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Arquivo pessoal/Vivianne Wakuda

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Depoimento

Lições (de vida) de avós

É pelo exemplo de amor, cuidado e generosidade que muita gente aprende com eles. Gama ouve os relatos da comunicadora Maria Prata, dos escritores Jeovanna Vieira e Tito Leite, e da confeiteira Viviane Wakuda, entre outros

26 de Julho de 2026

Lições (de vida) de avós

26 de Julho de 2026
Arquivo pessoal/Vivianne Wakuda

É pelo exemplo de amor, cuidado e generosidade que muita gente aprende com eles. Gama ouve os relatos da comunicadora Maria Prata, dos escritores Jeovanna Vieira e Tito Leite, e da confeiteira Viviane Wakuda, entre outros

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    “Aprendi que se pode fundir amor e companheirismo”

    Claudia Cavalcanti, autora dos romances “Avenida Beberibe” (Fósforo, 2024), que tem a casa dos avós maternos como cenário principal; e “Espaço Aéreo” (Fósforo, 2026), que acaba de ser lançado

    “Meu avô Paulo morreu aos 80 anos, em 1995, e minha avó Ofélia aos 101, em 2019. Eram meus avós maternos e fui sua primeira neta. Não tinha como não sermos muito ligados, mas de forma diferente. Minha avó me legou a curiosidade pelo desconhecido, traduzido na vontade de estudar, mas também de viajar e conhecer lugares novos. Vivíamos com o pé na estrada. Como modista (o termo antigo para estilista), fui sua modelo constante. Ela fez muitas roupas bacanas pra mim. Graças a ela entendo que o que vestimos é uma extensão de quem somos. Acho que não é por acaso que minha filha mais velha estudou moda. Minha avó ainda tentou me ensinar a bordar, sem sucesso, mas tenho mãe e filha caçula como exímias bordadeiras.

    Já meu avô incutiu em mim o amor pela literatura e pela escrita. Conversávamos sobre livros desde que eu era criança, de forma que, hoje, ler e escrever continuam sendo o que mais me interessa fazer. Mas o que ele mais deixou impregnada em mim foi a ideia de justiça, em seu sentido mais restrito (igualdade entre irmãos, por exemplo) e mais amplo, o de uma sociedade socialmente mais equilibrada, para dizer o mínimo. Dos quatro avós e dois bisavós que conheci, era ele o mais carinhoso.

    Com os dois, aprendi que se pode fundir amor e companheirismo. Paulo e Ofélia eram primos-irmãos; portanto, se conheciam desde que nasceram e foram casados durante quase 60 anos, comemorados no dia 26 de julho, o Dia dos Avós!

    Resumindo: com eles, aprendi o essencial.”

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    “Eu tinha a sensação de entrar em um mundo paralelo onde quase tudo era possível”

    Vivianne Wakuda, confeiteira

    “Meus avós me tiravam, sempre que possível, da dura realidade em que vivíamos. Desde pequena, vi meus pais enfrentando grandes dificuldades financeiras. Cresci na plantação de verduras: meus pais trabalhavam o dia todo na lavoura e, aos finais de semana, nas feiras livres e no CEAGESP. Chegamos a um ponto tão difícil em que eles tinham apenas chá para me dar em vez de leite, porque era mais barato e rendia mais. Meu Ditchan não dizia nada: ele simplesmente aparecia no sítio com uma caixa cheia de leite em pó e se oferecia para cuidar de mim.

    Com ele, eu tinha a sensação de entrar em um mundo paralelo onde quase tudo era possível. Ele ajudava no que podia e quase nunca me dizia ‘não’. Para se ter uma ideia, quando íamos ao mercado, ele me deixava pegar tudo o que eu queria; eu tinha até uma mochila cheia de doces.

    O nome dele era Hiromu Minata. Nascido em Hiroshima, veio para o Brasil aos 13 anos. Fazia questão de me ensinar nihongo (japonês), me colocou em aulas de arte e em uma escola de língua japonesa. Acredito que pensava que a única maneira de mudar nossa realidade era pela educação e pela arte.

    Já a minha Batchan, Chiono Minata, nasceu na província de Fukushima e era descendente de samurais. Foi ela quem me ensinou os princípios da culinária caseira japonesa: lembro dela fazendo konyaku, missô e kanpyo. Ela passou a me ensinar a cozinhar a partir dos meus 8 anos.

    Eles tinham um jeito muito próprio de demonstrar carinho, que nunca foi pelo contato físico, por beijos, abraços ou palavras afetuosas. Apesar de ter tido uma infância dura, meu Ditchan e minha Batchan me mimavam sempre que podiam. O afeto deles vinha pela comida, no incentivo para que eu mergulhasse na cultura japonesa e pela oportunidade de simplesmente ter meus momentos de criança. Gestos simples que, até hoje, me fazem sentir uma saudade imensa daquela época.”

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    “Ela nunca me ensinou sobre como ter bom humor, mas com certeza eu aprendi com ela”

    Pedro Rocha, neto da escritora Ruth Rocha

    “A minha vó vive a vida dando risada, esse bom humor ela nunca me ensinou, mas com certeza eu aprendi com ela. O amor pela literatura veio de tantas pessoas da família, mas com certeza ela também o instigou desde sempre. Lembro dela me perguntando o que eu estava lendo e ficar genuinamente curiosa sobre as aventuras de Percy Jackson. Não sei o quanto ela entendia, mas era claro o quanto ela se importava. Importar-se com aquilo que é importante para o outro é um bom resumo daquilo que ela me ensinou.”

