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Ilustração de Isabela Durão

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5 dicas

Filhos: identifique quando o cuidado se torna controle em excesso

Pequenos hábitos do dia a dia ajudam a perceber quando o cuidado vira controle e passa a limitar a autonomia, a autoestima, a confiança e a iniciativa das crianças

Ana Elisa Faria 15 de Março de 2026

Filhos: identifique quando o cuidado se torna controle em excesso

Ana Elisa Faria 15 de Março de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Pequenos hábitos do dia a dia ajudam a perceber quando o cuidado vira controle e passa a limitar a autonomia, a autoestima, a confiança e a iniciativa das crianças

Criar uma criança não é fácil, sabemos. É um trabalho que envolve cuidado, presença, gastos, rotina — e pais, mães ou responsáveis envoltos em um alto grau de ansiedade e medo. Há o receio de acidentes, a cobrança por desempenho, a vida cheia de regras e a sensação de que toda escolha deixa uma marca profunda. Nesse desenho, o controle pode se instalar com a aparência de zelo e virar parte do cotidiano familiar.

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Esse movimento costuma nascer do desejo de proteger. Só que o desenvolvimento infantil pede outro ingrediente, além da proteção: experiências, espaço para brincar, pequenas tomadas de decisões, tentativas, erros e contato com frustrações adequadas à idade. É aí que a autonomia infantil começa a ganhar corpo.

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Rachel Shimba Carneiro, doutora em psicologia social pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e professora de psicologia da Unisuam, lembra que a autonomia é “uma necessidade emocional básica do ser humano” e aparece cedo, já na primeira infância. A neuroeducadora Priscilla Montes, especialista em desenvolvimento infantil e adolescência, reforça que o limite organiza a criança e sustenta as interações sociais. Carolina Delboni, educadora e psicanalista da adolescência, chama a atenção para o peso da experiência. “A confiança se constrói quando a criança experimenta, tenta, erra e percebe que consegue lidar com as consequências”, diz.

O ponto central, portanto, não está em vigiar cada passo, mas, sim, na construção de uma presença firme, segura e disponível. A seguir, Gama lista cinco sinais para observar no dia a dia e entender quando o cuidado se torna controle em excesso e ocupa espaço demais na vida dos meninos e das meninas.

  • 1

    Repare quantas tarefas você faz pela criança –
    Um sinal frequente de controle excessivo aparece nas ações miúdas do dia a dia, como vestir a roupa, guardar o brinquedo, amarrar o sapato, escolher a leitura da noite, lidar com um conflito simples ou resolver uma tarefa fácil. Quando o adulto toma a frente de tudo e age com pressa, os pequenos perdem oportunidades de experimentar as próprias competências, desenvolver a iniciativa e participar da rotina da casa. Rachel Shimba Carneiro chama a atenção para esse automatismo cotidiano. “Na hora que a criança precisar, você pode estar ali para orientar, mas não faça por ela”, diz. A psicóloga observa que a correria empurra muitos responsáveis para um funcionamento automático, em que fazer tudo pela criança parece mais eficiente. Com o tempo, porém, esse hábito enfraquece a autonomia e a autoconfiança infantil. Interferências do tipo podem parecer pequenas justamente por estarem espalhadas pela rotina, mas a repetição desses atos ensina uma lógica poderosa: a de que sempre existe alguém mais apto a agir no lugar da criança. Carneiro destaca ainda a importância de conhecer a fase do desenvolvimento para ajustar expectativas e propor desafios compatíveis com a idade. Segundo ela, também é preciso buscar um equilíbrio parental. Nem o autoritarismo nem a permissividade favorecem o desenvolvimento. Nesse sentido, a parentalidade autoritativa, que combina afeto com limites firmes, ajuda a promover liberdade com responsabilidade.

  • 2

    Observe como seu filho reage ao erro e à frustração –
    Crianças muito dirigidas costumam ter pouco treino para lidar com as contrariedades e os imprevistos comuns da vida. Isso pode aparecer no choro intenso, nas explosões, em desistências rápidas, no medo de se expor, no receio de perder e na dificuldade para tentar de novo. Assim, o erro mais corriqueiro deixa de ser parte do aprendizado e passa a ganhar o peso de um tremendo fracasso. Rachel Shimba Carneiro resume esse movimento ao dizer que, em ambientes controladores e com muitas críticas, a criança “começa a nem tentar mais”. “Ela deixa de ser protagonista e fica mais passiva diante das relações e de alguns contextos. Há medo de interagir e de fazer certas coisas para não correr o risco de errar, perder e de não ser boa o suficiente.” Carolina Delboni afirma que “tomar decisões na vida é uma habilidade que aprendemos praticando”. A cada tentativa interrompida cedo demais, meninos e meninas aprendem menos sobre si e mais sobre a necessidade de aprovação externa. “A criança aprende e testa isso brincando, por exemplo. Como é que decidimos do que vamos brincar? Como é que a gente decide quem vai fazer o quê na brincadeira ou quem vai ser o quê? Como é que eu lido com a decisão do grupo de que eu tenho que fazer uma coisa que eu não quero, que acho chata? Isso tem a ver com a nossa vida”, exemplifica. Priscilla Montes ajuda a traduzir esse impacto ao citar que crianças submetidas ao controle em excesso podem apresentar “uma janela de frustração muito pequena”, o que aparece quando qualquer contratempo desorganiza a emoção e ocupa a cena inteira. Aos poucos, a criança encontra menos recursos para tolerar espera, perda, correção e desconforto.

