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Depoimento

Qual a importância dos seus avós na sua história?

Alice Carvalho, Isabel Teixeira, Lilia Guerra e outros falam sobre o que carregam de seus avós pela vida inteira

Tereza Novaes 20 de Julho de 2025

Qual a importância dos seus avós na sua história?

Tereza Novaes 20 de Julho de 2025

Alice Carvalho, Isabel Teixeira, Lilia Guerra e outros falam sobre o que carregam de seus avós pela vida inteira

Quem teve a chance de uma convivência amorosa e protetora de avós pode se considerar uma pessoa de sorte, e o inverso também é verdade: ter a oportunidade de estar com os netos, participar de suas vidas e contribuir para o desenvolvimento de uma nova geração talvez seja a grande fortuna da vida, um presente que costuma chegar na maturidade e que pode mudar a perspectiva de quem achava que já havia vivido tudo.

Nos depoimentos a seguir, as histórias de pessoas que tiveram a vida influenciada profundamente pela trajetória, troca e amor dos avós. São relatos que nos inspiram a pensar no tipo de relação que queremos construir como os nossos netos, o que eles podem esperar de nós, e também como tradições, costumes e exemplo dos mais velhos podem continuar a nos influenciar, mesmo depois de adultos.

A atriz Alice Carvalho, por exemplo, afirma que os avós, que ajudaram a cria-lá, sempre deram espaço para ela ser quem desejasse ser. O ator e músico Jaffar Bambirra, neto de dois intelectuais de esquerda, também essenciais em sua criação, acredita que o convívio o marcou em diversos aspectos da vida. E a escritora Julia Medeiros observa como os avós aparecem para ela em momentos de criação. Ela, aliás, é uma das entrevistadas que usou essa proximidade como inspiração para escrever o livro “A Avó Amarela”. Já a cantora Liza Lou lança nesta semana a música “Meu Dengo” em homenagem à avó materna, incentivadora de sua carreira; Bambirra planeja um documentário sobre a atuação de seus avós; e Bianca Santana lança, em agosto, “Apolinária”, romance que leva o nome de sua avó.

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“Sou silêncio, arruda e panela cheia de uma. Sou histórias, braveza e infinitas plantas da outra”

Bianca Santana, escritora e jornalista

 Fotos da família: Arquivo pessoal / Retrato Bianca: Renato Parada

“De tão importante na minha vida, Apolinária, minha avó materna, inspirou a personagem principal, que dá título ao meu primeiro romance, que chega às livrarias em agosto. Enquanto minha mãe passava muitas horas fora de casa, no trabalho ou no transporte público, vó Polu cuidava de mim a maior parte do tempo. Dela, ouvi muitas histórias do rio São Francisco e lições valiosas ‘de tudo, por tudo’, como costumava dizer. Minha avó Maria, mãe do meu pai, me benzia com galhinhos de arruda e sempre tinha sardinha em conserva, feita por ela mesma, pra ser comida com pão. Domingo tinha macarrão com galinha, para uma multidão, preparado por ela com tempo e cuidado. Pouco falava. Sou silêncio, arruda e panela cheia de uma. Sou histórias, braveza e infinitas plantas da outra. Sou amor das duas.” Bianca Santana é autora de livros como “Apolinária”, em pré-venda, (Fósforo, 2025) e “Quando me Descobri Negra” (Fósforo, 2023).


“Os dois foram, e continuam sendo, grandes referências de afeto, coragem e visão de mundo”

Jaffar Bambirra, ator e músico

 Foto: Divulgação

“Meus avós Theotônio dos Santos e Vânia Bambirra foram figuras muito fortes intelectual e politicamente. Eles têm uma história muito marcante, foram exilados durante a ditadura, estiveram envolvidos na resistência e são autores da teoria marxista da dependência. Essa presença era muito viva em casa, sou filho de mãe solo e fui criado por ela e pela minha avó, que foi absolutamente central na minha vida. Passei a infância toda com ela, era com quem eu dividia o dia a dia, quem me dava bronca, me cuidava e me dava colo. Ela faleceu em 2016, e meu avô, em 2018. Desde então, sigo com esse legado muito vivo dentro de mim e tenho um projeto de documentário em desenvolvimento sobre a história deles. Acima de tudo, os dois foram, e continuam sendo, grandes referências de afeto, coragem e visão de mundo. Tudo que eu sou hoje tem muito deles.” Jaffar Bambirra é ator e faz parte do elenco da série “A Vida pela Frente” (2023), da Globoplay.

“Minha vó é quem segue influenciando as minhas decisões, mesmo sem usar a voz audível”

Lilia Guerra, escritora, auxiliar de enfermagem e pesquisadora

 Fotos da família: Arquivo pessoal / Retrato Lilia: Divulgação

“Minha vó fala comigo todo dia, mesmo já tendo partido há quase 20 anos. As decisões que eu tomo se baseiam muito nas opiniões dela. Palavras que guardei. Eu analiso, penso: O que ela faria? Diria? Pensaria a respeito? Há quem, hoje em dia, me ofereça conselhos, orientações, eu os analiso, claro. Reflito. Mas é minha vó quem segue influenciando as minhas decisões, mesmo sem usar a voz audível. Sem esforço. Sem imposição. É uma escolha minha escutá-la, ainda que sem ouvi-la. É a voz mais importante com a qual já tive contato. A que eu mais amo.” Lilia Guerra é autora de livros como “Perifobia” (Todavia, 2025) e “O Céu para os Bastardos” (Todavia, 2023).


“Meus avós me ensinaram os valores de família, da maneira mais bonita, rica e progressista”

Alice Carvalho, atriz

 Fotos da família: Arquivo pessoal / Retrato Alice: Divulgação

“Minha mãe me teve aos 16 anos, também era uma criança, e meus avós nos criaram, eu e a minha mãe, juntas. Eles já tinham outros três filhos, além de um outro, agregado. Meus avós me ensinaram os valores de família, da maneira mais bonita, rica e progressista. Nosso lar era extremamente respeitador da diversidade, com muito espaço para eu ser quem eu quisesse. Minha avó é do interior do Rio Grande do Norte e meu avô, da periferia de Natal. Hoje aposentado, ele é doutor em cartografia pela Universidade do Rio Grande do Norte. Além de ser o meu professor da vida, ele foi mestre de muitos outros profissionais. A importância deles para mim é o exemplo, o acolhimento e o afeto. Eles me ensinaram a olhar para o meu passado, para minha história, agruras e alegrias, de uma maneira positiva, e entender que meu passado também faz parte da pessoa que eu sou hoje. E ser apaixonada também pelas minhas feridas. Seu Edilson e dona Salete, amo demais, minhas grandes referências, grandes amores da minha vida.” Alice Carvalho, atriz, está no elenco do ainda inédito “O Agente Secreto”(2025) e da novela “Guerreiros do Sol” (2025), da Globoplay.


“Meus avós fizeram um círculo em torno de mim e me deram segurança e muito carinho”

Isabel Teixeira, atriz

 Foto: Jorge Bispo

“Eu tive a sorte de ter convivido muito com os meus quatro avós, Jaci e Renato, meus avós paternos, e Lourdes e Moacir, os maternos. Meus pais se separaram quando eu tinha menos de um ano e, na confusão que era ser filha de pais divorciados nos anos 1970, meus avós fizeram um círculo em torno de mim e me deram segurança e muito carinho. Eram dois casais diferentes, com casas muito diferentes e essas convivências heterogêneas também me formaram. Meus avós paternos eram funcionários públicos, caiçaras, e os meus avós maternos, intelectuais, minha avó era pianista e meu avô, jornalista. Fui influenciada igualmente por todos eles, os quatros me trouxeram principalmente a certeza do amor. Sempre tive certeza que era muito amada por eles e eles foram muito amados por mim. Meus avós foram um porto seguro de calmaria. Falar deles me dá saudade e eu sei que eles estão aqui comigo, tenho certeza que eles estão sempre presentes, vivos na minha memória e na minha vida cotidiana também.” Isabel Teixeira, atriz.

