Como envelhecer bem?
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Reportagem

Dá para controlar como envelhecemos?

Da prática de exercícios à ingestão de suplementos, um mercado cada vez mais forte tem vendido hábitos e produtos com a promessa de uma vida longa e saudável

Leonardo Neiva 12 de Abril de 2026

Dá para controlar como envelhecemos?

Leonardo Neiva 12 de Abril de 2026
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Da prática de exercícios à ingestão de suplementos, um mercado cada vez mais forte tem vendido hábitos e produtos com a promessa de uma vida longa e saudável

Ele acorda todos os dias sem despertador, entre 4h30 e 6h. Faz uma checagem da temperatura corporal e, em seguida, se expõe à iluminação UV para compensar a ausência de luz solar natural. Aí é hora da suplementação: primeiro, ferro e vitamina C. Ao longo do dia, serão cerca de 54 suplementos, entre peptídeos de colágeno, inulina e probióticos. Só depois da pesagem, das métricas corporais, da terapia nas luzes azul e vermelha — esta contra a queda de cabelos — e da rotina de cuidados oculares, ele prepara seu café da manhã: um cardápio rico em nutrientes, com super vegetais como brócolis e cogumelos, e composições como um pudim de nozes de proteína em pó, mirtilos e amoras.

Muita gente vai ficar exausta só de ler a lista de tarefas matinais do milionário norte-americano Bryan Johnson, de 48 anos, que ainda inclui uma sequência de exercícios e um jejum intermitente radical — ele se alimenta apenas pela manhã. O empresário também investe em pesquisas sobre o tema, faz terapias gênicas e trocas de plasma frequentes com seu filho. Embora pareça exagero, para dizer o mínimo, essa rotina extremamente regrada tem metas ainda mais ambiciosas: não só viver com saúde por mais tempo, mas forçar seu corpo a rejuvenescer e se tornar biologicamente imortal.

O dia a dia do empresário, que gasta cerca de R$ 11 milhões por ano na sua jornada para reverter os efeitos do envelhecimento, é detalhado no documentário da Netflix “O Homem que Quer Viver para Sempre” (2025). A cruzada de Johnson ilustra bem o momento atual: nunca antes nos preocupamos tanto em viver por mais tempo, retardar os efeitos do envelhecimento e manter a saúde até o mais próximo possível do fim da vida. Mas até que ponto dá para controlar como nosso corpo vai envelhecer?

O milionário Bryan Johnson em frente ao filho; ele recebe transfusões de plasma do jovem com frequência na tentativa de rejuvenescer
O milionário Bryan Johnson em frente ao filho; ele recebe transfusões de plasma do jovem com frequência na tentativa de rejuvenescer
Divulgação/Netflix

Parte dessa nova realidade tem relação direta com os avanços da ciência, em especial a percepção de que os hábitos que adquirimos ao longo dos anos podem aumentar ou encurtar nossa vida. “A ciência avançou bastante para mostrar que a qualidade do sono, o controle do estresse e, sobretudo, a prática regular de atividades físicas e a boa alimentação são fatores que podem evitar uma morte prematura”, afirma o professor do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP, Bruno Gualano.

Um dos marcos mais evidentes desse movimento é que as gerações atuais compreendem o envelhecimento de maneira muito diversa da dos nossos avós e bisavós, aponta o doutor em antropologia social e psicanalista Oswaldo Zampiroli. “Dos séculos 18 e 19 para cá, o envelhecimento passou de um problema de família para se tornar cada vez mais uma questão social”, diz o antropólogo, que pesquisa relações familiares, intergeracionais e o trabalho de cuidado.

A convivência entre diferentes gerações, às vezes até bisavós e bisnetos, se tornou mais comum, o que faz com que os jovens prestem mais atenção às questões do envelhecimento, diz a geriatra Maysa Cendoroglo. “E como a geração dos idosos atuais sofreu uma série de limitações na saúde e até na escolaridade ou no mercado de trabalho, eles se cuidavam somente quando já tinham doenças estabelecidas”, afirma a professora de geriatria e gerontologia na Escola Paulista de Medicina da Unifesp. O que teria acendido um alerta ainda maior sobre a necessidade de prevenção.

