Flip confirma poeta Leonardo Gandolfi em sua programação

Confira trechos de “Pote de Mel”, poema do livro mais recente de Gandolfi que foi escrito com a filha em homenagem ao ursinho Pooh

Leonardo Neiva 10 de Abril de 2026

O poeta e crítico literário carioca Leonardo Gandolfi, autor de livros como “Pote de Mel e Outros Poemas” (Editora 34, 2025), “Robinson Crusoé e Seus Amigos” (idem , 2021) e “No Entanto d’Água” (7Letras, 2006), é o mais novo autor confirmado na 24ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), num anúncio exclusivo para a Gama. Gandolfi foi também um dos responsáveis pela criação da Luna Parque Edições, ao lado de Marília Garcia, e da coleção de livros e plaquetes Círculo de Poemas, que em seus dois primeiros anos (2022-2023) funcionou numa parceria entre as editoras Luna Parque e Fósforo — hoje, o projeto é realizado apenas pela Fósforo.

Nascido em 1981 no Rio de Janeiro, Gandolfi mora desde 2013 em São Paulo, onde é professor de literatura no Departamento de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ele também é autor dos livros de poesia “A Morte de Tony Bennett” (Lumme Editor, 2010) e “Escala Richter” (7Letras, 2015) e um dos organizadores das coletâneas “Cancioneiro Geral” (Círculo de Poemas, 2024), que reúne versos de Capinan, e “Faça um Samba Enquanto o Bicho Não Vem: poemas para Sérgio Sampaio” (Telaranha Edições, 2024).

 Divulgação

O poeta se une à escritora Andréa Del Fuego, autora de “Os Malaquias” (Companhia das Letras, reedição 2022) e “A Pediatra” (idem, 2021), entre os brasileiros confirmados na próxima edição da Flip, que acontece entre 22 e 26 de julho. Além deles, também participam o romancista franco-argelino Kamel Daoud, vencedor do Prêmio Goncourt com os livros “Língua Interior” (DBA, 2025) e “O Caso Meursault” (Biblioteca Azul, 2016); o italiano Andrea Bajani, que levou o prêmio Strega em 2025 com “O Aniversário” (Companhia das Letras, 2026); e a alemã Carmen Stephan, cuja obra “Malária: um romance” (Tinta-da-China Brasil, 2026) aborda pelo ponto de vista do mosquito a experiência de ter contraído a doença numa viagem à Amazônia — confira aqui um trecho. A homenageada da edição será a poeta Orides Fontela (1940-1998).

“Fiquei muito feliz com o convite que a Rita [Palmeira, curadora da Flip 2026] me fez, ainda mais na Flip em homenagem a Orides Fontela, que tem poemas fortes em que contenção e explosão se misturam”, conta Gandolfi a Gama.

“A poesia pode ser uma espécie de linguagem primeira, elementar. Tudo que aparece no poema, mesmo que sejam as velhas palavras de sempre, acho, aparece pela primeira vez. Os poemas inventam linguagens e depois vamos usar essas linguagens para contar histórias, nos comunicar, nos dizer. Por isso, quando a poesia ocupa o centro da discussão, podemos falar de vários temas, formas e assuntos: política, luto, humor, memória etc. Porque, quando a poesia ocupa esse centro, é a própria noção de linguagem que está nesse lugar.”

Em 2025, Gandolfi recebeu o Prêmio Literário Biblioteca Nacional na categoria poesia por “Pote de Mel e Outros Poemas”, obra aparentemente simples que, em alguns momentos, lembra os contos de fada. Tanto que o poema que nomeia o livro foi escrito para e com sua filha Rosa, enquanto os dois liam as histórias do ursinho Pooh. Mas, assim como no caso do personagem criado pelo inglês A. A. Milne, há muita coisa oculta por trás da aparente simplicidade.

