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Ilustração de Isabela Durão

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Etiqueta na academia

Boas maneiras, higiene e respeito ao espaço coletivo melhoram o treino de todo mundo. Especialistas dão dicas de como se comportar na academia sem perder o foco

Ana Elisa Faria 09 de Novembro de 2025

Etiqueta na academia

Ana Elisa Faria 09 de Novembro de 2025
Ilustração de Isabela Durão

Boas maneiras, higiene e respeito ao espaço coletivo melhoram o treino de todo mundo. Especialistas dão dicas de como se comportar na academia sem perder o foco

A sala de musculação é um microcosmo da vida em sociedade, com gente de todas as idades, diversidade de corpos e objetivos diferentes, dividindo, muitas vezes, poucos metros quadrados, em horários de pico, sob luz forte, música alta e espelhos por todos os lados. Há regras escritas — horários, normas de segurança, orientações — e uma porção de códigos não ditos que mantêm esse local funcionando em harmonia. Nesse cenário, etiqueta não é firula, é engrenagem de convivência que permite que cada um treine bem sem piorar a experiência de quem está ao lado.

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Com o celular à mão e a tentação de registrar tudo — afinal, se não postar, não foi feito — surgem dilemas de privacidade, circulação e ruído excessivo. A linha é tênue entre documentar uma evolução pessoal e transformar o espaço comum em set de gravação. Do outro lado, há quem se sinta observado, pressionado ou deslocado. Assim, boas maneiras funcionam como mediadoras, ajudando a marcar limites sem constrangimento e a manter a força e o foco no que importa: uma vida saudável, sem estresse e com treinos seguros.

Outro tema que está presente no dia a dia das academias é a higiene. Equipamentos compartilhados exigem cuidados simples e constantes. O mesmo vale para sons e cheiros que extrapolam o razoável. Quando o básico falha, o local fica hostil.

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Há ainda um componente de gestão do tempo e do espaço. Como usar máquinas concorridas, organizar a ordem dos exercícios e lidar com a lotação sem transformar o treino em disputa? A boa notícia é que pequenas escolhas — de linguagem, de timing e de atenção ao outro — mudam a atmosfera do lugar.

“A academia é um espaço coletivo, e pequenas atitudes fazem grande diferença: devolver os pesos no lugar, limpar o equipamento depois do uso e não ‘enrolar’ demais entre as séries”, diz o personal trainer Márcio Lui. “Essas regrinhas simples mostram educação e fazem o ambiente funcionar para todo mundo, do iniciante ao atleta.”

Nas próximas linhas, Gama lista atitudes práticas para manter um bom clima na academia de ginástica.

  • 1

    Capriche no desodorante, mas pegue leve no perfume. Tenha uma toalhinha sempre à mão –
    A higiene é o primeiro passo para uma academia mais agradável para todos. “O uso do desodorante é essencial para evitar o mau cheiro”, explica Juliana Santiago, fundadora do Instituto de Etiqueta e Protocolo. Porém, peles perfumadas demais misturadas à transpiração deixam o espaço fechado sufocante. “A falta de perfume é um problema, mas o excesso também é. Prefira fragrâncias mais leves, refrescantes, um body splash, cuja fixação é menor, ou apenas um creme perfumado. Assim, o ambiente não fica pesado para quem está ao lado”, indica a especialista. Camila Belluomine, gerente técnica da Bio Ritmo, chama a atenção para um hábito simples e pouco lembrado, o uso de uma toalhinha durante o treinamento de resistência ou nas aulas aeróbicas. “Facilita a higiene para todos e dá mais conforto ao usuário.” Professor de educação física e coordenador da pós-graduação em musculação e condicionamento físico da Faculdade Phorte, Leandro Twin fala que o uso da toalha não é obrigatório, mas um costume importante para quem transpira muito. “O suor é uma coisa natural do treino, mas a gente precisa controlá-lo da melhor maneira possível”, frisa. Portanto, antes de sair de casa, passe o desodorante e leve uma toalha para evitar sair pingando e exalando um cheiro desagradável por aí; se gostar de se perfumar, use metade da dose habitual.

  • 2

    Higienize pesos e máquinas após o uso –
    “Limpar o equipamento depois do uso é bem importante”, sintetiza Leandro Twin. As marcas de suor nos aparelhos, conforme cita Camila Belluomine, podem gerar desconforto em quem vai utilizar a máquina na sequência. A especialista em etiqueta Juliana Santiago orienta usar o que a própria academia oferece. “Passe o álcool com o paninho sempre que sair do aparelho, mesmo que você não sue muito.” Caso alguém limpe cadeiras, pesos e bancos assim que você sair, mesmo os materiais já estando higienizados e prontos para o próximo uso, não se ofenda. Encare como um cuidado extra e siga com o seu treino — como lembra Santiago, “não é nada pessoal”. Tem gente que prefere pecar pelo excesso. Por isso, a dica aqui é: concluiu a série? Borrife o produto disponível para limpeza nas áreas de contato, passe o pano e devolva halteres e anilhas aos suportes corretos. Achou um banco suado, higienize rapidamente e siga com os exercícios sem interromper o fluxo.

