Por que é tão difícil se separar?
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Ilustração de Isabela Durão

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Conversas

Lucas Bulamah: "As pessoas felizes deveriam trair mais, mas elas não traem muito"

Psicanalista discute por que o desejo precisa de risco, separa “sexo” daquilo que é “sexual” e propõe compreender a traição sem moralismos

Ana Elisa Faria 01 de Fevereiro de 2026

Lucas Bulamah: “As pessoas felizes deveriam trair mais, mas elas não traem muito”

Ana Elisa Faria 01 de Fevereiro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Psicanalista discute por que o desejo precisa de risco, separa “sexo” daquilo que é “sexual” e propõe compreender a traição sem moralismos

No senso comum, a infidelidade costuma ser rotulada como falha de caráter, canalhice, desamor ou um erro que não deveria acontecer em uma relação supostamente madura e feliz. O psicólogo e psicanalista Lucas Bulamah contesta essa leitura, que julga moralista. Conforme comenta, ela empobrece o fenômeno e faz a própria psicanálise perder parte do que tem de mais instigante: olhar para o que desconcerta e que não cabe no ideal amoroso “bonitinho” e administrável.

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Mestre e doutor em psicologia clínica pela USP, Bulamah lança nos próximos meses, pela editora Planeta, um livro de ensaios que tenta mudar essa interpretação. Em vez de tratar a traição como “o negativo” do amor, ele propõe encará-la como uma espécie de ponto cego estrutural das relações contemporâneas — inclusive das mais felizes, que, segundo o profissional, não estão imunes ao desejo pelo que escapa ao pacto selado pelo casal.

“Eu até brinco que, infelizmente, as pessoas felizes não têm álibis para trair os parceiros. Quem tem essa sorte são as infelizes, porque podem justificar moralmente a traição”, diz. De acordo com ele, as pessoas felizes deveriam trair mais. “Mas elas não traem muito. Na verdade, há essa ideia de que a pessoa está feliz, então ela vai ordenhar a relação até o limite para ficar infeliz e, quem sabe, trair.”

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Em entrevista a Gama, Bulamah também separa o sexo do sexual. E explica: sexo é ato, técnica, encontro de corpos; sexual é outra coisa, mais obscura e anterior, uma pulsão ligada ao enigma do outro e ao que nunca se traduz por completo. Para ele, a forma como organizamos os relacionamentos hoje, como unidade identitária, promessa de completude e do “eu e você somos um”, tende a empurrar o sexual para fora desse vínculo, deixando o romance mais seguro e, muitas vezes, mais “broxante”.

É aí que entra uma de suas hipóteses mais provocativas, a traição como via de retorno do sexual, não necessariamente como “pular a cerca”, mas como deslocamento do eixo do tesão para zonas onde o outro não está — um desfazimento de si que contraria o ideal relacional construtivo e estável. Nessa chave, trair não seria apenas buscar prazer, e sim romper a ilusão de deciframento total do parceiro, reintroduzindo alteridade, risco e aquilo que não se pactua.

Ao discutir monogamia e não monogamia, o psicanalista argumenta que acordos, sejam eles fechados ou abertos, não resolvem o ponto central, porque o sexual não se submete bem à burocracia do permitido e do proibido. Pelo contrário. Quando tudo vira contrato, o desejo pode se orientar justamente para a transgressão, para o que está fora.

No livro que está por vir e nesta conversa, Lucas Bulamah insiste em um convite incômodo: falar de traição sem reduzi-la à moral e lembrar que, se a psicanálise nasceu escutando aquilo que as pessoas não querem admitir sobre si, talvez a infidelidade esteja menos na periferia do amor do que no coração do que somos.

Eu até brinco que, infelizmente, as pessoas felizes não têm álibis para trair os parceiros

  • G |Como a psicanálise enxerga a traição amorosa?

