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Juana Gómez

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Conversas

Benjamín Labatut: "Todo controle é sinônimo de medo"

Numa realidade impossível de compreender ou controlar, autor de “Quando Deixamos de Entender o Mundo” sugere que o melhor caminho é permitir se perder

Leonardo Neiva 15 de Março de 2026

Benjamín Labatut: “Todo controle é sinônimo de medo”

Leonardo Neiva 15 de Março de 2026
Juana Gómez

Numa realidade impossível de compreender ou controlar, autor de “Quando Deixamos de Entender o Mundo” sugere que o melhor caminho é permitir se perder

“Abandonai toda a esperança, vós que entrais aqui”. Ainda que não esteja diretamente presente nas páginas de “Maniac” (Todavia, 2023), a citação de “A Divina Comédia”, que Dante Alighieri imaginou inscrita sobre os portões do inferno, cairia como uma luva sobre a desesperançosa obra do escritor chileno Benjamín Labatut. No prólogo do livro que narra a trajetória do brilhante matemático húngaro John Von Neumann, precursor dos computadores e da Inteligência Artificial, o autor resgata a história das primeiras partidas de xadrez e Go — jogo de estratégia chinês milenar — entre seres humanos e uma IA.

Para Labatut, se no futuro historiadores buscarem “o primeiro indício de uma verdadeira inteligência artificial“, eles o encontrarão em um único lance entre o lendário jogador de Go Lee Sedol e a IA AlphaGo, disputado em 2016. Um lance contraintuitivo da máquina, em que nenhum jogador humano teria pensado, mas que levou a uma vitória acachapante sobre seu formidável oponente. Um lance que mostrava que, além de fazer cálculos impensáveis para nós, a IA também era capaz de ser extremamente criativa.

Pouco depois, um sucessor do AlphaGo foi treinado recebendo as regras do jogo e jogando contra si mesmo, sem nenhuma base humana. Em algumas horas, ele se tornou não só melhor do que todos os jogadores de carne e osso como saiu invicto de uma série de 100 partidas contra o AlphaGo que havia aniquilado Lee Sedol. Uma prova de que os seres humanos não eram apenas inferiores, mas completamente desnecessários para o avanço da máquina.

Este é exatamente o tipo de história que fascina Labatut, autor que nasceu em Rotterdam e vive em Santiago desde os 14 anos. Em seu livro finalista do International Booker Prize, “Quando Deixamos de Entender o Mundo” (Todavia, 2022), ele escreve sobre químicos e físicos tão geniais que suas descobertas serviram principalmente para nos mostrar o quanto estamos distantes de compreender nossa realidade, e muito menos de controlá-la.

“A mente humana é inerentemente incapaz de entender o todo em que está imersa. Por isso, há pequenas ilhas de compreensão enquanto continuamos a nos afogar em um maravilhoso mar de ignorância e mistério”, afirma em entrevista a Gama.

Num momento em que a ONU discute o controle humano da IA, um conto como “Azul da Prússia”, que abre o livro, pode ser uma leitura desalentadora. Ele nos apresenta ao químico alemão Fritz Haber (1868-1934), que desenvolveu uma técnica para extrair nitrogênio do ar. Com isso, permitiu a produção em massa de fertilizantes, salvando milhões de vidas; mas também criou a base para explosivos que mataram milhões na Primeira Guerra Mundial. O texto ilustra a incapacidade humana de controlar o avanço e a aplicação da ciência, mesmo quando esta tem potencial de causar enorme prejuízo à nossa vida.

Mas é em “A Pedra da Loucura” (Todavia, 2022), curtíssimo volume de dois ensaios, que Labatut aborda mais diretamente essa incapacidade de compreensão e controle aplicada à existência contemporânea. No primeiro desses textos, “A extração da pedra da loucura”, o escritor lida com algo que vivemos diariamente: a atual desconexão da experiência humana, o absurdo do noticiário e a impressão de que somos cada vez menos aptos a entender um universo em constante mudança, mas que parece vaguear em direções desconhecidas. “A humanidade sempre temeu o caos, embora ele agora tenha se tornado tão comum e onipresente que talvez devêssemos colocá-lo no centro de uma nova visão de mundo”, sugere o autor numa passagem da obra.

Atualmente, o chileno vem trabalhando em um novo livro sobre a história da lógica, que deve fechar uma trilogia informal ao lado de “Quando Deixamos de Entender o Mundo” e “Maniac”. No papo com Gama a seguir, Labatut fala ainda sobre o elo entre entendimento e controle, a tendência humana de alucinar e nossa maravilhosa incapacidade de botar em palavras as grandes sabedorias deste mundo.

