'A inexistência de políticas públicas para o audiovisual será sentida' — Gama Revista
O que será do nosso cinema?
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Conversas

Laís Bodanzky: “A inexistência de políticas públicas para o audiovisual será sentida”

Uma das cineastas mais ativas de sua geração, ela acaba de levar um prêmio internacional por seu novo filme e se diz otimista com o futuro do cinema brasileiro

Luara Calvi Anic 19 de Junho de 2022

Laís Bodanzky: “A inexistência de políticas públicas para o audiovisual será sentida”

Luara Calvi Anic 19 de Junho de 2022
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Uma das cineastas mais ativas de sua geração, ela acaba de levar um prêmio internacional por seu novo filme e se diz otimista com o futuro do cinema brasileiro

Um fato do passado ganha novas camadas quando é interpretado pelas lentes dos dias atuais. Tanto pelos historiadores, como pelos artistas, cineastas. Revisitar a vida e as escolhas do primeiro imperador do Brasil, Dom Pedro I e, mais do isso, falar de Pedro, o homem, independentemente de seu título, foi uma das diretrizes que a cineasta Laís Bodanzky, 52, escolheu em seu novo filme. “A Viagem de Pedro”, que tem Cauã Reymond como o personagem principal, mostra a travessia do Atlântico feita por Pedro em 1831, rumo à Portugal, quando buscava retomar o trono ocupado por seu irmão.

“Acho que essa é a minha característica como cineasta, falar do universo das pessoas, dos personagens. Em alguns momentos você gosta do Pedro que está no filme, em outros você o odeia”, diz a Gama. Se, como a história conta, Pedro era um homem de muitas mulheres, na trama assistimos suas companheiras subjugadas e infelizes. “É uma mulher narrando, então não tem como achar que era legal tudo o que ele fez com elas”, diz se referindo à Maria Leopoldina da Áustria, primeira esposa do imperador.

Com estreia marcada para setembro, o lançamento acaba de levar o prêmio de Melhor Filme Americano no Septimius Awards, em Amsterdã. Terminou de ser rodado em 2018, um ano antes de Bodanzky assumir como presidente da Spcine, empresa municipal de apoio ao audiovisual na cidade de São Paulo, em um cargo que ocupou até 2021. Atarefada com essa nova função e com dois anos de pandemia no meio, em 2022 Bodansky finalmente finalizou a montagem.

“A Viagem de Pedro” foi produzido durante uma época de crise do cinema, com a paralisia da Ancine (Agência Nacional do Cinema), ameaças por parte do presidente Jair Bolsonaro e cortes de patrocínio. Apesar das dificuldades que o setor vem enfrentando, a cineasta se diz otimista. Sobre as consequências da realidade atual e o processo criativo de seu novo filme, ela fala na entrevista a seguir

  • G |Ainda que tenha conquistado um período de amadurecimento nas últimas décadas, o cinema brasileiro enfrenta uma crise em diferentes frentes. Como você enxerga o futuro?

    Laís Bodanzky |

    Apesar de não ter uma política pública federal apoiando a indústria do audiovisual, ela sobrevive. Isso porque não existe um país sem as suas próprias narrativas, não existe um país sem cultura. Ela pode ser reduzida a produções muito pequenas, de repente um filme feito pelo celular, mas ele vai existir. Não acho que o nosso audiovisual vá desaparecer. Ainda assim, mesmo com uma mudança de governo para um que entenda a importância do cinema, vai demorar até retomarem as políticas públicas. A gente vai sentir esse impacto dessa inexistência. No nosso setor acham que todo mundo é de esquerda e não, é uma salada de opiniões políticas. Mas é um setor muito unido, muito consciente e eu gosto disso, acho rico, interessante e é isso que nos torna uma indústria. Há uma união e uma percepção de que nós temos que estar juntos. Uma indústria não vive se não tem faculdade de cinema, se não tem sala de exibição, se não tem estúdios disponíveis para alugar, se você não tem incentivos de atração de filmagem. Todo mundo sabe que temos de estar em sintonia porque um depende do outro. Nesse sentido eu confio, sou otimista que esse boicote ao nosso setor, a nossa indústria tem os dias contados. Eu estou otimista que nós vamos ter uma troca de governo para o próximo ano e que isso é uma luz no fim do túnel.

  • G |O cineasta Marcelo Gomes me disse em uma entrevista que não teria produzido seus filmes se começasse sua carreira nestes tempos. O que te faz ser otimista?

    LB |

    É trabalho. Eu faço parte de um grupo de mulheres do audiovisual, lideranças de várias áreas. Tem advogadas, tem jornalistas, produtoras, professoras, tem de tudo. É um grupo muito interessante. E ali a gente consegue perceber caminhos alternativos, um encontro de esforços para a gente poder seguir. Então nesse sentido eu sou otimista.

  • G |O atual governo trouxe tentativas de restringir temáticas LGBTQ+ dos filmes. Isso pode também levar à autocensura dos produtores de cinema. Você observa esse efeito?

