Trecho de livro

O Monge, o Iogue e o Faquir

O advogado especialista em tecnologia Ronaldo Lemos apresenta em novo livro caminhos para evitar que corpo, mente e coração caiam na armadilha das máquinas

Leonardo Neiva 06 de Agosto de 2026

Estamos tão afundados num mar de máquinas e tecnologia que, muitas vezes, nem paramos para refletir sobre o quão intensamente elas nos afetam todos os dias. Em vez de traçar um manifesto contra a tecnologia — que teria talvez poucas implicações práticas no mundo atual —, o advogado, professor e pesquisador Ronaldo Lemos, especialista no assunto, propõe aos leitores de “O Monge, o Iogue e o Faquir” (Todavia, 2026) formas de recuperar as rédeas de suas vidas. E a resposta pode ser encontrada, em grande parte, dentro de cada um.

As três figuras ancestrais que surgem no título, na realidade, fazem referência direta aos elementos que constroem a individualidade: o monge, portanto, representa nossa relação com as emoções; o iogue, com a mente; e o faquir, a forma como lidamos com o nosso corpo. Dessa forma, Lemos toca nos eixos atingidos de maneira constante sempre que abrimos uma plataforma digital, lemos um post de algum influenciador nas redes ou interagimos com a IA do momento.

Apresentador da série “Expresso Futuro” (2017-), Lemos serve de guia por esse universo de imagens manipuladas para representar corpos “ideais” e de emoções embaladas em vídeos curtíssimos, feeds e narrativas instantâneas. E nos lembra que, para não cair na armadilha do culto excessivo ao corpo ou do sacrifício próprio em prol do prazer momentâneo, é preciso caminhar sobre uma linha tênue. Como o faquir, fortalecer o corpo sem se tornar prisioneiro da imagem; a exemplo do monge, educar as emoções sem se deixar afogar por elas; e, segundo os ensinamentos do iogue, afiar a mente, mas evitando ter a produtividade como única meta.

Leia a seguir um trecho do livro.


O faquir contemporâneo
Fitness, dor e narcisismo

Numa tarde de sexta-feira, em Águas Claras, no Distrito Federal, um fisiculturista de 28 anos desmaia no meio do treino. Ele está numa academia comum, cercado de espelhos, aparelhos de última geração e celulares apontados para todos os ângulos possíveis. Os relatos posteriores dizem que aquele não era um dia especialmente pesado. Não havia competição à vista. Era “só mais um treino”. Ele cai, é socorrido por um bombeiro que também estava malhando, em seguida é levado às pressas para atendimento. Não volta.

O nome dele era José Mateus Correia Silva. Tinha ficado em nono lugar no Campeonato Sul-Americano de 2018, competindo no Arnold Classic South America. Era advogado, dono de uma loja de suplementos e treinador. A família afirma que ele não tinha histórico de doenças, que comia bem, que fazia exames. A notícia, publicada nos jornais brasileiros, sites europeus e tabloides americanos, se espalha com a mesma informação espantosa: “Morreu enquanto treinava”.

A morte de um jovem saudável em um ambiente consagrado à saúde é sempre um momento de curto-circuito simbólico. As matérias mais apressadas insinuam e perguntam, indiretamente, se houve exagero. Se houve uso de anabolizantes. Se o coração não aguentou o peso literal e figurado que aquele corpo carregava. Ninguém sabe ao certo. O que sabemos é que esse não é um caso isolado. Infelizmente há um número enorme de atletas que perdem a vida praticando seus esportes.

Não é coincidência que a Sociedade Europeia de Cardiologia tenha diretrizes apontando o risco significativamente maior de morte súbita entre fisiculturistas do sexo masculino, sobretudo os profissionais, associado ao uso de esteroides anabolizantes.

Essas histórias formam um tipo de narrativa que não existia no tempo dos monges do deserto nem dos ascetas hindus originais: jovens, aparentemente em plena forma, caindo mortos dentro da estrutura que deveria torná-los mais saudáveis. Nem todos usam drogas ou anabolizantes. Nem todos praticam atividades extremas. Apesar disso, um elemento pode ser comum: o corpo não era mais uma passagem, um instrumento. Ele dominava outras dimensões da vida: identidade, carreira, conteúdo a ser postado, produto a ser vendido.

É aqui que começa a figura do faquir contemporâneo: alguém que pegou o caminho sagrado do corpo e o transformou em algo entre projeto estético, vício comportamental, fuga, trabalho ou “religião” particular.

