COLUNA

Fernando Luna

É proibido pisar na grama

Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre os avisos mais irritantes, uma versão caseira da Biblioteca de Babel, uma conversa na Flip, a Sherazade da construção civil e as boas novas de Cazuza

18 de Agosto de 2025

É proibido
pisar na grama/
O jeito é deitar
e rolar

Chacal, 1979
Antologia Profética

“Proibido pisar na grama” é o mais desmancha-prazeres dos avisos.

Contra a interdição burocrática de gramados verdinhos, macios e convidativos, vide o verso de Chacal. Mas existem por aí muitas outras sinalizações que só mesmo deitando e rolando por cima.

“Sorria, você está sendo filmado”, por exemplo, é uma maneira passivo-agressiva de dizer “Não faça bobagem, estamos gravando cada movimento seu e ninguém parece inocente numa imagem de CCTV”.

(Faltou esse toque pro pastor homofóbico flagrado de peruca loura e calcinha azul, durante sua “investigação pessoal sobre uma situação pessoal”.)

“Verifique os freios” serve apenas pra gerar ansiedade. A placa sempre aparece quando seu carro já tá embalado numa descida de serra. Caso você verifique e os freios falhem, só resta torcer por um fim rápido e indolor.

“Respeite a sinalização”, outro clássico inútil das rodovias. Se o motorista não for dos que respeitam a sinalização, vai começar desrespeitando essa sinalização. Se for respeitador, a sinalização é redundante.

“Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo se encontra parado neste andar”: uma criatura distraída a ponto de não notar que falta um elevador diante dela, francamente, seria capaz de notar essa plaquinha?

“Não urine no chão” me faz pensar se eu deveria frequentar banheiros que exigem orientações desse naipe. Quem mais usa as dependências, senhor gerente? Babuínos?

O capitalismo de vigilância também tem dado sua contribuição.

“Aceito os termos de uso” obriga o usuário, a.k.a. você, a produzir provas contra si mesmo – se der problema, bem, você sabia o que fazia, pois leu as 17 páginas em letras miúdas e sintaxe truncada.

“Você atingiu seu limite diário” não passa de um diversionismo do Instagram, fingindo que se importa com sua saúde mental. Opa, a notificação pulou na sua tela? Fecha o app e vai pela sombra – a coluna terminou.

Livro, quando te fecho abro a vida

Pablo Neruda, 1954

Comecei a arrumar a estante de livros.

Quase escrevi “biblioteca”, mas ia parecer que moro no Real Gabinete Português de Leitura, entre mesas de jacarandá da Bahia, e coleciono volumes raros da Bíblia de Mogúncia, arrematados em leilões disputados.

Não é bem isso, embora tenha mais livros do que seja capaz de ler e, entre muitíssimos exemplares facilmente encontráveis nas melhores casas do ramo, haja uma ou outra edição difícil de achar por aí.

Aliás, tá difícil de achar qualquer coisa por aqui mesmo: com a confusão da mudança de apartamento, a organização dos livros foi pro beleléu.

Emily Dickinson, tadinha, parou no colo do Lima Barreto. A “História Social da Literatura e da Arte” tava no meio de uma pilha de HQs, todas desconfiadas daqueles dois volumes sisudos. Uma antologia do João Cabral de Melo Neto, que só ligava o rádio pra escutar notícia, foi resgatada justamente na seção de música. “500 ilusões de ótica” – não consigo resistir a essas compras – encarava “Sobre fotografia”, da Susan Sontag, como numa instalação de arte conceitual.

Biblioteca de Babel é isso – o que me lembra que ainda não sei onde tá “Ficções”, do Jorge Luis Borges.

Por outro lado, encontrei uns e outros que não via há tempos.

Como uma edição caseira do Antonin Artaud, páginas xerocadas e encadernação espiral, que comprei em 1986 quando vi Rubens Corrêa interpretar o dramaturgo francês no porão do Teatro Ipanema. Ou “Tintim e os Pícaros”, que me faria viajar seis horas de ônibus pelo México pra conhecer Chichén Itzá, mais de vinte anos depois. Ou “Fup”, que me deu vontade de reler imediatamente uma das melhores e menos conhecidas histórias já escritas, com os adoráveis e loucos vovô Jake, Miúdo e a pata que dá nome ao surrado livrinho de bolso.

Arrumar os livros é como reencontrar velhos amigos – com a vantagem de que estão exatamente como você se lembrava deles.

Nada pode tudo na vida

Alice Ruiz, 1980

Esse poema mínimo, reflexivo como um koan zen-budista e viralizável como um post de gatinho, traz verdades.

“Nada/ pode tudo/ na vida” aparece lá pelas últimas páginas de “Navalhanaliga”, livro de estreia da poeta curitibana Alice Ruiz.

Originalmente em letras enormes e maiúsculas como um grito, o texto ocupa uma página inteira da primeira edição – uma página grande e quadrada, extravagância gráfica viabilizada pelo prêmio no Concurso Paraná de Literatura.

Com um registro de linguagem mestiço, mistura poesia visual com poesia marginal: uma semiótica malemolente, entre os píncaros concretistas e a voz da rua.

Como toda poesia digna do nome, pode ter muitas interpretações. Vou arriscar apenas duas, pra não aborrecer ninguém.

A mais direta é reconhecer nas cinco palavrinhas, ainda mais curtas que um haikai, a reafirmação do que deveria ser óbvio, mas não é. Nada – nem ninguém, acrescento – pode tudo na vida. Melhor se conformar com suas limitações e dispensar o coach.

