Trecho de livro

Todo o Caminho Até o Rio

Autora de “Comer, Rezar, Amar”, Elizabeth Gilbert desconstrói aura de sábia em novo livro sobre luto e as zonas sombrias do amor

Tereza Novaes 14 de Novembro de 2025

Elizabeth Gilbert parece ser a pessoa de quem se deve ouvir conselhos sobre a vida. Afinal, é a autora de “Comer, Rezar, Amar” (Objetiva, 2016), livro de memórias que se tornou um fenômeno mundial, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos e que deu origem ao blockbuster estrelado por Julia Roberts.

A história do best-seller é a jornada dela por três países, Itália, Índia e Indonésia, em que narra a sua própria busca por prazer, espiritualidade e romance. “Comer, Rezar, Amar” tem um final de conto de fadas, em que tudo acaba bem, incluindo um relacionamento estável e sucesso profissional. Depois desse livro, ela escreveu ainda sobre processo criativo e casamento, reforçando ainda mais a aura de sábia em dilemas da vida adulta.

Mas em “Todo o Caminho Até o Rio: amor, perda e libertação” (Objetiva, 2025), outro livro de memórias, ela desconstrói totalmente essa imagem ao revelar detalhes do seu relacionamento com Rayya Elias, que ela conheceu como sua cabeleireira, tornaria-se sua amiga íntima e, por fim, namorada e companheira de vida.

É um livro sobre luto, mas também sobre vício, dependência e codependência, no qual a escritora faz confissões inesperadas e escancara sua relação amorosa com Rayya, diagnosticada com um câncer agressivo em 2016, também momento em que as duas se embrenham num vórtice de amor intenso. Nesse processo, a escritora se vê diante da sua dependência em amor e sexo enquanto a parceira vive uma recaída em drogas e álcool, numa tentativa desesperada de lidar com a finitude.

A partir dessa experiência, Gilbert escreve sobre o amor em zonas bastante sombrias, para além do cuidado e da entrega total, chegando até o precipício da destruição quando ela planeja o assassinato da companheira.

Quero dizer que eu realmente pretendia matá-la. E eu conto essa história com toda a sinceridade porque quero que as pessoas entendam como a codependência pode deixar uma pessoa louca. Afinal, eu sou a moça legal que escreveu ‘Comer, Rezar, Amar’. E cheguei bem perto de matar a minha companheira de forma premeditada e a sangue-frio porque ela tinha tirado o afeto dela de mim e porque eu estava extremamente cansada.” A seguir, você lê um trecho do novo livro da autora.


A visita

Na manhã do meu aniversário de 54 anos, acordei ao amanhecer e imediatamente percebi que minha companheira, Rayya, estava no quarto comigo.

Isso era um feito impressionante de sua parte, porque, àquela altura, ela estava morta havia mais de cinco anos.

Mas ali estava: uma corrente agitada e energética da pura essência de Rayya se espalhando pelo meu pequeníssimo apartamento em Nova York em ondas inconfundíveis dela.

Não fiquei alarmada nem assustada (eu a reconheceria em qualquer lugar, eu a amaria em qualquer lugar), mas fiquei surpresa, pois havia um tempo que ela não aparecia. Ah, e como eu sentia saudades! Ela me visitava assim o tempo todo nos meses brutais e confusos logo após sua morte. Naquela época, ela foi tão incrivelmente presente, tão consistentemente acessível, tão engraçada e amorosa e exigente, que eu brincava: “Rayya está mais vívida na morte do que a maioria das pessoas em vida!”.

Eu sentia sua presença inconfundível e conseguia ouvir distintamente sua voz falando direto com a minha consciência

Não que eu conseguisse vê-la naquelas visitas de tanto tempo antes — ela não era uma noiva fantasma vitoriana espectral nem nada do tipo —, mas eu sentia sua presença inconfundível e conseguia ouvir distintamente sua voz falando direto com a minha consciência. A clareza de comunicação entre nós era extraordinária nessa época, logo depois que ela morreu. Foi como se Rayya tivesse montado um sistema telefônico sobrenatural de latinhas e barbante, absurdamente eficiente, pelo qual podia falar comigo através do cosmos usando um fio de linha bem longo. O efeito era tão íntimo que chegava a ser sensual.

Às vezes, até divertido. Eu podia estar em público, sorrindo e assentindo e tentando agir como uma pessoa normal, mas ela e eu estávamos tendo conversas particulares dentro da minha cabeça o tempo todo.

Em uma festa em Los Angeles uns seis meses depois que Rayya faleceu, uma mulher que eu nunca tinha visto se aproximou de mim, colocou a mão no meu braço e disse: “Eu soube que sua parceira deixou o corpo recentemente, sinto muito pela sua perda. Mas preciso te contar uma coisa importante: ultimamente ela tem aparecido para mim em sonhos. Eu sou uma sensitiva profissional e tenho sensibilidade para essas coisas. Rayya me instruiu a te dizer que sente muito a sua falta e deseja se comunicar com você”.

Manda essa vadia se foder, disse Rayya dentro da minha cabeça.

“Obrigada pela gentileza”, falei para a estranha.

A mulher pôs um cartão de visitas na minha mão.

“Aqui está meu número, caso você queira falar com Rayya diretamente.”

Manda essa idiota pular direto no meu cu morto, disse Rayya.

Foi tão louco e glorioso nessa época — sentir minha Rayya ainda controlando o ambiente, mesmo do além-túmulo!

Mas as visitas foram diminuindo com o passar dos anos.

Dois anos se passaram.

Depois, três.

Quatro.

A vida segue — não é isso que as pessoas dizem?

