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Depoimento

Karol Maia: “Ser trabalhadora doméstica não impede de decidir sobre os próprios filhos”

Cineasta paulistana estreia com “Aqui Não Entra Luz”, documentário que relaciona o quarto de empregada à senzala e expõe os desafios da maternidade entre trabalhadoras domésticas

Amauri Terto 10 de Maio de 2026

Karol Maia: “Ser trabalhadora doméstica não impede de decidir sobre os próprios filhos”

Amauri Terto 10 de Maio de 2026
foto divulgação

Cineasta paulistana estreia com “Aqui Não Entra Luz”, documentário que relaciona o quarto de empregada à senzala e expõe os desafios da maternidade entre trabalhadoras domésticas

Foi o despertar da consciência racial que motivou a paulistana Karol Maia, 32, a investigar uma mazela da arquitetura brasileira: a conexão entre o quarto de empregada e a senzala. Filha de Miriam, que foi trabalhadora doméstica por anos, Maia viveu o cotidiano dessas fronteiras invisíveis ao frequentar a casa dos patrões da mãe durante a infância. Essa incursão em sua própria história e na herança colonial do país deu origem a “Aqui Não Entra Luz”, documentário que conquistou o prêmio de melhor direção no mais recente Festival de Brasília e está em cartaz nos cinemas desde 8/5.

Além de Miriam, o filme, que levou oito anos para ser realizado, costura depoimentos de Rosarinha, Cristiane, Mãe Flor e Marcelina, quatro mulheres de diferentes partes do Brasil que viveram nesses espaços onde privacidade e trabalho se misturam de forma quase asfixiante.

Em depoimento a Gama, Karol Maia fala sobre os desafios emocionais da produção, incluindo a resistência de sua mãe em revisitar traumas e a complexidade da maternidade dentro desse ofício. “A relação vira um triângulo, fica subentendido que o filho dessa trabalhadora é de ninguém, quase como se ela não pudesse dar conta de ser mãe da própria criança, o que é uma grande mentira”, analisa.

A cineasta também revela como o processo cinematográfico ajudou a redefinir a relação pessoal com a mãe, resultando em maior autonomia e uma admiração mútua. “Acho que esse filme, inclusive, tem servido para eu conseguir me separar dela de alguma maneira. Desse ideal de mãe, desse sonho de mãe”, diz.

A seguir, confira o depoimento que a diretora concedeu a Gama.

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“O projeto deste filme nasceu em 2017, a partir do meu desejo de investigar a relação entre a senzala e o quarto de empregada. A ideia inicial, ainda em 2015, era fazer uma ocupação na Vila Itororó, em São Paulo, mas após o projeto ser rejeitado em editais por dois anos consecutivos eu acabei adaptando a proposta para o cinema. O que eu sabia desde o início é que eu queria visitar os quatro estados que mais receberam mão de obra escravizada no Brasil – Bahia, Rio de Janeiro, Maranhão e Minas Gerais – e conversar com trabalhadoras domésticas que já dormiram no quartinho. Elas seriam as minhas grandes especialistas. Eu queria que a gente analisasse esse espaço pela melhor perspectiva possível, que é a de quem já morou nele. Foram oito anos de produção, três fases de gravação e muitos anos de montagem.

Uma coisa que eu defini é que eu não queria filmá-las trabalhando, nem falando na casa dos patrões. A única exceção é a Rosarinha, porque ela tem uma relação ótima com eles, os direitos dela estão sendo preservados e eles respeitam os limites dela. Fiz um desenho de produção pra gente sempre conversar na casa delas. Como a maioria era do interior e muitas moraram no quartinho por não ter para onde voltar, ter a casa delas no filme era uma conquista simbólica e material de que a dignidade delas estava sendo preservada por elas mesmas.

Os anos de realização desse filme foram muito difíceis. É um assunto muito complicado e sensível, sobretudo para pessoas negras. Eu entrei nessas senzalas duas vezes [a diretora visitou o Sítio Piranhenga, em São Luís (MA); a Fazenda dos Coqueiros, em Bananal (SP); a Fazenda Cachoeira de Mato Dentro, em Vassouras (RJ); e a Fazenda da Taquara, em Barra do Piraí (RJ)], na pesquisa e na hora de gravar. Eu senti tudo que aconteceu ali, essa memória celular dos anos de escravidão que a gente carrega. Foi um processo emocional e espiritual bastante árduo para que eu conseguisse me desvincular desses cenários. E tinha a pressão de ser o meu primeiro longa, um assunto coletivo, urgente, que calhou de acontecer na pandemia, quando a gente estava mal coletivamente e poucas pessoas tinham certeza do aluguel do mês seguinte. Em 2020, fizemos uma vaquinha que foi um sucesso, mas as pessoas que apoiaram começaram a mandar mensagens cobrando o filme. Aquilo me gerava um desespero horroroso, era muita angústia, parecia que eu estava com uma dívida coletiva.

