Como anda a sua espiritualidade?
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Ilustração de Isabela Durão

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Semana

O que acontece quando separamos a espiritualidade da religião?

A neurociência e a indústria do bem-estar têm descoberto os benefícios das práticas contemplativas, como a meditação

Fredy Alexandrakis 30 de Agosto de 2026

O que acontece quando separamos a espiritualidade da religião?

Fredy Alexandrakis 30 de Agosto de 2026
Ilustração de Isabela Durão

A neurociência e a indústria do bem-estar têm descoberto os benefícios das práticas contemplativas, como a meditação

A americana Brittney Hartley foi criada mórmon, depois converteu-se ao cristianismo, mas perdeu sua crença durante o mestrado em teologia. “É mais comum do que você imagina”, conta no site do seu projeto No Nonsense Spirituality [“espiritualidade sem bobagem”, em tradução livre]. Quando passou pelo processo de desconstrução religiosa, Hartley ficou sem chão. No lugar antes ocupado pela religião — com suas tradições, regras e lições sobre a vida —, restou um buraco que a mergulhou na depressão. Ela teve de se reerguer por conta própria, buscando apoio na filosofia e em práticas espirituais, e hoje atua como coach, compartilhando reflexões e dicas para pessoas que abandonaram a fé (ou nunca a tiveram). No TikTok, seu perfil já conta com mais de 815 mil seguidores.

Hartley se especializa no que chama de “nihilism recovery”, ajudando seus seguidores a superar o niilismo (em termos simples, uma falta de sentido na vida que pode ser desesperadora). Ela tem um livro em pré-venda pela editora Penguin Random House chamado “Everything Is Stupid, the World Is on Fire, and Nothing Matters” [“Tudo é estúpido, o mundo está em chamas e nada importa”]. O título sintetiza uma sensação de desesperança e derrota que muitos hoje conhecem bem, mas Hartley propõe que a espiritualidade pode oferecer um caminho de volta ao bem-estar. Não é uma solução mágica: seu conteúdo se apoia em descobertas científicas que mostram os benefícios à saúde mental de certas práticas contemplativas. Em alguns vídeos, ela se define como uma “ateia espiritual”, daí a ideia de uma “espiritualidade sem bobagem”.

É fácil entender por que o perfil de Hartley vem ganhando tantos seguidores. Seu conteúdo surge no contexto de uma crise global da saúde mental, que se aprofundou com a pandemia de covid-19, em 2020. No Brasil, problemas mentais eram vistos como “principal problema de saúde do país” por 52% da população em 2025 — um salto “significativo” em relação aos 18% registrados em 2018, de acordo com levantamentos da empresa de pesquisa de mercado Ipsos. Depressão e ansiedade já são a segunda maior causa de afastamentos no trabalho no país, atrás apenas de doenças na coluna. A tendência é mundial: mais de um bilhão de pessoas hoje sofrem com problemas mentais, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

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É nesse cenário adverso que certas práticas originadas na religião — em especial, técnicas da tradição budista, como algumas formas de meditação — têm sido adotadas de maneira secular por pessoas de diferentes crenças (e até ateus). Uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostrou que, no primeiro ano da pandemia, 28% dos brasileiros recorreram à meditação. O budismo, porém, nem aparece entre as principais religiões praticadas pelos brasileiros, segundo o Censo de 2022. Apesar da popularidade da meditação, o budismo foi a única grande religião monitorada pelo centro de pesquisas Pew Research a diminuir em número de seguidores entre 2010 e 2020.

O que diz a ciência sobre o efeito dessas práticas sobre o bem-estar e a saúde mental? E o que acontece quando elas são adotadas fora do contexto religioso? Isto é, qual o resultado quando tentamos separar a meditação do budismo, ou a espiritualidade da religião?

[Técnicas de meditação] estão ligadas à busca milenar de compreender quem somos e qual nossa relação com tudo que existe e também com o nada

A parceria do budismo com a ciência

Se o budismo tem perdido seguidores globalmente, por que essa religião aparece com tanta frequência na discussão de práticas para o bem-estar? Formas de meditação “aparecem não só no budismo, mas também no hinduísmo e, de diferentes maneiras, no cristianismo e em outras religiões abraâmicas”, afirma Ronaldo Lemos, advogado e autor do livro “O Monge, o Iogue e o Faquir”, lançamento da editora Todavia. “Estão ligadas à busca milenar de compreender quem somos e qual nossa relação com tudo que existe e também com o nada.” Mas o budismo tem um entusiasmo pela ciência raramente visto na religião organizada, que apoiou a investigação científica dos seus métodos.

