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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Quando os avós sustentam a família

Principais responsáveis pela manutenção financeira de boa parte das famílias brasileiras, idosos enfrentam ganhos reduzidos, maior dependência e precarização do cuidado

Leonardo Neiva 26 de Julho de 2026

Quando os avós sustentam a família

Leonardo Neiva 26 de Julho de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Principais responsáveis pela manutenção financeira de boa parte das famílias brasileiras, idosos enfrentam ganhos reduzidos, maior dependência e precarização do cuidado

Assim que a filha anunciou que ia se divorciar, Cecília, 68, fez o que achou mais correto: convidou-a a se mudar com a neta de cinco anos para sua casa, na zona norte de São Paulo. Além de oferecer todo o apoio necessário num momento difícil, a ex-bancária, hoje aposentada, queria dar tempo e espaço suficientes para que a filha resolvesse tanto a parte emocional da separação quanto a série de trâmites legais do divórcio, que envolviam a destinação do imóvel em que ela morava com o marido e a guarda da criança.

Hoje, a separação está prestes a completar dois anos, e mãe e filha seguem vivendo na casa dos pais. “Eu adoro ter as duas comigo, mas, ao mesmo tempo, queria que minha filha arranjasse um rumo, um lugar mais fixo para viver”, conta Cecília, que preferiu não dar seu nome completo, segundo ela, para evitar constranger a filha.

Embora a aposentada e o marido recebam uma renda que ela descreve como “confortável”, a presença de mais duas pessoas em casa gerou mudanças inevitáveis no orçamento. “A gente precisa comprar mais coisas para casa, e hoje deixa de levar alguns produtos de que gostava, com medo de exagerar no valor”, conta. Após enfrentar um período de depressão, a filha ainda não conseguiu se recolocar no mercado de trabalho — ela deixou seu último emprego, em uma agência de publicidade, ainda na gravidez.

Hoje, filha e neta dependem quase exclusivamente da renda do casal. “Não tem como dizer que não faz diferença”, confessa a aposentada. “Eu e meu marido tivemos que adiar os planos para uma viagem que a gente queria fazer há anos. E vamos ter que esperar para reformar a casa, que está meio abandonada faz um tempo.”

Famílias que dependem financeiramente de pais e avós não são novidade no Brasil. Pesquisas indicam que, em boa parte dos lares do país, os idosos é que prestam a principal contribuição para a renda familiar. Mas, em muitos deles, a situação é bem mais grave do que na realidade de Cecília. A dependência excessiva pode gerar condições de vida precárias, por vezes levando ao endividamento e à escassez de recursos básicos para a sobrevivência.

Hoje, em cerca de 67% dos domicílios, segundo o IBGE, o idoso é quem tem a maior renda

É mais ou menos o caso de uma aposentada de 66 anos, que vive na periferia de Goiânia com a filha e três netos. Hoje, além do salário mínimo que a idosa recebe do INSS, as duas ainda precisam trabalhar como empregadas domésticas para complementar a renda, insuficiente para manter cinco pessoas. “Comida não falta, mas tem mês em que o dinheiro só dá para pagar as contas e o básico para a gente viver”, conta a aposentada, que pediu para não ser identificada.

Um levantamento recente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offer Wise Pesquisas, mostra que 91% dos idosos brasileiros ajudam no sustento da família e 52% são os principais responsáveis financeiros da casa. Além disso, 46% deles seguem trabalhando, a maioria com o intuito de complementar a renda.

“Hoje, em cerca de 67% dos domicílios, segundo o IBGE, o idoso é quem tem a maior renda. Então, costuma ser a pessoa que está custeando o sustento familiar, porque, mesmo que ela seja no valor de um salário mínimo, é a única pessoa que tem renda fixa no domicílio”, aponta o jornalista e doutor em ciências sociais Jorge Félix, que estuda o envelhecimento no país.

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Dívidas e dívidas

Autor dos livros “A (Difícil) Decisão de Envelhecer” (Editora da Unicamp, 2026) e “Economia da Longevidade” (Editora 106, 2019), Félix vem pesquisando, ao lado da professora da Unicamp Guita Grin Debert, especialista no tema, a questão do endividamento na velhice. Embora o fenômeno já ocorresse no país há bastante tempo, ele aponta que o problema se intensificou desde a pandemia, com a perda de empregos e um aumento da dependência das aposentadorias de avôs e avós dentro das famílias.

