Trecho de livro

Parcelado: Dinâmicas de consumo na periferia

O geógrafo Kauê Lopes dos Santos denuncia as armadilhas da política de crédito, que endividam e comprometem o futuro das populações pobres e periféricas do Brasil

Leonardo Neiva 17 de Abril de 2026

Quando foi a última vez em que você usou o crédito ou optou por parcelar alguma compra? Hoje mesmo, semana passada, talvez algumas semanas atrás… o mais provável é que não faça tanto tempo assim, e você provavelmente nem parou para pensar no assunto. Isso porque as políticas de crédito financeiro já são parte tão indissociável da economia brasileira que parece que elas sempre existiram — impressão que passa longe de corresponder à realidade. É sobre esse tema que se debruça o geógrafo, pesquisador e professor da Unicamp Kauê Lopes dos Santos no livro “Parcelado: Dinâmicas de consumo na periferia” (Fósforo, 2026).

A obra mostra em detalhes como o acesso ao crédito formal transformou a vida e as finanças da população de baixa renda, de maioria negra, nas periferias da maior cidade do país. Para isso, o autor mergulhou no cotidiano dos bairros paulistanos Jardim Helena, Brasilândia e Jardim Ângela, localizados próximo aos extremos da Região Metropolitana de São Paulo. Por meio de entrevistas com moradores, análise de dados e da observação do cotidiano, Santos desafia a visão otimista de inclusão financeira através do crédito, mostrando que promessas vazias, o endividamento e a precarização da vida nas periferias coexistem com essa suposta modernização do consumo.

Os exemplos são muitos: do caso de uma mulher que se orgulha de sua nova TV de 43 polegadas, montada na parede de uma casa repleta de umidade e rachaduras, até um mecânico que não deixa de comprar, mesmo com os ganhos incertos, as dificuldades de organizar o orçamento e as dívidas que se acumulam. Ao evidenciar que o endividamento crônico passa a ser um modo de vida que compromete futuros, o autor argumenta que o crédito não é um facilitador, mas sim a única forma que a população brasileira pobre, negra e periférica tem de gerir sua escassez: de recursos; de acesso à educação, à cultura e ao mercado de trabalho formal; de circulação nas grandes cidades; e, principalmente, de valorização social.


Eu sou a matemática da família
Compra parcelada, endividamento e a nova organização do orçamento doméstico

O sistema do crédito coloca […] um máximo à irresponsabilidade do homem frente a si mesmo: aquele que compra aliena aquele que paga, trata-se do mesmo homem, mas o sistema, pelo seu desnível no tempo, faz com que não se tenha consciência disso.
Jean Baudrillard, O sistema dos objetos

Maria é uma mulher negra de pele clara, nascida em Pernambuco, e trabalhou como confeiteira durante a maior parte de sua vida. Mora na Brasilândia, é viúva, mãe de quatro filhos, e divide a casa com dois deles, incluindo a caçula, Adriana, que a ajuda nos afazeres domésticos e no dia a dia de trabalho. Depois de duas décadas empregada em padarias e docerias da cidade, Maria decidiu trabalhar como autônoma em 2010.

Essa transformação profissional só foi possível no ano em que ela conseguiu comprar os equipamentos necessários para trabalhar dentro de casa: duas geladeiras, dois fogões, dois fornos de micro-ondas, batedeira, liquidificador e os mais variados utensílios de cozinha. “Só consegui começar o meu negócio depois que fui comprando as coisas […]. Foi tudo parcelado, tudo comprado na Casas Bahia, em doze ou 24 prestações. Demorou um tanto. Os boletos chegavam, eu pagava, chegavam, eu pagava. Essa foi a minha vida por muito tempo“, conta Maria em tom bem-humorado.

