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Conversas

Lucy Jones: "A ideia de alguém criar um filho sozinha vai contra a nossa evolução”

Autora de “Matrescência”, jornalista britânica denuncia a desconexão entre a narrativa social da maternidade e a realidade nada idealizada de quem se torna mãe

Leonardo Neiva 10 de Maio de 2026

Lucy Jones: “A ideia de alguém criar um filho sozinha vai contra a nossa evolução”

Leonardo Neiva 10 de Maio de 2026

Autora de “Matrescência”, jornalista britânica denuncia a desconexão entre a narrativa social da maternidade e a realidade nada idealizada de quem se torna mãe

Quando engravidou pela primeira vez, a jornalista e escritora britânica Lucy Jones logo percebeu que algo não estava certo. Assim que sentiu o que imaginava ser o prometido enjoo matinal, tão comum para revelar uma gestação em filmes e séries, primeiro ela ficou animada: era um sinal inconfundível de que o bebê estava ali. Mas essa animação logo desapareceu quando descobriu que o enjoo intenso que sentia não tinha nada de matinal. Ele permaneceu ao longo da tarde, da noite e dos dias, semanas e meses seguintes.

Outras descobertas semelhantes e raramente agradáveis se seguiram a essa. Jones percebeu mudanças profundas na sua personalidade, passou por uma experiência traumática durante o parto — que mais tarde se viu forçada a descrever em termos como “normal” e “tranquilo” — e se viu cada vez mais solitária, seja durante a gestação ou após o nascimento da primeira filha. O resultado foi perceber que não sabia quase nada sobre a maternidade. E que o pouco conhecimento que acreditava ter era derivado de narrativas sociais profundamente equivocadas, construídas ao longo do tempo principalmente por homens.

“Os campos da psiquiatria e psicanálise ignoraram quase por completo como a gravidez afeta a mente, o corpo e o desenvolvimento das mulheres. A repressão e a negação do corpo e da experiência gestacional e materna estão profundamente arraigadas”, ela escreve no livro “Matrescência” (Fósforo, 2026) — leia um trecho aqui —, em que mescla relatos de sua experiência com a maternidade a entrevistas e pesquisas sobre o tema. A obra, aliás, não teria sido possível algumas décadas atrás, já que boa parte da ciência sobre a maternidade focava nos filhos, e não na vivência da mãe, algo que só vem mudando muito recentemente.

O livro atualiza o conceito de matrescência criado nos anos 1970 pela antropóloga norte-americana Dana Raphael (1926-2016), numa comparação direta com o período da infância e adolescência. Um dos combustíveis para que Jones escrevesse sobre o tema foi justamente a impressão de que, como mãe, estava revivendo as mudanças e inadequações que sentimos quando jovens. A diferença é que, se os adolescentes contam com alguma compreensão social sobre as profundas mudanças pelas quais estão passando, a mesma empatia da sociedade nem sempre se estende às mães.

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“Na maternidade, parecia que meu cérebro tinha mudado significativamente. Fiquei obcecada com ‘A Metamorfose’ de Kafka, me senti como o personagem que se transforma em inseto”, conta a autora, hoje mãe de três filhos, em entrevista a Gama. Naturalmente tímida e introvertida, ela destaca o profundo sentimento de solidão que sentiu durante a gravidez e no período inicial da maternidade, quando percebia barreiras até para falar com outras mães a respeito dos processos pelos quais estava passando.

Entre os motivos para essa falta de comunicação, afirma, estão um sentimento de culpa reforçado pelas narrativas idealizadas em torno da maternidade e uma preocupação em não parecer estar falando mal da própria prole. “Quando publiquei meu livro, dois ou três anos atrás, tinha muito medo da reação, pensei que todos achariam que eu não amava meus filhos”, conta a escritora, que até então tinha em seu nome apenas obras sobre o meio ambiente e a importância do contato humano com a natureza.

Mas esse medo não se concretizou. “Hoje há muito mais diálogo, interesse, e as pessoas estão escrevendo mais sobre as realidades da maternidade”, reconhece Jones. Na conversa a seguir, ela trata da incompreensão da maternidade que persiste até mesmo entre as mulheres, fala de como o capitalismo ofusca a importância fundamental do trabalho de cuidado e também dos desafios sociais de uma tarefa aparentemente simples: amamentar seu filho.

