Trecho de livro

E Se Eu Morrer Amanhã?

No livro da portuguesa Filipa Fonseca Silva, dois irmãos descobrem que a mãe idosa oculta um segredo: uma vida sexual ativa

Leonardo Neiva 30 de Janeiro de 2026

Para a maioria das pessoas, é difícil pensar na vida sexual dos pais. Então preferimos ignorar o assunto ou simplesmente fingir que ele não existe. E quando estamos falando de mães e pais idosos, o tabu é ainda maior. Já mostramos aqui na Gama que o julgamente sobre o tema costuma tirar do idoso o direito a uma vida sexual plena. Por isso, ao tratar da questão de forma tão direta, explícita e sem tabus no livro “E Se Eu Morrer Amanhã?” (Dublinense, 2026), a escritora portuguesa Filipa Fonseca Silva não só entretém e diverte, como levanta um debate importantíssimo ao longo do caminho.

A protagonista é Helena, uma viúva de 79 anos que mora apenas com um gato em seu pequeno apartamento. Vivendo uma existência independente de seus filhos adultos, ela passa a impressão de ser um retrato típico do envelhecimento pacato que imaginamos para nossos pais e avós. Mas esconde uma realidade íntima da qual ninguém suspeita. Helena prefere, por exemplo, manter-se distante dos filhos e netos, fazendo de tudo para evitar suas visitas; as quatro décadas aparentemente felizes que passou ao lado do marido na verdade foram, para ela, uma prisão repleta de insatisfações; e, ao menos na visão dos filhos, o mais surpreendente: ela viveu aventuras amorosas intensas ao longo de seus dez anos de viuvez.

O estopim para a revelação é um incêndio que retira Helena de seu apartamento, trazendo aos olhos chocados dos filhos uma caixa cheia de brinquedos sexuais. No início, eles se mostram incapazes de acreditar que a mãe não está simplesmente com demência — uma alternativa terrível mas previsível, que em alguns momentos eles parecem preferir —, e sim mantém uma vida amorosa e sexual ativa.

A mão leve da autora constrói uma personagem central carismática, ao mesmo tempo firme e divertida, que decide, sem culpa ou arrependimentos, aproveitar a vida ao máximo enquanto ainda lhe resta saúde. Também retrata com uma dose de sarcasmo o absurdo do preconceito que cerca a sexualidade na velhice. Não é difícil entender por que a obra foi uma das mais vendidas na Bienal do Livro do Rio de Janeiro 2025, numa edição da TAG Livros.


— Meu querido filho! Que bela surpresa! — exclamou Helena, dando um beijo afectuoso no rosto de Rui quando ele se aproximou. — Não sabia que vinhas visitar-nos hoje.

— Não vinha, mas tenho um assunto muito delicado para discutir consigo — respondeu Rui, com os olhos no chão.

— Dinheiro, aposto… Para estarem os dois com essa cara — disse Helena, fechando o frasco do verniz e abanicando as mãos no ar. — Já vos disse que sei muito bem tomar conta do meu dinheiro, e que, quando morrer, ainda há de sobrar bastante para vocês.

— Não se trata de dinheiro — disse Luísa.

— Então, o que se passa com os meus queridos filhos?

— Na verdade… — começou Rui, com cautela — eu e a Marília, como sabe, estivemos na sua casa no fim de semana passado, a arredar os móveis que sobraram da sala para o quarto, de modo a deixar o espaço livre para as reparações. Por causa do incêndio, lembra-se?

— Claro que me lembro, Rui, não sejas tolo.

— Certo. Então, estávamos no seu quarto e…

— A obra vai demorar mais tempo do que o previsto e vocês os dois não sabem o que fazer comigo, não é? — adiantou-se Helena. — Já vos disse que vou para um hotel.

Várias vezes, ao longo dos dez anos desde a morte do marido, tinha pensado em revelar aos filhos que não era a velhinha recatada pela qual se fizera passar

— Não é isso. É que, quando chegámos ao quarto… ao seu quarto, para guardar tudo… encontrámos uns objetos, digamos… surpreendentes — gaguejou Rui. — Foi no seu quarto… quer dizer, pendurado no teto… estava um objeto… e também… uma caixa… debaixo da cama.

