Trecho de livro

E Se Elas Fossem Para Moscou?

Chega às prateleiras texto revolucionário da dramaturga Christiane Jatahy, em que o palco e a tela de cinema conversam e se complementam

Leonardo Neiva 17 de Dezembro de 2025

Três irmãs se equilibram à beira do trampolim. Presas ao passado, preparam-se para dar um grande salto em direção ao futuro. O mote de “E Se Elas Fossem Para Moscou?” (Cobogó, 2025), da dramaturga e diretora teatral Christiane Jatahy, aproveita elementos da clássica peça “As Três Irmãs”, do russo Anton Tchekhov (1860-1904). Mas o desenvolvimento da obra de Jatahy, cujo texto acaba de ser lançado em livro, é profundamente original. E ele conversa diretamente com a pesquisa da autora sobre a relação entre o teatro e o cinema nos palcos.

Criada originalmente em 2014 e vencedora do Prêmio Shell de melhor direção para Jatahy e melhor atriz para Stella Rabello, a peça se inicia com os eventos que cercam a morte do pai das protagonistas. Para narrá-los, no entanto, a dramaturga lança mão de um formato inusitado: enquanto o espetáculo é encenado, a ação é captada por três câmeras integradas às cenas — cada uma em posse de uma irmã. Essas imagens são montadas ao vivo e enviadas para uma sala de cinema. Ou seja, a plateia acompanha a história em dois lugares e meios distintos, num jogo de espelhos em que teatro e cinema se mesclam e se confundem.

E a novidade da proposta vai além. Enquanto Irina carrega a própria câmera, numa filmagem de tons documentais, Olga é acompanhada por uma que se move no tripé, revelando o cenário. Já Macha se conecta amorosamente com o aparelho, criando uma dualidade em que, no palco, ela parece se relacionar com o operador da câmera, e na tela, com os próprios espectadores.

Numa edição bilíngue, em português e francês — com tradução de Claudia Petagna e Thomas Walgrave —, o leitor consegue acompanhar as sutilezas e complexidades da peça, em que duas obras e duas artes se complementam. E também testemunhar a jornada dessas três personagens em busca de finalmente se tornar protagonistas de suas próprias histórias.


OLGA:
É como se estivéssemos na beira do trampolim de uma piscina. A água embaixo azul, cristalina, brilhando, e nas nossas costas o passado em fila nos empurrando para a frente, ao mesmo tempo que segura o salto.

Cinema
Água brilhando.

OLGA:
E, depois do salto, o longo tempo no ar e os minutos que parecem ser eternos.

Cinema
Close em Maria mergulhando de costas na piscina.

OLGA:
Mudar é como morrer um pouco. A gente nunca mais vai ser o mesmo.

Cinema
Em primeiro plano, Maria boia, corpo inteiro na água. Pela parede transparente do aquário, vemos Olga e Irina sentadas de costas no sofá, e o público do teatro ao fundo. Um técnico entra e posiciona uma das câmeras nas costas do sofá. Em seguida, um dos painéis do cenário é movido, cobrindo o fundo do quadro.
Maria se levanta. Corte para um close de Olga.

OLGA:
[olhando para a câmera atrás dela] Talvez isso não seja uma peça. Talvez não seja um filme, também. Ou, talvez, sejam as duas coisas ao mesmo tempo… E é neste espaço, neste entre, que a gente vai tentar se reinventar.

Cinema
Irina e Olga olham para a câmera que está atrás delas. Vemos o público do teatro mais próximo.

Mudar é como morrer um pouco. A gente nunca mais vai ser o mesmo

IRINA:
E vocês que estão aí, vendo esse filme no mesmo instante em que ele é feito aqui, é como se vocês estivessem do outro lado da mesma moeda. Estamos em dois espaços virtuais e reais, ao mesmo tempo. Um é a utopia do outro.

Olga fala para as pessoas que estão no teatro se referindo às pessoas que estão no cinema.

OLGA:
Nós somos o futuro deles, mas, quando eles nos veem, já somos o passado. E é nessa linha tênue, chamada presente, que a gente vai tentar dar o salto.

Cinema
Maquete de uma casa com as mesmas cores e estética do cenário.
A casa tem um pequeno jardim na frente. Dia nublado.

Teatro
Os painéis/paredes são organizados formando um dos lados de uma sala. Paredes, estante, janela e uma porta para o jardim.
Irina se levanta do sofá. Olga continua sentada, falando com o público.

OLGA:
Mas o que é, exatamente, “passado”? Aquilo que já passou? Passou? O passado, às vezes, é mais real do que o presente, que só adquire peso material através da memória…

Teatro/Cinema
Irina “entra” na sala da casa. Ela tem uma pequena câmera na mão. Ela filma os detalhes, coisas que estão sobre a mesa, livros na estante, fotos de família. Ela é vista no cinema através da câmera 1, que está atrás do vidro da janela. Maria, filmada pela câ mera 2, entra no jardim com o cabelo molhado e com um guarda-chuva vermelho aberto. Um técnico, em cima de uma pequena escada, a molha, criando o efeito de chuva.


Olga fala para o público. A voz de Olga é em off no filme. Barulho de chuva.

O passado, às vezes, é mais real do que o presente, que só adquire peso material através da memória…

OLGA:
Começou… começou no dia da morte do papai… a partir daquele dia alguma coisa se rompeu… parecia que eu não ia sobreviver… chovia muito… era aniversário da Irina, ela estava fazendo 19 anos… meu pai saiu para buscar o bolo… e quando ele estava assim, na porta para sair, eu senti tanta vontade de falar uma coisa para ele… mas foi tão rápida essa sensação… foi um instante, e passou, e depois… depois… chegou a notícia de que ele tinha morrido, ele teve um enfarte no meio da rua… eu só me lembro da Irina, ela ficou deitada no chão, parecia uma morta, ela não conseguia nem se levantar. Meu pai tinha dado uma câmera para ela de aniversário, e ela estava filmando tudo o que ela via… e a Maria ficou paralisada, branca, como se, de repente, todo o sangue tivesse saído do corpo dela… e ela deu um grito… o grito que ela…

Durante a fala de Olga, o telefone da sala começa a tocar insistentemente.

Cinema
Irina filma o telefone que está em cima de uma mesa do lado da janela.

OLGA:
Maria, para de assobiar! O que você tá fazendo na chuva? Sai daí! O telefone tá tocando. Você não tá ouvindo o telefone tocar, não? Atende para mim.

Maria fecha o guarda-chuva e entra.

MARIA:
Ô Irina, o telefone tá tocando, você não tá ouvindo, não?

IRINA:
Não. Eu estava prestando atenção em outra coisa.

Cinema
Irina filma o telefone e, em close, a mão de Maria pegando o fone. Maria atende o telefone. Ela vira de costas para a câmera de Irina e de frente para a câmera 2, que está atrás da janela.

Começou no dia da morte do papai… a partir daquele dia alguma coisa se rompeu… parecia que eu não ia sobreviver…

MARIA:
Alô… Sim, sou a filha dele, pode falar.

Teatro/Cinema
Maria escuta uma notícia terrível. Chocada, ela se vira para Irina, que percebe que algo grave aconteceu.

MARIA:
[para Irina] Para! [ela vai em direção a Olga] Olga, vem cá. Vem cá!!!

Cinema
Irina cobre a lente com a mão. Blackout no cinema
.

Produto

  • E Se Elas Fossem Para Moscou?
  • Christiane Jatahy
  • Cobogó
  • 248 páginas

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