Trecho de livro

Malária

Alemã Carmen Stephan mescla ficção e não ficção para narrar sua luta contra a doença que contraiu na Amazônia brasileira, assumindo o ponto de vista do mosquito que a picou

Leonardo Neiva 27 de Março de 2026

Em 2003, durante uma viagem pela Amazônia brasileira, a escritora alemã Carmen Stephan foi mordida por um mosquito. Especificamente, pela fêmea do Anopheles, conhecido no Brasil como mosquito-prego, muriçoca ou carapanã. E famoso também por sua picada, capaz de transmitir a malária. Mesmo na comparação com a varíola, a peste negra ou a gripe espanhola, responsáveis por centenas de milhões de mortes, a malária ainda é vista como a doença mais letal da história, responsável por uma enorme parcela de mortos ao longo de milênios. E sim, naquele momento, Stephan havia sido infectada.

Ao narrar sua jornada da vida real, a autora poderia optar pela primeira pessoa para descrever a febre, os calafrios e as intensas dores de cabeça que acompanham a doença. Assim como a proximidade da morte, devido ao diagnóstico tardio — como o próprio livro aponta, o critério decisivo que separa quem vive de quem morre é o tempo. Em vez disso, quem conta a história em “Malária” (Tinta-da-China Brasil, 2026), primeiro romance de Stephan, é o mosquito fêmea que a picou, num romance em que é quase impossível separar ficção e não ficção. Afinal, a Carmen que protagoniza a obra vive a mesma experiência da Carmen que a escreveu — mas, ao mesmo tempo, tem um destino diferente da original.

Sentindo-se culpado pelo que fez, o minúsculo animal acompanha sua vítima desde então, passando a conhecê-la em seu íntimo. Exemplo de descaso num país que vivia uma epidemia de dengue, Carmen nem sequer passa por um exame, o que permite que os parasitas ataquem seus órgãos livremente, mergulhando-a numa febre que dura 13 dias e 13 noites. Assim, esse diário da doença e da convalescença se torna também um cuidadoso registro da história da malária, uma nova perspectiva da relação homem e natureza, e uma reflexão sobre a inevitabilidade da morte. Uma obra laureada na Alemanha com os prêmios Jürgen Ponto-Stiftung de Literatura e Buddenbrookhaus para romance de estreia, que aqui ganha tradução de Claudia Abeling.


Segundo dia

A manhã seguinte. Um menino preto, de olhos pretos redondos, se curva sobre sua cabeça. Ela acha que é o Pretinho da Bacabeira, que circula pelas vilas próximas ao Amazonas. Um menino de não mais de oito anos. Quando encontra uma pessoa na rua, fica ao lado dela. Pede alguma coisa. Algumas moedas, um pedaço de pão. Se ouvir um não, o garoto responde com um murro bem dado no rosto da pessoa, que termina deitada na poeira, incapaz de se levantar. Ela escutou essa história na ilha de Marajó, mas não sabe por que o menino apareceu em seus sonhos confusos. Será que ele bateu na sua cabeça? Será que ela já não está se sentindo melhor? Duas horas mais tarde, eles descem até o rio numa carroça que a mula puxa pela areia. Ela está sentada ao lado do cocheiro. Debaixo da calota craniana, seu cérebro se soltou dos ganchos. Com cada passo do animal, ele balança de lá para cá. Flap, flop. Alguma coisa da floresta havia se inserido nela, e ela não fazia a menor ideia do que era. Alguma coisa continuava a se empilhar dentro dela, imparável, prestes a estourar. Ela tinha pegado uma doença ou a doença a tinha pegado, mas qual? Quem estava tocando? O violino, o violoncelo, a trompa ou o piano?

Ela tinha pegado uma doença ou a doença a tinha pegado, mas qual?

*

A malária entra em seus ossos pelo pão que você come e sempre que você abre a boca.
Era o que vocês, céticos, pensavam.
Milhares de anos, anos terríveis.

Está na hora de me apresentar melhor. Como eu podia ser emissária da morte sem ter essa intenção? Eu não precisava de intenção. É muito fácil aprontar. Para o bem ou para o mal. Basta uma leve picada. Olhem para mim. Asas manchadas como um tabuleiro de xadrez, palpos tão longos quanto a trombinha, pernas finas e longas, abdômen liso, um ser que não pesa mais do que um pingo d’água.

Ela não sabia que tinha sido eu. Que seu sangue corria no meu. Ela não sabia que eu podia penetrar em seus pensamentos, assim como seu sangue estava dentro de mim. Eu podia ver o que ela via, sentir o que ela sentia. Antes dela, nunca quis isso. Meu desejo era apenas viver, como todos os outros. Vocês, pessoinhas, é que me impedem. Vocês me caçam. Nos exterminam.

Quando penso nisso, minha arma de picar se enche de uma raiva gelada. O teatro absurdo de vocês. Vocês sobem na cama, se penduram na parede, se contorcem, o rosto desfigurado como no cartaz de um filme de terror, vocês gemem e choram. Sentimentos profundos estão em jogo quando vocês querem nos pegar. Por que o primeiro impulso de vocês é nos matar? É congênito? Crianças pequenas já apontam o dedo para nós e exclamam: mata! Mata! Vocês nos consideram uma praga, intrusos em seu mundo. Já pararam para pensar que poderia ser o inverso? Lembrem-se, o homem foi criado no último dia. Em alguns lugares, o céu já estava tão cheio de mosquitos e pernilongos que a luz não conseguia atravessar. Vocês formam um número risível frente aos nossos bandos. Vocês são os invasores de nosso mundo.

