Tá tudo fora de controle?

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Bloco de notas

Personagens da literatura com transtornos de controle

De livros clássicos a Stephen King, figuras com TOC e outros distúrbios ligados à necessidade de controlar tudo ao redor são parte importante da história da literatura

Personagens da literatura com transtornos de controle

15 de Março de 2026

De livros clássicos a Stephen King, figuras com TOC e outros distúrbios ligados à necessidade de controlar tudo ao redor são parte importante da história da literatura

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    Adam Spencer Ross é o protagonista de “O Herói Improvável da Sala 13B” (Bertrand Brasil, 2016), romance da canadense Teresa Toten que trata com humor e sensibilidade questões em torno de saúde mental e das dificuldades da adolescência. Aos 14 anos, Adam vive com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e tenta lidar com desafios que incluem o divórcio dos pais, as responsabilidades com seu meio-irmão mais novo, além dos rituais e pensamentos intrusivos que sua condição provoca. Para encarar tudo isso, ele participa de um grupo de apoio para jovens com TOC que se reúne na sala 13B – local onde adotam identidades de super-heróis. Ali, Adam conhece Robyn Plummer, uma garota de olhos azuis por quem fica completamente apaixonado. A partir desse encontro e das novas amizades no grupo, ele passa a enxergar a vida de maneira diferente, tentando ser o “Batman” de Robyn e de sua própria história.

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    Stephen King, além de mestre do terror na literatura, sempre foi considerado um excelente criador de personagens, capaz de explorar mentes perturbadas em profundidade como poucos autores da sua geração. Uma dessas personas de grande destaque na produção recente de King é a detetive particular Holly Gibney. Descrita pelo escritor como “uma obsessiva-compulsiva com um enorme complexo de inferioridade”, ela surge pela primeira vez no suspense “Mr. Mercedes” (Suma, 2016) como uma mulher reclusa com grandes dificuldades sociais. Extremamente observadora, dona de uma memória prodigiosa e um gênio da informática, ao ajudar o protagonista Bill Hodges a derrotar o grande vilão no livro, ela é promovida a detetive e se torna presença garantida em outras quatro obras do autor — duas delas adaptadas para a TV —, primeiro como coadjuvante e, depois, personagem principal.

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    Mesmo antes da descoberta oficial dos transtornos ligados ao controle, a literatura já trazia tipos que se enquadravam perfeitamente neles. É o que acontece em “Almas Mortas” (Editora 34, 2018), clássico do escritor Nikolai Gogol (1809-1852). Publicado mais de um século antes do primeiro diagnóstico de TOC ou do Transtorno de Acumulação Compulsiva (TAC), a obra já trazia no personagem Stepan Plyushkin a figura de um típico acumulador. Na trama, o proprietário de terras coleta obsessivamente todos os cacarecos que encontra por aí. Já que também conta a avareza como traço de seu caráter, no encontro com o protagonista Chichikov, Plyushkin serve um bolo que um visitante havia lhe trazido anos antes, e que ele guardou durante todo esse tempo. Hoje, seu sobrenome é usado de forma satírica na Rússia para descrever pessoas que acumulam coisas inúteis.

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    Uma das séries de literatura jovem de mais sucesso nos últimos tempos, a graphic novel Heartstopper conta a história de dois adolescentes que se encontram na escola e de uma amizade que se transforma em amor. Com cinco livros publicados e um sexto previsto para julho deste ano, a história se desenvolve à medida que os personagens Nick e Charlie vão amadurecendo e, no livro 4, Heartstopper: De mãos dadas (Ed. Seguinte, 2022), assistimos ao segundo sofrer com problemas de saúde mental. Charlie lida com sintomas que vão do transtorno obsessivo compulsivo à anorexia e à depressão.

