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Reportagem

Cigarro eletrônico: quais os riscos para a sua saúde?

Atraentes para os jovens, vapes podem causar câncer, problemas respiratórios, doenças cardiovasculares e são porta de entrada para dependência do cigarro

Leonardo Neiva 24 de Maio de 2026

Cigarro eletrônico: quais os riscos para a sua saúde?

Leonardo Neiva 24 de Maio de 2026

Atraentes para os jovens, vapes podem causar câncer, problemas respiratórios, doenças cardiovasculares e são porta de entrada para dependência do cigarro

Vendido no início como um aliado na luta contra o cigarro, o vape hoje ocupa um lugar bem diferente: não só o de um dispositivo que apresenta sérios riscos à saúde, mas também uma das principais portas de entrada para o tabagismo. Com o agravante de que os dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs), como cigarros eletrônicos, vapes, pods ou vaporizadores de ervas, têm muito mais apelo entre os jovens. O que não impediu a liberação recente desses produtos na Argentina, sob a alegação de formalizar um consumo que já vinha acontecendo de maneira ilegal, e dos vapes saborizados nos Estados Unidos.

O vape, aliás, foi a única droga que registrou aumento de uso entre os adolescentes brasileiros, segundo dados do IBGE. E com um salto considerável. Enquanto 16,7% dos estudantes com idades de 13 a 17 anos tinham experimentado cigarro eletrônico lá em 2019, esse número praticamente dobrou, chegando a 29,6% em 2024. O levantamento também revela que o consumo é ainda maior entre as meninas (31,7%) do que os meninos (27,4%).

Uma das maiores preocupações é o alto nível de permanência. A assustadora cifra de 80% dos adolescentes que experimentaram acabaram se tornando usuários, segundo o mais recente Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad, 2025). Já entre jovens adultos, com idades de 18 a 24 anos, mais da metade dos que experimentaram cigarros eletrônicos passaram a consumi-los de forma cotidiana.

Cerca de 80% dos adolescentes que experimentaram vape acabaram se tornando usuários

Dispositivos desse tipo foram inventados e começaram a se popularizar no mundo ainda na primeira década dos anos 2000. Aqui no Brasil, seu consumo nunca foi legalizado, com uma proibição oficial da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que impede desde 2009 sua comercialização, importação e propaganda. As estatísticas, claro, mostram que os brasileiros têm encontrado formas de driblar essa restrição.

Mas os vapes e similares podem ser tão prejudiciais à saúde quanto o cigarro tradicional? Uma pergunta impensável alguns anos atrás, quando os DEFs surgiram como estratégia de “redução de danos”. A resposta para ela, no entanto, é complexa. Por ser um produto relativamente recente, seus impactos para a saúde ainda estão longe de ser analisados no mesmo nível do cigarro comum, cujos malefícios foram comprovados ainda na década de 1950.

“Essa relação [com o câncer] já é muito bem estabelecida no cigarro tradicional, responsável pela grande maioria dos casos de câncer de pulmão e de outras neoplasias”, aponta a oncologista clínica Samira Mascarenhas, coordenadora do comitê de tumores torácicos da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). “Mas, para demonstrar uma causalidade, precisamos de estudos epidemiológicos que podem demorar muitos anos.” Outro ponto que dificulta as pesquisas é o fato de muitos usuários de vape também fumarem o cigarro comum, o que torna desafiador separar os efeitos de ambos no organismo.

Ainda assim, estudos recentes sobre o tema têm jogado luz sobre alguns dos aspectos mais preocupantes desses dispositivos. Um deles é uma revisão científica liderada por pesquisadores australianos da Universidade de New South Wales, uma das mais abrangentes até o momento, que conecta os vapes a uma alta probabilidade de desenvolver câncer de boca e de pulmão. Estudos anteriores também já apontaram problemas como estresse oxidativo, que causa danos às células, e inflamações em tecidos orais e respiratórios, assim como uma maior presença de nicotina no corpo em comparação com o cigarro tradicional.

A cardiologista Jaqueline Scholz, diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do InCor (Hospital das Clínicas), foi quem coordenou o estudo que detectou níveis de nicotina no organismo de usuários de cigarro eletrônico até seis vezes superiores aos de fumantes tradicionais. Ela conta que, desde a pandemia, tem recebido mais pacientes jovens e adolescentes que buscam se livrar do vício em vapes e outros dispositivos. Um dos fatores, afirma, é o fato de gerações mais recentes de vapes trazerem uma nicotina de maior intensidade e mais fácil absorção. Outro é a praticidade na comparação com o cigarro comum, o que pode levar a pessoa a dar mais tragadas ao longo do dia. “É muito discreto, a pessoa pode usar sem ninguém perceber, o que facilita o contato”.