    Lucas Bulamah |

    Tradicionalmente, a psicanálise não enxerga a traição amorosa. Ela a olha através, pelas lentes da estabilidade amorosa, do sucesso amoroso. A traição sempre aparece como um desvio, um infortúnio, uma falha na estrutura da relação, uma falha na dedicação, mau-caratismo, pilantragem, malandragem. Não existe um olho que mire a traição como fenômeno, ela é sempre mediada pelo nosso conjunto moral. E digo isso como psicanalista, olhando para outros psicanalistas. A traição é colapso de nossos ideais de relacionamentos amorosos, de estabilidade e fidelidade, seja ele em um pacto monogâmico ou qualquer outro. Por isso, acho que a traição é sempre secundária. Não tem algo primário na traição, pelo menos não para a psicanálise do jeito como ela é feita e divulgada hoje.

  • G |A traição é sempre sexual? Você costuma separar “sexo” de “sexual”, o que isso significa?

    LB |

    O sexo é o ato, a prática do encontro entre dois ou mais corpos. É o que os bichos fazem para se reproduzir ou o que os seres humanos fazem para buscar algum tipo de prazer, ou uma descarga de tensão, se quisermos ser freudianos. O sexual é um domínio completamente diferente; é aquela coisa obscura que assentou morada dentro da gente, mas que é sentida como de fora. Que é implantada desde muito cedo em nosso desenvolvimento por outra pessoa, que emite mensagens, sinais, comunicações que não deciframos porque elas são, basicamente, inconscientes até para esse outro, e elas excitam o nosso corpo e a nossa subjetividade. Justamente por excitar e não ter tradução que esquiva a consciência. E isso vira pressão, que, na psicanálise, costumamos chamar de pulsão — a pulsão, para Freud, e sou 100% partidário dessa noção, é sempre sexual. O sexual é, portanto, essa pressão que nos leva em direção a algum tipo de decifração, geralmente é uma questão feita ao outro, é a alteridade enigmática que mora dentro da gente e nos impele a algum tipo de movimento, de busca.

  • G |Ela é, então, junção do sexo com o sexual?

    LB |

    O sexual se associa ao sexo primeiro porque a sociedade vitoriana, nossa grande matriz para pensar, viver e experimentar o sexual e o sexo, trancou o sexo no quarto dos pais. Nós, como crianças que somos, ficamos curiosos para saber o que está acontecendo lá dentro. Temos essa pressão enigmática e vamos sempre tentar pensar nessa cena, em que somos excluídos e os pais estão transando no quarto. A imaginação erótica da criança é uma forma de tentar dar algum sentido, nunca completo, nunca possível, dessa pressão enigmática que é o próprio sexual. Sintetizando: o sexual está sempre fora, trancado, e a gente está, de certa maneira, excluído dele. Desejamos fazer algum tipo de apreensão consciente, exercer algum tipo de poder, alguma apropriação disso que está fora, que não é nosso. Dado que o sexual é algo alheio, muito difícil de traduzir, se não impossível mesmo, e as nossas relações são estruturadas conscientemente, administradas e geridas na base da familiaridade, previsibilidade e, claro, fidelidade, o sexual de fato tem pouco ou nada a ver com nossas relações amorosas. A minha hipótese é que o sexual retorna para a gente apenas sob a forma da traição.

  • G |Nesse cenário, o sexual está sempre fora da relação amorosa?

    LB |

    O sexual, nesse sentido da sexualidade infantil, enigmática, da sexualidade que desfaz o Eu, sendo o casal (ou o trisal ou a polifamília, que seja) uma unidade identitária, a consolidação de uma promessa, de um pacto, do eu e você somos um, a traição só pode ser a única forma do sexual voltar, não para a relação, porque ele nunca está na relação. Esse é um ponto importante: o sexual nunca está na relação do ser consigo mesmo, ou seja, no estabelecimento do Eu e no que ele pretende exercer seu domínio. Ele é sempre feito como uma espécie de reação ao fato de que o quarto dos meus pais está fechado para mim e eu não posso entrar lá, lá onde está esse enigma que é o sexual e do qual eu sou excluído.

  • G |Por que as pessoas traem?