    LB |

    É muito engraçado porque é uma censura velada. Começa a inibir as pessoas, elas começam a adaptar, disfarçar, trocar palavras e desistir de projetos. Isso é assustador porque não dá nem para chamar de censura. É um mecanismo muito perverso e não tem só a ver com o cinema, mas com o mundo das artes de uma forma geral. O artista é um questionador, às vezes ele nem tem consciência da importância dele trazer temas pela primeira vez para a sociedade. Mas ele traz. Aí passa um tempo e você entende. Já estava ali só que ninguém tinha formalizado. E quando a arte formaliza, a sociedade passa a debater aquele assunto. Tem uma parte genuína do artista que, por mais que venha uma censura, acho que ele não consegue [acatar]. Mesmo em uma comédia. O brasileiro adora comédia, é sempre sucesso na bilheteria. Vem Paulo Gustavo e faz aquela mãe maravilhosa, que entendeu aquele filme que se assume gay. O Paulo Gustavo era um artista pleno que naturalmente trouxe aquilo que para ele já estava no ar e ele formalizou num filme que conquistou o Brasil inteiro. E através da comédia o Brasil compra isso e se diverte também, se reconhece. Temas ardidos não são só de filmes oficialmente engajados.

  • G |Apesar do momento crítico, muitos profissionais do meio estão trabalhando nas séries, na TV. O que se perde e o que se ganha com esse cenário?

    LB |

    O que se ganha são empregos, colocar as nossas histórias nas telas. Hoje a gente vive nessa sociedade de várias telas e eu nunca tive preconceito com nenhuma janela. Até porque eu faço um filme para cinema, mas depois ele vai passar no celular. Eu gosto de ir no cinema, gosto e prefiro, mas às vezes não consigo e nem por isso deixo de gostar de filmes, ou filmes deixam de me marcar porque eu não os vejo no cinema. Acho importante que a dramaturgia brasileira continue viva, os nossos atores atuando, a nossa música e a nossa língua sendo carro-chefe de narrativas e sendo assistidas pelo público brasileiro. Mas o lado que não é interessante é que o Brasil é um país que não tem a regulação do vídeo sob demanda [o streaming]. E sem essa regulação, é uma terra de ninguém, e nessa terra de ninguém são justamente os criativos que deveriam ter direito de participação nessa obra, direito autoral, de propriedade intelectual, patrimonial, isso não se tem. Qualquer outro país tem, mas o nosso não. A gente também não tem a garantia de ter uma produção que seja realmente independente. Se as plataformas de streaming um dia forem embora do Brasil não sobra nada, a gente não tem raízes. Fazemos o serviço e entregamos, ele não pertence ao autor ou a empresa produtora que está realizando. É uma indústria importante que contribui com 0,5% do PIB, arrecadando impostos e produzindo empregos, mas não é respeitada como indústria. Muito menos do ponto de vista simbólico, aquele que a gente também atrai o imaginário, levanta a nossa auto-estima. Além disso, outras indústrias bebem dessa eficiência do audiovisual, como por exemplo o turismo.

Eu sou otimista que esse boicote à indústria do cinema tem os dias contados

  • G |Ainda que ‘A Viagem de Pedro’ seja um filme de época, você escolheu tratar de temas sob o olhar dos movimentos identitários de hoje em dia, como a questão de gênero e o racismo. Esses debates atuais te influenciaram como cineasta?

    Laís Bodanzky |

    Sim. E o mundo das artes normalmente está muito conectado com temas que às vezes ainda não são populares. Mas lembro que quando fiz “Como Nossos Pais” (2017) a temática do feminismo ainda não era difundida, nem toda mulher chegava e falava “eu sou feminista”. Tanto que eu me lembro que na época da pesquisa uma garota que estava fazendo um TCC me entrevistou e perguntou se eu era feminista e eu falei “olha, veja bem, se eu sou feminista, deixa eu te explicar”. E ela disse “não precisa falar nada Laís, você não é”. Enrolei muito para responder. Eu estava justamente percebendo e descobrindo minha história de vida pessoal, opressões que olho para trás e reconheço só agora. Hoje a gente tem a sororidade e tantos outros termos que o feminismo aflorou, que já são parte do nosso vocabulário, mas essas palavras nem existiam. Quando “Como Nossos Pais” saiu as pessoas me perguntavam “ah, você tava sintonizada com o movimento feminista”, e eu respondia “não, eu só estava sendo eu mesma”. Eu tô muito feliz com esses temas, com o objetivo de ter um olhar contemporâneo para a nossa história. Talvez daqui 20 anos ele já não esteja mais tão atual, mas para os dias de hoje ele está

  • G |A proposta inicial era ser um filme biográfico de Dom Pedro I, mas isso mudou no começo do projeto. Por quê?

