Tá sem tempo para amar?
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Reportagem

Tá sem tempo para o amor?

A rotina corrida, as inúmeras distrações e uma visão capitalista do amor têm reduzido a prioridade dos relacionamentos na nossa vida

Leonardo Neiva 08 de Junho de 2025

Tá sem tempo para o amor?

Leonardo Neiva 08 de Junho de 2025

A rotina corrida, as inúmeras distrações e uma visão capitalista do amor têm reduzido a prioridade dos relacionamentos na nossa vida

Todos somos capazes de citar algum exemplo típico de personagem de comédia romântica. O gênero nos apresentou a indivíduos preocupados demais com seus trabalhos, sua independência ou seu modo de vida para embarcar numa relação amorosa — em muitos casos, perpetuando alguns estereótipos machistas. Isso tudo, é claro, só até aparecer a pessoa certa na vida desse personagem… e o resto da história nós já conhecemos.

Hoje, nosso tempo também está cada vez mais ocupado. Queremos progredir no trabalho, fortalecer nossa imagem online, cuidar da saúde física e mental e manter as relações em dia, mesmo que só por respostas curtas no Whatsapp. Nesse meio tempo, vamos nos distraindo com as notificações das redes, com o mais novo debate público de pouca relevância ou com algum app da moda. No meio disso tudo, sobra espaço para os relacionamentos amorosos? Sem nos darmos conta, estamos vivendo o primeiro ato de uma comédia romântica: aquele em que o romance é sempre uma promessa futura, mas nunca concretizada?

A reflexão acima contém uma certa dose de exagero, mas é fato que relacionamentos amorosos e até o sexo hoje representam uma parcela muito menor na vida das novas gerações do que no passado. É o que apontam as várias pesquisas sobre a geração Z estar transando menos ou mantendo uma quantidade mais restrita de relações amorosas. Cerca de 44% dos homens dessa geração, segundo o Survey Center on American Life, não tiveram nenhuma experiência em relacionamentos na adolescência — o dobro dos baby boomers, que nasceram entre os anos 1940 e 1960.

A psicóloga clínica Lígia Baruch, co-autora do livro “Tinderellas: O amor na era digital” (e-galáxia, 2019), alerta que é preciso primeiro diferenciar o comportamento social dos jovens hoje na comparação com a gerações anteriores. Estamos falando de pessoas que nasceram e cresceram num mundo onde Instagram, Whatsapp e apps de namoro sempre estiveram por aí. Portanto, as formas de manter e fazer relações, inclusive as amorosas, já são radicalmente diferentes e passam quase sempre pelo digital.

A tecnologia, aliás, pode ter impacto tanto positivo quanto negativo para a socialização, como aponta Baruch. “A adolescência e a juventude têm dificuldade com limites, o que surge no uso excessivo da tecnologia.” Esse padrão se reflete na forma como games, apostas e as mídias sociais podem se tornar fontes de vício, e também em como o ambiente online em si pode levar a uma redução nas interações sociais.

Por outro lado, o efeito inverso também existe, principalmente entre a população mais velha. “Numa população com menos facilidade de locomoção, em que o contato vai se reduzindo por conta da perda do convívio social, amigos que vão morrendo e a saída do emprego, a tecnologia pode ser uma grande aliada”, justifica. O ambiente online pode se mostrar inclusive essencial em meio a uma epidemia de solidão que é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde, com impacto considerável para os níveis de saúde e bem-estar em todas as faixas etárias.

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Um paradoxo do tempo

Se há um ponto que dificulta lidarmos não só com as relações amorosas, mas com todos os aspectos da vida, é a redução do tempo que temos disponível. Porque aquela ideia inicial, de que o avanço tecnológico nos presentearia com mais tempo livre, se tornou obsoleta muito rapidamente, como afirma Baruch. “Da mesma forma que algumas tarefas foram agilizadas, também aumentaram as demandas”, avalia a psicóloga. “A gente faz tudo mais rápido, mas há uma sobrecarga de mais coisas a serem feitas, todas também muito rápido e às vezes sem cuidado, porque não temos tempo para fazer tudo com aquele mesmo esmero.”

Esse dilema contemporâneo tem sido tema de pesquisas e até livros recentes, que, na contramão de discursos de coach, já admitem a impossibilidade de darmos conta de tudo que queremos fazer. É o caso de “Meditações Para Mortais”, em que o jornalista britânico Oliver Burkeman (leia um trecho aqui) propõe quatro semanas para aceitarmos nossas limitações e aprendermos a priorizar.

