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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Como suprir o déficit de natureza na vida adulta

Especialistas dão dicas para recuperar o vínculo com o meio ambiente, como o banho de floresta, prática japonesa capaz de diminuir o estresse, a ansiedade e baixar a pressão arterial

Ana Elisa Faria 21 de Setembro de 2025

Como suprir o déficit de natureza na vida adulta

Ana Elisa Faria 21 de Setembro de 2025
Isabela Durão

Especialistas dão dicas para recuperar o vínculo com o meio ambiente, como o banho de floresta, prática japonesa capaz de diminuir o estresse, a ansiedade e baixar a pressão arterial

É fim de tarde e os escritórios estão cheios. Muitos trabalhadores chegaram de manhã sem ver a cara do sol e só saem quando ele já tiver se posto. No trajeto de casa para o trabalho, ou vice-versa, entre o transporte público, o trânsito e as telas, elementos naturais quase não aparecem — talvez em um vaso de planta esquecido na recepção, no feed das redes sociais ou numa árvore aqui, outra ali, na calçada. Essa rotina cinza, repetida por milhões de adultos, ajuda a explicar o que especialistas chamam de déficit de natureza, conceito cunhado pelo jornalista norte-americano Richard Louv, autor do livro “A Última Criança na Natureza” (2016, Editora Aquariana).

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Embora não seja um diagnóstico médico, o termo descreve uma condição preocupante cada vez mais presente nas sociedades contemporâneas: a falta de contato com céu, grama, terra, pássaros e árvores, em contraposição a cotidianos urbanos exaustivos. E os efeitos vão muito além da sensação de cansaço.

Estudos apontam que a escassez de tempo ao ar livre está associada ao aumento do estresse, da ansiedade, dos distúrbios do sono, do declínio cognitivo e até de problemas cardiovasculares.

“É como se o corpo perdesse um referencial primordial, que é a relação com a luz do sol e com o ciclo circadiano”, explica a médica Sley Tanigawa Guimarães, coordenadora da pós-graduação em medicina do estilo de vida da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde do Hospital Albert Einstein e do Instituto Adapta.

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Não por acaso, tem crescido o interesse em práticas que buscam reaproximar adultos do verde — de caminhadas em praças e parques ao chamado banho de floresta, tradição japonesa que hoje também é estudada e aplicada no Brasil. Essas atividades são um convite para reaprendermos algo básico que não damos atenção no dia a dia, como respirar fundo, observar uma árvore ou, por exemplo, ouvir o canto de um passarinho.

Na visão de Guilherme Franco Netto, médico sanitarista e coordenador do programa de Saúde, Ambiente e Sustentabilidade da Fiocruz, essas ações estimulam a recuperação do equilíbrio entre as pessoas e a natureza, criando melhores condições para a saúde, física e mental.

Déficit de natureza: uma questão moderna

A noção dessa falta de interação com a natureza surgiu da observação de que, durante a maior parte da história humana, vivíamos cercados por rios, florestas e animais. Hoje, mais da metade da população mundial vive em cidades. “Passamos a conviver com um mundo artificial, não natural, marcado pelo consumo e pelas revoluções tecnológicas”, afirma Franco Netto.

Tudo isso, além de gerar impactos profundos no nosso corpo e na nossa mente, repercute negativamente no próprio meio ambiente. Segundo o especialista, esse afastamento é físico e, na mesma medida, cultural e simbólico.

Ou seja, os pés não estão no mato, no entanto, para manter o atual padrão de vida, a sociedade consome a natureza até o limite e internaliza a ideia de que ela é apenas um recurso. O que modifica como enxergamos o mundo e influencia nossas escolhas cotidianas. “Nos tornamos pessoas geradoras de processos ecocidas”, frisa.

Selvas — de pedra ou nem tanto — que adoecem

Na prática, o déficit de natureza provoca mais estresse, tensões e perda do bem-estar. “Há estudos que confirmam o aumento de dores, a queda na imunidade e alterações no humor”, lista a doutora Sley Tanigawa Guimarães.

Ela lembra, porém, que a desconexão afeta até quem vive em regiões ricas em paisagens naturais. “Uma guia, durante um passeio por cachoeiras e cânions no Rio Grande do Sul, me contou que morava ali, naquele lugar paradisíaco, mas passava dias na frente do computador, trabalhando. Ela ficava estressada, tensa, enquanto sabia que podia tirar alguns minutinhos para sair e aproveitar aquilo tudo que estava na porta de casa”, comenta.

Guimarães reconhece que essa não é a realidade da maioria e que há um grande problema de acesso, o que torna o déficit de natureza também uma questão de desigualdade socioeconômica. “Em grandes centros urbanos, há regiões sem árvores nas ruas, sem um parque por perto.”