Com um estatuto próprio dentro da medicina e discussões sociais cada vez mais aprofundadas sobre temas ligados ao envelhecimento, Zampiroli considera que a sociedade vem inventando um novo tipo de velhice, tanto a partir dos avanços da ciência quanto do aumento da expectativa de vida. No Brasil, aliás, esta cresceu mais de 31 anos entre as décadas de 1940 e 2020, segundo o IBGE. “Com uma perspectiva de atuação cada vez mais preventiva, a gente foi se afastando de um ideal que colocava o envelhecimento como sinônimo de adoecimento”, avalia o pesquisador.

Ao deixar de ser visto como uma doença em si, para a qual não havia cura, o ato de envelhecer passa a ser marcado por enfermidades do corpo ou demências como o Alzheimer, sobre as quais paira uma visão muito mais forte de prevenção, de acordo com Zampiroli. Nesse cenário, no entanto, ainda resta uma certa aversão ao envelhecimento, o que faz com que quase todo discurso sobre o assunto acabe enveredando ainda hoje por um ideal de parecer ter menos idade do que o indivíduo de fato tem, em vez de simplesmente viver a velhice de forma mais saudável.

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A síndrome da longevidade

Para a médica especialista em geriatria e gerontologia Andrea Prates, consultora em longevidade e bem-estar no envelhecimento, a percepção de uma vida mais longa aumenta os temores sobre o envelhecimento, especialmente entre os mais jovens. “Por um lado, é muito bom as pessoas se preocuparem desde cedo com a saúde física e também com a saúde mental, porque ela traz muitos benefícios para a qualidade de vida”, considera.

E há realmente muitos fatores ligados à saúde física e mental que podemos implementar no dia a dia visando o envelhecimento: incluir a prática regular de atividades físicas na rotina; buscar uma alimentação mais saudável e balanceada; evitar bebidas alcoólicas em excesso; criar um cronograma noturno para melhorar o sono; fazer exames com frequência; exercitar a mente; procurar um acompanhamento psicológico; e por aí vai.

O médico canadense Peter Attia descreve no best-seller “Outlive: A arte e a ciência de viver mais e melhor” (Intrínseca, 2023) essa conjunção de práticas positivas para a saúde e o envelhecimento do corpo como um campo de batalha, em que é preciso traçar o mais cedo possível táticas bem definidas — leia um trecho do livro aqui. Por outro lado, ele define limites sobre até onde podemos chegar com estratégias para o envelhecimento saudável: “Longevidade não significa viver para sempre. Nem mesmo viver até os 120 ou 150 anos, algo que supostos especialistas prometem de maneira banal a seus seguidores.”

Afinal, o idoso é fruto de toda uma longa história de vida, lembra Cendoroglo. “Se o indivíduo tem um histórico de doenças mal compensadas, abusos e um estilo de vida extravagante, ele provavelmente vai chegar em uma idade avançada com menos reservas”, avalia a geriatra. Com isso, fica mais suscetível a enfrentar problemas de saúde e um impacto mais intenso do envelhecimento.

Portanto, ter um controle melhor do dia a dia e da sua saúde nesses vários elementos tem sim efeitos práticos para a longevidade e qualidade de vida. Mas Prates também faz um alerta. Todo esse controle não pode se tornar fonte de estresse, que vai acabar te prejudicando em um outro ponto crucial para o envelhecimento saudável: a saúde mental.

O excesso de preocupação com o tema ficou conhecido como longevity fixation syndrome (síndrome de fixação em longevidade), distúrbio não oficializado pela medicina, mas que já vem sendo apontado por especialistas. A médica cita o próprio Bryan Johnson como exemplo. “Ele não vive, só faz isso.” Prates, que integra o movimento Slow Medicine Brasil, em defesa de uma medicina mais humana e individualizada, também faz críticas à cultura que prega o excesso de medicamentos e suplementos — alguns deles pouco confiáveis, que podem acabar fazendo mais mal do que bem.

