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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

O trauma na infância: não dá para evitar, mas é possível reparar

Especialistas explicam como os traumas se formam, o que diferencia frustração de ferida emocional profunda e como autoconhecimento, além de vínculos seguros e afetuosos, ajudam pais e mães a quebrar ciclos traumáticos

Ana Elisa Faria 30 de Novembro de 2025

O trauma na infância: não dá para evitar, mas é possível reparar

Ana Elisa Faria 30 de Novembro de 2025
Ilustração de Isabela Durão

Especialistas explicam como os traumas se formam, o que diferencia frustração de ferida emocional profunda e como autoconhecimento, além de vínculos seguros e afetuosos, ajudam pais e mães a quebrar ciclos traumáticos

Não precisa muito para a culpa aparecer nas conversas entre pais e mães. Um desfralde no momento errado, uma rotina de sono atrapalhada, uma explosão na hora da lição de casa ou durante o banho, separações e mudanças de escola entram nessa conta. A pergunta que vem em seguida costuma ser a mesma: será que traumatizei meu filho? Em meio a posts alarmistas nas redes sociais, cresce a sensação de que qualquer gesto, ou atitude, pode “estragar” a infância dos rebentos.

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Da mesma forma, hoje há maior consciência de que algumas experiências vividas nessa fase não passam incólumes. Violência, negligência, humilhações, lutos sem amparo ou abandono podem deixar marcas profundas no corpo e na mente de pequenos e pequenas, capazes de se estender pela vida adulta na forma de ansiedade, depressão, dificuldade de se relacionar e uma visão de mundo guiada pelo medo.

A partir desse cenário, questionamentos aparecem: como se dá o trauma na infância? Estamos falando de grandes tragédias ou também de acontecimentos aparentemente triviais, mas vivenciados por meninos e meninas com muita intensidade, com pouca idade ou por bastante tempo? E até que ponto é possível “reparar” o que foi vivido lá atrás?

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Para responder a essas questões, Gama conversou com a psicóloga Ediane Ribeiro, especialista em trauma e autora de “Os Tesouros que Deixamos pelo Caminho” (Paidós, 2024), com o psiquiatra e analista do comportamento Álvaro Cabral Araújo, colaborador e pesquisador do Programa de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP, e com a neuropedagoga e educadora parental Maya Eigenmann, especializada em educação positiva que tem dois livros que tratam do tema, “A Raiva Não Educa. A Calma Educa” e “Pais Feridos. Filhos Sobreviventes” (Astral Cultural, 2022 e 2023).

Os profissionais ajudam a entender como os traumas se formam, porque eles são mais comuns — e cotidianos — do que imaginamos e por que o foco de pais e cuidadores não deveria ser evitar qualquer traumatização, e sim construir vínculos capazes de reparar e acolher as feridas inevitáveis da existência.

Não é o que aconteceu, mas o que se sentiu

Quando se fala em trauma na infância, a imagem mais comum ainda são cenas extremas de abusos, violências, negligência grave. Esses eventos são, de fato, potencialmente traumáticos, mas o conceito é mais amplo, conforme explica Ediane Ribeiro.

Ela propõe uma definição simples para um fenômeno complexo: trata-se de uma experiência interna de sobrecarga de estresse, diante de algo vivido rápido demais, cedo demais — sobretudo na primeira década de vida — ou por tempo prolongado demais. Em geral, a emoção que organiza tudo isso é o medo, acompanhado de vergonha, culpa e desamparo. “O trauma não é o evento que aconteceu com a pessoa, mas o que aconteceu dentro dela a partir desse evento”, diz a psicóloga.

Adversidades, ausências e heranças

Para organizar o tema, Ediane Ribeiro divide o trauma infantil em três grupos. O primeiro são as experiências adversas na infância, descritas em um estudo clássico chamado ACE (Adverse Childhood Experiences), que inicialmente mapeou dez situações de risco, como abusos físicos, emocionais e sexuais, testemunhar violência doméstica e presenciar, no lar, o uso problemático de álcool e drogas por pais e parentes. Com o tempo, a lista foi ampliada para incluir violências estruturais e coletivas, como racismo, homofobia e bullying.

Na infância, o trauma vem também da ausência de vivências positivas

O segundo grupo trata da ausência de experiências positivas. “Mesmo que a criança não passe por adversidades, a falta de um vínculo seguro, de espaço para a brincadeira, de qualidade nutricional e de bons estímulos afetivos e educacionais também são consideradas experiências potencialmente traumáticas. Na infância, o trauma vem também da ausência de vivências positivas”, relata a especialista.

O terceiro se refere aos traumas transgeracionais, entendidos como uma vulnerabilidade biológica ao estresse. Por exemplo: bebês de gestantes expostas a circunstâncias extremas, filhos de pessoas negras e de veteranos de guerra podem nascer com um desbalanceamento no eixo do estresse, o que causa uma vulnerabilidade à traumatização, sem significar que herdam o trauma em si.

Álvaro Cabral Araújo reforça, no entanto, que, na psiquiatria, há um entendimento mais estrito do assunto, usado para o diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). “Para falar em TEPT, é preciso que a pessoa tenha sido exposta a um evento que envolva morte ou ameaça de morte, risco à integridade física ou violência sexual.” Assaltos, acidentes graves, agressões e abusos entram aqui.

Pequenas experiências, grandes impactos

A partir dessas vulnerabilidades, o que acontece no dia a dia comum ganha outro peso. Um bullying na escola, uma vergonha em sala de aula, um luto vivido em silêncio ou crises financeiras em casa podem ser percebidos pela menina e pelo menino como ameaças importantes. “O trauma está muito mais presente no nosso cotidiano do que podemos imaginar. Ele é muito mais o ordinário da vida do que o extraordinário”, afirma Ediane Ribeiro.