A casa onde mora é um sobrado modesto, construído pelo falecido companheiro Roberto, junto com os irmãos do marido e os vizinhos do casal na década de 1980. A cozinha, o espaço de trabalho de Maria, é também o cômodo mais amplo, o mais ventilado e, sem dúvida, o mais bem cuidado. O teto branco contrasta com o piso marrom e os azulejos verdes, todos impecavelmente limpos. Quatro estantes de metal, repletas de ingredientes secos — como farinha de trigo, açúcar e chocolate em pó —, encontram-se encostadas em duas paredes. Nas outras duas, estão os fogões e as geladeiras, todos de aço inox. No centro do ambiente, com relativo destaque, está uma mesa de madeira que sustenta potes de plástico com todos os tipos de chocolates granulados que se pode imaginar. Na pia, grande e de granito, repousam a batedeira, o liquidificador, os fornos de micro-ondas e uma pequena lixeira.

Maria faz bolos e doces dos mais variados, sendo o pão de mel com recheio de doce de leite o “carro-chefe”. O mercado consumidor de Maria são os próprios moradores do bairro, e a demanda por seus produtos varia de intensidade conforme a época do ano, embora os equipamentos sejam utilizados o tempo todo. “Se tem festa, é direto o movimento. Precisa ter as duas geladeiras, porque uma é para os ingredientes que estragam rápido e a outra é para os bolos prontos. Não dá para misturar”, explica. A estrutura duplicada foi pensada por ela para atender às exigências do ofício. Os equipamentos foram adquiridos aos poucos, sempre parcelados e frequentemente com juros. Ela sabe disso: “A gente acaba pagando mais caro, né? Um fogão que custa dois mil, no fim sai três e pouco. Os ricos vão lá e pagam à vista. A gente paga mais porque não tem escolha”.

Um fogão que custa dois mil, no fim sai três e pouco. Os ricos vão lá e pagam à vista. A gente paga mais porque não tem escolha

Maria não romantiza o acesso ao crédito: embora reconheça que foi fundamental para iniciar o negócio, ela também sabe que o custo das parcelas pesa e exige cálculo constante. “Eu sou a matemática da família”, diz, rindo, mas com convicção.

Aqui em casa, eu faço conta para tudo. Para a luz, para o gás, para as parcelas da televisão. As parcelas de geladeira e fogão eu já quitei, mas acho que vou ter que comprar outra geladeira em breve, pois aquela ali [fala apontando para uma das geladeiras] está já dando problemas. Se não fizer conta, o dinheiro é engolido, some.

O controle rígido do orçamento doméstico da “matemática da família” se tornou parte da rotina de Maria. Todos os gastos e as projeções de parcelas ao longo dos meses estão anotados a lápis em um caderno azul, que fica na sala, sobre uma mesa de canto. Nele, Maria anota, em uma listagem, o nome da mercadoria comprada, a data da compra, a quantidade de parcelas e o valor delas. A primeira anotação do caderno, feita em 2005, é de um televisor que foi doado para a vizinha alguns anos após o pagamento de seu valor total.

A alguns quilômetros das fornadas de Maria, vive Juliana. Com 38 anos, professora da rede pública e moradora do Jardim Helena, Juliana é uma mulher negra de pele preta, filha de pais baianos que migraram para a capital nos anos 1970. Embora more sozinha, ela mantém uma convivência próxima com a família: os pais e os dois irmãos vivem a cinco quadras de distância.

Juliana é formada em pedagogia por uma universidade privada, tendo conciliado trabalho e estudo por vários anos. Iniciou a carreira como auxiliar de classe, passou por contratos temporários e, mais tarde, foi aprovada em um concurso da rede municipal de ensino. Sua rotina é estruturada por compromissos com o trabalho, a família e a igreja. Dentro dessa rotina, o celular ocupa um papel central: está sempre à mão, usado com cuidado e atenção, como ferramenta indispensável no seu dia a dia.

O primeiro celular que Juliana comprou foi em 2007, parcelado em doze vezes. “Lembro que era um aparelho da Motorola bem simples. Nem tinha câmera, mas só de poder mandar mensagem para as minhas amigas, eu já achava o máximo”, ela conta. Desde então, os celulares passaram a fazer parte de um ciclo regular de consumo em sua vida, de modo que a cada dois anos, em média, Juliana troca de aparelho. Às vezes por necessidade — “teve um que começou a travar demais e a bateria estava tão viciada que não segurava nem duas horas” —, outras vezes por desejo de atualização. Independentemente do motivo, o padrão se repete: a compra é quase sempre feita a prazo, por muitos meses, geralmente na Casas Bahia, onde mantém um cadastro antigo e um limite de crédito que considera “mais acessível” do que em outras lojas.