Foi enquanto tomava um café com o poeta português Manuel António Pina (1943-2012) em 2006, na cidade do Porto, que Gandolfi primeiro foi apresentado às qualidades poéticas de Pooh. Ele viria a organizar uma antologia de Pina, “O Coração Pronto para o Roubo” (Editora 34, 2018), e a escrever um livro sobre o autor para a coleção Ciranda da Poesia (Eduerj, 2020). Porém, só mais tarde daria ouvidos à sugestão do lusitano: “Se quiser continuar a escrever poemas, precisa ler os livros do Pooh; o urso, além de poeta, é mestre taoísta”, lembra em texto para a Escola da Palavra.

Foi quando decidiu ler as histórias do urso para a filha, 16 anos depois, que finalmente entendeu ao que Pina se referia ao falar de Pooh — ou P’u, coincidentemente ou não, palavra chinesa para “simples” ou “natural”: “A simplicidade do P’u funciona da mesma forma que as perguntas consideradas tolas e que conseguem ver e tocar o que nem conseguimos mais ver e tocar”, escreve Gandolfi. Esse sentimento perpassa o livro, que trata com a naturalidade da linguagem infantil temas como a beleza, a dor e a morte, em textos que refletem estados de pura percepção do mundo. A seguir, leia o poema que dá título à obra:


Pote de mel

para Rosa

A sombra do pinheiro
sobre o lago
nunca se molha
mas se o leitão e o coelho
se juntam para jogar
pedrinhas na água
a sombra do pinheiro
balança sem parar

#

De tanto correr
o tigre perdeu
as listras amarelas
por favor crianças
vocês poderiam pintar
minhas listras de volta?

As crianças
tinham pincel e tinta
então o tigre
voltou a ser listrado

Acontece
que por continuar
correndo tanto
o tigre perdeu
as listras outra vez
mas agora as pretas
por favor crianças
vocês poderiam pintar
minhas listras de volta?

As crianças/
tinham pincel e tinta/
então o tigre/
voltou a ser listrado

#

Oi coruja
disse o Pooh
oi Pooh
disse a coruja
levando um susto
eu sabia que era você
disse a coruja
eu também
disse o Pooh
vamos senão
chegamos atrasados
disse a coruja
atrasados onde?
perguntou o Pooh
lá onde as torneiras
ainda estão pingando
disse a coruja
mas por que
ainda estão pingando?
perguntou o Pooh
porque não estão
bem fechadas
disse a coruja
todas pingando
ao mesmo tempo?
perguntou o Pooh
todas pingando
ao mesmo tempo
disse a coruja
mas com uma gota
caindo de cada vez

#

Era uma vez um tigre
que amava as folhas
das árvores agitadas pelo vento
seria tão bom se a canção
fosse feita apenas dessa imagem
a imagem predileta do tigre
folhas das árvores agitadas pelo vento

Era uma vez um tigre/
que amava as folhas/
das árvores agitadas pelo vento

#

Perdi
minha sombra
estava aqui
não está mais
dez da manhã
meio-dia
seis da tarde
onde foi parar?
por ali
diz o leitão
ela não volta mais
diz a coruja

#

Minha filha e eu
vamos fazer juntos
este poema
então dizemos rio
depois dizemos ponte
e sobre essa ponte
está nosso amigo o leitão
que é tão pequeno
e tem medo de atravessá-la
porque uma vez caiu dela
mas isso já faz tempo
minha filha e eu
vamos fazer juntos
este poema
então dizemos medo
depois dizemos tempo
papai que tal
dessa vez o leitão
dar a mão a um amigo?

Minha filha e eu/
vamos fazer juntos/
este poema/
então dizemos medo/
depois dizemos tempo

#

Como é bom
não dizer nada
se me pedem
para dizer algo
não digo nada
dizer nada
é quase tão bom
quanto ficar
em silêncio

E quanto ao vento?
está soprando
e quanto ao rio?
está correndo
e quanto ao pote?
está vazio

A coruja ri
dos meus versos
diz que eles
têm ideias de menos
eu também rio
um pouco deles
minha barriga
está roncando
que tal a gente
comer uma coisinha?

E quanto ao vento?/
está soprando/
e quanto ao rio?/
está correndo

Produto

  • Pote de Mel e Outros Poemas
  • Leonardo Gandolfi
  • Editora 34
  • 144 páginas

Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos da Gama, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação