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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

As mulheres e o consumo do álcool no climatério

Da insônia e ao suor noturno: especialistas explicam por que a resposta do corpo à bebida alcoólica muda a partir da perimenopausa

Ana Elisa Faria 08 de Fevereiro de 2026

As mulheres e o consumo do álcool no climatério

Ana Elisa Faria 08 de Fevereiro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Da insônia e ao suor noturno: especialistas explicam por que a resposta do corpo à bebida alcoólica muda a partir da perimenopausa

Aquele drinque do sábado com os amigos ou a taça de vinho que antes embalava o fim do dia pode, de repente, bagunçar a noite inteira. Mulheres com mais de 45 anos que sempre beberam socialmente percebem que a bebericada rotineira de antes agora cobra outra conta: acordar no meio da noite, sentir o corpo esquentar sem aviso, suar, ficar mais irritada no dia seguinte ou ter uma ressaca desproporcional ao que foi bebido.

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Rita Lobo, cozinheira, apresentadora de TV e criadora do Panelinha, descreveu esse ponto de virada no podcast MenoTalks. “Eu gosto de beber, mas aos 50 o álcool não gosta mais de mim.” Ela conta que, se antes tomava um vinho algumas vezes por semana, hoje uma tacinha no fim de semana já pode fazê-la “ficar doente durante dois dias”.

Esse tipo de mudança costuma aparecer durante a perimenopausa, o período de transição para a menopausa. É quando o corpo começa a passar por oscilações hormonais importantes, os ciclos menstruais desregulam e ondas de calor — os chamados fogachos —, alterações do sono e variações de humor entram e saem de cena, com intensidade variável.

Com a menopausa, marco que vem depois dessa primeira fase, a menstruação para de vez e o estrogênio cai de forma mais persistente. A partir daí, o organismo feminino se reorganiza, e a regulação da temperatura corporal, o metabolismo de energia e substâncias e o ritmo do repouso noturno mudam. É por isso que o consumo de bebidas alcoólicas para a mulher nesse momento tende a atuar como um amplificador, piorando sintomas e somando riscos para a saúde que vão além do desconforto imediato.

Por que o álcool pesa mais no climatério

“O climatério traz algumas alterações hormonais e metabólicas causadas pela queda do estrogênio e da progesterona, o que gera uma série de incômodos. O álcool, por sua vez, potencializa isso”, diz a ginecologista e mastologista Patrícia Valentini Melo, especialista em perimenopausa e menopausa.

Conforme explica, o estrogênio é responsável pela fabricação e pela ação dos neurotransmissores ligados, por exemplo, ao humor e ao sono, como a serotonina, a dopamina e o GABA (acido gama-aminobutírico). “E o álcool altera também esses neurotransmissores, aumentando o efeito da oscilação do estrogênio”, afirma.

Além disso, as mudanças hormonais mexem com o centro termorregulador do corpo, e as bebidas alcoólicas podem funcionar, para parte das mulheres, como gatilho para as ondas de calor e a sudorese que ocorre à noite.

O álcool piora os efeitos metabólicos e neuroendócrinos dessa fase da vida da mulher

“Isso tudo prejudica a qualidade do sono, o que, consequentemente, piora muito a qualidade de vida. O álcool piora os efeitos metabólicos e neuroendócrinos dessa fase da vida da mulher”, resume Melo.

Há, ainda, um componente comum do envelhecimento que se soma a essa problemática. A perda de massa muscular e menos água corporal podem fazer a mesma dose de outrora gerar concentrações mais altas de álcool no sangue, com efeitos mais intensos, mesmo sem o aumento no consumo, segundo o NIAAA (National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism), instituto norte-americano que pesquisa os impactos do álcool na saúde.

O drinque e a terapia hormonal

Para quem faz a terapia de reposição hormonal (TRH), Patrícia Valentini Melo chama a atenção para uma consequência pouco óbvia entre o tratamento e o consumo alcoólico. As mesmas enzimas hepáticas — já mais lentas nesse período — que metabolizam o álcool, fazem a metabolização do estrogênio. Quando o álcool entra no corpo, ele vai interpretar aquela substância como a mais tóxica que chegou ali e, por isso, ela é metabolizada primeiro. “Aí não sobra enzima suficiente para metabolizar o estrogênio”, comenta.