Outro jeito de ler é, digamos, inverter os pólos de energia: encarar o “nada” de “Nada pode tudo na vida” como potência. O vazio absoluto faz a gente se mexer, atrás de uma razão pra existirmos – a que será que se destina? Aí inventamos a roda, a rima, a civilização e o Mini Oreo.

Nessa Flip, tive o privilégio de me meter na conversa da própria Alice com outras duas grandes poetas brasileiras, Claudia Roquette-Pinto e Marília Garcia. Numa hora e tanto de prosa e verso, passamos por Madonna, machismo, amor, morte, Dalton Trevisan, desejo e muito mais.

(Aproveita: todas as mesas do programa principal tão no You Tube. Além desse trio, tem Nei Lopes, Valter Hugo Mãe, Rosa Montero, Caetano Galindo e muito mais.)

Nem sei quantas vezes tive em Parati pra me jogar nessa micareta das letras. Não é perto nem barato, mas sempre dá vontade de voltar. Por quê? Porque nada pode tudo na vida.

Porque, enfim, tudo passa

Luís de Camões, 1598

Porque, enfim, tudo passa. Tudo, exceto uma reforma.

O gajo Luís de Camões viajou à Índia, sobreviveu a um naufrágio, serviu na China, perdeu o olho direito numa batalha no Marrocos, passou por Moçambique e consolidou um idioma moderno.

Mas, aposto, nunca reformou sequer um banheiro – ou saberia que nem tudo passa.

Reforma é eterna, não tem fim nem começo. Ou, quem sabe, até teve um começo: um Big Bang imemorial, tão distante que ninguém se lembra por que, ora pois, decidiu começar a quebradeira.

No meu caso, foi por esquecimento.

Havia reformado meu ex-apartamento 26 anos atrás. Vinte seis anos são mais que suficientes pra esquecer todo e qualquer perrengue. O estresse pós-traumático ficou pra trás há décadas, restando apenas a alegria de morar como eu queria morar. Memória é mesmo uma ilha de edição.

Assim, protegido pela amnésia e com a coragem dos ingênuos, decidi reformar meu novo apartamento. Isso faz um ano. Trezentos sessenta e cinco dias depois, continuo reformando, reformando, reformando – esse verbo que só se conjuga no gerúndio, “ação contínua, em andamento ou inacabada”.

Um Liceu de Artes e Ofícios dos dias de hoje teria que oferecer formação em storytelling. O mestre do obras do século XXI é uma Sherazade da construção civil, sempre com mil e uma histórias na ponta da língua pra justificar seus mil e um atrasos.

Chega a ser comovente o índice de desventuras nesse ramo.

O encanador, coitado, perdeu duas mães em três meses. A van do vidraceiro enguiçou no dia da entrega dos vidros. A relação do eletricista com o tempo é deveras peculiar: tudo vai ser resolvido amanhã, sempre amanhã.

O serralheiro, menos imaginativo ou mais honesto, depende do ponto de vista, simplesmente sumiu – se o Anuário de Segurança Pública registra 70 mil pessoas desaparecidas por ano no Brasil, arriscaria que umas 69 mil trabalham com reforma. Daí pra mais.

Brasil mostra tua cara/ quero ver quem paga/ pra gente ficar assim

Cazuza, 1987

Chegou aos cinemas o documentário “Cazuza: Boas Novas”.

Boas novas, mesmo. Não só pelos 35 anos da morte do Cazuza, como pelo momento do país.

Além de Roberto Moret, assina a codireção Nilo Romero, baixista e produtor de Cazuza. O instrumentista e o cantor desenvolveram uma cumplicidade que transborda pra tela. Dividiram a estrada nas turnês e a rotina nas derradeiras gravações, já com uma UTI móvel de plantão na porta do estúdio.

(A safra pós-ditadura perdeu muito cedo quatro de seus maiores nomes: Cazuza aos 32 anos, Renato Russo aos 36, Cássia Eller aos 39 e Chico Science aos 30. Imagina a catástrofe cultural que teria sido abreviar 45 anos da carreira de Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Rita Lee e Milton Nascimento. Esse é o tamanho do desfalque da minha geração.)

“Brasil” é uma das músicas centrais do longa – e segue atual como nunca.

Num registro em VHS granulado pelo tempo, vemos Cazuza cantar seu anti-hino nacional num show, quando jogam ao palco uma bandeira do Brasil. O cantor cospe não apenas uma, mas duas vezes no verde-louro dessa flâmula.

Quando foi lançada, a canção passou batida na trilha do filme “Rádio Pirata” – último da trilogia com “Bete Balanço” e “Rock Estrela”. Ainda assim, foi parar no repertório da Gal Costa e, dali, na abertura da novela das 8 – sim, a novela das 9 já foi mais cedo.

A versão original de “Vale Tudo” terminava com um corrupto dando uma banana pro populacho ao fugir do país, mas mantinha alguma esperança no futuro da nação. A nova Constituição, afinal, havia sido promulgada meses antes.

O remake de “Vale Tudo” tá no ar com os mesmos versos repetidos a cada capítulo: “Brasil/ mostra tua cara/ quero ver quem paga/ pra gente ficar assim”.

Só porque não foi reeleito chefe de nada, Jair Bolsonaro deu uma banana pra Constituição – mas agora a tornozeleira eletrônica garante que ele não vai se escafeder.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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