O 14o Dalai Lama, Tenzin Gyatso, líder máximo do budismo tibetano desde 1940, teve um papel importante nessa aproximação. Um marco para o diálogo entre budismo e ciência aconteceu em 1987, com a criação do instituto Mind & Life [“mente e vida”], cofundado pelo próprio Dalai Lama em parceria com o cientista e filósofo Francisco Varela e o advogado Adam Engle. Desde então, o instituto tem financiado estudos influentes no campo da neurociência e facilitado encontros entre pesquisadores e budistas.

Estudos com monges tibetanos, que são treinados por meio de práticas de meditação rigorosas ao longo de décadas, revelaram achados incríveis. O psiquiatra americano Richard J. Davidson se tornou um expoente da pesquisa dos efeitos neurológicos da contemplação. Um estudo de 2008, conduzido pelo seu grupo da Universidade de Wisconsin-Madison, avaliou a atividade cerebral de dois grupos durante uma sessão de meditação: monges experientes e voluntários novatos. Os monges exibiram um tipo de onda neural associada ao foco da atenção em quantidades 30 vezes maiores que os iniciantes — o maior nível até então observado em casos não patológicos. Quanto mais experientes na meditação, maior era o nível das chamadas ondas gama.

Outro pesquisador que já esteve na diretoria do instituto Mind & Life (ainda hoje listado como um “coordenador fundador”) é Jon Kabat-Zinn, professor de medicina dos EUA, visto como “pai da mindfulness moderna” e criador de um tipo de terapia para redução do estresse (MSBR, ou “mindfulness-based stress reduction”) que toma inspiração na ioga, no hinduísmo e no budismo — não apenas o tibetano, como também a tradição zen, do Japão.

O fenômeno mindfulness

O que é mindfulness? A palavra em inglês costuma ser traduzida como “atenção plena”. Esta é a definição que Kabat-Zinn oferece em seu livro “Mindfulness para Iniciantes”: “Atenção plena é consciência — cultivada através de um foco de atenção prolongado e específico, que é deliberado, voltado ao momento presente e livre de julgamentos.”

Para o leitor mais cético, pode parecer um monte de “bobagem espiritual”, mas trata-se de um estado mental que qualquer um (cético ou não) pode treinar, com benefícios à saúde que já foram bem documentados pela ciência. Em essência, é um treino da nossa capacidade de atenção (similar à meditação), recurso valiosíssimo na “economia da atenção” dos dias de hoje, quando tantos aspectos da nossa vida são mediados por telas e plataformas digitais que competem por nosso tempo e interesse. Daniel Gontijo, influencer ateu e doutor em neurociência pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), diz que pratica meditação de vez em quando, embora não considere isso uma prática necessariamente “espiritual”: “Já tive um período em que a meditação estava mais presente na minha rotina. Eu sentia que me fazia bem, me desacelerava um pouco, regulava minha ansiedade”, afirma.

Um número crescente de estudos tem mostrado que a prática de mindfulness pode ajudar a “reduzir o estresse e a ansiedade, fortalecer a atenção e a memória, e promover a autorregulação emocional e a empatia”. A atenção plena pode até contribuir para a redução da pressão arterial. A descoberta desses efeitos logo despertou o interesse da indústria do bem-estar, dando origem a uma febre de mindfulness nos anos 2010. O assunto virou capa da revista Time em 2014, anunciando a chegada de uma “revolução mindful”. Mas o fenômeno também ganhou detratores que criticam a forma como esta técnica é vendida ao público como uma grande “panaceia”, uma solução mágica para todos os nossos problemas.

Ronald Purser, budista americano que estuda como essa religião é usada dentro de organizações, é um dos maiores críticos da tendência. Seu argumento principal diz que a atenção plena representa uma cooptação da técnica budista por forças mercadológicas, que reduz o seu potencial de transformação social: “Mindfulness nada mais é que um treino de atenção”, escreveu no artigo “A Conspiração da Mindfulness”, no jornal The Guardian, em 2019. “Embora [a técnica] tenha derivado do budismo, foi despida dos ensinamentos éticos que antes a acompanhavam e perdeu seu objetivo libertador de dissolver nosso apego a um falso senso de identidade e promover a compaixão por todos os seres.”