A voz de Rayya foi sumindo.

Mais de cinco anos se passaram.

Passou a haver um silêncio enorme e sem limites no lugar onde a voz dela antes vibrava de forma tão poderosa

O mundo tinha mudado nesse tempo, e eu também. Houve uma pandemia global. Havia novas guerras, novas emergências, novas mortes. Nasceram bebês que Rayya jamais conheceria. Escrevi livros que Rayya nunca leria. Todo mundo estava falando sobre novos programas de televisão que ela nunca veria. Em uma tentativa desesperada de substituir dor por paixão, até me envolvi com uma pessoa por um tempo depois que Rayya morreu (“me detonei em cima de uma pessoa” talvez seja uma descrição mais precisa desse encontro), mas esse relacionamento terminou com uma mágoa rápida, intensa e previsível.

Não me envolvi com ninguém depois disso.

Ao contrário, passei aqueles anos trabalhando em mim mesma.

Eu tinha ficado sóbria — não apenas largando álcool e drogas, mas também me afastando de todas as distrações sexuais e casos românticos. Também havia abandonado todas as substâncias ou pessoas que me faziam mal, me entorpeciam, tinham controle sobre mim ou alteravam meu humor ou minha mente de algum modo. Estava aprendendo a sentir meus sentimentos e a processar minhas emoções sem procurar alguém ou alguma coisa que tirasse a intensidade deles. Estava usando a minha voz, impondo novas regras e limites e vivendo minha própria integridade guiada pelo meu próprio poder superior.

Um dia de cada vez, eu estava botando minha casa interior em ordem. E tinha feito novas amizades — amizades saudáveis das salas de recuperação em doze passos. Amizades que nunca conheceriam Rayya.

Ao longo de tudo isso, a presença de Rayya oscilou e foi se apagando até chegar o dia em que eu não a ouvia mais, nem mesmo quando a chamava pelo nome, nem quando pedia orientação ou amor. Passou a haver um silêncio enorme e sem limites no lugar onde a voz dela antes vibrava de forma tão poderosa. Isso foi destruidor e confuso para mim. Quase como uma segunda morte.

Para onde ela tinha ido?

Ela tinha seguido em frente ou eu tinha sido deixada para trás?

Eu não conseguia entender.

Foi como se ela tivesse saído do universo para comprar cigarro e nunca mais voltado.

Mas então, na manhã do meu aniversário de 54 anos, de repente, ela estava aqui.

E quero dizer aqui de verdade.

A sala estava vibrando com uma grande energia de Rayya e eu senti arrepios pelo corpo todo. Comecei a rir e a chorar ao mesmo tempo.

“Meu amor”, falei. “Você veio me ver!”

Eu queria comemorar, mas percebia que tinha algo que ela queria me dizer — algo que exigia minha atenção total. A sensação era de ser agarrada pela gola e sacudida. Rayya não viajara toda aquela distância enorme para uma visita casual, concluí; ela tinha vindo transmitir uma mensagem de muita importância. Palavras e informações jorravam dela direto para a minha mente, quase rápido demais para eu conseguir assimilar. Por dentro, minha cabeça parecia um fliperama. Peguei o diário que sempre deixo ao lado da cama e comecei a anotar tudo o que ela estava dizendo — tudo o que eu conseguia entender.

E foi isto que Rayya tinha para dizer:

Feliz aniversário, amor meu!

Eu estou aqui e eu te amo!

EU TE AMO!

Eu sinto orgulho pra caralho de você!

Não se preocupe em me deixar pra trás — eu estarei te esperando no rio quando isso tudo acabar, e aí as coisas vão fazer sentido!

Eu sei que às vezes você ainda fica puta comigo por algumas merdas que aconteceram entre nós no final, mas tudo bem. Sinta raiva se precisar sentir raiva, gata. Apenas seja sincera sobre isso e escreva para superar.

Mas siga seu caminho e não se preocupe com o modo como eu fiz as coisas ou o que eu acharia do modo como você está fazendo. Eu te amo e quero essa liberdade pra você! Estou muito orgulhosa da sua sobriedade — você está conseguindo, porra! Está indo até o fim, cara! Você é maravilhosa, continue assim! Não deixe que eu nem ninguém te segure, nunca!

E pare de se preocupar tanto com as pessoas, tá? Você pensa pra cacete nos outros! Nunca mais seja babá de ninguém! Não deixe nenhuma pessoa te encher o saco, nem te arrastar para o drama dela, nem te obrigar a cuidar dela. Deixe que cada um encontre seu caminho — é bom pro outro e é bom pra você. Você tem amigos muito bons agora, mas eles não precisam que você os carregue!

Respire, gata, respire…

Eu estou bem aqui com você. Eu não estou sumindo…

Respire, gata, respire…

Quero só olhar você um minuto. Olhar seus olhinhos de arco-íris! Olhar suas lágrimas cintilantes! Você é tão linda!

Tem uma coisa que você precisa entender, gata, e eu vou te explicar, então escute bem: o motivo para eu não ficar mais vindo aqui é porque nós duas queremos que você tenha sua própria jornada — é isso que precisa acontecer agora. Eu sei que você quer que eu diga que estarei sempre aqui se você precisar, mas a verdade é que você não precisa mais de mim — e isso é uma notícia maravilhosa. Por que acha que eu não comemoraria isso? Antes eu precisava que precisassem de mim, mas não preciso mais — nem você. Quero que você se sinta livre de toda necessidade — e você está finalmente chegando lá!

Produto

  • Todo o caminho até o rio: Amor, perda e libertação
  • Elizabeth Gilbert
  • Objetiva
  • 368 páginas

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