A figura do faquir contemporâneo: alguém que pegou o caminho sagrado do corpo e o transformou em algo entre projeto estético, vício comportamental, fuga, trabalho ou “religião” particular

A cultura do corpo perfeito talvez seja a prática ascética mais bem-sucedida da nossa época.

Ela tem templos: edifícios com fachadas de vidro e esteiras alinhadas. Tem sacerdotes: os coaches, personal trainers, donos de boxes, arenas e influenciadores fitness. Tem rituais diários: aquecer, levantar, contar, registrar, postar. Tem doutrina: “no pain, no gain” [sem dor, sem ganhos], “tá pago”, “descanso é pra frango”. Tem sacramentos: Whey, pré-treino, termogênicos, injeções, ampolas. Tem liturgia visual: selfies no espelho, vídeos curtos de treino, fotos de “antes e depois”. Tem sacrifícios: injeções, enxertos, agulhamentos, infiltrações, fios intramusculares.

O corpo é exposto o tempo todo. Além de ser nossa forma de existir no mundo, ele é tratado como vitrine comercial. Fisiculturistas exibem cortes impossíveis na musculatura. Marombeiros vivem para simultaneamente ganhar volume e secar. Influenciadoras de wellness posam com barrigas negativas em banheiras de gelo, segurando copos de suco verde. Cada feed é uma vitrine de pessoas supostamente disciplinadas, firmes, comprometidas. Saudáveis.

Há uma base concreta nessa cultura: sim, o corpo se beneficia de força, de movimento, de disciplina. Mas, em algum ponto, o caminho ficou tresloucado. O que era parte de um todo se torna um projeto isolado e superficial. A prática esportiva converte-se em fixação. O que era instrumento vira a parte central que organiza a vida. E move toda a carruagem.

Em muitos países, a linha entre cuidado e excesso está cada vez mais difícil de ser visualizada.

Por um lado, temos triatletas e ultramaratonistas que alcançam feitos realmente impressionantes. Correr cem, duzentos, 246 quilômetros em uma única prova era no passado um feito impossível, raro ou até fatal. Caminhamos em uma corda bamba quando esses desafios extremos se tornam rotina motivacional isolada de tudo o mais. A medicina esportiva vem registrando casos crescentes de rabdomiólise de esforço em provas longas: uma quebra tão intensa da musculatura que restos das fibras vão parar no sangue e podem levar a falência renal e arritmias graves.

Por outro lado, há fisiculturistas e atletas de força cujas carreiras são permeadas por ciclos de bulking e cutting alimentados por hormônios. Um estudo conduzido ao longo de onze anos na Dinamarca mostrou que usuários de esteroides anabolizantes têm mortalidade significativamente maior, com mortes precoces por problemas cardiovasculares e psiquiátricos.

Note que a questão não são as maratonas, as provas de ultrarresistência ou o fisiculturismo. O problema começa quando o corpo torna-se um objeto, que depende de proezas externas para gerar satisfação. É a carruagem descendo a ladeira, atropelando os cavalos e ejetando o cocheiro. Quando tudo se resume a “melhorar o shape“, quando a identidade inteira se cola à aparência física ou ao número na balança, a carruagem passa a se mover a partir do olhar dos “outros”.

O problema começa quando o corpo torna-se um objeto, que depende de proezas externas para gerar satisfação

Ao redor dessas práticas mais extremas, há uma periferia silenciosa de distúrbios.

Um deles ganhou nome há pouco tempo: ortorexia. É a obsessão por comer “corretamente”. Não se trata de comer frutas e verduras, mas de uma vigilância compulsiva sobre cada ingrediente, cada rótulo e combinação. A ortorexia foi descrita pela primeira vez pelo médico Steven Bratman, que percebeu em muitos pacientes “saudáveis” uma relação doentia com a alimentação.

Esse termo saiu dos artigos médicos e ganhou destaque nas notícias e postagens em redes sociais quando algumas influenciadoras de bem-estar começaram a contar a própria história. Lee Tilghman, por exemplo, conhecida na internet como Lee From America, foi uma das primeiras a reconhecer, em entrevistas para as revistas Teen Vogue e The Cut, que a vida “perfeita” de receitas veganas, smoothies, suplementos, ioga e rotinas de autocuidado era, na verdade, a fachada de um transtorno alimentar e de uma dependência de curtidas. Ela percebeu que passava mais tempo pensando em comida, jejum e postagens do que vivendo. O caminho do “bem-estar” descarrilou sua vida.

