Namorar dá trabalho?
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Reprodução/Laurinha Lero

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Podcast da semana

Laurinha Lero: As dificuldades do amor contemporâneo

Gama ouve a autora, podcaster e crítica cultural sobre o relacionamento amoroso contemporâneo: “Ser feliz é um dos resultados menos interessantes do amor”

Isabelle Moreira Lima 07 de Junho de 2026

Laurinha Lero: As dificuldades do amor contemporâneo

Isabelle Moreira Lima 07 de Junho de 2026
Reprodução/Laurinha Lero

Gama ouve a autora, podcaster e crítica cultural sobre o relacionamento amoroso contemporâneo: “Ser feliz é um dos resultados menos interessantes do amor”

Entender o amor hoje é tão difícil que, neste episódio, Gama resolve apelar para a ficção, pois, quem sabe, ali há uma luz. Neste episódio do Podcast da Semana do Dia dos Namorados, entrevistamos Laurinha Lero. Gama ouve a autora, podcaster e crítica cultural sobre o relacionamento amoroso contemporâneo: “Ser feliz é um dos resultados menos interessantes do amor”, ela afirma na entrevista.

Laurinha Lero ficou conhecida no Brasil inteiro no começo desta década com o seu podcast “Respondendo em Voz Alta”, em que fazia comentários e respondia dúvidas dos ouvintes. Hoje, escreve crítica cultural em seu site, resenhando biografias de famosos e reality shows de qualidade questionável. É célebre pelo seu humor afiado e nonsense, como fica bem claro neste episódio.

Na conversa que você ouve nos aplicativos de áudio e lê na transcrição abaixo, Laurinha Lero fala sobre o amor contemporâneo, sobre a pressão que os solteiros sofrem para encontrar alguém, comenta a situação das mulheres hétero e fenômenos atuais comuns nas relações como o “love bombing“.

Roteiro e apresentação: Isabelle Moreira Lima

No link abaixo e também no Deezer, no Spotify, no Apple Podcast e no YouTube, você escuta este episódio.

Todo relacionamento seu que der errado deveria te ensinar alguma coisa

  • G |Que conselho você dá para quem está sozinho neste dia dos namorados?

    Laurinha Lero |

    O primeiro conselho é não ouvir o conselho de alguém que está dando uma entrevista, porque ela mesma não sabe o que vai dizer a seguir, você entende? Você entra num estado hipnótico, as palavras simplesmente saem do lado da sua boca, em qualquer ordem. Tem toda a autoridade de uma mesa de bar, então realmente não vejo porque você deveria abrir espaço na sua vida para acomodar qualquer sugestão que eu dê nesse momento. Tendo dito isso, eu acabei de pensar no conselho que você deveria seguir, que é o seguinte: se você está sozinha no Dia dos Namorados, isso provavelmente é culpa sua.
    É alguma coisa que você fez, é alguma coisa que está errado com você, que você mesmo não sabe, mas todo mundo sabe, todo mundo comenta quando você não está. Como é que você resolve isso? Eu diria que uma coisa que me ajudou ao longo da minha vida foi ser uma pessoa mais sarcástica. Se eu sinto que tem um problema que precisa ser conversado, não converse em hipótese alguma, que é a pior coisa que você faz — conversar. E, acima de tudo, confie totalmente nas suas emoções, seu medo, sua raiva. Principalmente medo e raiva, eu diria, são bússolas inestimáveis no caminho do amor.

  • G |Quem busca um amor pode ter esperança nos aplicativos de namoro?

    LL |

    Não. Não. Mas fora dos aplicativos também não. Então, vai de cada um.

  • G |Está difícil procurar alguém, ou será que estamos com expectativas equivocadas? É mais difícil encontrar alguém depois que você está muito tempo sozinho?

    LL |

    O problema não é tanto você encontrar alguém, quanto você se encontrar. Com todo respeito ao ouvinte ter que ouvir uma frase dessa, porque eu tenho muitas amigas solteiras, novamente, com todo respeito, e a vida romântica delas é uma rápida sucessão de desistências. O que não é dizer que você não pode desistir. A vida não é nada senão um efeito cumulativo das suas decisões darem errado. Eu mesma entrei na engenharia em 2011 e saí formada em filosofia em 2024. E eu só me formei porque me distraí — quando fui ver, eu estava formada —, senão eu tinha trancado também. Enfim, a questão é a seguinte, todo relacionamento seu que der errado deveria te ensinar alguma coisa. E o que me parece é que a pessoa desiste antes de entender porque ela sentia atração por alguém que não fazia bem para ela, ou que não tinha nada a ver com ela, achando que desistir vai eliminar o problema, quando na verdade desistir só recomeça o problema do zero com outra pessoa, que vai ser igual à anterior. Então a minha recomendação para você é uma mudança de perspectiva. Se você quer desistir de alguma coisa, faz o contrário. Fica, dá um tempinho, espera a coisa se desenvolver, não para dar certo (ninguém está dizendo que vai dar certo), mas para você entender porque dá errado. Aí você consegue tirar esse erro da sua vida e cometer novos e mais interessantes erros.

A grande questão contemporânea não é a monogamia sexual e romântica, isso não importa. É a monogamia de tempo

  • G |As mulheres hétero estão mesmo numa situação dramática em relação a parceiros amorosos? O que acontece com os homens e esse distanciamento sobre as visões e prioridades de ambos os lados?

    LL |

    Eu não faço a menor ideia do que acontece com os homens, nem com as mulheres. Eu não tenho nenhuma ilusão de entender o que se passa pela cabeça de qualquer pessoa. Quem sou eu para dizer quais são as visões e prioridades das mulheres? A gente nem se reuniu para decidir isso ainda. Estamos para marcar um encontrinho em Angra dos Reis esse ano, reunir todas as mulheres que existem, debater essas coisas, mas a agenda está complicada.

