COLUNA

Pedro Abramovay

Do Alemão a Caracas: sempre em nome da guerra às drogas

Ao suspender regras em nome de um inimigo difuso, ela funciona como uma carta branca para que grupos poderosos violem a lei sempre que seus objetivos assim exigirem

09 de Janeiro de 2026

O mundo começou o ano atônito diante da cena de 150 aeronaves norte-americanas bombardeando Caracas para retirar à força o presidente venezuelano do poder. O ataque, em flagrante violação dos princípios mais básicos do direito internacional, logo veio acompanhado de uma justificativa oficial. Não se tratava, dizia Washington, de abrir caminho para a democracia na Venezuela. A explicação pública — e politicamente conveniente — era a guerra às drogas. A mesma guerra que, há décadas, funciona como salvo-conduto para violações que vão da violência policial nas favelas do Rio de Janeiro aos massacres ordenados nas Filipinas, e que se tornou a narrativa preferida de qualquer autoridade que deseje descumprir a lei alegando algum bem maior.

A expressão “guerra às drogas” surgiu no Governo Richard Nixon, inspirado pelo êxito político da “Guerra à Pobreza”, de Lyndon Johnson. No caso das drogas, porém, a metáfora deixou rapidamente de ser figura de linguagem. Em 1973, Nixon criou a DEA, a agência antidrogas dos EUA, para profissionalizar a repressão policial ao comércio ilegal. A partir dos anos 1980, a lógica bélica se impôs como eixo da política externa dos EUA para a América Latina. Com o fim da Guerra Fria — e o esvaziamento da justificativa anticomunista — a guerra às drogas tornou-se o novo pretexto para manter a presença militar americana na região. Esse movimento se intensificou no final do Governo Reagan e no início do Governo George H. W. Bush, quando, diante do fracasso da repressão interna — que apenas superlotou prisões sem reduzir danos — os EUA decidiram internacionalizar sua cruzada proibicionista e erradicar, pela força, a produção de drogas no continente.

Ao invocar a guerra às drogas, qualquer instituição se vê autorizada a participar do teatro bélico

A militarização avançou e se institucionalizou. A invasão do Panamá para prender o ditador Manuel Noriega foi o primeiro gesto de grande impacto. Logo depois veio o Plano Colômbia, que transformou a cooperação antidrogas em um gigantesco projeto de intervenção militar e consolidou pressões para que países latino-americanos entregassem suas políticas de drogas às Forças Armadas. O Brasil seguiu a cartilha: por influência direta dos EUA, a Secretaria Nacional Antidrogas permaneceu sob comando militar nos governos FHC e no primeiro mandato de Lula. Aos poucos, a guerra às drogas se converteu em uma ideologia: a ideia de que só a força bélica pode construir um “mundo sem drogas” — lema da Convenção da ONU de 1988, fortemente moldada por Washington. O resultado foi a completa distorção do tema, que deveria ser tratado como saúde pública, mas foi absorvido pelo vocabulário da guerra.

A consequência mais danosa dessa ideologia é a legitimação permanente de mecanismos de exceção. Leis podem ser ignoradas, evidências científicas desprezadas e atrocidades justificadas desde que se mantenha viva a ficção da guerra. No Brasil, isso significa celebrar massacres policiais como “sucesso”, mesmo quando nada muda: meses após a operação que matou mais de 120 pessoas nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, as mesmas organizações criminosas seguem controlando o território. Nos EUA, isso significa usar a retórica antidrogas para justificar um ataque militar ilegal: mais de 80% da cocaína apreendida no país vem da Colômbia, não da Venezuela, cujo papel no tráfico está mais ligado a rotas para a Europa. Mas Trump não poderia alegar, diante de cortes e tribunais, que bombardeou Caracas por causa do petróleo – mesmo que diga isso nas suas entrevistas coletivas. Ao invocar a guerra às drogas, qualquer instituição se vê autorizada a participar do teatro bélico — inclusive ignorando que o próprio Trump perdoou recentemente um ex-presidente hondurenho condenado, com fartas provas, por narcotráfico.

A guerra às drogas deixou de ser uma política para se tornar um salvo-conduto — talvez o mais eficiente — para as ilegalidades de quem detém poder

Os dados indicam que as soluções para o problema das drogas nos EUA passam por políticas públicas internas — não por aventuras militares. Durante o Governo Biden, medidas de redução de danos levaram a uma queda de 24% nas mortes por overdose em 2024. Agora, porém, parte dessas políticas está ameaçada pelos cortes orçamentários de Trump, que demonstra não estar interessado em resultados concretos, mas em manter vivo o imaginário da guerra. Esse é o maior perigo dessa ideologia: ao suspender regras em nome de um inimigo difuso, ela funciona como uma carta branca para que grupos poderosos violem a lei sempre que seus objetivos assim exigirem. A guerra às drogas deixou de ser uma política para se tornar um salvo-conduto — talvez o mais eficiente — para as ilegalidades de quem detém poder.

Pedro Abramovay é advogado, doutor em Ciência Política pelo Iespe/Uerj, ex-secretário Nacional de Justiça e atualmente vice-presidente de Programas da Open Society Foundations

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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