Álvaro Cabral Araújo lembra que, na infância, vivências aparentemente “menores”, como conflitos na escola — a intimidação por parte de um amigo, o receio de ser excluída do grupo ou de ser ridicularizada na frente da turma —, podem ser interpretadas como situações ameaçadoras importantes. O psiquiatra fala sobre uma hipotética ameaça feita por um coleguinha que, para a criança, já pode ser internalizada como uma ameaça violenta.

O impacto aumenta quando a criança atravessa esses momentos sozinha, sem alguém que acolha, escute e ajude a nomear o que ela sente. Nesses contextos, a validação emocional é central. “Exemplificando: aquela criança que toda vez que chora alguém pede para ela ‘engolir o choro’. Trata-se da invalidação de uma emoção. Assim, ela vai aprender o que é seguro expor nessa relação e o que não é. E vai começar a editar partes. Isso é um processo de traumatização”, comenta Ribeiro.

Choque e desenvolvimento

Clinicamente, Ediane Ribeiro fala em dois tipos principais de trauma infantil: o de choque, ligado a um evento ou período específico — violência, abuso, negligência grave, acidente, luto dramático — e costuma se manifestar por mudanças bruscas de comportamento, como retraimento, agressividade, alterações no sono, na alimentação e na socialização, e o de desenvolvimento, que se forma em relações cotidianas em que a criança se sente pouco vista, pouco validada, pouco acolhida.

Os efeitos dessa segunda categoria tendem a aparecer mais tarde, em traços de personalidade, como a timidez extrema, na dependência afetiva, na repetição de relações disfuncionais ou em compulsões.

A psicóloga dá um exemplo pessoal. “Passei a infância e a adolescência achando que era tímida, mas eu não era tímida, eu era assustada. Aprendi que o olhar e o julgamento do outro eram perigosos para mim por conta de relacionamentos que tive quando pequena”, recorda.

Frustrações e traumas: coisas da vida

Quando o assunto é parentalidade, Ribeiro costuma dizer, brincando: “Não tente não traumatizar o seu filho, porque ele vai se traumatizar”. “O trauma é ordinário, faz parte da vida”, complementa.

Temos que proteger as crianças de abusos, de crimes. Mas o trauma faz parte da relação, assim como o reparo

A ideia não é naturalizar violências ou negligências, mas lembrar que viver inclui experiências dolorosas inevitáveis. “Temos que proteger as crianças de abusos, de crimes. Mas o trauma faz parte da relação, assim como o reparo também faz.”

A neuropedagoga e educadora parental Maya Eigenmann acrescenta um cuidado essencial sobre a noção que muitos têm de “frustração necessária”. “As frustrações acontecem organicamente pela vida. O nosso papel é apoiar as crianças a atravessá-las quando essas situações ocorrerem”.

Para ela, quando adultos interpretam o “necessário” como algo que deve ser induzido — negar colo de propósito, deixar chorar sozinho em um canto — o risco é ensinar abandono emocional. “Isso é totalmente errado, é material potencialmente traumático”, frisa.

Limites, medo e corregulação

Por outro lado, o pavor de traumatizar os filhos faz muitas pessoas quererem proteger os pequenos de qualquer frustração, o que aumenta a ansiedade dos próprios adultos. “O medo e o pânico deixam esses pais com o sistema de alerta ligado”, observa Ediane Ribeiro. E, nesse estado, desenvolve ela, é mais difícil oferecer o que realmente protege: um adulto disponível e calmo, capaz de acolher e ajudar a regular as emoções da criança.

Limites, quando claros e proporcionais, são protetores. “Regras, quando adequadas e proporcionais, são bastante protetoras para o desenvolvimento psíquico da criança. Elas implicam frustrações, mas isso é natural”, diz Álvaro Cabral Araújo. O que machuca, e pode levar à traumatização, não é o limite, e sim o modo como às vezes ele é imposto — com violência física, chacoalhando, gritando, humilhando.

Maya Eigenmann usa uma metáfora: crises emocionais são tempestades internas, e o papel do adulto é ficar no barco com a criança, não mandá-la atravessar sozinha. Na prática, isso é corregulação, ou seja, um sistema nervoso mais maduro ajudando o outro a se acalmar. É o colo, a escuta, a nomeação do que está acontecendo.

“Mais importante do que o que uma mãe ou um pai fazem, ou falam, é o estado emocional a partir do qual se relacionam com a criança”, pontua Ribeiro. Como lembra Eigenmann, “na hora da raiva, não dá para educar”: nesses momentos, recuar alguns instantes, respirar e retomar depois é, muitas vezes, a atitude mais responsável.

Como quebrar ciclos traumáticos

Muitos pais que viveram violências ou foram negligenciados temem repetir padrões. Parte dessa transmissão, conforme conta o psiquiatra Álvaro Cabral Araújo, se dá pela falta de referências. “Se, na infância, a pessoa não teve contato com modelos afetuosos, cuidadosos e com limites impostos de forma não ameaçadora, talvez ela nem tenha repertório para agir diferente com os filhos”, avalia o médico.

Para Eigenmann, quebrar ciclos começa com autoconhecimento. “Eu só posso mudar aquilo sobre o que tenho consciência”, grifa. “Posso estar reproduzindo traumas da minha própria vida e nem perceber porque eu não tenho consciência disso. É preciso, portanto, passar por um processo no qual a venda dos olhos é retirada para perceber as nossas violências para com as nossas crianças”, finaliza a educadora parental, que sugere que pais e mães leiam sobre parentalidade baseada em evidências, busquem terapia e questionem práticas autoritárias.

De acordo com os especialistas, não existe infância blindada nem criação sem erros, entretanto, o fundamental é focar na prevenção, na reparação e no cuidado.

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