  • G |Como lidar com a pressão da sociedade para virar um casal?

    LL |

    Virando um casal. Com certeza, se todo mundo te pressiona para fazer uma coisa, quer dizer que ela funciona. Ela deu certo para todo mundo, em todos os casos, todas as vezes, e vai dar certo para você. Para você ver, sabe os casais que você conhece que são felizes? Inúmeros casais felizes que você conhece? Então, só siga o plano.

  • G |Você lê e comenta muitos livros lançados por personalidades brasileiras polêmicas. O que aprendeu sobre amor com essas leituras?

    LL |

    Absolutamente nada. Eu estou lendo, na verdade, relendo, analisando profundamente a biografia da Vanessa Lopes, conhecida pelos vídeos no TikTok, também por uma breve aparição no BBB24, não sei se você lembra. E as histórias que ela conta na biografia são absurdas. São coisas que nenhum ser humano consegue identificar. Tem um capítulo que ela está indo de carro com os amigos, não sei aonde, ela para o carro para trocar o pneu no meio da estrada, estão os três lá em volta do pneu furado, vem outro carro, bate com tudo neles, acerta ela, acerta outro carro, o cara voa para dentro do mato, todo quebrado. Os pais da Vanessa chegam, aplicam um torniquete na perna dela, os pais do outro maluco lá chamam um helicóptero para levar ele para o hospital, como é de costume a todos nós, né? Aí chega a Vanessa no hospital, vai fazer os exames lá para ver se quebrou alguma coisa, descobre que está com infecção bacteriana no útero, que não tem nada a ver com o acidente. Que na verdade veio de uma DST que ela pegou e eu não sabia, sendo que, eis a questão, sendo que ela namora, e quem passou para ela só pode ter sido a namorada. Isso me ensina alguma coisa sobre amor? Não, mas me ensina algumas coisas sobre a Vanessa Lopes.

  • G |A gente tem visto um crescimento no interesse pelo tema da não monogamia, casamento aberto, relações mais flexíveis. Qual sua avaliação sobre o modelo? Acha que pode ser o futuro do amor?

    LL |

    A não monogamia não é o futuro do amor, é o passado do amor. As relações eram não monogâmicas. A monogamia é uma coisa recente, é uma invenção dos advogados. Ela existe para garantir que a terra que é do pai está passando para um filho que é dele, o que talvez ainda importe em certas esferas que eu não frequento. Porque as pessoas que eu conheço não só não tem filho, como não tem terra, e também não estão trepando com gente suficiente para não saber de quem seria o filho que nasceu. Certo? A grande questão moderna, contemporânea na verdade, não é a monogamia sexual e romântica, isso não importa. É a monogamia de tempo. Você tem tempo para passar com mais de uma pessoa? Provavelmente não. Eu tenho cinco horas livres por semana e duas delas eu passo no ônibus. Quem sabe um dia eu tenha tempo e amor para dar, mas nesse momento não está sobrando.

Eu prefiro amar do que ser feliz. O fato de que eu amo e sou feliz não passa de uma excelente coincidência

  • G |Uma pesquisa recente do Datafolha mostrou que o brasileiro se preocupa com a violência contra a mulher, mas não considera violência o homem controlar o que a parceira faz ou com quem anda. Para você, o que isso diz sobre a nossa mentalidade a respeito de relacionamentos?

    LL |

    Ah, não diz nada. Diz mais sobre a nossa mentalidade sobre a violência. Uma mentalidade só, a ideia que a gente tem sobre a violência, enquanto sociedade, são na verdade umas 50 ideias contraditórias, misturadas, mal entendidas, um grande buffet conceitual, cada um chega e monta o seu prato. O que eu quero dizer com violência e o que você quer dizer com violência são coisas muito diferentes, o que não seria um grande problema se não tivesse acontecendo exatamente a mesma coisa com todas as outras ideias que existem. Então, tem uma pá de coisa aí para resolver. Mas em “O Jogo dos Reis” a gente vê isso.

  • G |O que você tem a dizer sobre o love bombing, comportamento muito presente nas relações hoje em dia? Como pode comprometer a evolução de um relacionamento?

    LL |

    O love bombing não vai comprometer nada se você não deixar. Tem um conceito muito útil de basquete sobre isso, que é a ideia da pessoa vir jogar o corpo contra você, e em vez de você parar o que está fazendo, deixar isso te atrapalhar, você continua jogando. Você aguenta o tranco. Com o love bombing é a mesma coisa. Eu, na minha relação mais recente, a aliança entrou no dedo na primeira semana. É love bombing? Talvez. Dois meses de namoro, uma pessoa se mudou para o morar na cidade da outra. É love bombing? Possivelmente. Mas quem estava fazendo era eu. Você entende? E em vez da pessoa se assustar, ela simplesmente deixou rolar. Em vez de eu me assustar com ela não se assustando, eu também deixei rolar. Resultado? Deu certo! Estamos juntos, felizes, e vamos continuar juntas pelo resto da vida de quem viver menos.

  • G |No que diz respeito ao amor, você é otimista ou pessimista? Dá pra ser feliz no amor?

    LL |

    Dá pra ser feliz. Mas sinceramente, ser feliz é um dos resultados menos interessantes do amor. Se você quer ser feliz, você pode ser feliz com qualquer coisa. Você não precisa de amor pra isso. Felicidade é uma disposição mental, um jeito de encarar a vida. Então, amor não. Ele te destrói, te constrói, te faz perceber que tinha muito mais dentro de você do que você achou que você tinha. Que você era muito mais do que você achou que era. Eu prefiro amar do que ser feliz. O fato de que eu amo e sou feliz não passa de uma excelente coincidência.

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