Uma das principais estudiosas dos efeitos do envelhecimento na população, a economista e doutora em estudos populacionais Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), chegou a traçar em 2020 um estudo sobre o impacto que a morte precoce de idosos na pandemia teria para muitas famílias brasileiras: “O idoso é vítima duas vezes nessa pandemia: é quem morre mais e quem é mais afetado pelo desemprego. No entanto, o seu papel nas famílias é pouco reconhecido. Acho que se pode falar que, caso morra um idoso, uma família entra na pobreza”, declara na conclusão do trabalho.

Entre 2020 e 2025, saltou em 43% o número de idosos endividados no Brasil, segundo a Serasa Experian

Segundo Félix, é essa realidade que tem levado a um crescente endividamento, impulsionado também pela facilidade de aderir ao crédito consignado — muitas vezes, as parcelas podem ser descontadas diretamente dos benefícios do INSS — e por mudanças no consumo das famílias de pessoas idosas, que passa a incluir gastos com “medicamentos, fraldas geriátricas e produtos que giram em torno do ato de cuidar.” “Isso vai agravando e pressionando o orçamento familiar”, afirma. Além disso, o aumento do custo de vida, dos preços de imóveis à inflação, também acaba pesando nesse cálculo.

Um dos resultados desse quadro é que, só entre 2020 e 2025, saltou em 43% o número de idosos endividados no Brasil, segundo dados da Serasa Experian. Hoje, mais de 14 milhões de brasileiros acima de 60 anos estão inadimplentes. O que também pode ser particularmente problemático num período da vida em que muitos esperam encontrar estabilidade para cuidar da saúde, geralmente mais frágil, e aproveitar a vida após décadas de trabalho.

A situação das mulheres

O consultor e pesquisador em finanças do envelhecimento Edson S. Moraes afirma que, em alguns casos, são os próprios familiares que influenciam os idosos a contrair empréstimos. “Eu já presenciei situações quase criminosas, em que filhos e netos incentivavam esses idosos a pegar um empréstimo para eles comprarem um tênis ou trocarem de celular“, conta.

Dentro desse contexto, as mulheres idosas são ainda mais vulneráveis, diz Félix, que realizou pesquisas com moradoras de regiões periféricas, em especial no bairro de Vila Missionário, região sul de São Paulo. Considerando que mais da metade das mães são solo, segundo dado do Instituto Datafolha, muitas precisam cuidar de parte dos custos de filhos e netos sem o auxílio financeiro de um parceiro.

“As mulheres idosas estão endividadas num nível impressionante. É o reflexo da situação delas no mercado de trabalho, principalmente quando são mulheres pretas que atuam como empregadas domésticas, de maneira informal, e não são elegíveis para aposentadoria, o que as deixa sem renda”, descreve Félix.

A situação, de acordo com o pesquisador, apresenta efeitos bastante perversos para o envelhecimento. Um dos principais é um quadro de negligência com a própria saúde. “Muitas vezes, a pessoa não consegue nem comprar um medicamento ou equipamento para o seu autocuidado”, aponta. Outro aspecto que ele percebeu durante as entrevistas para sua pesquisa foi que muitos idosos viviam em ambientes insalubres devido à falta de recursos. “Como é que a pessoa, nessa situação, vai ter um envelhecimento saudável?”

A aposentada de Goiânia conta que tem sentido cada vez mais dores nos ombros, provavelmente devido às atividades pesadas como doméstica. No entanto, confessa que ainda não procurou auxílio médico, com medo de que a recomendação seja parar de trabalhar. “Querer eu não quero [continuar trabalhando], mas não tenho condição de parar agora. É isso ou vai começar a faltar coisa aqui em casa”, admite.

Quando a pessoa passa a acumular dívidas, outro ponto central são os efeitos gerados por essa nova realidade. “O julgamento moral da sociedade afeta outras questões de saúde, com destaque para o sono”, explica o pesquisador. “Todas sofriam com insônia e não podiam comprar medicamentos, ou porque o médico não quis receitar ou porque não tinha no SUS. São problemas que servem de gatilho para doenças neurológicas e vários tipos de demência.”