Nesse processo todo, a minha mãe sempre teve uma resistência a falar por questões de traumas familiares. Mas eu nem tinha noção de que ela estava tão sensível ao que estava acontecendo comigo. Como ela mesma fala no filme, era como se eu ainda estivesse dentro da barriga dela. E acho que nesse processo as nossas histórias se confundem, porque eu também precisei desses anos todos para encontrar a minha voz no filme, a minha voz de cineasta. Eu não queria que a minha história fosse mais importante que a delas no final.

Quando fui montar o filme, vi que um dos grandes temas seria a maternidade. Essa parte é bem complexa nessa dinâmica do trabalho doméstico. A Marcelina, por exemplo, escolheu não ser mãe porque era inconcebível a ideia de criar um filho na casa da patroa. Ela e a Rosarinha falam desse grande perigo de ‘perder o filho pra patroa’. A gente tem no filme a mãe que conseguiu sair a tempo e a que perdeu a filha sequestrada pela patroa. A relação vira um triângulo, fica subentendido que o filho dessa trabalhadora é de ninguém, quase como se ela não pudesse dar conta de ser mãe da própria criança, o que é uma grande mentira.

Foi por isso que tomei o cuidado de trazer meu pai em alguns momentos do filme. Eu não queria a voz dele, assim como a de nenhum homem no filme. Mas para mim era importante marcar que o fato da minha mãe ser trabalhadora doméstica não mexia na minha estrutura familiar. Era importante mostrar que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ser trabalhadora doméstica não significa viver em vulnerabilidade social ou que não possa tomar decisões pelos seus próprios filhos. No meu caso, eu tenho uma família padrão: papai, mamãe, titio, vovó, churrasco aos domingos, igreja. Também temos no filme a Mãe Flor, que celebra a formatura da filha como o dia mais feliz da vida dela, trazendo a dimensão do final do ciclo do trabalho doméstico.

Ser trabalhadora doméstica não significa estar vivendo em vulnerabilidade social ou que não possam tomar decisões pelos seus próprios filhos

A maternidade foi uma coisa que eu fui lapidando durante esse tempo de realização do filme. Não era o meu maior objetivo no começo, mas, quando eu fui montar, eu vi que esse seria um dos grandes temas. Porque eu sou filha e porque elas são mães.

Acho importante falar também que as trabalhadoras domésticas trabalham em empresas familiares. Dá pra chamar assim, porque as casas são empresas familiares. A família é um grande tema dessa profissão por si só. Tem aquela frase horrorosa “Ela é como se fosse da família.” E essa família, seja a do imaginário ou a que está sendo vivida de fato, faz parte dessa dinâmica da profissão como um todo.

Eu lembro que anos atrás, quando estava com a minha consciência racial bem aflorada, eu sentia todas as dores do mundo. E queria conseguir organizar essa dor em alguma forma. Lembro que eu tinha uma grande utopia de que as pessoas brancas assistissem a esse filme, repensassem seus comportamentos racistas e fizessem algo diferente. Hoje eu já não tenho mais essa ilusão, nem esse desejo.

A Karol de 2025 finalizou esse filme para honrar o trabalho doméstico e celebrar essas profissionais. Ela também fez esse filme para dizer a ela mesma que consegue colocar uma grande obra no mundo e que essa obra pode ser uma ferramenta de conversa, discussão e transformação. Tem sido bem importante pontuar que eu faço esse filme porque sou filha da Miriam, mas também porque sou cineasta. Usei esse meu conhecimento para contar uma história que é absolutamente coletiva e brasileira.

A gente tem — e quando eu digo ‘a gente’ é porque falo por mim e por toda uma equipe que continua trabalhando no filme — uma frase que é: ajudar a transformar a realidade do trabalho doméstico no Brasil. E ajudar a transformar essa realidade é incentivar também as pessoas a contarem as histórias das suas mães e agradecerem a elas por terem possibilitado essa nova perspectiva profissional para os filhos. No Dia da Trabalhadora Doméstica (27/4), lançamos o movimento ‘Querer Bem’, um convite para os filhos e netos homenagearem essas mulheres nas redes. E, também vamos lançar um manual provocativo chamado ‘Como Lavar Louças’, com boas práticas para os contratantes, que vai desde o uso de produtos de limpeza até dar um “bom dia” para a trabalhadora.

Eu acho que quem tem mãe — ou teve uma figura materna — tem conflitos com ela. Mãe é um grande fenômeno nas nossas vidas, e a gente vai passar a vida inteira em análise, elaborando essa mãe ou a ideia que a gente tem dela. Hoje a minha relação com a minha mãe é de respeito. Mas eu acho que esse filme, inclusive, tem servido para eu conseguir me separar dela de alguma maneira. Desse ideal de mãe, desse sonho de mãe. E tem sido muito bonito porque ela também tem conseguido se separar de mim.

Eu vejo ela falando sem precisar da minha aprovação. Vejo ela se posicionando. Na semana passada ela foi sozinha pro Rio Grande do Sul representar o filme em um festival, ganhamos um prêmio e foi muito bonito. Quero que a gente se reencontre numa relação de amigas, com admiração mútua. Hoje ela já abre a boca e fala: ‘É o nosso filme’. Ela tomou posse do filme, que também é dela. Inclusive, sem revelar muito, eu dou a fala final de presente para ela.”

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