Na obra, Burkeman lembra que “enfrentamos frustrações diárias diante da complexidade desconcertante de namorar, casar ou criar filhos”. No entanto, o autor aponta também que evitar se relacionar por medo de eventuais problemas evoca uma fantasia de controle simplesmente impraticável. “É porque os relacionamentos íntimos são complexos demais para serem livres de contratempos que podemos nos comprometer com eles e ver o que acontece”, defende.

É porque os relacionamentos íntimos são complexos demais para serem livres de contratempos que podemos nos comprometer com eles e ver o que acontece

A especialista em comportamento pela PUC Giulia Tessitore oferece cursos para mulheres que buscam montar uma rotina diária mais equilibrada. Um dos principais desafios com que ela se depara é a dificuldade que muitas delas enfrentam para encaixar mais atividades num cotidiano já abarrotado de coisas.

“Cada dia tem mais um esporte que você quer praticar, um novo hobby para fazer, um curso que você quer incluir na rotina”, dá como exemplo Tessitore, que pesquisa comportamento e neurociência. “A gente se apega a essa possibilidade quase infinita, de conseguir fazer praticamente tudo que quisermos. Só que temos recursos muito limitados de energia, tempo e até financeiros.”

Não descanse, trabalhe

Nesse universo em que acreditamos dar conta de muito mais coisas do que seria possível em nossas limitadas 24 horas, os relacionamentos se tornam só mais um prato que tentamos equilibrar ao lado de tantos outros. “Talvez, em outro momento, eles ocupassem uma parte muito importante da nossa rotina, mas hoje, para muitas pessoas, relacionamentos não são prioridade”, diz a pesquisadora. E acrescenta: “Não colocando isso como bom ou como ruim, mas como um sintoma mesmo do nosso tempo.”

A tendência tem a ver com uma pressão maior pela produtividade e por ser “a melhor versão de mim mesma”, na visão da especialista. E não só no trabalho, mas em todas as áreas da vida, como na busca por hábitos saudáveis e na crescente indústria do bem-estar. Tessitore destaca especificamente o tempo e esforço que dedicamos à construção dos nossos perfis nas redes sociais, hoje vistos como nossa “marca pessoal” — e que, como tal, é um processo também profundamente individualista.

O filósofo sul-coreano Byung Chul-Han detectou esse mesmo fenômeno em seu célebre livro “A Sociedade do Cansaço” (Vozes, 2015), e que ele chama de “sociedade do desempenho”. Ou seja, uma sociedade em que os habitantes são também “sujeitos de desempenho e produção”. “São empresários de si mesmos”, define o autor.

Até o lazer e o descanso já são invadidos pela busca por desempenho, com a rotina acelerada tornando difícil nos desconectarmos nos momentos ociosos. Quando não estamos nessa busca incessante, Tessitore aponta que acabamos preenchendo nosso tempo com atividades bem pouco produtivas, como rolar eternamente o feed das redes — isso se, por sorte, não estamos viciados em plataformas perigosas, como os jogos de apostas online.

“Esse tempo que é preenchido milimetricamente, sem nenhum espaço vazio, também não permite nenhum tipo de desejo. Porque o desejo só acontece na falta e, quando vou me entupindo de coisas que dão um prazer imediato, vou desejar o que mais?”

Muitas opções, pouco tempo

Um boy que parece super interessado em você, mas de repente some e nunca mais responde suas mensagens. Ou relações onde o outro sempre diz não estar pronto para entrar em algo sério. Esses são alguns dos retratos que a quadrinista e jornalista Carol Ito faz das relações amorosas contemporâneas nos quadrinhos do Novo Anormal, que publica na revista TPM. A série nasceu durante a pandemia e o isolamento social, marcados por um aumento considerável do sentimento de solidão e de transtornos de saúde mental, numa crise com a qual lidamos ainda hoje.

Nas tirinhas, Ito retrata temas do cotidiano que afetam todos nós, como a relação com o tempo, o excesso de obrigações e a dificuldade de estabelecer prioridades. A frase “Aqui jaz alguém que sempre trabalhava além do expediente”, por exemplo, surge como epitáfio para nossa dedicação exagerada ao trabalho, em uma das publicações mais recentes. Em outras, entra em cena o debate sobre a escala 6×1.

O tempo que a gente dedica ao trabalho, a pagar boletos, é muito desproporcional com o que guardamos para as nossas relações afetivas

A quadrinista procura se inspirar em temas que a inquietam no cotidiano, vindos de histórias de amigos ou do noticiário. E admite que uma das principais preocupações nos últimos tempos é como guardamos tão pouco tempo para o que realmente importa e acabamos ocupando a maior parte das nossas vidas atendendo demandas de mercado.

