COLUNA

Pedro Abramovay

As barreiras às mulheres na política nos roubam lideranças melhores

O machismo que bloqueia o acesso ao poder às mulheres é o mesmo que valoriza um estilo de liderança baseado nas características tradicionalmente reservadas aos homens

09 de Março de 2026

Na campanha eleitoral que a levaria a se tornar a mais jovem primeira-ministra da história da Nova Zelândia, aos 37 anos, Jacinda Ardern ouviu a seguinte pergunta em uma entrevista:

“Se você é chefe de uma empresa, precisa saber esse tipo de coisa sobre a mulher que está empregando… A pergunta é: tudo bem a primeira-ministra entrar em licença-maternidade estando no cargo?”

Ela respondeu:
“Sim, no passado já declarei com toda a sinceridade meu desejo de ser mãe. Decidi falar disso, foi uma escolha minha (…) Quanto a você, é completamente inaceitável que, em 2017, alguém diga que as mulheres deveriam ser obrigadas a responder essa pergunta no ambiente de trabalho: é inaceitável.”

Há perguntas que homens jamais precisarão responder — nem no ambiente de trabalho, nem, de forma ainda mais evidente, na política. A expectativa sobre o que é liderança, especialmente liderança política, foi moldada quase inteiramente por modelos masculinos. E as mulheres parecem ter sempre que justificar sua presença nos espaços de poder, como se fossem intrusas.

Uma pesquisa recente do Instituto CLARICE, realizada com apoio, entre outras instituições, da Open Society Foundations, revela de maneira quantitativa esse estranhamento em relação à presença de mulheres na política. Ao serem perguntados sobre em quais áreas a presença feminina “causa estranheza”, 42% dos entrevistados responderam “política”; 33%, “finanças e negócios”; 28%, “esportes”; e 28%, “tecnologia e inovação”. Já os espaços considerados “naturais” para mulheres foram: saúde (38%), educação (35%) e família (32%).

Ou seja: enfermeiras, professoras, donas de casa — sim.
Políticas? Estranho.

Quando perguntadas sobre quem seria a mulher mais poderosa do Brasil, 40% das pessoas não conseguiram citar nenhum nome.

Os obstáculos que afastam mulheres da política — assassinatos, assédios, ódio — são a parte visível de um imaginário social que legitima que homens possam exercer poder sobre mulheres

Essa sensação de não pertencimento se traduz em como as mulheres exercem o poder. Uma em cada três afirma sentir que precisa mudar a forma de falar para ser ouvida, abaixar o tom de voz para ser levada a sério, controlar expressões faciais e gestos, esconder sua personalidade ou cobrir o corpo para evitar julgamentos.

Essa luta não é apenas pela aceitação da mulher enquanto indivíduo — mas pela aceitação do que é socialmente associado ao feminino. E ela não só torna o exercício do poder um sacrifício constante como impede que surjam formas alternativas de liderança, capazes de questionar a performance masculina tradicional.

Jacinda Ardern, em seu livro “Um Tipo Diferente de Poder — Memórias de uma líder humanista” (Objetiva, 2025), mostra como sua trajetória bem-sucedida como primeira-ministra da Nova Zelândia se apoiou justamente em um exercício de poder que fugia ao modelo construído por homens, sendo homens, para homens. Ardern governou a partir da lógica do cuidado e da empatia — e foi exatamente isso que impulsionou seu sucesso. Um sucesso alcançado mesmo com o nascimento de sua filha durante o mandato e com sua licença-maternidade no cargo.

Sua gestão enfrentou enormes desafios: o maior atentado terrorista da história de seu país e a pandemia de Covid-19 — essa última, sob a avaliação de muitos especialistas, a melhor gestão da pandemia no mundo.

No caso do atentado, um supremacista branco australiano assassinou 49 pessoas em uma mesquita em Christchurch. A resposta de Ardern — firme, mas centrada nas famílias das vítimas e na comunidade muçulmana — se tornou exemplo global. Há um episódio, narrado por ela, que ilustra essa liderança empática.