Ao mesmo tempo, frisa a médica, mesmo entre quem poderia estar em meio ao verde uma vez na semana, ou diariamente se expor à luz solar — “que é a coisa mais abundante que temos de natureza” —, muitos deixam de aproveitar o que está ao alcance, e é gratuito, por estarem sempre no piloto automático. Um modus operandi da vida moderna.

Quando as pessoas se reconectam com a natureza, há melhora no foco, no humor e na frequência cardíaca

A luz do sol, reforça Guimarães, é essencial para alinhar o relógio biológico. Mas, com escritórios fechados, iluminados por lâmpadas brancas onde não se vê se é dia ou noite, o organismo se desregula. O sono se desajusta e a produção de cortisol dispara, podendo prejudicar a pressão arterial. “Esse cenário faz o indivíduo se desconectar até de si”, diz.

Por isso, a indicação é se permitir — ou se forçar, caso preciso — sair um pouco, um mínimo que seja, sentir a terra e respirar ao ar livre. “Quando as pessoas se reconectam com a natureza, mesmo que brevemente, há melhora no foco, no humor e na frequência cardíaca.”

Shinrin-yoku: silêncio, sentidos e cura na floresta

Uma das formas mais conhecidas de reconexão com o meio ambiente é o banho de floresta, ou shinrin-yoku, terapia natural criada no Japão nos anos 1980. Diferentemente de uma prática esportiva feita na natureza, como o trekking, a atividade não visa o esforço físico, mas uma imersão sensorial.

“O shinrin-yoku, em uma tradução mais completa, significa banhar-se na atmosfera da floresta com todos os sentidos despertos”, descreve a bióloga Erika Dickel Persijn, pós-graduanda em meio ambiente pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e guia do Parque Nacional de Brasília, que oferece gratuitamente a caminhada florestal para grupos.

O shinrin-yoku significa banhar-se na atmosfera da floresta com todos os sentidos despertos

Em um passeio semanal que pode durar até três horas, os participantes desse mergulho, realizado em silêncio, fazem exercícios de respiração para aterrar o corpo no presente, além de atividades para aguçar visão, audição, olfato e tato. Os resultados, cita Persijn, são inúmeros benefícios. “As plantas liberam fitoncidas, compostos bioquímicos que, quando inalados, aumentam a imunidade e reduzem o estresse.”

A bióloga conta ainda que uma pesquisa japonesa demonstrou que essa interação com o mundo natural faz subir a produção das células NK (natural killer, ou exterminadoras naturais, em português), responsáveis por combater células cancerígenas. “O nosso sistema imunológico fica tunado”, fala.

Conforme Persijn, os efeitos do banho de floresta podem durar até uma semana. “O cortisol cai, a pressão arterial diminui e o corpo inteiro relaxa. É um convite para largar o celular, silenciar e apenas observar. Ao final, muitos participantes compartilham sensações e até choram ao dividir a experiência com a turma.”

As turmas guiadas por Persijn são monitoradas para uma pesquisa, desenvolvida em cooperação entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Brasileiro de Ecopsicologia (IBE), a WWF Brasil, o Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio) e o Parque Nacional de Brasília (PNB), que busca comprovar esses resultados no Brasil.

“Mensuramos a pressão arterial e a frequência do pulso antes da entrada das pessoas no banho de floresta e depois, ao saírem. É impressionante, todos, em todas as vezes, saíram com o nível da pressão arterial mais baixo do que quando chegaram”, relata Guilherme Franco Netto, coordenador do projeto na Fiocruz.

Pequenos gestos, grandes efeitos

Não é preciso ter horas disponíveis ou morar perto de uma floresta para sentir os benefícios do contato com a natureza. Às vezes, cuidar de um vasinho de flor já ajuda. “O importante é a intencionalidade: parar, respirar, observar”, orienta Sley Tanigawa Guimarães.

Erika Dickel Persijn concorda. “Quem não tem tempo para o banho de floresta pode caminhar 15 minutos em um parque, ter uma planta em casa, abrir a janela para observar o verde. Estar no meio do mato, pelo mínimo de tempo que seja, já compensa.” Para ela, a própria natureza “faz acontecer”, desde que haja disposição para percebê-la.

Na floresta, entendemos que não estamos isolados no mundo. Nossa saúde depende dela, assim como nossas atitudes interferem na saúde do planeta

No Japão, médicos já prescrevem o shinrin-yoku como tratamento complementar. No Brasil, especialistas defendem que a recomendação de contato com a natureza deveria integrar as orientações médicas de rotina, assim como alimentação saudável, sono de qualidade e atividade física.

Mais do que uma estratégia individual de bem-estar, reconectar-se com o verde pode fortalecer a consciência ambiental. “Quando estamos na floresta, entendemos que não estamos isolados no mundo. Nossa saúde depende dela, assim como nossas atitudes interferem na saúde do planeta”, pondera Guimarães. “Curar a nós mesmos é também melhorar o senso eco coletivo, reconhecendo a interdependência entre homem e natureza”, finaliza Persijn.

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