  • G |Por que acha que tantas mulheres, especialmente mães, se identificam com as experiências que você descreve em “Matrescência”?

    Lucy Jones |

    Eu fiquei bastante surpresa de como o livro ressoou com tantas pessoas. Antes de ser publicado, sentia que era um relato muito pessoal, uma espécie de memória autobiográfica. Eu tenho tendência a pensar demais nas coisas, e certas peculiaridades da minha personalidade talvez tenham tornado minha primeira experiência com a maternidade particularmente desafiadora e dramática. Então não sabia se as pessoas se identificariam. Mas claro que eu sabia, por ter conversado com outras mães, visto as estatísticas e lido sobre saúde mental materna, que não estávamos entendendo a maternidade da maneira correta. Então, tem sido agridoce. É muito bom me conectar com tantas mães diferentes de todo o mundo e é chocante ouvir que milhares de pessoas se identificam com as dificuldades que eu relato. Parece ter tocado algumas mulheres porque é essencialmente o reflexo de um sistema de valores, essa mentalidade capitalista neoliberal britânica, europeia e americana que é extrativista com os recursos naturais, a terra e até os corpos das mães e cuidadoras. E, embora as pessoas estejam falando muito mais abertamente sobre essas coisas, a maioria dos livros que você lê quando se torna pai ou mãe são sobre o bebê, sobre sono ou alimentação. Ainda há uma escassez de representações na cultura e na literatura da realidade da maternidade, tanto a boa quanto a ruim.

  • G |Você relata ter sentido uma desconexão da narrativa social sobre maternidade, desenvolvida principalmente por homens. O que descobriu no contato com outras mães que enfrentavam desafios parecidos?

    LJ |

    Eu conto uma pequena história no livro. Achava os grupos de mães meio isoladores, porque parecia que todo mundo estava seguindo um roteiro sobre como a maternidade era a melhor coisa que já tinha acontecido. Eu estava extremamente feliz por ser mãe e meu bebê era espetacular, mas a minha autoestima estava muito abalada. Então, lembro de me virar para outra mãe e perguntar: “Como foi o seu parto?” E ela disse: “Foi horrível pra caralho.” Foi como se tivesse aberto uma fechadura. Senti que estava guardando aquilo por semanas, dizendo que tudo estava ótimo e que o parto foi tranquilo. Na verdade, foi assustador. Achei que meu bebê fosse morrer, que eu ia morrer. O culturalmente aceitável é simplesmente seguir em frente, não falar sobre isso. O fato de ela ter dito aquilo nos permitiu conversar de forma sincera. Lembro de ter lido “Of Woman Born”, da Adrienne Rich [não publicado no Brasil], quando minha filha tinha seis meses. Ela escreveu sobre sua experiência de se tornar mãe nos anos 50, e me identifiquei muito. A maneira como ela distingue a experiência da maternidade da instituição maternidade foi um grande catalisador para eu escrever sobre isso, criticar as estruturas e os sistemas sem sentir que estava criticando nossos amados bebês e crianças.

  • G |Quais impactos psicológicos e físicos negligenciar a experiência da maternidade, como no exemplo que você dá do enjoo matinal, pode ter causado ao longo do tempo para várias gerações de mulheres?

    LJ |

    O efeito da nomenclatura incorreta do enjoo matinal, da desinformação e da minimização de tantas experiências diferentes nessa transição do enjoo para as realidades do parto, a amamentação e os cuidados com o bebê, levam as mulheres a se sentirem fracassadas. E, dentro disso, surge a vergonha. E a vergonha é muito comum na maternidade recente. Ela é corrosiva, tóxica e nos silencia. Somos animais sociais e nunca precisamos tanto de outras pessoas como quando damos à luz e temos um dependente vulnerável. Mas, na cultura atual, esperamos muito das mães e não as apoiamos adequadamente. Aí as mulheres internalizam os problemas e se culpam, em vez de olhar para a sociedade e as condições ambientais que tornam a maternidade perigosa hoje em dia. Se olhar para as estatísticas, verá que a depressão é duas vezes mais provável no primeiro ano, e até o suicídio. As pessoas não gostam de falar sobre esse lado sombrio da maternidade porque todos amamos bebês e queremos pensar nos lados positivos, mas precisamos analisar como estamos tratando as mães.