    LB |

    Porque não há outro jeito de experimentar o sexual. É uma resposta taxativa, mas acredito nela: na forma como organizamos as relações, a traição é inevitável. E não falo especificamente do sexo proibido, do “pular a cerca”. Nosso ideal amoroso — a felicidade do casal, a conquista do amado e a ilusão de uma unidade — é, necessariamente, antissexual, ou broxante, se quisermos um sentido mais chulo. Mesmo quando há sexo entre o casal, o outro, enigmático, entra como um intruso no par amoroso, e então surgem o ciúme e a paranoia. Ou, o mais comum de acontecer, é a pessoa ter a ilusão de deciframento; ela pensa que conhece o outro. Quando alguém se convence de que conhece o outro, o grande ideal monogâmico ocidental, esse outro já não existe mais. Não como um outro. Assim, a alteridade só pode aparecer pela via da traição. Não necessariamente na busca por outra pessoa, mas no fato de deslocar, dentro de si, o eixo da relação para lugares onde o outro não está. A traição na relação é um desfazimento de si, oposto ao nosso ideal relacional hoje, construtivo e identitário, mesmo que vise a formação de comunidades poliamorosas ou não-monogâmicas. O sexual não se presta à construção, não se presta ao sentido, e muito menos à moral, tampouco essa que prega que amar mais de uma pessoa é um ato supostamente revolucionário ou decolonial. Fora da relação ainda reside o desfazimento e, incluindo agora a traição literal, é lá onde talvez viva a excitação infantil esquecida pelo amadurecimento e pelo processo civilizatório.

Na forma como organizamos as relações, a traição é inevitável

  • G |As pessoas felizes em um relacionamento também traem?

    LB |

    Elas deveriam. Eu até brinco que, infelizmente, as pessoas felizes não têm álibis para trair os parceiros. Quem tem essa prerrogativa, essa sorte, são as pessoas infelizes, porque podem justificar moralmente a traição — mesmo que, convenientemente, tenham que dizer para si e para os amigos que o casamento, ou o namoro, não era bom o suficiente e por isso traíram. Porém, isso é uma ilusão retrospectiva. Eu traí por quê? Vou procurar uma razão. Vou encontrar algum motivo, algum sentido, porque somos todos muito moralistas e a traição é apenas autorizada como um consolo, um prêmio aos infelizes pelos anos de suplício. Por que eu digo que as pessoas felizes deveriam trair? Porque elas têm o potencial de trair tão melhor. Um encontro, quando é eroticamente forte e excitante, abre o sexual para o mundo. Por ser uma experiência de desfazimento, quando bem-feita, a pessoa deveria, pelo menos, se abrir para a experiência do mundo como algo estético, erótico, dionisíaco. Acho que as pessoas felizes deveriam trair mais, ou que o próprio erotismo deveria ser autorização o suficiente. Na verdade, há essa ideia de que a pessoa está feliz, então ela vai ordenhar a relação até o limite para ficar infeliz e, quem sabe, trair.

  • G |Olhar de forma mais aberta para a traição não coloca as relações em risco? Ou são coisas isoladas, na sua opinião?

    LB |

    Concordo que olhar a traição mais de perto, mais abertamente, coloca as relações em risco. É justamente isso que a ignorância da perspectiva ou da realidade da traição ignora, ou tenta soterrar, ou recalcar: o risco que as relações representam. E a gente busca relações sem risco. É uma mania bem contemporânea tentar encontrar espaços em que a gente possa ser vulnerável. O que, em uma leitura realista, mesmo que um pouco cínica, significa espaços em que a gente não corra risco nenhum. Cada vez mais, a gente reivindica o direito de não ser agredido, como se fosse um direito natural e universal, uma realidade possível. A traição escancara um tanto disso: que o real das relações é justamente o risco. Não acho que são coisas isoladas. Penso que a relação pode oferecer confiança se a gente tiver coragem de reformular o nosso “conceito”, a nossa demanda por confiança. Uma confiança que contenha o risco como algo inerente das relações, porque é inerente à perspectiva de estar se relacionando, de se relacionar com o outro, que é diferente, e não reduzir o outro a algo previsível, ao rotineiro, que é o que queremos quando procuramos espaços seguros e depois saímos perguntando onde foi parar o erotismo da relação, ausente o risco.