Os níveis de nicotina nos usuários de cigarro eletrônico podem ser até seis vezes superiores aos encontrados em fumantes de cigarro convencional

Outras pesquisas também associam o uso de vapes ao surgimento de asma, lesões pulmonares, a um risco aumentado de doenças cardiovasculares e câncer de bexiga, e à bronquiolite obliterante, doença grave e irreversível que bloqueia as pequenas vias aéreas do pulmão. O distúrbio ficou conhecido como “pulmão de pipoca”, devido a um surto da doença entre os trabalhadores de uma fábrica de pipoca nos EUA, causada pela inalação contínua do aromatizante diacetil. Hoje, a mesma substância está presente em várias essências de cigarros eletrônicos.

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Risco (in)determinado

Na prática, os vapes são mecanismos a bateria que esquentam um líquido a base de nicotina — conhecido como juice, e-líquido ou essência — contendo uma mistura de diversas substâncias químicas. Quando aquecido, ele se transforma em aerossol: partículas finíssimas dispersas num gás que o usuário inala. No caso de vapes recarregáveis, esse e-líquido precisa ser reposto com frequência. Já os modelos descartáveis duram somente enquanto ainda há juice disponível.

“O aerossol não é vapor de água inócuo, como a publicidade destes produtos sugere”, esclarece a secretária-executiva da Conicq (Comissão Nacional para a Implementação da Convenção Quadro para o Controle do Tabaco.e seus Protocolos), Vera Luiza da Costa e Silva. “Os DEFs contêm nicotina, altamente capaz de gerar dependência, hoje frequentemente em forma de sais, que permitem concentrações elevadas e efeitos mais rápidos com menor irritação.”

Mascarenhas explica que o aerossol inalado pode conter uma série de substâncias tóxicas: metais pesados como níquel, cromo e chumbo, compostos orgânicos voláteis e agentes carcinogênicos, a exemplo dos hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, aldeídos e formaldeídos — estes geralmente usados como aromatizantes. “Estudos mostram danos ao DNA, que podem levar ao desenvolvimento de câncer. Camundongos que foram expostos ao aerossol do cigarro eletrônico desenvolveram câncer de pulmão”, exemplifica a oncologista.

Estudos mostram danos ao DNA, que podem levar ao desenvolvimento de câncer. Camundongos que foram expostos ao aerossol do cigarro eletrônico desenvolveram câncer de pulmão

Silva, que é pesquisadora sênior do Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde (CETAB/Fiocruz), ressalta que não existe nível seguro de exposição a substâncias carcinógenas como certos metais e nitrosaminas — compostos químicos orgânicos do tabaco — encontradas nos DEFs. Portanto, os indícios são fortíssimos de que os dispositivos causam câncer. O nível desse risco é que ainda permanece indeterminado.

Cigarro x vape

As semelhanças entre cigarros e vapes, na visão de Silva, são claras: “Ambos entregam nicotina e causam dependência, e ambos expõem o usuário a substâncias tóxicas e partículas ultrafinas.” Já as maiores diferenças se encontram nos mecanismos dos dois para entregar a nicotina. O cigarro tradicional queima tabaco, gerando alcatrão e milhares de compostos, com mais de setenta carcinógenos conhecidos e décadas de evidências sobre sua relação com certas comorbidades, diz a pesquisadora. Os DEFs, por outro lado, ao aquecerem o líquido, geram os metais e aromatizantes que, assim como no cigarro, podem afetar até fumantes passivos — mas cujos efeitos ainda não são 100% conhecidos.

“Por isso a questão sobre qual é mais perigoso não tem uma resposta simples”, explica. Como um dos efeitos graves e imediatos do produto, a pesquisadora aponta que os dispositivos eletrônicos produzem lesões pulmonares numa escala muito maior do que o cigarro tradicional, conhecidas como EVALI (Lesão Pulmonar Associada ao Uso de Cigarros Eletrônicos, tradução da sigla em inglês). Já em relação a danos crônicos à saúde, faltam dados e um maior tempo de exposição dos usuários para que seja possível fazer uma comparação direta.

Mas mesmo com um menor tempo de observação, a toxicidade e o potencial de dependência do cigarro eletrônico já foram comprovados, lembra Mascarenhas. “Ele também pode aumentar o risco de dependência futura de outras drogas”, acrescenta. Em relação aos impactos cardiovasculares, a cardiologista Jaqueline Scholz esclarece que são praticamente idênticos aos de quem fuma o cigarro comum, aumentando a incidência de infarto e AVC, assim como os riscos de trombose, vasoconstrição e arteriosclerose.

Outro ponto importante é que o cigarro eletrônico e o convencional vivem uma relação literalmente tóxica: se já fazem estrago sozinhos, imagine juntos. Estudos apontam que combinar o uso de vapes e cigarros tradicionais expõe o organismo a uma carga ainda maior de toxinas, redobrando os riscos de câncer e doenças respiratórias sem reduzir o consumo de nicotina.

Vale lembrar: “Mesmo que a conclusão fosse que os DEFs são menos danosos que o cigarro tradicional, não significaria que eles são seguros”, declara Silva.