E vale lembrar que há outras questões centrais que definem nossa longevidade, e não estão sob nosso controle. Se até os 80 anos, a contribuição da genética para o envelhecimento fica em torno de 30%, um estudo com centenários liderado pela bióloga brasileira Mayana Zatz apontou que, após os 90, ela passa a ser o principal fator determinante para a longevidade, ultrapassando questões como preparo físico e alimentação. Ou seja, passar dos 100 anos de idade vai além daquilo que podemos controlar.

Custo de vida

Geralmente reservada aos deuses na mitologia, a vida eterna já foi tema de contos morais importantes. Um dos mais impactantes, evocado por Gualano, é o mito grego de Tithonus, príncipe troiano que se apaixonou por Eos, deusa da aurora. “Eos se apaixona por ele e pede a Zeus um presente: a imortalidade de Tithonus”, conta o professor da USP. A divindade concede o desejo, mas com uma pegadinha: Tithonus recebe vida eterna, mas não a juventude eterna. E acaba envelhecendo por tempo indeterminado, incapaz de morrer. “Essa história mostra que a imortalidade não é o mesmo que a vida plena, uma mensagem que deveria ser passada mais ativamente para as pessoas.”

Um dos problemas que acabam fazendo a ansiedade por viver mais ultrapassar as raias do aceitável é o fato de a indústria, em especial a fitness, ter se apropriado comercialmente do mito da longevidade, diz Gualano. O professor da USP cita o caso dos Enhanced Games, competição multiesportiva marcada para maio, que permitirá que atletas façam uso de substâncias para melhorar seu desempenho. “São jogos para disseminar a visão de que as pessoas conseguem aumentar a longevidade, o desempenho e a saúde através de um conjunto de drogas que podem ser compradas”, alerta.

Na visão do especialista, produtos ou cirurgias que prometem substituir a prática de exercícios ou uma alimentação adequada não apenas não aumentam a longevidade como podem encurtá-la, reduzindo também a qualidade de vida. Por isso, ele menciona a importância de não se deixar seduzir pelas ofertas de marketing ou por aquele post persuasivo feito por algum influencer do ramo.

Cendoroglo aponta que, embora algumas poucas vitaminas, como a D ou a B12, necessitem de suplementação com a idade, em outros casos, uma alimentação saudável dá conta do recado. Então, quando não há uma deficiência específica, muita gente acaba se empanturrando de suplementos mais por influência da indústria do que por necessidade. “Se você se alimenta de frutas, legumes, verduras e grãos integrais, tem tudo de que precisa. Até porque vitaminas concentradas não vão fazer grande diferença no seu organismo”, explica a geriatra.

“Em ‘A Sociedade do Cansaço’, o [filósofo sul-coreano] Byung-Chul Han diz que essa pressão toda que temos por desempenho, no que se inclui o mundo fitness, é que está formando deprimidos e fracassados”, conta Gualano. O certo, considera, é que, para viver bem e por mais tempo, não deveríamos precisar gastar nem um real. “Uma alimentação saudável não é mais cara do que os superprocessados no Brasil e, em muitos lugares, você consegue praticar atividades físicas usando o equipamento público.” Mas, para que isso se torne realidade para a maioria dos brasileiros, segundo o especialista, ainda é necessário criar condições socioeconômicas e de acesso, além de políticas públicas voltadas para estilo de vida.

Há também no mito grego de Eos e Tithonus, segundo o especialista, uma lição importante sobre o que compõe a vida humana. Enquanto muitos se apegam a hábitos rígidos que impedem uma ida ao restaurante com amigos ou acabam elevando os níveis de estresse ao recorrer a anéis tecnológicos e smartwatches para monitorar temperatura corporal, qualidade do sono e índices da moda como o VO2 — volume máximo de oxigênio que o corpo consegue processar durante o exercício físico intenso —, podem acabar esquecendo do motivo para quererem viver por mais tempo. “Na verdade, o desejo de Eos ignora a questão básica que é a virtude da vida e sua vontade inicial: preservar o amor“, aponta Gualano.

