrido” capitaliza audiência, gera comoção, rende prêmios. O problema é que, nesse processo, a diferença vira sempre desigualdade. As vidas retratadas aparecem como destino, nunca como resultado de escolhas políticas, econômicas, raciais.

Quando, hoje, manchetes associam voto no Nordeste a analfabetismo, não estão apenas errando na análise — estão repetindo, com roupagem “técnica”, um enredo antigo: o da incapacidade natural, do povo que precisa de tutela.

Os governadores Jorginho Melo e Romeu Zema deveriam se informar melhor sobre quanto o Estado brasileiro já investiu historicamente em suas regiões: ferrovias, linhas telefônicas, aporte para grandes empresas. A estrutura que sustentou e sustenta setores como a indústria não apareceu magicamente ali.

Se não olharmos para o ódio interno, continuaremos achando que xenofobia é um problema dos outros, de países que fecham fronteiras, que erguem muros

Mas a xenofobia é uma gramática de poder. Ela diz quem fala certo e quem fala errado; quem vota com “consciência” e quem vota “por interesse”; quem é trabalhador e quem é vagabundo; quem é cidadão pleno e quem é, no máximo, beneficiário. Por isso, mantê-la pode gerar horror, mas também gera votos.

Hoje, ela se reorganiza no ambiente digital: nos memes que mostram o Nordeste como piada; nos comentários que perguntam se “o Norte faz parte do Brasil”; nos vídeos que ridicularizam sotaques; nas teorias “científicas” de comentaristas de TV que tentam explicar a geografia do voto a partir de mapas de renda e escolaridade, como se isso fosse argumento para hierarquizar eleitores.

Mas ela também se reorganiza nas campanhas bonitinhas da prefeitura que diz “vocês são bem-vindos”, no comentário que se surpreende com um “nordestino culto”, no elogio que parece carinho, mas vem sempre grudado à exceção: “nem parece que é daqui”.

Xenofobia, no Brasil, não é apenas o ódio ao estrangeiro que desembarca no aeroporto com passaporte diferente. É o ódio — às vezes sutil, às vezes explícito — ao nordestino que chega de ônibus; ao amazônida que vem disputar vaga na universidade. É um horror a nós mesmos.  Ao que o país decidiu, ao longo de séculos, chamar de “resto” para preservar o conforto de uns poucos como “centro”. Se não olharmos para o ódio interno dentro do próprio país, continuaremos achando que xenofobia é um problema dos outros, de países que fecham fronteiras, de governos que erguem muros. Enquanto isso, principalmente no Sul do país, mas não só, o caldo do preconceito vai engrossando sem que medidas legais enquadrem quem os comete. O show de horrores está aí, engaja e dá excelente lucro para big techs e ainda transforma gente lamentável, canalha e perversa, em vereador, prefeito, governador, deputado.  Marina Lima cantaria: gasolina neles. Eu concordo: a gasolina aqui é a exposição e constrangimento de xeno-racista (principalmente quem está no poder) e aplicação de lei (quando dói no bolso e na liberdade, o rabo logo se insere entre as pernas).

Fabiana Moraes é jornalista com doutorado em sociologia e professora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pesquisa poder, representação, hierarquização social e a relação jornalismo e subjetividade. Três vezes finalista do prêmio Jabuti, é vencedora de três prêmios Esso e um Petrobras de Jornalismo. É autora de seis livros, entre eles O Nascimento de Joicy e A pauta é uma arma de combate (Arquipélago Editorial). Foi repórter especial do Jornal do Commercio. É também colunista no The Intercept Brasil. Antes, UOL e piauí. Quando tem tempo, paga de DJ nos inferninhos de Recife.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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