  • G |O livro ilustra como a responsabilidade é colocada na mãe desde a gravidez, sem considerar os fatores de risco do entorno: mudanças climáticas, poluição e uma série de coisas que afetam o desenvolvimento do feto. O que te fez pensar que, enquanto gestante, você não poderia ser “uma máquina impermeável e impenetrável, desconectada do mundo ao redor”?

    LJ |

    Durante a gravidez, percebi que a maior parte das mensagens sobre saúde se concentrava na responsabilidade individual: não comer queijos macios, não beber álcool… Mas eu via manchetes sobre partículas de poluição encontradas em placentas. A experiência da gravidez, o parto e o início da maternidade dissolveram para mim aquela ideia do cidadão ideal que não precisa de ninguém, que se torna um consumidor e um provedor. Então, a matrescência e a maternidade foram para mim uma experiência muito social. Eu fui muito afetada pelo que li, pelo que ouvi e por como as pessoas se relacionavam comigo naqueles primeiros meses. Tive minha primeira filha aos 31 anos, mas carregava várias ideias sobre maternidade e feminilidade que foram se acumulando ao longo da vida. Eu sabia que criar um filho era um trabalho incrivelmente importante, mas sentia que eu não tinha feito nada ao longo de um dia se não tivesse ganhado dinheiro. Foi muito interessante ver tão claramente qual era o meu senso de identidade. A psique capitalista e industrial era tão forte que cuidar não parecia um trabalho de verdade. Na verdade, tem sido o trabalho mais difícil que já fiz.

  • G |O que falta para que o trabalho de cuidado materno seja mais valorizado em sociedade, considerando o contexto político e social atual?

    LJ |

    Eu fico oscilando entre acreditar e me sentir desanimada com a possibilidade de o cuidado ser valorizado num sistema econômico que se baseia no lucro e no crescimento. Parece estar em conflito com a ideologia que rege os sistemas em que vivemos. Eu me interesso pelo movimento de remuneração para o trabalho doméstico e como isso poderia, a curto prazo, ajudar os cuidadores. Não investir em cuidados maternos ou na saúde mental das mães são decisões políticas. Em parte por causa da vergonha e do tabu, ainda não temos a noção de que tornar-se mãe pode ser a maior alegria para muitas pessoas, mas também é um tema de negligência social. Novas mães, pais e cuidadores de crianças pequenas deveriam ter transporte público gratuito e assistência médica por muitos anos, porque o efeito do parto em um corpo pode ser bastante significativo. Os espaços públicos deveriam ser projetados e receber investimentos pensando nos cuidadores. Crianças pequenas, mães, pais e responsáveis ​​deveriam ser considerados de forma mais transversal ao planejamento governamental. Ao mesmo tempo, embora eu tenha alguma esperança, tenho dificuldade de ver como, dentro do hipercapitalismo, as coisas vão melhorar.

  • G |No Brasil, mais da metade das mães são solo. Quais as necessidades de acompanhamento para uma mãe que cria o filho sozinha, em condições sociais precárias?

    LJ |

    É muito difícil ficar sozinha todos os dias com um bebê ou uma criança pequena. Nós evoluímos em redes de cuidado coletivo durante 95% da nossa história evolutiva. Criamos nossos filhos coletivamente. Uma das coisas que senti com mais intensidade nas primeiras semanas e meses é que, apesar de ter marido e família, eu ainda ficava sozinha com o bebê na maioria dos dias — o que acontece bastante. No Reino Unido, as mães passam cerca de oito horas por dia sozinhas ou com um bebê, sem a companhia de um adulto. Lembro de pensar que meu sistema nervoso não evoluiu para isso, não sentia que era algo sustentável. Eventualmente, tive depressão pós-parto. Então, acho que a ideia de alguém criar um filho sozinha vai contra a nossa evolução. E vivemos em um mundo onde o Estado e os serviços públicos podem fornecer muitos cuidados. Existe uma iniciativa incrível em Bogotá, com áreas em shoppings onde mães ou pais podem ir e ter companhia, lavar roupa, comer alguma coisa, estar perto de outras pessoas e até descansar enquanto uma enfermeira cuida do bebê. Claramente temos uma crise de saúde mental materna, precisamos urgentemente apoiar mais as mães. E os dados mostram que o apoio social pode reduzir nosso estresse.

