COLUNA

Pedro Abramovay

Barcelona: progressistas retomam a imaginação política

Chefes de Estado, ministros, parlamentares e ativistas do mundo todo se encontraram na Mobilização Progressista Global. O sentimento foi de esperança ao ouvir histórias de resistência e de avanços democráticos

04 de Maio de 2026

Há muito tempo, grupos progressistas de várias partes do mundo olhavam com certa inveja para a principal conferência conservadora global: a CPAC (Conferência para a Ação Política Conservadora). Inaugurada nos anos 1970, nos Estados Unidos, a partir da segunda metade da década passada ela passou a se tornar cada vez mais global, assumindo um papel de vanguarda na definição de uma cara comum para a extrema direita mundial.

O famoso internacionalismo de ultranacionalistas foi capaz de dar uma feição comum a movimentos tão distintos quanto o supremacismo branco étniconacionalista norte-americano, os anarcocapitalistas e os saudosistas de ditaduras latinoamericanas.

A CPAC não consolida teses capazes de unificar programaticamente o movimento da extrema direita. Mas ela consegue fortalecer redes internacionais, criar espaços de cooperação global e, principalmente, funciona como um motor de energia política: a extrema direita sai desses encontros projetando força.
Mas e os progressistas? Seriam capazes de articular um espaço global de trocas e mobilizações? Essa pergunta foi respondida afirmativamente em Barcelona, nos dias 17 e 18 de abril.

Chefes de Estado, ministros, parlamentares e ativistas do mundo todo se encontraram na Mobilização Progressista Global. O encontro, que teve o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez como anfitrião, contou com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seus pares Cyril Ramaphosa, da África do Sul; Gustavo Petro, da Colômbia; Claudia Sheinbaum, do México; Yamandú Orsi, do Uruguai; Edi Rama, da Albânia; e Mia Mottley, de Barbados. Os Estados Unidos estiveram representados pelo
senador Chris Murphy e pelo governador de Minnesota — e candidato à vice-presidência em 2024 — Tim Walz. Bernie Sanders e Zohran Mamdani participaram por meio de mensagens em vídeo. Lideranças da esquerda italiana, sueca, alemã, inglesa, chilena, argentina, turca, entre outras, também se fizeram presentes.

Além da presença institucional, o encontro reuniu cerca de 5 mil pessoas, em sua maioria ativistas e representantes da sociedade civil de diversas partes do mundo, especialmente da Europa e da América Latina. O resultado foi impressionante. A energia gerada pelo encontro de grupos que, em contextos tão distintos, lutam contra o autoritarismo e pela reconstrução da democracia foi muito forte. O sentimento de desespero que muitas vezes nos invade ao ler as notícias cedia lugar, repetidamente, à esperança ao ouvir histórias de resistência e de avanços democráticos.

Além dos discursos de políticos de diferentes origens — que iam compondo um mosaico instigante sobre o que significa ser progressista na Turquia, no México, em Botsuana, na Palestina ou na África do Sul —, foi particularmente interessante acompanhar o conteúdo dos debates entre especialistas e lideranças políticas. Quem chegou esperando uma cacofonia de ideias ou a caricatura de encontros
tradicionais da esquerda, marcados por discussões intermináveis sobre temas que dizem mais respeito às disputas internas do que aos trabalhadores e trabalhadoras do mundo, saiu surpreso.

Apesar da diversidade de perspectivas e contextos, havia uma coerência notável nos debates e direções muito claras sobre o que estava sendo discutido. Não se viu, por exemplo, em nenhum momento, qualquer tentativa de opor pautas econômicas e pautas identitárias. A ideia — construída de fora para
dentro — de que o grande dilema do campo progressista seria escolher entre uma ou outra esteve completamente ausente. Taxar os superricos, reduzir o custo de vida e construir uma política industrial verde apareciam como consensos, sempre articulados com recortes de gênero e raça. Clima e prosperidade nunca surgiam como forças em conflito, mas como elementos de uma aliança necessária.

O campo progressista conseguiu se apresentar com uma agenda clara de combate às desigualdades — econômicas, de gênero e de raça —, de políticas climáticas, de enfrentamento ao poder das big techs e de oposição às guerras

A luta pela democracia e contra o autoritarismo tampouco aparecia dissociada da necessidade de transformar a própria democracia para que ela seja capaz de enfrentar os grandes desafios econômicos que afligem cidadãs e cidadãos em diferentes países.

A centralidade de temas como cuidados, cultura, educação, saúde, meio ambiente e segurança alimentar foi reiterada em discursos e debates. Outros eixos organizadores da coerência do encontro foram o enfrentamento ao poder das big techs e a necessidade de regulá-las, a defesa da causa palestina e o fim da guerra no Oriente Médio.

Estrelas do pensamento econômico progressista, como Mariana Mazzucato, Isabella
Weber, Gabriel Zucman e Martín Guzmán, dividiram espaço com ativistas, sindicalistas
e políticos, compondo uma agenda bastante consistente sobre o que significa ser
progressista em 2026.

Um resultado concreto do encontro foi o anúncio da criação do Conselho Global por
uma nova economia para o Século XXI, com a participação do prêmio Nobel Joseph
Stiglitz e de vários outros economistas, incluindo alguns dos já mencionados.

Também foi revelador perceber que o que unia os participantes não era um sentimento difuso de oposição ao Norte Global ou à atual ordem internacional. A Turquia, por exemplo, esteve representada não por alguém do governo Erdogan – mesmo que ele possa ser aliado de países ali presentes – mas por Özgür Özel, líder da oposição de esquerda, que denunciou o autoritarismo e apresentou uma agenda de defesa dos trabalhadores turcos.

Por outro lado, a oposição de centro-direita ao autoritarismo não estava presente. Se a grande plenária vibrava ao lembrar a derrota de Viktor Orbán na Hungria, o novo primeiro-ministro de centro-direita, Péter Magyar, não estava ali — e nem poderia estar. Essa clareza também foi importante. É possível — e desejável — reconhecer e celebrar vitórias eleitorais da centro-direita contra o autoritarismo. Mas o grupo reunido em Barcelona tinha uma agenda que vai muito além da defesa da democracia.

Ficou claro que é necessário proteger os países contra ataques à soberania que a atual administração norte-americana transformou em rotina. Mas essa valorização da soberania não se constrói por meio de uma lógica excludente. Ao contrário: parte de uma visão inclusiva de um Estado soberano, capaz de promover bem-estar para seus cidadãos sem qualquer forma de discriminação.

O campo progressista conseguiu se apresentar com uma agenda clara de combate às desigualdades — econômicas, de gênero e de raça —, de políticas climáticas, de enfrentamento ao poder das big techs e de oposição às guerras. Essa agenda foi capaz de unir movimentos e lideranças de países profundamente distintos.

Nada disso garante que o mundo viverá uma nova onda progressista nos próximos anos. Mas os progressistas se apresentam novamente ao mundo com lideranças renovadas, visão de futuro e unidade em torno de uma agenda consistente — conectada às principais preocupações das maiorias em seus países. Demonstram, assim, que, ao contrário do que parecia, a direita não detém o monopólio da
imaginação política no mundo contemporâneo.

Pedro Abramovay é advogado, doutor em Ciência Política pelo Iespe/Uerj, ex-secretário Nacional de Justiça e atualmente vice-presidente de Programas da Open Society Foundations

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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