A fidelidade à loja tem uma lógica prática. Juliana conhece as condições de pagamento, os prazos, e confia que ali não terá o crédito negado. “Na internet até tem uns preços melhores, mas não confio muito, sabe?”, explica. Mesmo com os juros embutidos, ela prefere saber exatamente quanto vai pagar por mês, sem surpresas. O celular novo, quando chega, já entra na rotina como ferramenta de trabalho, lazer e sociabilidade: serve para acompanhar os horários dos ônibus, fazer pesquisas na internet, participar dos grupos de WhatsApp com os professores e coordenadores da escola onde trabalha, e assistir a novelas e seriados no YouTube. A troca do aparelho é, portanto, menos um gesto de ostentação e mais uma estratégia de manutenção da funcionalidade: “Não dá para ficar com o celular travando. Eu trabalho com isso também”, afirma.

O parcelamento do bem, longe de ser um detalhe, é o que viabiliza a sua aquisição, mesmo que comprometa parte do orçamento mensal

O ciclo de consumo de celulares de Juliana não é uma excepcionalidade. O parcelamento do bem, longe de ser um detalhe, é o que viabiliza a sua aquisição, mesmo que comprometa parte do orçamento mensal da professora por longos períodos. Quando questionada sobre o valor dos aparelhos, ela responde com naturalidade: “É o preço para ter um bom celular, né? Melhor do que ficar sem ou depender dos outros. Eu fui da geração que viveu a infância, a juventude e parte da vida adulta sem celular, mas hoje não me imagino sem”.

Juliana organiza todos os gastos referentes às parcelas da compra de seu celular e de outros equipamentos eletroeletrônicos e eletrodomésticos em uma planilha de Excel salva em seu notebook, que também foi comprado de forma parcelada. “Com o meu salário de professora, a única forma de comprar coisas caras é parcelando, não tem mistério.” Diferente do caderno azul da confeiteira Maria, Juliana vai deletando de sua planilha todos os dados relativos aos boletos pagos, apagando também o rastro de seus gastos.

Na periferia sul da cidade, no Jardim Ângela, vive César, um homem negro de pele retinta e morador do bairro desde a década de 1970. Filho de migrantes maranhenses que chegaram a São Paulo em busca de trabalho na construção civil, ele cresceu entre carros desmontados e motos silenciosas, estacionados em oficinas improvisadas nas garagens do bairro. Tornou-se mecânico ainda jovem e, ao longo da vida, alternou períodos de trabalho em oficinas de terceiros com tentativas de montar seu próprio negócio, sempre à mercê da oscilação do mercado. “Tem dias que entram três carros de uma vez aqui, tem dias que não pinga nem uma moto”, resume, com a calma de quem aprendeu a esperar.

Ao contrário de Maria com seu caderno azul ou Juliana com sua planilha do Excel, César enfrenta grandes dificuldades para organizar seu orçamento, sendo o endividamento uma variável crônica em sua vida.

A compra e a utilização de bens de consumo duráveis sempre tiveram um lugar de destaque na sua rotina. Dentre as últimas aquisições, estão: um aparelho de celular novo, que utiliza para fazer chamadas de vídeo com os familiares e os amigos e para conversar por texto com os clientes; uma grande televisão de tela plana, na qual gosta de assistir aos jogos do Santos e à novela; e uma parafusadeira “da boa”, que utiliza na oficina. Nas palavras do paulistano, “muitas vezes, parcelei esses produtos em mais vezes do que deveria. Essa foi uma cilada que já entrei muitas vezes”.

Parcelei esses produtos em mais vezes do que deveria. Essa foi uma cilada que já entrei muitas vezes

Produto

  • Parcelado: Dinâmicas de consumo na periferia
  • Kauê Lopes dos Santos
  • Fósforo
  • 152 páginas

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