Um mundo no qual vocês não entram. Vocês viajam pelo universo e não compreendem o que é um mosquito. Não querem entender a dimensão do que está contido na menor das unidades indivisíveis. O poder da natureza é sua capacidade de inserir a morte em um ser minúsculo como eu. Um ser a que não se presta atenção. Um “T” mal traçado em preto. Vocês me batizaram com um nome grego, Anopheles, que significa algo como “inútil”. “Sua larva vive na água e o mosquito não pica”, pontuava a legenda de minha imagem no Systema Naturae. Perdão por rir alto.

O poder da natureza é sua capacidade de inserir a morte em um ser minúsculo como eu. Um ser a que não se presta atenção

*

No dia em que nossos caminhos se cruzaram, ela subiu num barco em Manaus e atravessou o rio Amazonas, e afirmo que esses caminhos, se inscritos num mapa, lá estavam havia muito tempo. Da viagem, lembro-me de cenas, imagens; algumas coisas são vagas, outras de uma claridade cristalina.

O barco deslizava por um afluente do rio Ariaú, aportando num píer. Nuvens escuras desfilavam pelo céu, a luz brilhava forte entre elas. Um grupo de pessoas desembarcou. Calças bege, camisas claras, chapéus de palha e aba larga não davam pistas sobre seu caráter, apenas refletiam seus desejos patéticos. Carmen era uma delas.

Ela andava de rosto erguido, seu perfil se parecia com o rosto feminino de um camafeu. Era ingênua, como todos vocês, pessoas, e se considerava intrépida. Nada vai acontecer comigo.

Com a cabeça virada para trás, a veia do pescoço realçada, pulsando, ela olhou para as copas muito verdes. Todas as primeiras visões estavam contidas em seu olhar. Os manguezais com suas raízes delgadas na água. Num galho, o pássaro que parecia alheio a tudo. Uma incompreensível lufada de desassossego. Clique-clique. A câmera diante do rosto. Para ela, a natureza era uma coisa a ser observada e tocada, mas da qual as pessoas se mantinham afastadas no final. Foi sua expiração quente que me chamou a atenção, o suor de seus pés. Ela caminhou pelo píer. Tec-tec. Sua pele não cheirava toda à citronela do repelente. Havia partes virgens, ilhas, onde era possível aterrissar.

Como ela era ingênua.

Seu namorado não me interessava.

Ela gostava de viver, escutei isso por meio das ondas vibrantes que a madeira produzia com seus passos. Era principalmente sua autoconfiança que a tornava uma vítima ideal. No fim, porém, minha decisão foi motivada por uma urgência maior. Quando cheirei o sangue, não pude evitar. Seu sangue, claro e doce, corria tão célere e fresco por suas veias a ponto de meus ouvidos vibrarem.

De todas as calamidades que castigaram a humanidade, nenhuma deixou marcas tão duradouras e profundas quanto a malária

*

Vocês acreditam que a pele de vocês os encerra, que ela é o fosso ao redor de sua carne. Entretanto, ela é a parte mais suscetível de vocês. Um pontinho vermelho e a morte entrou. Vocês não conhecem meu poder? Cito: “De todas as calamidades que castigaram a humanidade, nenhuma deixou marcas tão duradouras e profundas quanto a malária. Ao longo dos séculos, ela provavelmente fez mais vítimas do que todas as grandes epidemias de peste, cólera e sarampo juntas”. Ainda hoje, são milhões que morrem, e metade de vocês, criaturas, vive sob meu jugo. Isso não os deixa desolados? Vocês acham que têm controle sobre a própria vida? Mesmo não controlando nem um mosquito? Quem freou Alexandre, o Grande, o conquistador do mundo? Uma cruzinha preta, que aterrissou num pedaço de pele. A malária interrompeu Cruzadas, lançou na cova mendigos, crianças, imperadores e papas, vicejou nas duas guerras mundiais. Não foram os canhões, não foram os adversários que decidiram algumas batalhas, mas uma manchinha flutuante com um par de asas. Quem protegeu Roma da invasão dos
povos germânicos? E quem acabou contribuindo para a queda do Império Romano? Mosquitos não têm partido.

A malária modificou a política, a história de vocês. Além da vida dos que não caíram doentes. A vida de vocês.

Vocês escutam o canto dos soldados britânicos em Serra Leoa? “Na baía de Benin, atenção: um sim, dez não escaparão.” Algumas embarcações ficavam meses à deriva no mar porque todos os marinheiros tinham morrido. Entre os séculos XVII e XIX, o pontinho zunia pelo mundo inteiro, encobria o céu até que nenhuma luz conseguisse atravessá-lo.

E hoje? Se a malária chega, também a morte está à espreita. Uma ou duas semanas podem ser suficientes, caso nada seja feito. Salva-se quem for tratado rapidamente. O critério decisivo é o tempo. E fora isso? Fora isso, talvez a pessoa dê uma viradinha na cama e o baço inchado se rompa. Na sequência, todos os órgãos entram em falência. No Amazonas, chamamos de “risadinha” uma das formas da malária. Porque o paciente morre com um sorriso no rosto; as dores terríveis repuxam os cantos da boca para cima.

E hoje? Se a malária chega, também a morte está à espreita. Uma ou duas semanas podem ser suficientes, caso nada seja feito

Produto

  • Malária
  • Carmen Stephan (trad. Claudia Abeling)
  • Tinta da China Brasil
  • 168 páginas

Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos da Gama, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação