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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Como lidar com o luto de avôs e avós

A morte do companheiro ou da companheira após décadas de convívio muda a identidade, a rotina e a percepção de futuro. Escuta, respeito às escolhas e presença ajudam a apoiar sem transformar o cuidado em controle

Ana Elisa Faria 26 de Julho de 2026

Como lidar com o luto de avôs e avós

Ana Elisa Faria 26 de Julho de 2026
Ilustração de Isabela Durão

A morte do companheiro ou da companheira após décadas de convívio muda a identidade, a rotina e a percepção de futuro. Escuta, respeito às escolhas e presença ajudam a apoiar sem transformar o cuidado em controle

Em poucos minutos, “Up – Altas Aventuras” narra uma vida inteira. Carl e Ellie se conhecem ainda crianças, ficam velhinhos juntos e fazem da casa que compartilham o cenário para sonhos, alegrias, pequenos acontecimentos do cotidiano e frustrações. Quando ela morre, os objetos continuam nos mesmos lugares, como se preservassem a forma da vida que existia ali. Carl permanece cercado de lembranças da esposa e de uma rotina que perdeu sua outra metade — além de ficar triste e se tornar um homem ranzinza.

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Fora da animação de 2009 dirigida por Pete Docter, a morte de um companheiro após décadas de convivência também pode desorganizar o dia a dia e bagunçar uma série de outros aspectos. Quem fica perde a pessoa amada, mas pode perder, ainda, uma maneira de tomar decisões, ocupar os espaços, imaginar o futuro e se reconhecer no mundo. Atividades corriqueiras — como preparar uma refeição, dormir, pagar uma conta ou participar de uma reunião familiar — passam a expor uma ausência que se renova todos os dias.

A psiquiatra Tania Maria Alves, coordenadora do Ambulatório de Luto do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq–HC–FMUSP), chama atenção para a mudança de identidade provocada pela viuvez. “Se eu fui a esposa de fulano, agora não sou mais esposa de ninguém”, exemplifica. A dimensão dessa transformação, defende, está relacionada ao vínculo e ao tipo de parceria que existia entre o casal.

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Gabriela Casellato, doutora em psicologia clínica e cofundadora do 4 Estações Instituto de Psicologia, resume o desafio em duas dimensões: “o que se viveu e o que ficou”. Depois de 50 ou 60 anos de convivência, diz, a identidade pode estar profundamente ligada à conjugalidade. “A sensação de perder parte de si é, de fato, uma sensação muito real.”

Para filhos, netos e outros parentes, acolher essa perda não deve significar preencher imediatamente os espaços vazios. O apoio passa por reconhecer que cada indivíduo vai viver o período e sentir a dor de maneira diferente, permanecer disponível sem controlar, escutar sem pressionar e respeitar o direito da pessoa idosa de decidir como deseja viver o próprio luto, ainda que esteja fragilizada.

Reconheça tudo o que foi perdido

A morte do cônjuge pode representar também a perda de uma fonte de segurança, intimidade, apoio e pertencimento. A pessoa não perde apenas quem estava ao seu lado, mas aquilo que era para o outro e a vida que os dois sustentavam juntos.

A psicóloga Gabriela Casellato observa que a tristeza pela morte pode vir acompanhada pelo medo diante da própria velhice e da finitude. O avô ou a avó que perdeu o par precisa continuar vivendo sem a pessoa com quem compartilhava essas inquietações. O sentimento de desamparo pode ser maior quando o companheiro desempenhava um papel importante de proteção, acolhimento ou organização do cotidiano.

Também não se deve partir do princípio de que todas as relações foram amorosas, saudáveis ou harmoniosas. A maneira como a viuvez é vivida depende do vínculo construído ao longo dos anos. Relações difíceis ou até abusivas podem produzir respostas distintas daquelas presentes em casamentos marcados pela parceria. Mesmo em vínculos afetuosos, as reações não são únicas nem lineares.

Quando a morte ocorre depois de uma doença prolongada, parte do processo começa antes. Casellato explica que, diante do adoecimento e das mudanças sofridas pelo companheiro — em casos de Alzheimer, por exemplo —, a pessoa vive o chamado luto antecipatório. Medo, tristeza, cansaço e alívio podem surgir juntos. O alívio sentido, no entanto, não elimina o afeto nem diminui a importância da perda; muitas vezes, reflete o fim de um período de sofrimento e sobrecarga.

Antes de falar, escute

Diante da dor de um familiar, é comum procurar a frase certa para consolar ou uma forma de fazê-lo se sentir melhor. Para a psiquiatra Tania Maria Alves, porém, não existe uma fórmula pronta. A orientação da médica é mais simples: antes de falar, ouça atentamente. “Apenas escute e esteja a postos; respeite”.

Escutar exige disponibilidade para que a pessoa fale quando quiser — inclusive repetindo histórias, lembranças e sentimentos — e respeito pelos momentos em que prefere permanecer em silêncio. Perguntas contínuas, cobranças para que explique como está ou a transformação de cada encontro em uma conversa sobre a morte podem produzir o efeito contrário.

“Insistir um pouco é bom para mostrar que você se preocupa, mas é essencial ter sensibilidade para respeitar o desejo e o momento da pessoa”, fala a assistente social Marisa Accioly, especialista em gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e professora do curso de gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH–USP). Às vezes, conforme comenta a profissional, o “sobrevivente mais velho”, como ela chama esses viúvos, “quer canalizar boas lembranças e relembrar uma história legal.”

Evitar qualquer referência ao avô ou à avó por medo de provocar tristeza nem sempre é uma forma de cuidado. “Tem gente que pensa que, se falar na pessoa que faleceu, o cônjuge vai ficar mais triste. Mas ele já está triste”, afirma Gabriela Casellato. Depois de décadas de convivência, impedir que a pessoa fale sobre quem morreu pode fazê-la se sentir ainda mais sozinha.

Apenas escute e esteja a postos

Isso não significa introduzir o assunto à força. Se a pessoa não desejar falar durante uma refeição ou uma reunião familiar, sua escolha também deve ser respeitada. O princípio não é falar sempre nem se calar sempre, mas acompanhar o modo como ela deseja viver e expressar o próprio luto.

Para Casellato, tratar a dor como uma consequência banal da idade é uma forma de silenciamento. Frases como “é assim mesmo”, a insistência para que a pessoa se distraia ou a decisão de não tocar no assunto podem comunicar que seus sentimentos são excessivos ou não merecem espaço. A velhice não torna a perda menos importante. Ao contrário: uma vida longa pode reunir mais histórias, memórias e vínculos a serem elaborados e compartilhados.

Cuidar não é controlar

Depois da morte, a preocupação pode levar filhos e netos a intensificar visitas, assumir tarefas ou tentar reorganizar a vida de quem ficou. O apoio é necessário, mas não deve partir da suposição de que a pessoa perdeu a capacidade de decidir apenas porque está triste ou envelheceu.

Tania Maria Alves orienta que o acompanhamento seja feito “sem controlar, sem infantilizar e sem apressar”. A família pode estar presente sem determinar quanto tempo a pessoa deve sofrer, o que deve guardar, quando precisa sair de casa ou quais atividades deverá iniciar.

Também é importante não impor uma retomada da vida baseada nas expectativas dos outros. Uma aula, um café ou um encontro com amigos não substituem o vínculo perdido. Essas experiências são importantes quando fazem sentido para a própria pessoa, mas não devem funcionar como estratégias compulsórias de distração.

Apoio é necessário, mas não deve partir da suposição de que a pessoa perdeu a capacidade de decidir porque está triste ou envelheceu

Fotografias, alianças, roupas e objetos podem representar formas de manter o vínculo com quem morreu. Alves relata que algumas pessoas não desejam se afastar rapidamente da dor porque ela também as conecta ao companheiro falecido. “Me deixe carregar a foto, me deixe continuar usando a minha aliança”, dizem alguns de seus pacientes.

Guardar esses itens não representa uma recusa à vida. De acordo com a psiquiatra, é possível manter viva a ligação com a pessoa que morreu sem buscar substituí-la. O processo não exige romper de forma total com o passado, mas construir uma relação possível entre a ausência e a vida que permanece.

Respeite as escolhas de quem ficou

O futuro tende a ser percebido de maneira diferente quando a perda ocorre na velhice. A médica Tania Maria Alves analisa que, diante do falecimento de um parceiro — ou de um término de namoro — na juventude, familiares costumam lembrar que ainda haverá tempo para novos projetos e novas relações. Para uma pessoa idosa que perdeu o par romântico depois de uma união de várias décadas, essa perspectiva pode não existir — ou nem ser desejada.

“Na perda de um grande companheiro muito no final da vida, não há mais perspectiva de construir algo. Assim, o sujeito que perde não terá tempo de analisar toda aquela relação, de se separar do objeto perdido e se refazer em outros vínculos. Simplesmente, ele não terá tempo”, pontua a profissional.

Por isso, pressionar alguém a encontrar novos interesses, reconstruir a vida social ou imaginar outra relação pode intensificar a sensação de incompreensão. Não cabe à família determinar que uma atividade, um novo amor ou uma mudança de casa vão representar, necessariamente, um recomeço.

Na perda de um grande companheiro muito no final da vida, não há mais perspectiva de construir algo

Novos projetos podem surgir, desde que partam do desejo e do tempo da pessoa viúva. Alves recorda uma mulher que entendia a morte do marido como o encerramento do percurso dele, não do seu. Ela desejava cuidar da própria existência e administrar a vida que continuava. Essa disposição, ressalta a psiquiatra, dependia de sua relação consigo mesma, de sua saúde psíquica, de sua cultura e de seus recursos pessoais.

Quando a dor pede atenção

A tristeza, o recolhimento e as mudanças no cotidiano fazem parte da experiência da perda. Ao mesmo tempo, as especialistas ouvidas pela Gama destacam que o sofrimento pode afetar a saúde física e mental e, em algumas situações, exigir acompanhamento especializado.

Gabriela Casellato define o luto como um grande estressor. Na velhice, problemas de saúde preexistentes podem ser agravados, e o sofrimento emocional pode aparecer também por meio do corpo. A família deve observar mudanças no funcionamento habitual da pessoa, sem interpretar automaticamente qualquer desânimo como uma doença nem atribuir todas as alterações à idade.

A necessidade de avaliação profissional aparece, segundo Casellato, quando a pessoa deixa de conseguir viver como vivia dentro das possibilidades daquele momento da vida: perde o interesse pelas coisas, encontra dificuldades para realizar atividades que antes desempenhava ou passa a apresentar muitas manifestações físicas associadas ao sofrimento.

A psicoterapia pode servir tanto como suporte para uma dor difícil de enfrentar quanto como parte do cuidado diante de alterações mais intensas. Casellato conta que recebe pessoas de 80 e 90 anos que procuram um psicólogo pela primeira vez depois da morte do companheiro. “A terapia focada no luto tem o objetivo de ajudar no processo adaptativo, nesse enfrentamento, na elaboração. É uma ferramenta que favorece a reorganização diante da falta da pessoa que se foi e da vida que ficou.”

Tania Maria Alves propõe que a sugestão de acompanhamento também respeite a autonomia. Em vez de ordenar que a pessoa faça terapia, a família pode perguntar se ela gostaria de conversar com um profissional sobre a possibilidade de diminuir ou cuidar daquela dor.

Permaneça por perto

Nos primeiros momentos, a presença da família costuma ser intensa. O desafio é não deixar que esse apoio desapareça quando as cerimônias de despedida terminam e filhos e netos retornam para suas rotinas. É no dia a dia que muitas ausências se tornam mais evidentes.

Tem muita vivência, muita história e muita tristeza que precisa ser partilhada e ritualizada

Permanecer por perto não exige ocupar todos os horários, organizar uma agenda de atividades ou fiscalizar cada passo da pessoa. Telefonar, visitar, ouvir uma lembrança repetida sem julgar, ajudar quando solicitado e continuar incluindo o avô ou a avó nas conversas e decisões que familiares são atitudes mais acolhedoras.

Depois de uma vida construída a dois, cada pessoa encontrará uma forma própria de reorganizar a existência. Algumas vão falar muito do companheiro; outras, pouco. Há quem vai manter os objetos e móveis da casa como estavam; outras vão preferir mudar tudo de lugar. À família cabe oferecer presença sem conduzir esses movimentos ou impor uma maneira de lidar com a ausência. “Tem muita vivência, muita história e muita tristeza que precisa ser partilhada e ritualizada”, afirma Gabriela Casellato.

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