  • G |A tentativa de entender e controlar a realidade é uma questão que aparece com frequência nos seus livros. Por que esse tema tão central na sua obra?

    Benjamín Labatut |

    Sinto que o desejo de compreender o mundo está ligado ao de controlá-lo. Porque na mente humana essas duas coisas, controle e compreensão, estão muito próximas. É um impulso muito forte, que nos leva, quando bebês, a pegar coisas e colocá-las na boca. O que você segura na mão ou coloca na boca é compreendido de maneira muito profunda, íntima e complexa. É uma parte da realidade da qual você participa. O problema é que existe outro tipo de compreensão mais amplo, ligado à abstração, que enxerga o sistema ao qual pertence esse objeto. Essas duas modalidades trabalham juntas, mas têm diferenças fundamentais. Quanto mais você segura uma coisa na boca, menos consegue vê-la. Quanto mais você manipula algo, controla e o faz servir aos seus propósitos, mais distante ele se torna dessa outra compreensão que o conecta ao resto do mundo. A ciência dá grandes saltos na medida em que adquire uma visão mais ampla do sistema. Graças a essa compreensão abstrata, começamos a controlar as coisas. Ficamos confusos porque para nós, seres humanos, controle e compreensão estão ligados. Mas normalmente o que controlamos limita o que compreendemos. O que se compreende de forma profunda geralmente não pode ser expresso em palavras, porque é um tipo de conhecimento que abrange você e o mundo. Para o indivíduo, esse é um enorme ponto cego.

  • G |Um ponto chave de “Quando Deixamos de Entender o Mundo” acontece no embate entre Einstein e Heisenberg em Solvay sobre o papel do acaso na física. É uma questão que opõe fundamentalmente razão e loucura na ciência?

    BL |

    Vivemos habitando coisas que nos servem, mas não entendemos completamente quase nada do que fazemos. Somos aprisionados por uma espécie de feitiço. A sabedoria mais simples é que existem, sim, coisas que compreendemos a fundo. Conhecemos o movimento de partículas elementares com uma precisão absurda, quase mágica. Ao mesmo tempo, a mente humana é inerentemente incapaz de entender o todo em que está imersa. Por isso, há pequenas ilhas de compreensão enquanto continuamos a nos afogar em um maravilhoso mar de ignorância e mistério. Para mim, o que ocorreu na palestra de Solvay foi como se um monge budista tivesse entrado no recinto. O que está acontecendo? Por que abandonamos um mundo de matéria tão sólida e entramos neste reino que não se comporta como nenhum outro?

  • G |Você mencionou não entendermos a maioria das coisas que usamos. Quando lemos as notícias atuais, fica também uma impressão de que estamos perdendo o controle do mundo. Para o ser humano, é possível abrir mão dessa ideia de controle?

    BL |

    Toda informação está disponível, se você quiser compreender o mundo a partir de uma perspectiva taoísta, estudar romances ou química molecular. Hoje a compreensão que se pode ter de qualquer fenômeno é potencialmente maior pela perspectiva da história da humanidade. Esquecemos disso, porque as pessoas vivem presas num mundo de TikTok e algoritmos. Quando comecei a estudar budismo, havia um monge que dava palestras sobre o Dharma. Hoje, tudo o que você quiser saber sobre o assunto está disponível no YouTube ou em livros. Mas as formas de compreender a realidade não são apenas as da mente. Talvez por isso estejamos tão perdidos. E continuaremos perdidos, porque sempre estivemos perdidos. Estudo a trajetória de grandes e vorazes cientistas que queriam entender tudo. Mas, quando você observa a vida deles, percebe que cada pessoa é limitada por suas circunstâncias, pelo lugar no mundo onde vive, pelas pessoas que ama e a cultura à qual pertence. Então, você tem que se perder com estilo. É como quando você aprende a dançar ou a surfar, ou mesmo quando aprende a pensar. O importante é se entregar com estilo. Isso é tudo. Tem que saber se perder.

  • G |Parece o caos contemporâneo que você descreve em “A Pedra da Loucura”, um mundo onde perdemos a ideia de uma narrativa central. O que nos trouxe a este momento?

    BL |

    Estamos passando por um período de crise tão imenso que não vale a pena dar ouvidos a quem acha que sabe para onde está indo ou onde estamos. Quando eu era criança, no Chile, as pessoas queriam algo novo, que mudasse tudo. Eu e meus amigos ansiávamos por transformação, por deixar coisas para trás. Mas é quando essas fantasias se tornam realidade que todos ficamos apavorados. Meu Deus, como o mundo era lindo quando todos pensávamos da mesma forma. Ou quando era fácil distinguir os vilões: os militares, aqueles que nos matavam. Agora, o mundo se revela na complexidade que sempre teve — só que há momentos em que temos a sorte de esquecê-la.