  • 3

    Cuidado com selfies e vídeos: pode fazer, mas sem invadir o espaço alheio –
    Aquela foto no espelho pós-treino com a legenda “tá pago” já virou hábito no mundo fitness. Porém, todo cuidado é pouco no momento do clique. Registrar a execução do treino pode ajudar na técnica e no estímulo, mas há limites. Leandro Twin é direto: “A academia não é um estúdio de gravação. Se você vir alguém gravando, é de bom senso não passar na frente, mas, se passar, a pessoa não pode ficar brava.” O personal Márcio Lui, que treina celebridades como a apresentadora Sabrina Sato, define a régua prática. “Pode gravar, faz parte da motivação, mas sem atrapalhar o treino dos outros. Nada de ocupar o aparelho por minutos ou filmar quem não quer aparecer. Registra, posta e volta para o foco”, sugere. Leandro Ascenção, diretor de operações do Grupo Smart Fit, recomenda que, nos horários de pico, é de bom-tom “evitar vídeos longos e buscar ângulos mais discretos, respeitando o espaço coletivo”. Já Camila Belluomine, da Bio Ritmo, fala a respeito do cuidado com os lugares onde as filmagens são feitas. “Os vestiários, embora tenham ótimos espelhos e iluminação adequada, não são indicados para fotos ou vídeos, por se tratarem de locais de maior vulnerabilidade e exposição individual. Nas demais áreas, fica a reflexão: ‘O meu conteúdo está expondo ou interferindo no treino de outra pessoa?’. Se não está, vá fundo.” E se você for o “captado sem querer”? Aborde o colega com educação. Na dúvida, opte pela empatia e peça para ser cortado ou desfocado. Se você é o filmmaker da vez, algumas ideias práticas de etiqueta devem ser levadas em consideração, como apoiar o celular em locais onde não há grande circulação de pessoas e sem bloquear espelhos, evitar o uso do tripé em horários mais cheios e, se alguém aparecer no quadro, perguntar se está tudo bem; diante de um pedido para não ser exibida, corte ou desfoque o trecho com a pessoa e siga com o treino — não se esqueça dos fones para não transformar a sua música no som ambiente de todo mundo.

  • 4

    Revezar é obrigatório, e a gentileza é bem-vinda –
    Segundo Leandro Twin, o revezamento de aparelhos é, sim, uma obrigação. “As pessoas não querem revezar [para não perder o ritmo] e isso costuma dar confusão quando as academias estão cheias, mas tudo bem passar um pouquinho do tempo de descanso para não monopolizar a máquina. Isso, no geral, não demonstra grandes interferências na evolução física, até porque são casos isolados”, afirma. O caminho é simples, basta esperar a pessoa terminar a série para propor um rodízio. Juliana Santiago prescreve o momento da pausa para sorrir e lançar a frase-chave: “Tudo bem? Posso revezar com você?’.” Leandro Ascenção comenta que não há tempo cronometrado por aparelho e assegura que o importante é “a periodização e a organização do treino”. Mas, de acordo com ele, a noção é sempre a melhor solução. “Em horários de pico, o ideal é revezar o uso com outro praticante. É uma prática muito comum, bem-vinda e uma das ações que promove o senso de comunidade na academia”, pondera. Para o cardio, nos períodos de lotação nos espaços dedicados às bicicletas, esteiras e escadas, ele aconselha um “tempo social” de 20 a 30 minutos por aparelho, o suficiente para ganhos com o treinamento aeróbio quando a intensidade é ajustada. “É uma forma de todos conseguirem realizar o treino aeróbico com conforto. Fora do pico, o aluno pode estender o uso sem problemas. Camila Belluomine concorda e recomenda educação e objetividade: cumprimente, pergunte se a pessoa está finalizando ou se toparia revezar. Twin acrescenta um gesto de elegância operacional. “Quem chega depois ajuda a montar e a desmontar o aparelho, dividindo o carregamento das cargas.” Em resumo, combine a ordem das séries e sincronize os descansos, evitando ocupar vários aparelhos em circuito quando a sala estiver cheia. Se optar por uma super-série, reavalie em momentos de grande movimento e, para não atrasar o rodízio, controle o intervalo no cronômetro e deixe o celular quieto até a próxima série.

  • 5

    Evite soltar gritos e sons desnecessários e não jogue os pesos no chão –
    Quase toda academia tem aquele aluno meio Narciso, um tipo que monopoliza o espelho, transforma cada série em performance olímpica e, no esforço, soltar gritos e sons desnecessários e deixa a barra despencar no chão de qualquer jeito. Mas saiba que esforço não precisa ser sinônimo de escândalo. O professor Leandro Twin faz a distinção. “Gritos e berros incomodam e podem assustar. Em treinos muito pesados, numa repetição máxima, o grito pode até escapar por uma resposta fisiológica, é natural. Agora, gritar e jogar o peso em séries comuns, não são atitudes justificáveis.” Leandro Ascenção, da Smart Fit, diferencia o que é técnica do que é exagero. Em modalidades como levantamento de peso, “sons de esforço ou a liberação controlada da barra por segurança” podem ocorrer, mas “gritos, quedas bruscas ou ruídos constantes fogem da técnica e incomodam”. Em vez de arremessar halteres ao fim do supino, peça ajuda para devolvê-los. “Respeito ao senso de comunidade é sempre o melhor direcional. Força e foco não precisam de barulho para serem eficazes”, completa. Para Márcio Lui, dá para treinar forte sem incomodar quem está ao redor. Também vale a etiqueta do “não corrigir” o coleguinha. Juliana Santiago faz uma recomendação nesse sentido. “Se não for para criar um ambiente positivo, guarde a opinião. Achou que a execução está perigosa? Avise o instrutor.” Twin tem a mesma opinião. “Mesmo sendo professor, eu não corrijo aluno em academia onde estou treinando. Se a pessoa pedir ajuda, é diferente.”

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