COLUNA

Fabiana Moraes

O esgotamento como método: imprensa, eleição e repetição

Parte importante do jornalismo brasileiro precisa parar de se esconder atrás de uma falsa neutralidade: há momentos diversos em que “equilibrar” é, na prática, distorcer

25 de Março de 2026

Socorro. A gente nem dormiu direito e já começou tudo de novo: “polarização”, moderação da imagem de espertalhões e golpistas, imprensa pseudo-democrática torturando fatos, redes sociais repletas de desinformação e violência.

É ano de eleição presidencial.

Mas não foi ontem que a gente esteve a apenas 1,8 ponto percentual de ter eleito uma turma que tentou ganhar o pleito no tapetão, com plano de golpe de estado incluindo assassinato de presidente e vice-presidente eleitos, além de ministro? Uma eleição violenta e que nos desafiou como nunca, com assassinatos e polícia na rua tentando impedir as pessoas , especialmente no Nordeste, de irem votar?

Sim, e ontem foi há quase quatro anos. E a gente ainda estava em frangalhos depois da pandemia.

Aquela pandemia na qual assistimos, enquanto passávamos água sanitária em latas de molho de tomate, 700 mil pessoas morrerem. Aquela, quando o então presidente do Brasil puxou a máscara de uma criança que era segurada pela mãe. Aquela, que às vezes — juro — eu acho ter sido fruto de uma alucinação de IA.

Mas aí lembro da dor e da hora exata em que a ficha caiu: da minha casa, ouvi o apito melancólico de um senhor que sempre passava na rua, final de tarde, vendendo cuscuz em um tabuleiro. Não tinha ninguém lá fora: ele tocava o apito para ruas vazias. “Como ele vai sobreviver?”, pensei. Aquela passou a ser a melodia mais solitária que eu já ouvi.

Esse ontem não está encadeado apenas simbolicamente com o agora — ele, de fato, está. Não descansamos de tanta porrada e agora faltam somente cerca de seis meses para o pleito. Todos os sinais indicam que precisaremos, infelizmente, sermos repetitivas (ai, que cansaço) em nossas críticas — porque, vocês estão vendo as táticas pouco democráticas e pataquadas se repetem. É o caso do famoso powerpoint mostrado no programa “Estúdio I”, da Globonews, um gráfico que já nasceu clássico. Nele, uma foto do fraudador Master Daniel Vorcaro aparece muito próxima a uma imagem do presidente Lula. Mais abaixo, vemos o símbolo do Partido dos Trabalhadores.

Eu também achei que fosse alucinação de IA. Ou uma montagem barata. Quando descobri que não era, o corpo já doeu. Cansaço, exaustão. Estamos vivendo tudo de novo.

 Reprodução

Dias depois, a emissora pediu desculpas pela arte. É preciso dizer que não foi a primeira síntese gráfica feita pela emissora neste ano para ligar Lula a Vorcaro: no dia 8 de março, outro “powerpoint”, menos rumoroso, já tinha aparecido no ar, como percebeu e analisou o escritor e jornalista Florestan Fernandes.

Ambos nos levam até dez anos atrás, momento da Lava Jato, quando o impolutíssimo (agora sim, isso é alucinação de IA) Deltan Dallagnol levou a público uma apresentação na qual incriminava Lula como chefe de quadrilha. Virou piada, meme. Virou processo também: no final do ano passado, o ex-procurador foi condenado pela justiça a pagar R$ 146 mil ao presidente, por danos morais.

Pois bem, pulamos impeachment (Dilma, 2016), pulamos pandemia, pulamos 8 de janeiro de 2023… e agora estamos aqui, presas em 2016.