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  • G |Parece se aproximar o instante em que vai ser impossível separar imagens reais das que foram criadas para parecerem reais. Estamos prestes a desenvolver um novo conceito de realidade?

    BL |

    Por mais que nossa capacidade de criar uma realidade plausível mude, a mente é que constrói sua própria imagem da realidade. Se quiser acreditar que Jesus Cristo apareceu numa torrada, você vai acreditar, seja em 1930 ou em 2050. Os seres humanos são alucinatórios, e a única lucidez possível é estar consciente de que você está alucinando. Significa que a realidade continuará a ficar cada vez mais estranha. Não devemos confiar ingenuamente no que o mundo nos apresenta, nem em nossas próprias mentes. Em momentos muito breves da vida, habitei esse espaço paranoico de suspeita total. Não é um estado possível. Os seres humanos são muito bons em buscar reduzir a incerteza, transformando a complexidade em algo simples. Então, o valor da verdade das imagens foi invertido. Antes, buscávamos uma imagem da realidade. Agora, estamos desenvolvendo a abordagem oposta: toda imagem é falsa. É como se as coisas tivessem virado de cabeça para baixo. Tudo que os políticos dizem agora é falso. Estamos desenvolvendo uma versão distorcida, estranha e maravilhosa do valor da verdade. Talvez comecemos a aplicar uma lógica semelhante à da vida íntima. Sua mente está sempre num estado de incerteza. Ele ou ela me ama? Sim, não, não sei. É como se nosso verdadeiro eu não pudesse ser reduzido a uma operação binária e lógica que lhe desse um único valor: isso é verdadeiro ou falso. Somos análogos, contínuos. Somos o mundo, e o mundo não pode ser reduzido a operações binárias. É como se a realidade que habitamos, em um nível político e midiático, estivesse mais parecida com a complexa vida cotidiana. E sua mente habita esse espaço maravilhoso e aterrador de incerteza o tempo todo.

  • G |O prólogo de “Maniac”, sobre IAs que não precisam mais da experiência humana para aprender xadrez, é assustador. É possível que a IA no futuro não dependa mais da base humana, que nos tornemos 100% descartáveis?

    BL |

    Os seres humanos são descartáveis. Não significa que não somos importantes, que não somos um milagre. Mas a primeira coisa é aceitar: ok, não somos necessários. Um futuro em que os seres humanos não têm lugar nos assusta porque esse é o presente. Estamos vivendo num lugar onde a humanidade não tem valor do ponto de vista econômico, político e militar. E perdemos nosso valor porque desenvolvemos técnicas que nos permitem não viver no mundo, não sermos animais. Desenvolvemos isso a tal ponto, em nossa ânsia de escapar da morte, que estamos mais perto dela do que nunca. Porque, quando você foge de algo, acaba encontrando a mesma coisa no fim do caminho. Mas eu vejo, em todas as outras áreas, que ainda temos um valor que ninguém pode nos tirar. Se você perguntar a qualquer pessoa quais são as coisas que ela busca, ela dirá: amor, sexo, prazer, experiências, viagens, natureza, beleza, arte. Em todas essas áreas, o ser humano permanece a única fonte de valor. Você pode mostrar a mulher mais bonita a um gato e ele será indiferente. Se jogar uma pintura de Pollock na selva, os animais a comerão. Há coisas valiosas porque têm valor para os humanos, e elas continuarão a existir.

  • G |Mas o que fazer com esse medo constante de sermos substituídos?

    BL |

    Nosso medo de que a IA nos substitua é o mesmo de sempre, de que existe um outro mais poderoso que nos ameaça. Não estou negando que seja realidade. O que digo é: você pode ser substituído por uma pessoa mais jovem, ou há um ladrão esperando na esquina — vai ser um bandido diferente, mas estamos no mesmo lugar de sempre, encarando a morte à beira do abismo e tentando viver da maneira mais plena possível dadas as circunstâncias. Isso ainda está sob nosso controle. Mesmo com a guerra no Irã, você vai continuar vivendo a vida mais significativa possível. Nós latino-americanos conhecemos o inferno, sabemos que ele vem e vai, mas não desaparece completamente. Só que existe um inferno onde há mais possibilidades de ser feliz.

  • G |Seu conto “Azul da Prússia” fala da dificuldade de controlar o avanço tecnológico, com uma descoberta que causou mortes e salvou vidas. Avanços na ciência, como a IA, estão sempre além do nosso controle, mesmo quando podem ser prejudiciais?

