COLUNA

Fernando Luna

Filhos, melhor não tê-los!

Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre herdeiros políticos, love bombing digital, celebração de chacina e um Desembarque da Normandia mirim

24 de Novembro de 2025

Filhos, melhor não tê-los! Mas se não os temos como sabê-lo?

Vinicius de Moraes, 1949
Antologia Profética

Um quiz pra saber se você conseguiu acompanhar o noticiário durante o feriado prolongado:

1. Jair Bolsonaro tem 04 filhos na política. Fosse maior a prole engajada, além de sentenciado a 27 anos e 3 meses de cana, ainda seria condenado a:

a) Exílio num gulag da Ursal
b) Trabalho forçado num mina de pré-sal
c) Trabalho, simplesmente, após décadas de evitação

2. Assinale quem fez uma “visita técnica” à Papuda, pra checar se a penitenciária respeita os direitos humanos de seus presos:

a) Padre Júlio Lancellotti
b) Mahatma Gandhi
c) Senadora Damares Alves

3. Um juiz determinou o uso de tornozeleira eletrônica, pra evitar uma fuga. Então, você:

a) Segue a ordem, pra não perder a prisão domiciliar
b) Inveja Alexandre Ramagem, que se antecipou à situação
c) Tenta incinerar a tornozeleira e o tornozelo juntos, e acaba preso preventivamente

4. Diante da prisão de seu melhor amigo depois de Jeffrey Epstein, a reação de Donald Trump foi:

a) Deslocar o porta-aviões USS Gerald R. Ford pro Lago Paranoá
b) Retomar o tarifaço contra o café e a carne brasileiros
c) Puxa, que pena

5. Que tipo de comoção social a prisão preventiva de um condenado por tentativa de golpe de Estado provocou?

a) Caos, barbárie e terror
b) Tensão no carteado dos generais de pijama do Clube Militar
c) Queima de fogos e churrasco no condomínio

6. “Tenho três alternativas: estar preso, estar morto ou a vitória”, declarou Bolsonaro. A afirmação é:

a) Verdadeira
b) Falsa
c) Profética

7. Indique a doença que pode afligir alguém com histórico de atleta:

a) Crise de soluço
b) Surto psicótico
c) Qualquer uma que evite o regime fechado

8. Quem ficou borocoxozinho com a prisão?

a) Tarcísio, Zema e Ratinho Jr.
b) Michelle
c) N.d.a.

9. Chegou fim de semana todo mundo vai sair?

a) Só não vai Jair, só não vai Jair
b) Vou pra rua tomar cana com amigos, vou curtir
c) Só não vai Jair, só não vai Jair

Se me amas, tem cuidado ao amar-me

John Donne, circa 1600

No mundo digital, só tem uma coisa mais exasperante do que o ódio: o puxa-saquismo.

Consigo lidar razoavelmente bem com haters, mas me dá engulhos todo aquele love bombing do ChatGPT. Pergunto qual a capital do Chipre e, em vez de responder logo “Nicósia”, ele começa com salamaleques tipo “É ótimo ter esse tipo de curiosidade”.

Sempre assim.

Diante dos prompts mais ordinários e descuidados, despeja bajulações algorítmicas: “Excelente ponto”, “Ótima essa provocação”, “Você está certíssimo”, “Perfeito”, “Essa é uma curiosidade rara e fascinante” ou “Pergunta muito pertinente”.

Se Sam Altman quiser dominar o mundo, precisa aprender com Mark Zuckerberg que gente é pra brigar. Foi na força do ódio, afinal, que as redes sociais se popularizaram.

(Não se deixe enganar pelo botão “Curtir”: ele raramente significa aprovação. Na maior parte das vezes, você clica ali pelo motivo contrário – seu joinha é a confirmação de que também detesta a mesma pessoa ou coisa que o autor do post odeia.)

Claro que todo mundo gosta de ser elogiado. Mas ninguém gosta de ser tão elogiado a ponto de desconfiar do elogio. Tá me tirando, máquina? Vaidoso sim, burro jamais. A inteligência emocional da inteligência artificial ainda tem muito pra evoluir.

Sugiro às IA generativas interações mais razoáveis: “Sério que você não sabe isso?”, “Que digitação é essa, tá tendo um AVC?”, “Afff, não prefere reformular essa pergunta?” ou “Meldeus, é a quarta vez que explico isso”.

Com esse ajuste de tom, os dias da Meta e quetais tão contados.