Um gráfico não é apenas um gráfico: ele hierarquiza, centraliza, constrói sentidos. Ele mostra quem entra e quem fica de fora

Esse episódio poderia ter deixado uma pedagogia mínima, um roteiro sobre o que não fazer para não lançarmos de novo nossa “democracia” ir para as cucuias. Mas isso não aconteceu: voltamos à forma, ao gesto. Voltamos àquilo que parece explicação muito isenta, com jornalistas renomados com o rosto muito sério comentando o gráfico. Mas é só encenação de objetividade: são setas, nomes, proximidades, uma organização visual que sugere muito e ajuda mais ainda a apimentar a opinião pública.

Não é pouca coisa, principalmente quando lembramos o quanto esse tipo de comunicação pipoca nas redes sociais. Um gráfico não é apenas um gráfico: ele hierarquiza, centraliza, constrói sentidos. Ele mostra quem entra e quem fica de fora.

É justamente aí que mora o problema — e o cansaço.

Porque, de novo, estamos discutindo o óbvio: isso não é equivalente.

@camillailustra Só pode ser isso 🤭 #humor #desenho #videosanimados #animacao #tirinhas #comedia #meme #cansada ♬ som original – Camilla Ilustra

De novo, estamos lembrando que não se pode colocar, no mesmo plano, atores, histórias e responsabilidades tão diferentes (como a Folha faz aqui).

Repita comigo: o senador Ciro Nogueira, ex -chefe da casa civil de Bolsonaro, tentou emplacar na cara dura a Emenda Master (proposta de aumentar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para até R$ 1 milhão por depositante). Se tivesse passado, o país estaria quebrado.

Repita comigo: o pastor Fabiano Zetel, cunhado de Vorcaro, foi o maior doador da campanha presidencial de Jair Bolsonaro.

Repita comigo: Zettel também foi o maior doador da campanha de Tarcísio de Freitas para o governo de SP.

Comparar uma reunião um fato incontestável e que precisa ser noticiado que Lula teve com Vorcaro (não atendendo, no fim, ao pedido do agora presidiário) com milhões investidos em campanhas e a tentativa de Nogueira de dilapidar o Fundo Garantidor de Crédito é escandaloso. E cansativo pra cacete.

Em uma coluna no Intercept Brasil, escrevi que a insistência na polarização como chave de leitura não é inocente — ela funciona como tecnologia de apagamento. E funciona mesmo. Apaga a assimetria, apaga o peso histórico. Apaga o fato de que há projetos políticos que operam a partir da destruição, com planos de assassinatos na agenda.

O tal powerpoint e as coberturas que vemos agora se desenrolado na “imprensa profissional” fazem isso: não precisam afirmar. Só sugerir. Eles não precisam acusar, só organizar. E, ao organizar, cria um centro. E esse centro, de acordo com o que vimos na Globonews é — adivinhem — Lula e o PT.

DE NOVO, GENTE? Juro, se eu fosse um livro, seria esse aqui:

 Reprodução

Enquanto isso, lá no “Estúdio I”, as ausências gritam. Cadê o resto do povo na arte que foi ao ar?

Cadê as redes políticas que sustentaram (e ainda sustentam ) o bolsonarismo? Cadê os operadores financeiros, os aliados parlamentares, os agentes que circularam com desenvoltura entre Estado, mercado e Judiciário? Cadê a direita que, neste exato momento, tenta se reapresentar como “moderada”, como se tivesse passado por um spa democrático, feito uma hidratação institucional e voltado pronta para o convívio social?

Sumiram.

Ou melhor: foram retirados. Porque, como também já escrevi, o jornalismo não apenas mostra, ele decide o que não será mostrado. E, neste caso, poupado.

A ópera do Banco Master é exemplar nesse sentido. Um escândalo que envolve mercado financeiro, relações políticas, circulação em espaços de elite — inclusive eventos organizados por grandes veículos, como a própria Globo — e, ainda assim, a síntese que ganha destaque é aquela que cola o banco ao presidente da República. Não à estrutura. Não ao sistema. Mas a uma figura específica e seu partido.

É quase um truque de mágica. Enquanto você olha para a mão esquerda, a direita reorganiza tudo.