Um bom exemplo para entender como algumas aplicações contemporâneas da atenção plena já se distanciaram dos ideais budistas: a técnica hoje é usada em contextos corporativos para aumentar a produtividade dos funcionários e até no treinamento militar dos EUA, como forma de promover resiliência. A “comoditização” dessa prática foi apelidada pelo psicólogo budista Miles Neale de “McMindfulness”, palavra que denuncia um processo de “McDonaldização”. É o que acontece quando aplicamos princípios encontrados na indústria de fast-food (eficiência, previsibilidade e controle, por exemplo) a outras áreas da sociedade.

Alguns autores sugerem que práticas contemplativas que se voltam somente a aliviar sintomas de estresse e ansiedade podem inspirar um certo comodismo. Isto é, se alcançamos a “paz interior”, talvez perdemos um pouco da nossa vontade de transformar as condições materiais que estão por trás da epidemia global de doenças mentais. “Líderes do movimento mindfulness acreditam que o capitalismo e a espiritualidade podem ser reconciliados; eles querem reduzir o estresse dos indivíduos sem ter que investigar as suas causas de forma mais ampla e profunda”, escreveu Purser.

As evidências sugerem que boa parte dos benefícios da espiritualidade para a saúde mental decorre da integração social

Espiritualidade é a nova “atenção plena”?

Muitas das mesmas questões geradas pela febre da atenção plena hoje voltam a aparecer em discussões sobre os benefícios da espiritualidade para a saúde e o bem-estar. Mas o que diabos é espiritualidade? “Não existe um consenso acadêmico”, diz Daniel Gontijo. A definição usada pelo neurocientista se baseia em “pesquisas que investigam como as pessoas compreendem sua espiritualidade”: o elo comum tende a ser “a crença em seres espirituais”, afirma. Isso explica como Gontijo pode meditar sem considerar isso uma “prática espiritual”, por exemplo: “Depende da crença envolvida na prática. Para quem é cristão, ler a Bíblia é uma atividade religiosa, porque pressupõe-se que são as palavras de Deus […] Para quem não acredita, a mesma leitura não é religiosa”.

Gontijo vê vantagens, mas também riscos, na tendência das práticas “espirituais” não religiosas, como aquelas incentivadas pela Brittney Hartley, do perfil No Nonsense Spirituality: “A diferença é que essas pessoas acabam tendo uma trajetória espiritual mais solitária”, afirma. O lado bom disso é poder ter acesso às experiências positivas que a espiritualidade proporciona à vida humana — maravilhamento, transcendência, êxtase, contemplação —, sem se expor a alguns dos aspectos mais danosos da religião organizada. “A gente sabe que existem abusos e conflitos em meios religiosos”, lembra Gontijo. “Às vezes, seu estilo de vida não é tão compatível com o que é esperado de você naquele grupo, e existem julgamentos, críticas, embates que podem ser prejudiciais para a saúde mental desses fiéis.

O lado ruim: o aspecto social das religiões também é um dos fatores mais importantes no apoio à saúde mental, diz o neurocientista. Mais do que o “aspecto cognitivo da fé, de você acreditar em Deus”, é talvez a integração social que mais contribui para o bem-estar: “as pessoas pertencerem a um grupo e encontrarem ali vários tipos de benefício, serem aceitas como elas são, se sentirem amadas, protegidas, encontrarem orientação em momentos de adversidade e assim por diante”. Gontijo destaca que os mesmos benefícios podem ser encontrados sem recorrer à espiritualidade. Ele cita a organização Sunday Assembly, do Reino Unido, que reúne pessoas não religiosas em discussões e momentos de comunhão parecidos com a experiência de frequentar a igreja aos domingos.

Talvez Hartley enxergaria a iniciativa da Sunday Assembly como uma “prática espiritual”. A coach comenta estudos de neurociência em seus vídeos e em grande parte concorda com Gontijo sobre o assunto, mas sua definição de espiritualidade é diferente e não passa pela “crença em seres espirituais” (o que às vezes gera confusão entre comentaristas ateus). Como disse ao blog The Mortal Atheist, a chave para seu entendimento da espiritualidade é “conexão — com as partes mais profundas do seu ser e com o que existe além de nós”.

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