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    “Minha avó me ensinou que uma mulher pode fazer (e não fazer) o que quiser da vida”

    Maria Prata, jornalista e comunicadora

    “Minha avó me ensinou que mato dá as flores mais lindinhas de um jardim, que para o bolo ficar fofo a gente bate ele na mão, ‘na vertical’. Que uma mulher pode fazer (e não fazer) o que quiser da vida, sem depender de homem nenhum. Mas, o mais importante de tudo: é proibido comer bife bem passado.

    Laura Maria Lacombe de Goes, a Loli, tem 95 anos. Fundou dois colégios, alfabetizou e ensinou milhares de crianças. Aos 60, em vez de se aposentar, vendeu a escola e abriu uma pousada, em Petrópolis, na serra Fluminense. É lá que ela mora, toca o negócio e manda em tudo e em todos até hoje. Só essa biografia já rende tantos aprendizados que fica difícil escrever um texto pequeno para falar do que aprendi (e tanta gente ainda aprende) com ela. De qualquer maneira, vale avisar: se for comer no restaurante da Pousada da Alcobaça, nunca peça bife bem passado.”

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    “Meus avós me ensinaram que cuidar nunca é um gesto extraordinário”

    Morena Caymmi, coordenadora de hospitalidade do Grupo Fitó

    “Quando penso nos meus avós, lembro menos dos grandes conselhos e mais da forma como viviam. Foi olhando para os dois que entendi que a maneira como a gente passa pela vida das pessoas é o que fica.

    Tenho poucas lembranças do meu avô materno, mas cresci ouvindo muitas histórias. Minha mãe sempre falava de um homem muito presente e profundamente querido. Foi assim que entendi que o que faz alguém permanecer não é o tempo que viveu, mas a marca que deixou na vida das pessoas.

    Quem me ensinou isso todos os dias foi a minha avó materna. Fui criada na casa dela também, onde sempre tinha espaço para mais um, tinha café passado, um copo de suco, um pedaço de bolo ou um prato de comida esperando. E ninguém ia embora de mãos vazias. Ela também tinha algumas regras que pareciam pequenas, mas diziam muito sobre quem ela era. Comida não era servida na panela. Hoje percebo que aquilo era uma forma de respeito. Ela acreditava que receber alguém bem também passava pelos detalhes.

    Hoje eu trabalho com hospitalidade e, volta e meia, me pego fazendo exatamente o que aprendi na casa da minha avó. Quando penso em como receber alguém, em como fazer uma pessoa se sentir vista, confortável e bem cuidada, percebo que isso não começou quando entrei para um restaurante. Começou muito antes, naquela casa onde sempre havia café fresco, comida dividida e tempo para quem chegava.

    No fim, acho que os meus avós me ensinaram que cuidar nunca é um gesto extraordinário. É colocar mais um prato na mesa. É guardar um pedaço de bolo para quem não veio. Por isso eles continuam tão presentes na minha vida. Algumas pessoas permanecem nos gestos que ensinam.”

  • “Minha vó Neusa me ensinou a sambar miudinho, meu avô Marcus me ensinou a ter brio”

    Jeovanna Vieira, jornalista e escritora, autora dos romances “Virgínia Mordida” (Companhia das Letras, 2024) e “Toda Caixa-Preta É Laranja” (idem, 2026)

    “Engraçado que a pergunta me convoca a pensar o quanto os meus avós, os quatro, estão presentes na minha liteartura. Desde um heterônimo que eu usei pra inscrever livros em premiações, ‘Neusa Odilo’, que é o nome da minha avó paterna e do meu avô materno, passando por reinventar as histórias de cada um deles como fundamento narrativo até encontrar nos meus romances, no livro de poemas e em contos (ainda inéditos), homenagens às suas trajetórias. E eu não tinha compreensão que eu vinha fazendo isso até essa pergunta chegar.

    Eu aprendi de tudo com eles, apenas os observando… cada um na sua bronca, no seu enfrentamento diário. Não tive avós que conversavam muito com os netos, do tipo: ‘Senta aqui, vou te dar uma visão’. Com os meus avós paternos eu aprendi o samba como linguagem, que é muito pra mim e dita tudo. Minha vó Neusa me ensinou a sambar miudinho, meu avô Marcus me ensinou a ter brio. Aprendi muito também o que eu não queria os observando. Com a minha avó materna eu vi na prática o que é feminismo, com meu avô Dilo eu conheci a ternura de um homem bom.”

  • “Com elas aprendi que, por mais que a vida custe o olho da cara, não podemos desistir”

    Tito Leite, poeta, romancista e mestre em filosofia, autor de “Dilúvio das Almas” (Todavia, 2022) e “A Casa dos Malditos: Memórias de um ex-monge beneditino” (Zahar, 2026)

    “Os meus avôs faleceram, nos anos 60, muito antes do meu nascimento. Sou filho de dois órfãos. As minhas avós (Maria Barbosa e Letícia Taveira), na época, eram duas mulheres sem recursos e com um grande número de crianças para criar, numa terra árida e de homens brutos. Elas desafiaram o sertão, a fome e criaram todos os filhos com alegria, numa época em que tudo era escasso no sertão. A esperança sempre fez parte da vida dessas matriarcas, que, diante de todas as adversidades nunca deixaram de sorrir e dizer sim para a vida. Com elas aprendi que, por mais que a vida custe o olho da cara, não podemos desistir. Sou um otimista por educação. O principal ensinamento das minhas avós foi a insistência na vida e a acreditar na existência de dias melhores.”

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