Dor de cabeça em família

A dependência financeira excessiva em relação aos pais ou avós não traz impactos negativos apenas para eles, mas para todos os familiares, destaca a advogada Ivone Zeger, especialista em direito de família e herança. Além de ser um período da vida marcado por doenças e mais gastos com saúde, a morte da pessoa de quem outros familiares dependem faz cessar a aposentadoria — e a pensão por morte não vale em todos os casos.

É importante fazer o planejamento de sucessão ainda em vida — algo raro no Brasil, onde dinheiro e morte são tabus

“A família fica desamparada e vai se instalar uma crise jurídica financeira, porque as contas estão chegando e a renda desaparece”, afirma Zeger. Acreditar demais em uma suposta herança é outro caminho perigoso, já que, mesmo que ela exista, vai custar dinheiro e pode levar meses ou até anos para que se concluam o inventário e todas as exigências legais, cenário que pode se agravar caso haja disputas legais na família.

Para a advogada, além da necessidade urgente de reduzir a dependência financeira em relação aos idosos, buscando outras fontes de renda, também é importante, se possível, fazer o planejamento dos detalhes da sucessão ainda em vida — algo raro no Brasil, onde tratar tanto de dinheiro quanto de morte ainda é tabu.

“Eu sempre digo que planejamento sucessório não é privilégio de pessoa rica, é um instrumento jurídico de proteção familiar. Não precisa ter muito dinheiro, imóveis ou empresas para se planejar”, defende Zeger. Além disso, diz, trata-se da forma mais eficaz de reduzir conflitos e administrar os bens pessoais da melhor forma, evitando problemas posteriores.

Renda minguante

Embora seja o principal provedor da família, o idoso também pode acabar se vendo num lugar de mais dependência, afirma Moraes. E isso acontece principalmente quando filhos ou netos passam a viver junto com ele. “A pessoa perde seu espaço, sua privacidade e independência para suprir uma necessidade que não é dela. É um processo de invasão que acaba se naturalizando”, explica o consultor.

Ele acrescenta que, mesmo que não haja pagamentos financeiros a esses familiares, a mudança — como no caso de Cecília — implica despesas maiores com itens como energia e supermercado, em alguns casos reduzindo a qualidade daquilo que é comprado para dar conta de alimentar todas as pessoas da casa.

Hoje, a perda de renda dos idosos não acontece só no Brasil; é um fenômeno que engloba todos os países em meio ao rápido envelhecimento da população global, segundo Félix, cuja pesquisa também compara os dados colhidos por aqui à realidade da França. No Reino Unido, por exemplo, uma pesquisa da fintech Creditspring aponta que avós já chegam a gastar cerca de 14,6 bilhões de libras (R$ 99,1 bilhões) por ano para apoiar os netos.

A financeirização da velhice coloca a culpa do empobrecimento e das dívidas exclusivamente numa suposta falta de educação financeira dos idosos

Mas o caso brasileiro tem algumas particularidades. Se, antes da reforma da Previdência de 1998, só 25% dos beneficiários do INSS recebiam um salário mínimo, hoje esse número chega aos 70%, aponta. E isso, segundo Félix, vem gerando um achatamento considerável da renda dos aposentados.

“Sem muita gente perceber, nosso sistema de aposentadoria se transformou num sistema de assistência social”, avalia Félix. O pesquisador também é crítico do modelo de “financeirização da velhice”, que coloca a culpa do empobrecimento e das dívidas exclusivamente numa suposta falta de educação financeira dos idosos. “Na verdade, é culpa de um modelo que vem atravessando vários governos e que busca impulsionar excessivamente a economia através do consumo das famílias e da facilidade de crédito.”

Hoje, a aposentada que segue trabalhando como doméstica, em Goiânia, tem dificuldade de visualizar um futuro em que possa deixar de trabalhar e viver apenas da aposentadoria. “Eu falo com a minha filha e com meus netos para eles estudarem, buscarem uma coisa diferente, para que não cheguem na minha idade igual eu, sem poder descansar um minuto.”

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