Helena sobressaltou-se. Depois, corou. Fora completamente apanhada de surpresa. Como não se lembrara que tinha aquilo ali, à mercê dos olhares indiscretos dos filhos? Como não previra que, ao entrarem no quarto, poderiam descobrir os seus brinquedos? Como explicar-lhes o que significavam sem parecer completamente louca? Várias vezes, ao longo dos dez anos desde a morte do marido, tinha pensado em revelar aos filhos que não era a velhinha recatada pela qual se fizera passar. A velhinha frágil, cujo único prazer era comer uma taça de arroz-doce, mas só uma vez por semana, pois, mesmo à beira do fim, há que não abusar do açúcar. Porém, sempre que tentava ganhar coragem, acabava por concluir que o melhor era manter aquela espécie de vida dupla em segredo, até porque estava certa de que, em breve, se veria impossibilitada de prosseguir tais andanças e acabaria por se desfazer de toda a parafernália, agora encontrada. Bom, mas o mal estava feito e não havia como desfazê-lo. Fez um ar o mais natural possível e soltou um longo suspiro.

— E então? O que precisam de saber sobre isso?

— Sabe do que estamos a falar, mãezinha? — perguntou Luísa, falando mais alto e mais devagar.

— Sei, Luísa. E não precisas de falar comigo como se eu fosse surda e lerda. Para tua informação, não sou nem uma coisa nem outra — respondeu Helena, no tom que os pais adotam quando os filhos pequenos estão a ser inconvenientes. — Encontraram os meus brinquedos sexuais, não foi? E então? Estão à espera de que vos explique para que servem?

Encontraram os meus brinquedos sexuais, não foi? E então? Estão à espera de que vos explique para que servem?

— Mãezinha! — exclamou Luísa, num tom reprovador.

— O que foi?

— Para que é que, na sua idade, precisa daquelas coisas? — perguntou Rui, chocado com a resposta da mãe.

— Oh, céus! Com certeza que não é para limpar o pó!

Rui e Luísa entreolharam-se com espanto. Que era feito da mãezinha serena e sorridente, que ainda há momentos estava pacatamente a pintar as unhas? Que atitude era aquela de repente? Luísa ficou com os olhos marejados de lágrimas. Lera recentemente um artigo que afirmava que a demência frontotemporal incluía alterações vincadas de personalidade e de comportamento. Ali estava um exemplo real e ao vivo. A confirmação de todas as suas suspeitas. A mãezinha estava demente.

— Mas ainda usa aquelas coisas? Quer dizer… um baloiço? — continuou Rui, incrédulo.

— O que queres dizer com “ainda”?

— Não, Rui — interveio Luísa. — Com certeza que são coisas antigas que, enfim, usava com o paizinho, quando ele era vivo…

Helena explodiu num ataque de riso.

— Achas mesmo? Com o vosso pai? Alguma vez o Alberto seria capaz? Ai, não me façam rir. — E ria, cada vez mais ofegante. — O Alberto! Ah, ah, ah, ah, ah! Não posso! Não posso!

Ou a mãe tinha sérios distúrbios mentais ou estava perfeitamente lúcida, mas tinha uma vida sexual ativa. Ambas as hipóteses eram igualmente perturbadoras

— Mãezinha! Olhe que ainda lhe falta o ar — acudiu Luísa.

— Mãe! Controle-se! — exclamou Rui, com irritação.

Mas Helena não conseguia parar de rir. Rui e Luísa perceberam, então, que, das duas, uma: ou a mãe tinha sérios distúrbios mentais ou estava perfeitamente lúcida, mas tinha uma vida sexual ativa. Ambas as hipóteses eram igualmente perturbadoras.

Produto

  • E Se Eu Morrer Amanhã?
  • Filipa Fonseca Silva
  • Dublinense
  • 224 páginas

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