  • G |Muitas mulheres relatam sentir empatia com outras mães só depois que se tornam mães também. Como explica essa dificuldade de conexão?

    LJ |

    Quando tive minha primeira filha, precisei pedir desculpas às minhas amigas que eram mães por não ter estado lá para elas. Um dia, no meio do inverno, me atrasei e deixei uma amiga com um recém-nascido esperando do lado de fora. Foi muito egoísta e egocêntrico da minha parte. Tive até que escrever uma carta para minha mãe. Parte disso foi meu próprio egocentrismo, mas é bastante comum a sensação de atravessar uma espécie de portal e ficar chocada com o que significa ser mãe — e perceber que não está preparada. Acho que a falta de representações na nossa cultura é um dos motivos. Eu me formei em literatura inglesa, li praticamente todos os textos clássicos ocidentais e nenhum deles inclui uma representação subjetiva da maternidade, do parto ou da gravidez. Obviamente, algumas pessoas criam arte sobre essa experiência, mas ela é muito pouco representada, pouco divulgada e pouco pesquisada. Isso torna difícil ter empatia.

  • G |A forma como nossa sociedade funciona também não acaba inibindo essa conscientização?

    LJ |

    Como vivemos em casas privadas e espaços públicos bastante hostis, você não consegue simplesmente sair e amamentar um bebê. Não há bancos nem espaços públicos onde as pessoas observem mães ou vejam como é cuidar de uma criança pequena. E há uma tentativa bem-intencionada de não assustar, de mostrar que nem todas as mães têm dificuldade. Apesar de ter escrito um livro sobre o assunto, isso ainda me tira o sono. Ninguém quer dizer que é difícil, porque soa como se estivessem falando do próprio filho. Nós amamos nossos filhos, nunca queremos que eles pensem que são a causa do problema. Na verdade, é a sociedade.

  • G |A própria amamentação pode ser bastante paradoxal: há uma exigência social para as mães amamentaram, mas as pessoas não querem que isso aconteça em público. Por que essa contradição existe em tantas áreas da maternidade?

    LJ |

    Os seios se tornaram um objeto sexual em vez de fonte de alimentação na arte ocidental. Mas, ao mesmo tempo, como sociedade e cultura romana, nós romantizamos a maternidade. Gostamos da ideia da amamentação porque ela sugere um vínculo íntimo. E isso ainda acontece nos dias de hoje. Estamos ansiosos com a sociedade industrial, com as mães que trabalham, com a desestruturação familiar, com a solidão social e os laços que se rompem, com o capitalismo pós-industrial. Todas as mulheres deveriam ter apoio para amamentar e a opção de amamentar se quiserem. No livro, falo de quando fui a um café com meu bebê, tentei amamentar e senti que todos estavam me julgando. Me senti muito constrangida por estar com o seio de fora em frente a homens mais velhos. Não funcionou muito bem, eu não tinha leite suficiente e precisei usar a mamadeira para complementar. E aí senti uma vergonha enorme de dar mamadeira para o meu bebê pequeno, porque sempre nos disseram que o leite materno é melhor. É uma daquelas situações em que as mães não têm como vencer.

  • G |Estamos comemorando o Dia das Mães aqui no Brasil, época que reforça muitas das narrativas sociais que existem em torno da maternidade. Qual seria, na sua opinião, a melhor forma de celebrarmos a maternidade nos dias atuais?

    LJ |

    A melhor maneira de celebrar o Dia das Mães seria dar às mães o que elas querem e precisam. Varia de país para país, mas geralmente significa: licença-maternidade e paternidade adequadas, serviços de maternidade seguros, investimento em cuidados de saúde pós-parto, espaços públicos acolhedores para amamentar e trocar bebês, licença médica se a criança precisar, cuidados infantis nos primeiros anos de vida… Enfim, todas as coisas de que as mães sabem que precisam e vêm pedindo. Essa é a melhor maneira de celebrar as mães.

Produto

  • Matrescência
  • Lucy Jones (trad. Vanessa Barbara)
  • Fósforo
  • 384 páginas

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