E a gente aqui, exausta, cansada que nem Tereza Batista tendo que explicar que isso não é análise isso é enquadramento.

Três dias atrás, a palavra ‘democracia’ precisava ser defendida como quem segura uma porta a ser arrombada. E aqui estamos, de novo, tendo que explicar por que ela importa

Parte importante do jornalismo brasileiro precisa parar de se esconder atrás de uma falsa neutralidade: há momentos diversos em que “equilibrar” é, na prática, distorcer. Porque não há equilíbrio possível entre quem defende a democracia — com todas as suas falhas, contradições e limites — e quem tentou implodi-la.

“Seguimos”, dizemos a nós mesmas para inserirmos algum ânimo no corpo exausto. Mas seguimos vendo o quê? Na imprensa, seguimos assistindo a esse esforço contínuo da reconstrução de respeitabilidade de golpistas (e apoiadores). Seguimos vendo personagens serem desidratados de seus históricos, como se bastasse uma nova moldura para alterar o conteúdo. Seguimos vendo a linguagem trabalhar para tornar o inaceitável apenas mais uma opção no cardápio.

E isso cansa.

Cansa num nível que não é só político, é físico. É o corpo que reage. Faz três dias que falávamos de tentativa de golpe, de minuta, de quartéis, de gente pedindo intervenção militar com camiseta da seleção. Três dias atrás, a palavra “democracia” precisava ser dita em voz alta, repetida, defendida como quem segura uma porta prestes a ser arrombada.

E aqui estamos, de novo, tendo que explicar por que ela importa.

Meu corpo inteiro se resume a esse sublime momento de Xuxa:

 Reprodução/Tenor

Bora lá explicar por que um Estado de bem-estar social não é um luxo, mas uma necessidade básica em um país que naturalizou a desigualdade como paisagem. Explicar que políticas públicas não são “gastos”, que fome não é “narrativa”, que vida não é variável de ajuste.

Tudo isso é cansativo porque é elementar.

E talvez seja justamente aí que esteja a engrenagem mais perversa: fazer com que o debate público gire em torno do básico, eternamente. Manter todo mundo ocupado explicando o óbvio enquanto o resto, o estrutural, fica para depois. Sempre para depois.

O powerpoint, no fim das contas, é só um sintoma. Um sintoma de um jornalismo que, diante da complexidade, escolhe atalhos. Que, diante da responsabilidade, escolhe a aparência de equilíbrio. Que, diante do passado recente — tão recente —, escolhe esquecer.

E a gente, do lado de cá, segue tentando lembrar.

Com um pouco de ironia, porque é o que dá para fazer sem enlouquecer completamente. Com um pouco de humor, porque às vezes rir é a única forma de não chorar no meio do expediente. E com muita, muita insistência. Não esqueço do som do apito do rapaz que passava aqui na rua, vendendo cuscuz para ninguém.

(Ele nunca mais passou).

Infelizmente, parece que ainda vamos precisar repetir tudo de novo.

E de novo.

E de novo.

Antes de ir: O pesquisador e curador Moacir dos Anjos, meu querido companheiro, escreveu um texto importante sobre o perigo de deixarmos de estar cansados para alcançarmos outro patamar: o esgotamento. No primeiro, há a chance de recuperar o corpo exausto. De pausar e depois seguir. No segundo, há o que eu entendo como uma quase morte. É sobre ela que precisamos falar.

Fabiana Moraes é jornalista com doutorado em sociologia e professora do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pesquisa poder, representação, hierarquização social e a relação jornalismo e subjetividade. Três vezes finalista do prêmio Jabuti, é vencedora de três prêmios Esso e um Petrobras de Jornalismo. É autora de seis livros, entre eles O Nascimento de Joicy e A pauta é uma arma de combate (Arquipélago Editorial). Foi repórter especial do Jornal do Commercio. É também colunista no The Intercept Brasil. Antes, UOL e piauí. Quando tem tempo, paga de DJ nos inferninhos de Recife.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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