    BL |

    Como sociedade, como indivíduos, estamos desesperados para exercer o máximo de controle possível sobre nossas vidas por medo. Todo controle é sinônimo de medo. Como o maior medo é o medo da morte, ninguém consegue se libertar da necessidade de controlar. Mas nas grandes histórias da humanidade, vemos seres humanos corajosos que abdicam do controle. Eles não são prisioneiros da sede de poder, são capazes de aceitar sua humanidade. Para mim, humanidade — numa perspectiva muito cristã — é fraqueza. Ser humano é ser frágil. É ter consciência de que o mundo e as pessoas que te amam te sustentam. Você pode estar na posição mais privilegiada do planeta e ser infeliz se não entender isso. O desejo humano de controle, da perspectiva do indivíduo ou da sociedade, é saber. Se eu souber tudo, serei capaz de fazer tudo. Isso é uma piada. Quando você sabe tudo, não tem perspectiva, nenhum ponto de vista pelo qual entender a realidade. Compreensão e sabedoria estão ligadas a limitações e fraqueza, mais do que ao poder. Quando Buda atinge a iluminação, ele não a alcança desenvolvendo poderes como o Super-Homem. Buda se ilumina no instante em que compreende o mecanismo falho que opera nossas mentes. É um reconhecimento do erro.

  • G |Seus livros ilustram essa impossibilidade de saber tudo…

    BL |

    A maioria das minhas histórias mostra os grandes fracassos desse desejo de controle, e como continuamos sobrevivendo a eles. Também mostra que as coisas continuarão horríveis, vamos seguir enfrentando um apocalipse após o outro. O único consolo é que existem aspectos eternos na realidade — mas eles não são bons. Você e tudo o que você ama vai morrer. Se viver uma vida longa, você vai envelhecer e perder o controle do seu esfíncter. As pessoas que mais querem controlar o futuro são aquelas que não conseguem controlar o próprio esfíncter, um bando de velhos de merda que, quando começam a se cagar nas calças, pensam: vamos invadir o país vizinho. Estão morrendo de medo, daí surge a sede de poder. E isso é algo com que todos têm que lidar. Poderosos, não poderosos, gênios e tolos. Essa é a condição humana.

  • G |Em “A Pedra da Loucura”, você conta a história de uma blogueira que acreditava que o mundo inteiro a estava plagiando. Hoje, é uma preocupação real num momento em que a ideia de autoria parece fugir do nosso controle…

    BL |

    Essa mulher maluca e maravilhosa é uma profetisa. Tudo o que ela dizia era delirante — e tudo se concretizou mais cedo do que poderíamos imaginar. Escrevo sobre loucura porque a perspectiva desvinculada da realidade, infinitamente criativa, monstruosa e irracional que os seres humanos possuem, embora possa causar danos horríveis, nos traz visões da realidade. É valorizar o fenômeno humano em sua totalidade. Veja os líderes que elegemos, gente que sofre colapsos psiquiátricos ao vivo. Milhões de pessoas os observam e dizem: ele tem que nos liderar. E o que acontece? Nós sofremos, sobrevivemos e continuamos. Não são as pessoas mais capazes, nem as mais inteligentes que nos lideram. Muitas vezes são as mais ambiciosas e sedentas de poder. Por outro lado, os cinco maiores sábios da humanidade não têm uma única palavra escrita. Uma das poucas coisas que considero um consolo é que grandes verdades nunca são expressas em palavras. Elas transcendem nosso circuito, mas muita gente carrega essa sabedoria sem nem saber. Esse fascínio pelos loucos, por aqueles que sofrem, que perdem a cabeça, se deve ao fato de eu enxergar muito valor nisso. E eu não teria conseguido escrever nada do que escrevi se não tivesse perdido a cabeça de alguma forma.

  • G |Falando em escrita, quais seus próximos projetos?

    BL |

    Estou finalizando o terceiro livro do que para mim é uma trilogia. “Quando Deixamos de Entender o Mundo” começa com a química e avança para a física; “Maniac” trata da matemática; e meu novo livro é sobre a lógica. A lógica é a alquimia que permeia todas as coisas e pessoas no mundo moderno. É como um espírito que habita e possibilita o mundo em que vivemos. E a história de como esse espírito tomou forma é, para mim, a história fundamental da modernidade. Começa no século 19, vai até o 21, e provavelmente vai continuar. Esses novos seres que estamos criando são isso: uma série de operações lógicas se transformando em linguagem. E, se estamos tão apavorados, é bom saber o nome do diabo. Para mim, vai ser isso, uma demonologia da lógica moderna.

Produto

  • Maniac
  • Benjamín Labatut (trad. Paloma Vidal)
  • Todavia
  • 360 páginas

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