COLUNA

Vanessa Rozan

O padrão de beleza atualizado: o bração torneado

Quando um tipo de corpo fica mais acessível, o padrão de beleza mostra que aquele outro, bem mais difícil de ser conquistado, é o que deve ser desejado

30 de Janeiro de 2026

Uma das coisas que eu mais gosto de observar é como o padrão de beleza vai se atualizando de um jeito silencioso de mansinho, como quem chega falando baixo, contando uma história engraçada e sem a pretensão de te convencer de nada, mas com um jeitinho tóxico que vai minando qualquer alegria de se ver refletida no espelho. Ele te faz acreditar que o que você tem aí nesse corpo está meio errado; te faz olhar minuciosamente para cada parte dele, separando todas elas para que possam ser observadas com extremo escrutínio.

Qualquer mulher que tenha passado pela onda publicizada de magreza extrema, que aconteceu entre os 1990 a 2000, sabe do que eu estou falando. Aquela capa de revista que, como uma amiga, te ensinava a secar a barriga com uma dieta milagrosa, ou um guia de sexo pra agradar o outro, uma celebridade que colocou próteses de silicone e — agora sim! — estava completa, amada e feliz ou a calça de cintura baixíssima que permitia que somente as barrigas negativas tivessem vez. Coisas a que éramos expostas de forma contínua, sem sabermos muito o que eram, mas que normalizavam esses pensamentos corriqueiros e as preocupações com o corpo (que precisava ser cada vez menor e mais frágil). Também não havia espaço para que desenvolvêssemos um olhar crítico e um estofo emocional para sustentar um jeito próprio de ser e de resistir a essa estrutura vil ou para que enxergássemos a estrutura operando.

Com o devido recuo de tempo, podemos hoje olhar para o quanto todas essas dicas de moda, comportamento e beleza não eram de amigas ou tendências a serem seguidas. São códigos bem definidos de uma sociedade que quer que a gente passe mais tempo olhando para os nossos defeitos do que para os nossos direitos conquistados. Quem viveu sabe bem e eu sinto em lhe informar: a coisa toda está de volta, só que agora numa dinâmica 24/7, non-stop, iluminada com um ring light de frente e sonorizada com a musica do momento, impulsionada freneticamente via algoritmos, dentro das redes sociais, para que chegue, na frente dos seus olhos, assim, como entretenimento. E isso tudo sem que você possa se dar conta, com o cérebro amortecido, para que essas imagens sejam instaladas lá dentro, enquanto você está distraída.

Imagina quanto tempo e dedicação, fora os suplementos e a alimentação regrada, é preciso para ter o bração torneado sem que nada chacoalhe no tchau? HAJA tempo, haja dinheiro

Nos vídeos, tem sempre uma dica amiga de uma moça branca e jovem vendendo um estilo de vida de herdeira, com roupas de academia e cabelo bem esticado para trás, sem nenhum fio fora do lugar. Em 99,9% das vezes, ela é magra. As canetas emagrecedoras, de uma certa forma, popularizaram a magreza, deixando-a mais fácil e rápida — é o padrão de beleza ali, vivão e operante. Quantas influenciadoras mudaram completamente seus corpos nos últimos dois anos? E quantas que atingiram a fama rapidamente já não possuíam esse biótipo? Onde foi parar o pessoal do body positive ou do movimento do corpo livre? Cade os olhos críticos de quem exigia pluralidade na beleza? Cri cri cri (grilos).

O corpo magro agora pode ser conquistado, pelo menos para quem pode pagar. E o padrão de beleza não dorme não. Ele dá um jeito de chegar sorrateiro e cada vez mais inatingível. Tenho visto várias postagens de veículos nacionais e internacionais sobre um assunto bem interessante: braços definidos. Rosalia, Miley Cyrus, Zoe Kravitz, Nicole Kidman entre outras, são citadas por terem braços esculturais dignos de inveja, o foco do momento.

Claro, quando um tipo de corpo fica mais acessível, o padrão de beleza mostra que aquele outro, bem mais difícil de ser conquistado, é o que deve ser desejado. Imagina quanto tempo de dedicação, fora os suplementos e a alimentação regrada, que é preciso para ter o bração torneado sem que nada chacoalhe no tchau? HAJA tempo, haja dinheiro. Pensando ainda como o corpo feminino, em sua estrutura, tem mais força nas pernas do que nos braços e que, segundo minhas amigas marombadas, o braço torneado é uma das últimas coisas que você conquista na rotina e exercícios, com muito foco e tal. A coisa só vai ficando mais distante de nós, levantadoras de 2 quilos em cada mão na elevação lateral. Eu te convido a ficar esperta/o com o que tem sido apresentado como uma grande tendência.

Cuidar do corpo é bom, exercício físico é fundamental para a saúde, inclusive a mental. Façam musculação, sim, gente. Eu era contra, mas estou convertida lá, pensando no futuro. Essa não é a questão, e sim o que é divulgado: a confusão de ter saúde e autocuidado revestidos pelo reforço do padrão de beleza; sempre esse único tipo de corpo magro, e agora com braços definidos, sendo ofertado como uma tendência aqui e ali.

Conto com vocês para olhares atentos e para compartilhar esse texto para todo lado.

Vanessa Rozan é maquiadora, apresentadora de TV, curadora de beleza e bem-estar e colunista da Gama. É fundadora do Liceu de Maquiagem, uma escola e academia de maquiagem e beleza profissional, que durou 14 anos. Fez mestrado em comunicação e semiótica pela PUC-SP, onde pesquisou o corpo da mulher no Instagram e, agora, segue com o doutorado na mesma instituição.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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