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A consequência, de acordo com a médica, é a piora nos efeitos colaterais da TRH. “As mulheres podem ter mais dores na mama, sangramentos, perder a efetividade da reposição hormonal e ainda continuar com os sintomas [da menopausa].”

Dolores Pardini, doutora em endocrinologia e chefe do ambulatório de climatério da disciplina de endocrinologia da Unifesp, faz um contraponto. Para ela, o tratamento tende a aliviar parte do estrago sintomático, como os calores e a insônia. “Se a paciente estiver sendo tratada, isso fica um pouco atenuado. Porque o estradiol segura as pontas, vamos assim dizer.”

As mulheres podem ter mais dores na mama, sangramentos, perder a efetividade da reposição hormonal e ainda continuar com os sintomas

Há uma dose específica para essa fase?

As especialistas ouvidas pela Gama afirmam que não há uma quantidade universalmente segura para o consumo de bebidas alcoólicas, no climatério ou em qualquer outra fase da vida. A resposta ao álcool varia de pessoa para pessoa e depende também de fatores como histórico de saúde e possíveis comorbidades.

Ainda assim, há orientações práticas para minimizar os efeitos daquele drinque do fim de semana — afinal, muita gente tem prazer em beber socialmente vez ou outra. Patrícia Valentini Melo recomenda, nesses casos, “beber o menos possível” e “só quando vale a pena”, nunca por hábito.

Quando a ocasião é especial e a pessoa não quer abrir mão de um brinde, uma dose, a estratégia é preferir bebidas de menor teor alcoólico, comer antes de beber, alternar com copos de água e evitar usar o álcool como “remédio” para relaxar ou dormir. Se o corpo responde com fogachos, ansiedade ou insônia sempre que há um drinque à noite, vale tratar como gatilho individual, não como uma ressaca comum.

Fígado, coração, ossos e câncer X Álcool

A endocrinologista Dolores Pardini elucida também que o período pós-menopausa pode aumentar o risco de acúmulo de gordura no fígado e, quando o álcool entra no organismo, esse cenário piora. “O que pode levar a uma doença chamada esteatose hepática, agravando ainda mais a situação.”

Já a mulher com comorbidades, como obesidade e diabetes, tem ainda mais chance de ter essa enfermidade. “Muita gente acha que a esteatose é só uma gordura no fígado, mas ela é uma doença muito grave, que, caso não seja cuidada, pode evoluir para uma fibrose, uma cirrose e para um hepatocarcinoma [câncer no fígado]”, avalia.

O álcool é um grande fator de risco para o câncer de mama e do endométrio

No campo do coração, a médica usa a expressão “síndrome metabólica menopausal” para descrever uma combinação de fatores que ampliam o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares. “É uma associação de pré-diabetes, hipertensão, obesidade e aumento do triglicérides.” O álcool, nesse contexto, pode ser mais um elemento que dificulta o controle de peso, da glicemia e dos lipídios, sobretudo quando o descanso já está ruim.

Sobre a saúde dos ossos, a ginecologista Patrícia Valentini Melo lembra que a menopausa, sem tratamento, já aumenta o risco de osteopenia — perda gradual de massa óssea — e da osteoporose — doença que se caracteriza por deixar os ossos porosos, fracos e quebradiços. E aponta o papel do álcool como agravante na formação óssea. “Ele bloqueia as células dos ossos, os osteoblastos, que formam o osso.”

Na conversa a respeito de cânceres e drinques alcoólicos, Melo cita principalmente a relação com o câncer de mama. “Vários estudos mostram que o álcool é um grande fator de risco para o câncer de mama. Isso porque, como a metabolização do estrogênio fica prejudicada no fígado — como que se sobrasse estrogênio no sangue —, todas as doenças estrogênio dependentes têm mais chance de se desenvolverem. O câncer de mama é uma delas, e o de endométrios também”, elucida.

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