  • G |Vivemos em tempos de relacionamentos mais livres, de conversas sobre a não monogamia. Por que muita gente prefere continuar em uma relação fechada e trair do que encarar a não monogamia?

    LB |

    Não acredito que a não monogamia, em sua forma propositiva, seja solução ou um deslocamento e agravamento dos mesmos problemas e promessas impossíveis das relações monogâmicas. O sexual, como disse no começo, não tem a ver com acordos, com desconstruções triunfantes e pretensamente revolucionárias, e sim com o que não conseguimos prever, nem pactuar, nem edificar. Quando relações monogâmicas ou abertas tentam colocar tudo no pacote do “vamos fazer assim, não faremos daquele jeito, isso é permitido, aquilo é vetado”, entram numa burocracia obsessiva que só aumenta o desejo pelo proibido. Em um sentido freudiano, talvez “batailleano” [do escritor francês Bataille], o erótico traz, inerentemente, a marca do que não pode: do proibido, do que eu não participo, do que estou excluído — e quero romper essa exclusão. Assim, quando o acordo empurra tudo para o campo do permitido e separa algumas coisas como proibidas, o desejo se orienta para fora do permitido, tentando romper essa barreira. Ou seja, a traição tende a ser mais atraente do que o que é permitido. Não que o permitido não seja gostoso; não falo só de prazer, mas dessa excitação do sexual infantil — do desfazimento, do masoquismo — ligada à transgressão. Há também respostas mais sociológicas porque a traição também pode ser prova de virilidade e de conquista. Às vezes, é a única alternativa que se tem, porque falta coragem para aceitar que a sexualidade do outro não é nada pessoal.

A sexualidade traz, inerentemente, a marca do que não pode. Do proibido, do que eu não participo, do que estou excluído

  • G |Você está escrevendo um livro de ensaios sobre a traição. O que é abordado sobre o tema na publicação?

    LB |

    É um grande ensaio em três partes sobre a traição — embora eu mesmo “me traia”, porque não falo só disso. Talvez eu seja pentelho, mas acho que, nos últimos quatro ou cinco anos, nós, psicanalistas, viramos um bando de mascates do amor: amor vende, encaixa no algoritmo, é gostosinho e reconfortante, administrável. Mesmo quando se fala do lado B, como o abandono e a solidão, o amor ainda é um produto consumível; psicanalista vende fácil o amor. Traição, não, é muito mais difícil de falar e, quando é falado, é para oferecer abraços e consolos como mais uma mercadoria.

  • G |Por que falar de traição por esse viés?

    LB |

    Quando vejo psicanalistas falando sobre traição, quase sempre é moralista e, contrariando o potencial da própria psicanálise, escandalosamente decente: traição como fracasso amoroso, como quebra de um pacto, como falha de caráter, canalhice. Ou o pior de tudo: apenas um privilégio e hábito masculino. Perdemos o melhor da psicanálise quando tocamos no tema por essa lente. O grande ensinamento de Freud talvez seja: o que tomamos como “certo” costuma ter um fundamento bastante errado. Por isso, achei que fosse o momento de parar de vender esse amor poético, gostosinho e bonitinho para pensar a traição em si, sem juízo de valor ou moralismo. Na verdade, se há juízo de valor, que seja medido pelo valor sombrio do sexual. Queria falar de traição não como o negativo do amor nem desvio de caráter, mas como o cerne da psicanálise. Para mim, a psicanálise é a ciência da traição: ela nasce quando Freud escuta uma mulher falar do desejo pelo cunhado e da vontade de ver sua irmã morta escondidos nos sintomas do seu corpo. A escuta psicanalítica surgiu ali, da traição da moralidade impositiva. E por que, no fim das contas, os psicanalistas são tão moralistas? Por que tratamos a traição como algo secundário ou sinal de malogro, de fracasso amoroso?

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