“Me sento para escrever e eles surgem na página”

Julia Medeiros, escritora

 Foto: Divulgação

“Minha relação com meus avós se tornou um enigma pra mim. Me sento para escrever ficção e eles surgem na página, quase que invariavelmente. Dessa ironia, já nasceram livro, conto, roteiro, dramaturgia, letra de música, a decisão de não mais escrever sobre eles e a constatação de que, no fundo, não sei se a coisa vai parar. Mas por que estão tão inscritos na minha escrita? Faz pouco tempo que parei de pensar nos avós e comecei a pensar na neta – a que também surge na página como narradora ou personagem; a que enfrenta o espaço em branco como autora: eu. Ser neta e neto é a melhor herança que os avós podem nos deixar e uma das posições mais privilegiadas que se pode ter em relação ao amor, ao tempo, à identidade, à ancestralidade, ao futuro, à morte, à eternidade, à vida enfim. E é pra ser neta que os escrevo tanto. Pra reacender o instante da descoberta da poesia.” Julia Medeiros, autora de “A Avó Amarela” (ÔZé, 2018) e “Zalém e Calunga” (ÔZé, 2023).

“Minha avó acompanha minhas novelas, vibra com cada trabalho novo e me incentiva muito”

Bruna Aiiso, atriz

 Fotos da família: Arquivo pessoal / Retrato Bruna: Divulgação

“Sou neta de japoneses por parte de pai e de brasileiros nordestinos, negros e indígenas por parte de mãe. Cresci mais próxima da família materna, com quem passava os finais de semana e os dias comuns. Aprendi muito, vendo de perto o que é força, resiliência, alegria e luta. Do lado paterno, minha avó faleceu três anos antes de eu nascer, sou de 1983, e meu avô, anos depois, voltou a morar no Japão e faleceu lá, enquanto eu ainda era criança. Não convivi muito com ele. Era difícil ter acesso ao Japão naquela época, mas isso nunca me afastou do que herdei. Ao contrário, cresci com a vontade de saber mais, de entender de onde vim, de me reconhecer nessa mistura que carrego no meu fenótipo, no corpo e na história. Meu maior sonho hoje é conhecer o Japão. Hoje, só minha avó materna está viva. Ela mora no sertão da Bahia, em Oliveira dos Brejinhos, estive lá há três anos e nos falamos sempre por telefone. Ela acompanha minhas novelas, vibra com cada trabalho novo e me incentiva muito. Dona Vivi é uma das minhas maiores torcedoras.” Bruna Aiiso é atriz e está no ar na novela “Vale Tudo”.

“Sou uma mulher muito sortuda de tê-los até hoje”

Liza Lou, cantora

 Fotos da família: Arquivo pessoal / Retrato Liza: Divulgação

“Meus avós são figuras muito presentes na minha vida, todos eles. As memórias que eu carrego da infância são regadas de lembranças com eles. Meu avô materno rodando a cidade de São Gonçalo inteira para catar figurinha comigo, que eu amava colecionar. Meus avós paternos me levando para caminhar às 5 horas da manhã era puxado, mas era um momento do dia muito importante para mim. E, com a minha avó materna, eu tenho um vínculo quase que de outra vida. Ela me batizou, me botou na minha primeira aula de música e foi a primeira a acreditar no meu sonho, na minha carreira. Sou uma mulher muito sortuda de tê-los até hoje na minha vida. São meus portos de sabedoria, de afeto e inspiração, muita inspiração. Não à toa, neste Dia dos Avós, eu lanço uma música chamada ‘Meu Dengo’, inspirada na minha avó. Eu estava na casa dela há pouco tempo e ela disse: ‘Minha filha, a gente tem que falar que ama enquanto tem tempo’. E daí surgiu uma das músicas mais genuínas e lindas que eu já escrevi, inspirada nessa vivência com ela.” Liza Lou é cantora e lançou, em 2024, o álbum “Sal”.

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