Ao telefonar para Ardern, Donald Trump ficou surpreso ao saber que ela havia chamado o atirador de “terrorista”. Ela respondeu: “Foi um homem branco da Austrália que escolheu como alvo nossa comunidade muçulmana. Ele é terrorista.”
Trump perguntou se poderia ajudar. Ardern disse:
“Demonstre empatia e amor por todas as comunidades muçulmanas.”

O maior exemplo, no entanto, está na pandemia. Ardern combinou leitura constante de evidências científicas com monitoramento cuidadoso da evolução do vírus. Em pouco tempo, tinha um plano escalonado, que incluía lockdown. O resultado foi um dos menores índices de mortes e de dias de confinamento total no mundo.

Para nós, brasileiros, lembrar do então presidente exibindo seu “histórico de atleta” para justificar sua recusa em seguir a ciência torna ainda mais evidente o contraste entre masculinidade tóxica e liderança empática.

Não se trata de dizer que uma mulher necessariamente faria uma gestão melhor que um homem — mas sim que estilos de liderança historicamente associados às mulheres são afastados do poder. Isso faz com que seja muito mais provável nossas democracias produzirem lideranças como Bolsonaro do que lideranças como Jacinda Ardern.

No Brasil, a presença feminina no poder político é pífia: apenas duas governadoras e menos de 20% de parlamentares. Estamos entre os últimos da América Latina nesse ranking. As dificuldades de acesso vêm acompanhadas da violência política de gênero, que agride mais e cobra mais das mulheres. As que conseguem se eleger a despeito do “estranhamento inicial” muitas vezes são expulsas pelos ataques, ameaças, assédios e pela avalanche de ódio direcionado a elas — em alguns casos, pagando com a vida, como Marielle Franco. Como aponta o Instituto CLARICE: estar no poder não significa necessariamente ter poder.

Assim, a luta por mais mulheres no poder não é apenas sobre representatividade, condição necessária porém insuficiente. Os obstáculos que afastam mulheres da política — assassinatos, assédios, ódio — são a parte visível de um imaginário social que legitima que homens possam exercer poder sobre mulheres, inclusive de modo violento, e que enxerga a mulher na política com estranhamento, enquanto a mulher como vítima não causa nenhum.

O Brasil discute hoje, como nunca, o tema do feminicídio. E o avanço mais importante desse debate não é apenas nomear o crime, mas reconhecer o que o produz: uma estrutura de poder que, historicamente, tratou o corpo da mulher como território disponível e sua vida como propriedade privada. Enquanto o imaginário ancorado na dominação, no controle e na força seguir sendo o único modelo legítimo de poder, não apenas continuaremos testemunhando a violência se reproduzir como perderemos também a chance de construir algo diferente. Porque o mesmo sistema que naturaliza o feminicídio é o que empobrece as formas de liderar, de decidir. Desmontar esse imaginário não é papel das mulheres, mas elas já estão criando outras formas de ocupar e de exercer poder, e a pesquisa da CLARICE mostra isso.

Lideranças empáticas e que privilegiem uma ética do cuidado podem ser mulheres ou homens. Mas é importante perceber que o machismo que bloqueia o acesso ao poder às mulheres é o mesmo que valoriza um estilo de liderança baseado nas características tradicionalmente reservadas aos homens. Para combater esse machismo temos que enfrentar claramente os obstáculos que impedem as mulheres de exercer o poder. Esses obstáculos não retiram apenas oportunidades para mulheres, eles nos roubam a possibilidade de termos lideranças, de ambos os sexos, que priorizem o cuidado e a empatia no lugar da violência e opressão.

Pedro Abramovay é advogado, doutor em Ciência Política pelo Iespe/Uerj, ex-secretário Nacional de Justiça e atualmente vice-presidente de Programas da Open Society Foundations

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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