“O tempo que a gente dedica ao trabalho, a pagar boletos, é muito desproporcional com o que guardamos para as nossas relações afetivas”, afirma a quadrinista. Ela lembra que virou até meme uma situação cada vez mais comum: quando você tenta marcar um encontro com um amigo, mas nunca consegue. “[A arte] É um jeito de elaborar minhas questões internas, organizar meus pensamentos políticos e toda a informação que eu recebo. Fazer arte é, de certa forma, um privilégio de poder devolver um pouco disso tudo para o mundo.”

Para a psicóloga Adriana Nunan, a tecnologia também tem acelerado um processo de perda do senso de comunidade e da convivência social. “Para quem tem dificuldades com troca, não sabe lidar com rejeição ou não tem habilidades sociais, a tecnologia acaba sendo uma forma de escapar dessas dificuldades, desses medos”, afirma Nunan, que é organizadora do livro “Relacionamentos Amorosos na Era Digital” (Editora dos Editores, 2019).

Os apps de relacionamento foram criados justamente porque, como estamos cada vez mais imersos em nossas bolhas individualistas, as oportunidades de conhecer pessoas no dia a dia vinham minguando , aponta a psicóloga. Hoje, essas mesmas plataformas enfrentam uma crise de perda de usuários e até uma espécie de burnout do date online.

Em parte, a crise pode ser explicada pelo paradoxo da escolha, diz Nunan. “Quanto mais opções você tem ou acredita ter, mais difícil é escolher”, resume. Em um Tinder ou Happn da vida, onde as alternativas parecem infinitas, tomar esse tipo de decisão se tornou exaustivo. Porém, de acordo com a psicóloga, a crise tem acontecido em constraste com o sucesso de outro tipo de plataforma — que aponta para uma busca por hábitos mais sociais: “Os apps de corrida, de grupos, coisas em que as pessoas conseguem se reunir baseadas num gosto específico.”

Espaço na agenda

Segundo Nunan, a frequência no uso de tecnologias hoje é uma pergunta básica feita aos pacientes por terapeutas de casais. O mais interessante é que os maiores problemas não têm a ver com o tempo de uso das telas, e sim com um descompasso entre os membros da relação. “Se um usa muito o celular e o outro não, isso gera atrito. Já quando os dois usam muito ou usam muito pouco, isso não é um problema”, conta.

O que Lígia Baruch mais tem ouvido atualmente em seu consultório são frases como “isso não vai levar a lugar algum”, “não quero complicação”, “só quero saber do que pode dar certo” — como na música dos Titãs, que trata de tema semelhante. “São falas que vão muito nessa direção de que, se não for para dar em algum lugar, é melhor nem começar”, acrescenta a psicóloga.

Se você acha que já escutou esse discurso em algum lugar, provavelmente está certo. De fato, ele é muito parecido com o da produtividade e desempenho, em que o investimento só deve acontecer com a certeza do sucesso. “Tempo é dinheiro. E, mais do que nunca, isso está embutido nas relações amorosas”, diz Baruch. A diferença, segundo ela, é que, se antes essa visão um tanto pessimista estava concentrada nos apps de namoro, hoje ela se ampliou para as relações heterossexuais como um todo.

“Claro que as pessoas continuam querendo se relacionar, e as mulheres ainda são muito mais reféns desses repertórios românticos da busca do amor”, afirma a psicóloga. “Todo mundo continua querendo, mas nem todo mundo está disposto a fazer o trabalho, que é ir em busca disso.”

Mas o que fazer se queremos driblar todo esse cenário e abrir mais nossa vida às possibilidades amorosas? Na visão da especialista em comportamento Giulia Tessitore, há dois caminhos principais: abrir espaços na agenda, evitando os tais prazeres fáceis e imediatos, e se permitir mais contato com o outro.

“Por mais que seja contraintuitivo, não devemos lotar nossa agenda com um milhão de coisas, gastar o tempo livre rolando o feed ou se enchendo de trabalho. É preciso espaço para conseguir desejar”, afirma a pesquisadora. Além disso, de acordo com ela, também devemos romper barreiras sociais que se intensificaram com a pandemia, só que sem forçar demais a barra.

“Não precisa ser radical, fazer algo super mirabolante. Às vezes só sair de casa já é um desafio. E ter contato com alguma coisa diferente, se expor um pouco, me parece bastante importante para que você também se estabeleça enquanto indivíduo.”

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