O que há de faquir tóxico aí? Uma tentativa legítima de usar o corpo para viver melhor se transformou em prisão. A alimentação, que deveria ser um meio, acabou se tornando um culto. O sofrimento corporal foi transformado no sacrifício feito no altar das redes sociais, nele incluídos jejum, dietas restritivas e treinos exaustivos.

Não é por acaso que anorexia e bulimia são responsáveis por uma das maiores taxas de mortalidade em psiquiatria. A diferença é que agora esses problemas se dão em um ecossistema em que dietas extremas, jejum intermitente, detox de sucos, “dias do lixo” e desafios de perda de peso aparecem embalados como estilo de vida aspiracional, especialmente nas redes sociais.

As redes sociais são o novo espelho da sala de musculação. Só que mais cruel.

Uma pesquisa da Associação Americana de Psiquiatria mostra um achado importante: quanto maior o tempo online, maior a insatisfação com o próprio corpo, sobretudo entre jovens. Mulheres e meninas são particularmente vulneráveis à queda de bem-estar ao se compararem com imagens idealizadas. Os homens, por sua vez, sofrem ao se comparar com físicos musculosos, definidos, hipertrofiados.

Há um sistema inteiro de incentivo à auto-objetificação: edição de fotos, filtros que afinam a cintura, aumentam o bumbum, mudam a pele, apagam marcas. Quem edita o próprio corpo para “melhorar” nas fotos tende a olhar para si com mais dureza. A pessoa deixa de ter corpo e passa a “gerir” uma imagem de corpo.

A tecnologia deu um passo a mais com as imagens geradas por IA. Experimentos recentes pedindo a sistemas de IA que criassem “o corpo perfeito segundo as redes sociais” produziram mulheres com cinturas diminutas, seios grandes, barriga chapada e pele impecável, e homens com ombros enormes, abdômen trincado e veias saltadas. Muitas dessas imagens estão ainda mais distantes da realidade do que o resultado da aplicação de ferramentas tradicionais como o Photoshop ou o FaceApp, e mesmo assim circulam como referência.

Ou seja: mesmo quem treina, come bem e dorme com disciplina terá dificuldade em “chegar lá”, porque o “lá” agora é uma simulação sintética. O faquir contemporâneo corre atrás de um corpo sagrado que não existe nem mesmo no mundo físico. Sua referência se mudou para o espaço das imagens geradas por inteligência artificial.

O faquir contemporâneo corre atrás de um corpo sagrado que não existe nem mesmo no mundo físico

Nesse ambiente, a diferença entre cuidado e culto se dissolve.

Remédios originalmente desenvolvidos para tratar diabetes tipo 2, como os agonistas glp-1 (Ozempic, Wegovy, Mounjaro), transformaram-se em armas de perda de peso rápida, celebradas em redes sociais e criticadas por especialistas em transtornos alimentares. No TikTok, vídeos e relatos sobre remédios e “canetas” que suprimem o apetite acumulam milhões de visualizações, especialmente quando acompanhados de montagens de “antes e depois”.

Já as hashtags como #SkinnyTok viralizaram exibindo corpos extremamente magros e ensinando estratégias para suportar a fome e comer quase nada. Isso levou o governo francês a acionar autoridades nacionais e a União Europeia, denunciando o algoritmo da plataforma por conteúdo pró-anorexia sendo oferecido justamente para jovens vulneráveis. Depois da pressão, o TikTok bloqueou buscas por “SkinnyTok” e começou a exibir avisos como “você é mais do que o seu peso”, com links para informações sobre transtornos alimentares.

Tudo isso faz parte de um cenário comum nos dias de hoje, em que o corpo está sempre em julgamento. O número de seguidores, curtidas, comentários e o “engajamento” acabam funcionando como um tribunal. A academia é o lugar onde a sentença é executada diariamente: aumentar a carga, as séries, fazer mais “cardio em jejum”, tudo acompanhado de remédios, suplementos e outros atalhos.

O faquir contemporâneo acorda em dívida. Sente que deve algo ao espelho, à câmera, ao feed, aos “outros”.

Produto

  • O Monge, o Iogue o Faquir
  • Ronaldo Lemos
  • Todavia
  • 192 páginas

Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos da Gama, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação