Como proteger conquistas?
Icone para abrir

4

Depoimento

Quando você sentiu que sua família não é reconhecida como tal?

Famílias de dois pais ou duas mães relatam situações em que não se sentiram reconhecidas como família, e como lidam com essa realidade

Isabelle Moreira Lima 14 de Junho de 2026

Quando você sentiu que sua família não é reconhecida como tal?

Isabelle Moreira Lima 14 de Junho de 2026

Famílias de dois pais ou duas mães relatam situações em que não se sentiram reconhecidas como família, e como lidam com essa realidade

  • Imagem
    Foto de Bruna Latini

    “Já no primeiro dia da vida da Yoko senti que a minha família não era tratada como uma família”

    Letrux, cantora, compositora, atriz e escritora, mãe de Yoko, que tem menos de um ano

    “Assim que a Yoko nasceu, fui até o cartório da maternidade. Tinha uma fila de homens para registrar. Uns casados e outros não. Todos chegaram ali com o papel da maternidade, dizendo que a filha/o deles nasceu e o cartório só confirmava: ‘Claro, toma aqui a certidão’. No meu caso, isso não foi possível.. Isso me deixou de saco cheio das regras (da igreja, da sociedade).

    Eu estava alucinada de ocitocina e pensando o quanto o mundo é careta e idiota. Acho que infelizmente já no primeiro dia da vida da Yoko senti que a minha família não era tratada como uma família. Mas é isso: luto pelos meus direitos, grito um foda-se para todo mundo, e simplesmente continuamos existindo, totalmente família, Yoko, Katja, Thiago (que não é pai dela, mas é padrasto) e eu, imersos na nossa estrela azulada e alucinada de amor.”

  • “Tenho que explicar algo que deveria ser reconhecido com naturalidade”

    Porfírio Passos, maquiador e biomédico, pai de Larissa, 8 anos

    “Já senti que minha família não foi reconhecida como uma família de verdade, infelizmente. Isso aconteceu mais de uma vez, por pessoas próximas inclusive. Já apareceu sutilmente, como uma curiosidade. Já ouvi perguntas como: ‘Mas quem faz o papel de mãe?’ ou ‘Vocês conhecem os pais de verdade?’. E isso vem dessa construção de que para ser uma família de verdade e ‘completa’, tem que seguir um modelo padrão, formado por um homem e uma mulher.

    O que sempre me deixa chocado é que as pessoas, parecem esquecer que o que forma uma família é o amor, o cuidado, a presença e a responsabilidade com os filhos. A nossa família é construída diariamente da mesma forma que qualquer outra, mesmo assim, vez por outra tenho que explicar algo que deveria ser reconhecido com naturalidade. Percebo que isso tem mudado aos poucos, especialmente entre as pessoas mais jovens. Essas situações ainda acontecem e mostram que há um caminho importante de conscientização e respeito pela frente.”

  • Imagem
    Arquivo pessoal

    “Os formulários da maioria dos lugares não contemplam os diversos tipos de família. A Receita Federal não coloca o campo filiação na base de dados, então eu ou minha esposa vamos aparecer como pai”

    Dani Arrais, escritora e diretora criativa da contente.vc

    “Tem uma coisa clássica que acontece: os formulários da maioria dos lugares não contemplam os diversos tipos de família. Você chega na maternidade para dar entrada, e lá está escrito nome do pai e nome da mãe. Chega à escola para matriculá-lo, e também está lá: nome do pai e nome da mãe. A Receita Federal não coloca o campo filiação na base de dados, então eu ou minha esposa vamos aparecer como pai. A gente o tempo inteiro tem que reforçar algo que, para uma família heterossexual, é o básico.

    Os lugares poderiam se preparar melhor colocando ‘filiação’ nas fichas cadastrais. Isso não afeta só a minha família, uma família de dois pais também passa por isso. Há ainda uma falta de receptividade na cultura e na sociedade em geral. Você vai ler um livro infantil para o seu filho, e a maioria das histórias tem um pai e uma mãe. Quando a gente não se vê nessa cultura, parece que é estranho, diferente, um outro. E, no fim, todo mundo quer pertencer, quer fazer parte de algo. Mas há essa falta de receptividade.

    Quero que meu filho cresça cercado de outras famílias como a dele, para sentir que ele é mais um. Só que isso exige uma construção ativa e intencional. O que eu percebo é que vamos moldando o lugar que ocupamos para pertencer, para ter a sensação de acolhimento e de mais gente parecida por perto. Mas parece que essa é uma questão só nossa. Deveria ser de mais gente também.”

  • “Esqueço que ocupamos esse lugar e me dou conta quando já tem um olhar assustado diante de um abraço ou um carinho em público. Para nós, é só amor mesmo”

    Martha Lopes, escritora e gestora de projetos culturais, mãe de Gabriel, 15, e Felipe, 9

    “Minha família é uma das ditas famílias mosaico, composta por meus filhos do primeiro casamento, criados de forma compartilhada com o pai deles, e minha atual esposa, Ana. Gosto desse termo porque implica a formação de uma família criada a partir de outras experiências, uma rede extensa de cuidado e amor. Claro que nem todo mundo vê assim.

    Em alguns ambientes coletivos, por vezes notamos que esse relacionamento é visto como algo menor (como um tipo de amizade, um grande companheirismo) e nossa família como algo ‘quebrado’. Nem sempre é declarado, mas é uma sinalização sutil, por palavras e olhares, de que não pertencemos aos mesmos espaços que as famílias ditas ‘normais’.

    Ainda tem quem busca demonstrar que acha muito ‘legal’ e ‘normal’ nossa configuração familiar, ainda assim ressaltando que não pertencemos — mesmo que muitas vezes sem querer. Muitas vezes esqueço que ocupamos esse lugar e me dou conta quando já tem um olhar assustado diante de um abraço ou um carinho em público. Para nós, é só amor mesmo.”

  • “Existe um receio do que pode acontecer se a gente for reconhecida como família”

    Márcia Castro, cantora, nutricionista e empreendedora, mãe de Maria Flor, 4

    “Já senti no prédio onde eu moro. Uma vez pegando elevador com a vizinha a gente estava conversando sobre filhos e ela olhou para o Maria Flor, que era pequenininha, e falou ”Nossa, você já está bem, né?”, se referindo ao pós-parto. Eu falei ‘ah, porque não fui eu que pari, foi minha esposa”.  Ela me olhou com uma cara…. de monstro, sabe? E nunca mais falou comigo depois disso, me via e não pegava elevador ou subia correndo. Eu percebi que ali existia um verdadeiro preconceito com a minha família. Essa foi a única situação dita, revelada, explícita.

    Mas o que existe que eu acho que é pior é aquele receio implícito de você chegar nos locais com a família e pensar: ‘Se a gente explicitamente aqui ser percebida como uma família, o que pode acontecer?’.  Isso existe e é um receio recorrente. Não que a gente sucumba a ele,  a gente vai mesmo, enfrenta, mas é um receio.”

Um assunto a cada sete dias