Jovens sob mira

Embora os cigarros tradicionais ainda sejam presença muito mais constante na cultura pop, o vape tem ganhado espaço, nas mãos de personagens de séries como “The White Lotus” (2021-) e “Broad City” (2014-2019), e tornando-se companheiro tão constante da protagonista Charlie (Natasha Lyonne) na segunda temporada de “Poker Face” (2023-2025) que rendeu até matérias sobre o assunto. Na verdade, a série apenas acompanhou o hábito da atriz, que havia mudado para o dispositivo na tentativa de largar o cigarro.

Em comum, há o fato de que são todas produções com forte apelo para a geração Z. Mas um outro marketing talvez até mais eficaz para os jovens é o realizado por influencers que hoje fazem propaganda abertamente de vapes e pods, driblando a proibição de publicidade sobre o tema.

Lembrando que, se o consumo começa na adolescência, fica ainda mais difícil largar a nicotina, como reforça a doutora em epidemiologia Neilane Bertoni, tecnologista do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Ainda que os riscos futuros possam parecer distantes, a especialista alerta para os danos num curto prazo: além das lesões pulmonares, sintomas respiratórios agudos, casos de enfisema e até prejuízos ao desenvolvimento cerebral. “Temos evidências suficientes de que o cigarro eletrônico aumenta os riscos de experimentação e uso de cigarros convencionais. Se não agirmos agora, podemos ver toda uma geração sofrendo com as consequências do tabagismo”, afirma.

Temos evidências suficientes de que o cigarro eletrônico aumenta os riscos de experimentação e uso de cigarros convencionais. Se não agirmos agora, podemos ver toda uma geração sofrendo com as consequências do tabagismo

Os jovens também estão no centro da polêmica sobre a liberação de vapes com sabores frutados pelo FDA, a agência federal de saúde pública dos EUA. O risco? Eles “são o principal atrativo para o público jovem e reduzem a aspereza da nicotina, facilitando a iniciação”, explica Silva. Isso sem contar a toxicidade presente nos aromatizantes. Liberar sabores adocicados e atraentes, segundo a pesquisadora, é uma estratégia que rompe a narrativa — sem base científica — de que os vapes são alternativas para reduzir o hábito de fumar, recaindo numa busca evidente por captar novos usuários.

Os sabores mais agradáveis se unem ao design moderno e à publicidade indireta feita sobre os cigarros eletrônicos como forma de atrair esse público, reduzindo a percepção de risco dos produtos, complementa a oncologista Samira Mascarenhas. E isso tudo num período da vida em que o cérebro ainda está em desenvolvimento, podendo afetar áreas como a responsável pela atenção e o controle de impulsos.

Geração vape

No Brasil, a experimentação entre os jovens tem aumentado principalmente através da promoção e venda ilícita desses dispositivos na internet e nas redes, diz Silva. Mas a pesquisadora reforça que países onde os DEFs são liberados, como EUA e Suécia, convivem com índices bem mais elevados de consumo juvenil.

Apesar de a Anvisa ter mantido a proibição em 2024, há uma pressão no Congresso, especialmente da “bancada do fumo”, para liberar a produção e comercialização de vapes no país. A pesquisadora avalia que uma eventual abertura faria aumentar os números de iniciação e dependência da droga, com um impacto ainda maior para os custos de saúde pública por aqui. “O risco concreto é o de uma geração que se torna dependente de nicotina muito cedo, contrariando a tendência de queda do tabagismo construída ao longo de três décadas no Brasil.”

Revisões sistemáticas mostram que jovens que nunca fumaram, mas usam DEFs, têm risco cerca de 300% maior de se tornarem fumantes regulares do cigarro convencional

Os cigarros eletrônicos ainda possuem um custo relativamente alto dentro da realidade brasileira. Hoje, segundo pesquisas, eles são usados principalmente por jovens brancos de classe média e média alta, aponta Scholz. “Como é contrabandeado, é caro, o que limita o consumo e acaba protegendo”, explica. A liberação, na visão da cardiologista, acabaria ampliando esse uso, com consequências graves para a saúde, sem reduzir o contrabando. “O cigarro é legal. Qual é o produto mais contrabandeado? Cigarro.”

Para Bertoni, só será possível alertar de fato sobre os riscos de experimentar cigarros eletrônicos se houver uma maior conscientização de toda a população sobre o tema. “É preciso disseminar, principalmente entre os jovens, que os DEFs causam danos. E a indústria é cruel ao querer vender esses aparelhos apenas para viciar os jovens em nicotina”, declara.

“Revisões sistemáticas mostram que jovens que nunca fumaram, mas usam DEFs, têm risco cerca de 300% maior de se tornarem fumantes regulares do cigarro convencional”, afirma Silva. Além de um diálogo familiar franco e sem julgamentos, a especialista defende a incorporação do tema aos espaços de educação, em programas como o Saúde na Escola. “O mais importante é desconstruir dois mitos centrais: o de que o aerossol é inofensivo e o de que o sabor torna o produto seguro.”

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