  • 3

    Perceba se a sua criança sempre espera alguém decidir –
    A autonomia infantil também se forma nas escolhas triviais — até nas que, para nós, pessoas grandes, podem parecer bobas. Optar entre duas roupas, selecionar um petisco, decidir uma brincadeira, pedir ajuda, dizer como se sentiu em uma situação simples. Esses movimentos ajudam a criança a perceber que ela tem voz e que pode participar das resoluções da própria vida. Carolina Delboni conta que esse traço aparece com mais nitidez na escola, em “crianças que tomam pouca decisão ou decisão nenhuma”. De acordo com a educadora, se os pequenos raramente têm abertura para escolher o que seja junto à família, fora do lar podem travar diante de propostas simples ou sempre aguardar que um adulto decida tudo por eles. “A criança que, no ambiente familiar, não tem espaço para dizer o que pensa e fazer pequenas escolhas cotidianas, quando chega na escola e precisa tomar decisões frente a propostas apresentadas na sala de aula ou no campo coletivo da escola, tem muita dificuldade. E vai pedir ajuda para um adulto ou, às vezes, não consegue nem pedir ajuda porque fica esperando que o adulto decida por ela”, pontua. A saída, portanto, está nas escolhas mediadas, com alternativas adequadas à idade. Esse detalhe faz diferença porque escolher também é treinar preferência, responsabilidade e leitura de contextos. Delboni cita exemplos concretos, como oferecer algumas peças de roupas para uma ocasião ou dois livros para ler antes de dormir. Dessa maneira, pai, mãe ou cuidadores responsáveis seguem dando contorno à situação, enquanto a criança ocupa um lugar mais ativo dentro da relação.

  • 4

    Olhe para a agenda, para o brincar e para o nível de vigilância –
    Outra pista importante nesse debate está na rotina agitada. Agenda cheia de atividades — o balé, o futebol, a natação, o Kumon, o inglês —, brincadeira sempre dirigida, supervisão permanente, interferência contínua em conflitos com amiguinhos e irmãos e pouco espaço para circular, imaginar e negociar com outras crianças indicam uma infância guiada pelo desejo adulto. A brincadeira livre perde terreno, junto com uma parte importante do desenvolvimento emocional e social. Carolina Delboni define o brincar como um momento em que a criança “testa o próprio corpo, as capacidades e possibilidades de elasticidade emocional”. A especialista também analisa que agendas “totalmente dirigidas” e monitoramento constante reduzem a experiência infantil e ampliam ansiedade, medo de desapontar os pais e receio diante das propostas da vida. Priscilla Montes lembra que muitos sinais aparecem no comportamento. “Muitas vezes, a criança vai se expressar da forma como o cérebro dela dá conta, pelos comportamentos”, explica. Isolamento, impulsividade, violência, desorganização emocional e dificuldade de relacionamento na escola entram nesse radar. O comportamento, nesse caso, funciona como linguagem. Ele diz algo para os mais velhos.

  • 5

    Volte o olhar para a sua postura e para a forma de colocar limites –
    Em temas ligados à infância, a atenção costuma recair inteira sobre a criança. Mas, aqui, o adulto também precisa entrar no centro da cena. Vale se perguntar que medos conduzem as decisões da casa, que marcas da própria criação ainda estão ativas e que tipo de vínculo está sendo cultivado no cotidiano. Priscilla Montes sintetiza esse ponto: “A educação não violenta começa na transformação dos adultos”. Para ela, o limite segue essencial, porque organiza a criança e a protege, mas o essencial é a maneira de colocar esse limite, que pode ser respeitosa, clara e consistente. Rachel Shimba Carneiro acrescenta que o adulto ganha mais recursos quando entende melhor o cérebro infantil e as etapas do desenvolvimento. “A criança tem uma forma de entender situações e de raciocinar; o córtex pré-frontal dela ainda está em formação. Muitas vezes o adulto considera que a criança vai ter o mesmo raciocínio, o mesmo entendimento que ele, mas ela processa as informações de outro jeito. Compreender isso é fundamental”, discorre a psicóloga. Carolina Delboni propõe uma imagem para essa revisão de atitudes. “Proteger não significa controlar cada passo. Significa acompanhar a criança enquanto ela aprende a fazer esse caminho sozinho, o que é bem diferente.” Quando presença, contorno e escuta entram em equilíbrio, as crianças encontram um ambiente mais fértil para crescer com segurança, autoestima e autonomia real.

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