    LB |

    Estava insatisfeita no início mas não sabia qual seria o recorte nem a abordagem. O Cauã me fez uma provocação, de que mesmo sendo um filme de época deveria ser uma continuação do meu pensamento, da minha visão, uma crítica em relação à sociedade que de uma certa forma todos os meus filmes têm. Isso foi bom e me deu uma chacoalhada. O tema da mulher veio de forma muito clara, assim como observar um homem tóxico que hoje a gente tem ferramentas para identificar. Naquela época do Dom Pedro não existia essa ferramenta, não tinha como ter essa consciência. Hoje a gente pode olhar para trás, revisitar a história com essas novas ferramentas, esse novo vocabulário, com um novo ponto de vista. Na época ele era reconhecido como um homem de muitas mulheres, e isso era uma imagem positiva. Mas no filme é uma mulher narrando, então não tem como eu achar que era legal tudo que ele fez com todas as mulheres.

  • G |E o olhar sobre a questão da raça, da escravidão, que é parte importante do filme.

    LB |

    Quando eu fiz “Como Nossos Pais” foi divulgado um número de uma pesquisa da Ancine de 2016 que a gente se assustou, eram 15% de mulheres nos cargos criativos. Eu não tinha noção de quem éramos nós, mulheres, dentro do audiovisual brasileiro. E na pesquisa veio uma segunda informação que me chocou e eu acho que foi o meu clique: entre as mulheres, a participação de mulheres negras naquela época era zero. Hoje a gente já tem uma tendência de melhora, só que uma melhora do nada para alguma coisa é pouco ainda. A gente tem hoje um movimento no curta-metragem brasileiro de mulheres negras cineastas, roteiristas, diretoras, essas lideranças das áreas criativas despontando. As diretoras de fotografia, diretoras de arte estão chegando. Mas até aí do curta-metragem para avançar para um longa tem um caminho. Tive uma segunda experiência importantíssima na minha vida, que foi ser presidente da SPCine na prefeitura de São Paulo, e lá a gente desenvolveu a política afirmativa. E aí é entender como se faz uma política afirmativa, ouvir o movimento negro do audiovisual, propor debates, montar mesas que incluam a mulher negra, ouvir a dor dela. Dessa maneira, comecei a vivenciar a questão da opressão de raça no Brasil, de que 54% da população brasileira é preta e isso não corresponde aos cargos dentro das empresas. Não estou nem falando de liderança, são os cargos de uma forma geral. Então eu não podia fazer um filme que se passa no Brasil Império, escravocrata, sem ter um olhar também atualizado para aquele momento histórico.

  • G |E como foi essa pesquisa?

    LB |

    Leio os livros todos que a gente tem hoje, dos novos historiadores. Temos acesso à informações precisas da história, mas todas elas de uma certa forma colocam luz nas personagens que viraram estátua. Em todos os livros é muito claro que a personalidade do Dom Pedro é a de uma pessoa que detestava os protocolos, que gostava de ir para a cozinha e ficar conversando com todos os serviçais. Mas quem eram essas pessoas? Não sei, porque não tem nos livros. O desafio no roteiro foi dar luz a essas outras personagens, transformando essa embarcação num microcosmos do que poderia ser naquele Brasil da época, essa salada cultural. Uma fonte totalmente contemporânea é o próprio livro do Lázaro Ramos, “Na Minha Pele”. O Lázaro conta a história de quando ele se descobriu preto. Quando ele sai da comunidade dele e vai morar em Salvador, frequenta o universo de amigos. Porque onde ele morava todo mundo era preto, então isso não era tema. Quando ele saiu, chegou em um lugar em que percebia que era diferente e tinha que fazer um esforço para fazer parte daquele grupo. As outras personagens vieram também de um livro que é uma coletânea de depoimentos em delegacias do Brasil inteiro naquele período. A história preta do Brasil não está nos livros de história oficiais, mas está nos registros das delegacias, que aliás são muito bons.

  • G |O filme traz o tema da guerra feita por homens e a narradora, Leopoldina, faz uma crítica aos que, nas palavras da personagem, desejam se tornar estátua, como Napoleão. Quando você teve esse desejo de falar desse tema?

    LB |

    Na verdade é essa figura do herói. O Dom Pedro era realmente fissurado por Napoleão. Era fissurado, e eu entendo que o Brasil é do tamanho que é por esse desejo pessoal da infância dele. Do contrário o Brasil seria como é toda a América Latina. Ele, justamente por ter essa veia militar, reprimiu várias tentativas do país se despedaçar. Ele praticamente vira um Napoleão dos trópicos. Ele tinha esse desejo. E para quê? E naturalmente essa pergunta que tá na boca da Leopoldina é minha. As custas de quem morreu tanta gente, para virar uma estátua? Essa é uma pergunta que é mais fácil para uma mulher fazer. É da mulher uma visão um pouco macro da sociedade. A gente viu na pandemia como os países que mais coordenaram a situação dentro dos seus próprios países eram os governados por mulheres. Não à toa, porque tem uma visão de comunidade totalmente diferente dos homens. A mulher de fato é menos bélica. Não há dúvida.