O previsível e o imponderável

Se parte da classe média já se preocupa em levar hábitos mais saudáveis como forma de viver mais e melhor, super-ricos como Bryan Johnson, ainda que um pouco menos obcecados com o tema, hoje já investem em tratamentos experimentais e buscam clínicas de longevidade que podem custar centenas de milhares de reais por mês.

Mesmo com uma desigualdade clara, não só econômica, mas também social, geográfica e genética, que interfere nesse processo, a questão de como vamos envelhecer costuma ser jogada apenas sobre os ombros do indivíduo, de acordo com Zampiroli. “Você vai num médico e já começa aquela lista de perguntas: Você bebe? Come gordura? Fuma?”, descreve o antropólogo. Segundo ele, esse ideal de comportamento saudável costuma ignorar questões de cultura, marcadores pessoais e entendimentos individuais sobre bem-estar ou o que significa viver mais e melhor.

Tanto que os discursos sobre prevenção dos males do envelhecimento quase sempre deixam de lado as pequenas coisas que nos geram prazer. O único objetivo, afirma Zampiroli, parece ser evitar depender e dar trabalho aos outros. “Assim como a ideia de velhice se transformou, o ideal de vida ativa também”, continua o antropólogo. “No início do século, falava-se de vida ativa muito ligada a uma dimensão contemplativa, contando uma pescaria ou observar a natureza como atividade. Hoje, atividade é só suar a camisa ou correr na esteira, repetindo essa obrigação preventiva.”

Nas palavras do pesquisador, é como se a vida fosse um risco, e a gente estivesse o tempo todo tentando minimizar esse risco futuro — um processo em si imbuído de muita culpa e ansiedade. “A velhice vai se tornando essa assombração, esse fantasma que todo mundo vai viver e, de alguma maneira, precisa ser evitado a qualquer custo.”

Não se pode descartar, é claro, a importância de adotar hábitos mais saudáveis. Mas, por mais ativos e conscientes que sejamos, sempre teremos que lidar com o imponderável e o imprevisível, lembra a consultora em longevidade Andrea Prates.

“A gente está sujeito a ter uma intercorrência, algum fator genético importante, questões de meio ambiente…”, lista a médica especialista em geriatria e gerontologia. Hábitos e estilo de vida seriam só um pequeno círculo no centro de uma roda muito maior, que inclui também pontos centrais como seu trabalho, as condições sociais, as políticas de saúde e a localização geográfica. “A própria expectativa de vida varia muito de acordo com o CEP dentro de uma mesma cidade.”

Um exemplo que tem intrigado pesquisadores há anos são as blue zones, regiões do mundo onde as populações vivem vidas excepcionalmente longas e saudáveis, com alguns moradores ainda ativos mesmo ultrapassando a barreira dos 100 anos de idade. Em nenhuma delas, aponta Prates, há grande preocupação com a longevidade em si. Em vez disso, essa vida mais saudável acontece de maneira natural, enquanto os moradores cuidam da horta, de animais ou se movimentam diariamente por terrenos acidentados.

“Eles comem o que cultivam. No lugar de ir a uma academia, têm um estilo de vida ativo como um todo, caminham bastante… Mas o mais importante: levam uma vida em comunidade muito grande. Sabem que podem contar uns com os outros, porque há uma rede de apoio” detalha a geriatra. A ciência, aliás, já comprova que ter um círculo de amigos próximos pode ser tão importante para a longevidade quanto se exercitar com frequência. Algo a se pensar da próxima vez em que você ficar tentado a recusar aquele convite para sair com a galera só porque isso pode prejudicar seu cronograma.

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