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    John Green, o autor do romance jovem “Tartarugas até lá Embaixo” (Intrínseca, 2017), sofre com o transtorno obsessivo compulsivo desde a infância e descreve o distúrbio como poucos, com honestidade e clareza. Nessa história, Aza Holmes, de 16 anos, apresenta sintomas mas não se furta em partir em uma jornada em busca de um bilionário que desapareceu misteriosamente — e quem o encontrar receberá uma bela recompensa em dinheiro. O livro encanta ainda pelas referências à cultura pop, pelo jeito sensível como retrata a amizade e a frases marcantes, dignas de marca-texto.

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    É verdade que “O Lado Bom da Vida” (Intrínseca, 2013), livro de Matthew Quicke que inspirou o filme indicado ao Oscar, conta a história de Pat, um sujeito com transtornos psicológicos ligados à bipolaridade, interpretado por Bradley Cooper. Mas seu pai, Patrizio Sr., é quem demonstra um comportamento mais compatível com um distúrbio de controle. Viciado em futebol americano e apostador inveterado, o personagem vivido por Robert De Niro acredita piamente na necessidade de seguir uma série de rituais para que seu time vença, como usar um certo lenço da sorte e ter a presença do filho ao seu lado. Ele também demonstra ficar excessivamente irritado quando as coisas fogem do seu planejamento e segue pequenas “manias”, como manter os controles da TV sempre alinhados.

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    O livro de estreia da escritora norte-americana Corey Ann Haydu acompanha o romance entre dois jovens diagnosticados com transtorno obsessivo-compulsivo. Bea tem uma mania muito grave relacionada aos garotos — apesar de dizer que está melhor e sob controle. Mas, ao se apaixonar por Beck, um menino que também tem TOC e lava as mãos oito vezes após beijá-la, as coisas complicam um pouco. Ainda assim, em “Uma História de Amor e TOC” (Galera, 2015), traduzido por Alda Luiza Lima, os dois sabem que foram feitos especialmente um para o outro.

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    Conhecida sobretudo pelas obras de horror e mistério, a escritora norte-americana Shirley Jackson constrói, em “Sempre Vivemos no Castelo” (Suma, 2017), um suspense labiríntico, bem-humorado e macabro. No livro, publicado originalmente em 1962, acompanhamos a família Blackwood — composta pelo tio Julian, por Constance e sua irmã, a protagonista Mary Katherine, a Merricat —, que vive isolada até que o primo Charles resolve fazer uma visitinha, quebrando o frágil equilíbrio que eles encontraram ali. Merricat, uma jovem peculiar, controladora, manipuladora e com traços psicopáticos, é quem guia o leitor por esse labirinto.

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    A tensão entre o desejo de controle e a natureza caótica da vida dá o tom de “Longe de Ramiro” (Editora 34, 2007), romance de estreia do escritor e roteirista Chico Mattoso. O leitor acompanha um jovem isolado em um hotel, onde tenta organizar os próprios pensamentos e a realidade que lhe escapa. Faz isso por meio de jogos mentais excêntricos e exercícios quase obsessivos de imaginação. Em uma tentativa de dominar a vida ao redor, Ramiro mergulha em um fluxo que alterna entre o presente e memórias da infância e da adolescência. Com uma escrita concisa e, por vezes, irônica, Mattoso traça o retrato de um personagem introspectivo e inquieto, bem como o da luta de uma mente que tenta impor ordem e lógica ao próprio caos interior.

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    Após deixar o emprego e a esposa e voltar para a casa do pai, um vazio existencial toma conta do personagem Júnior e o faz mergulhar em ideias e atitudes obsessivas que vão escalonando ao longo do tempo. Dormindo no sofá, na esperança de conseguir dinheiro para o seu próximo cigarro e vivendo a realidade de uma família de classe média baixa, Júnior passa a receber pacotes sem remetente com recortes de jornal. Neles encontra estranhas conexões, as quais o fazem escrever de maneira obsessiva e paranoica. “A Arte de Produzir Efeito sem Causa” (Companhia das Letras, 2008), de Lourenço Mutarelli, recebeu o terceiro lugar no prêmio Portugal Telecom de Literatura.

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