Vamos parar de discutir entre nós e dedicar todo nosso engajamento a tretar com o ChatGPT. E se for fazer terapia no aplicativo, como tanta gente tem feito, que seja numa versão digital do Analista de Bagé, com sua Terapia do Joelhaço em ação.

Se você me ama mesmo, ChatGPT, tem cuidado ao amar-me: disfarça seus exageros e vamos ser felizes pra sempre

Nascer é muito comprido

Murilo Mendes, 1935

Em 1992, o Brasil ainda tentava disfarçar a alegria diante de mais uma carnificina.

A reação hipócrita ao massacre do Carandiru, ocorrido meses antes do lançamento do disco “Tropicália 2”, foi percebida e registrada por Caetano e Gil na faixa de abertura, “Haiti”.

“E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina/ 111 presos indefesos”, diz a letra, que segue na toada de “O Genocídio do Negro Brasileiro”, de Abdias Nascimento. “Mas presos são quase todos pretos ou quase pretos/ ou quase brancos quase pretos de tão pobres/ e pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos.”

O fuzilamento nos Complexos do Alemão e da Penha bateu a meta do Pavilhão 9 da penitenciária paulistana: agora foram 117 suspeitos mortos, quase todos pretos, ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres.

Dessa vez, porém, ninguém se viu constrangido a um discreto “silêncio sorridente”.

De governadores de estado a comentaristas de internet, o clima era de celebração escancarada diante dos corpos estendidos no chão. Nossa bandeira sempre será vermelho-sangue, com o dístico: “Bandido bom é bandido morto”.

A pesquisa realizada pela AtlasIntel nos dois dias seguintes à chacina, já com as imagens dos cadáveres circulando pelas telas, confirma que o Haiti é aqui: 55% dos brasileiros aprovam a operação das polícias civil e militar. Entre moradores de favelas, sempre na mira de um fuzil na mão de bandido ou de polícia, o número sobe pra 80%.

Havia esperança de uma falha de metodologia – e não de uma falha de caráter nacional. Mas em seguida veio o levantamento do DataFolha, confirmando a aprovação do massacre pela maioria da população.

“Nascer é muito comprido”, escreveu Murilo Mendes. Parece que vamos ser sempre um povo em formação, com as as distorções morais e as dores do crescimento de um país ainda se fazendo.

Não haverá paz
para aquele que ama

Herberto Helder, 1962

Aproveitei o sábado para visitar o front no leste da Ucrânia. Ou quase isso. Fui numa festa infantil.

Era a comemoração dos 5 aninhos de uma adorável “guerreira do K-pop”, como o convite advertia. Mas essas pequenas combatentes nunca atacam sozinhas: havia mais 30 crianças entrincheiradas num quintal ensolarado.

Duvido que Putin ou Zelenskiaguentassem o tranco.

Como alguém sem filhos e já entrado nos anos, caí no teatro de operações como um banhista que decide pegar uma praia no norte da França justamente em 6 de junho de 1944 – só pra curtir o Desembarque da Normandia.

Quando cheguei, a dona da casa batia papo com uma amiga na calçada. Estranhei. Já terminara a fuzarca? Logo entendi que se tratava de um recuo tático. Lá fora era a única zona segura, protegida das falanges mirins pelo muro.

Do lado de dentro, a piscina de bolinhas fazia as vezes de paiol. Cada esfera colorida de plástico virou um drone implacável, atingindo seus alvos com fúria balística.

Um grupo de pais se escondia num canto, evitando o fogo cruzado. Arriscaram uma única movimentação cautelosa, pra receber o carregamento de cerveja pedido por aplicativo. Uma mãe, veterana nessas batalhas, aconselhou: “MD seria melhor”. Fica a dica pros bufês infantis.

Já me acostumava com os bólides cortando o ar, quando surgiu uma nova ameaça. Um miniguerreiro achou um instrumento musical, que, em circunstâncias assim, costuma ser letal como uma zarabatana.

Foi a vez de uma soldada desconhecida intervir. Com a eficiência de um Navy Seal, demoveu o menino da ensurdecedora ocupação sem que uma lágrima fosse derramada.

Ainda escapei de um velocípede-bomba e um balanço-aríete. Olhando as famílias sorrindo em meio ao caos, dei razão a Herberto Helder: “Não haverá paz para aquele que ama”.

No próximo final de semana quero algo mais tranquilo, como um passeio de barco pela costa da Venezuela.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação